Queria ser jornalista

Foi a coisa que mais quis hoje à tarde, quando testemunhei notícia merecedora de um jornalista. Estavam  ali à mão, a notícia, as fontes, o ambiente. Mas  me faltaram o inglês, o jornal, a agilidade.

Estavam ali sob a lona do Picolino turistas estrangeiros. Voaram de várias partes do mundo para Salvador e embarcariam no final da tarde em navio da National Geographic para um cruzeiro diferente.

No picadeiro, crianças da companhia Mirim da Picolino, quase todas do projeto Conexão Vida,  numa parceria mantida por estrangeiros, por italianos que fazem adoção à distância e proporcionam a elas aulas de circo no turmo complementar. Na plateia 99 turistas, pessoas que pagaram mais caro para fazer um turismo especial, acompanhados por especialistas em botânica, cultura, música, pássaros. Sim, eles pagam US$ 1.000,00 por dia para entender o mundo.

Eu é que não entendo. Há cinco anos me chamou atenção uma notícia dos jornais. Governador, secretários, prefeito e uma caralhada de aspones foram assistir ao Cirque du Soleil levantar lona. Isso mesmo que você leu. Não foi espetáculo, os caras deixaram suas ocupaçoes para ver a lona subir. Nenhum deles se dignava naqueles dias a visitar um circo com aparência mambembe em Pituaçu, onde um menino da Boca do Rio começou, e que estreava na Bahia naquela semana como artista no mesmo circo merecedor da atenção deles para assistir a lona subir.

Os turistas do National Geographic Explorer viajam na contramão dos nossos turistas,  que vão a Las Vegas ver o Soleil. Eles preferem vir a Salvador ver o Picolino. Talvez tenha mais mágica, mais esforço, mais cenas do impossível do circo ali no picadeiro à beira-mar em Pituaçu, com crianças e adolescentes de cotidiano nada fácil  mas que sobem com elegância no trapézio, dão saltos e cambalhotas,  se contorcem no limite, deslizam com alegria no alto dos seus monociclos gigantes, caminham sem medo sobre o fio do arame, manejam com muitos acertos os seus malabares.

Enfim, minha cabeça de aprendiz de jornalista tinha a seguinte pergunta. Por que diabos pessoas que poderiam ir a qualquer lugar para ver o melhor feito em circo no mundo preferem vir assistir ao Picolino, com lona estropiada, instalações precárias? Consegui fazer a pergunta a um casal, Bart e Kathleen Little-Astor, da Virgínia, EUA. A resposta está ainda sem legendas  neste vídeo, mas em essência eles dizem que preferem ver a vida de outra maneira.

Não estou cético sobre o olhar da minha cidade e do meu país para o Picolino. As coisas começam a se mover. O caminho escolhido pelo circo/escola, o de financiamento coletivo para uma nova lona e um trato no visual do circo decolou hoje e decolou bem. Veja aqui.  A campanha é um duplo salto  de trapézio sem rede. É acertar ou acertar. Espero daqui a 60 dias comemorar a notícia de que teremos lona e circo novos.

Com sorte de aprendiz, descobri agora no google que o cara que entrevistei é escritor, autor de best sellers, de um guia de vida para quem tem mais de 50 anos. Justo a fase em que me encontro. Tentando ser jornalista sem jornal e sem inglês.

Agradeço a Cristiana Damiano, bióloga paulista, uma das especialistas embarcadas no navio para a expedição, que segue para Abrolhos, Ilhéus, Rio Parati e Rio Grande do Sul. Ela foi tradutora das minhas perguntas para a entrevista.

Viva o Circo. Viva o Picolino.

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