Arquivo mensal: dezembro 2014

El reloj e o bar do WhatsApp

O tempo, este mistério,  intriga desde que me entendo. Talvez a primeira música da infância, El reloj, talvez daí o encanto pela língua espanhola.

Mas o tempo, o tempo. Ao andar pelas estradas de Iaçu vem a lembrança dos carros de boi na estrada para o Barreiro, em Tanhaçu, o canto do carro de boi da infância. Por mim passam hoje as motocicletas, o tempo é outro, da velocidade como previu Calvino – como diria nossa amigo Franciel, receba uma Ítalo pelas caixas, incréus,  mas é acidente. O livrinho foi presente de amigo secreto da virada do milênio, não sou estes leitores todo, mas esta história da velocidade me pegou.

Nem certo, nem errado passar depressa, apenas a certeza de que a cada dia é mais rápido o tempo passado.

Há uns anos, por exemplo, a novidade era desejar feliz ano novo pelo celular, numa loteria para conseguir sinal, quem sabe mãe, pai e uns poucos amigos. Hoje apenas um meme no WhatsApp serve para trocentos grupos que chegam a outros trocentos amigos.

A televisão perde terreno muito rapidamente. Antigamente, muito antigamente, nome de novela virava bar, como o Pé na Jaca, na estrada Iaçu-Ipirá. Mas hoje a tela é quase ignorada, a TV serve talvez apenas para relógio de contagem regressiva.

É a era do WhatsApp e o assalto em voga em Iaçu é motoqueiro roubando celular das meninas.
Moto e celular e whatsApp, Viva 2015!

Bar do WhatsApp

P.S – velho tem mania de guardar coisas. Guardo duas receitas de ano novo, uma de Carlos e outra de Juan.
Aqui as duas a quem interessa possa:

Carlos: http://pensador.uol.com.br/frase/MTM0MDQ5/
Juan: http://nemvem-quenaotem.blogspot.com.br/2008/12/receita-pra-virada.html

 

 

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Volta pra casa

Das festas impositivas Natal é a mais estressante. Tudo se afunila e todos os prazos são dia 23, com várias confraternizações pelo meio e a melosidade das boas intenções dos cartões e das mensagens. Pra piorar, cinco dias depois vem a festa cujo imperativo é ir para algum lugar.

Mas o que fazer? Entrar no clima.

E desta maneira, neste embalo de balanços de fim de ano, faço também minha promessa de ano novo, motivado por um provérbio chinês visto advinha onde? Numa mensagem publicitária de Natal:

“Antes de começar a reformar o mundo, dê três voltas em sua casa”.

Parece fácil de cumprir, mas a facilidade é enganadora. Especialmente quando você lê sua casa como seu corpo, sua alma, seu ponto de vista.

Desejo então para 2015 mudanças profundas na casa de todo mundo.

Espetinhos

Saio em busca de uma lista de remédios perto de casa. Faltou um. Resolvo então andar os cerca de 1.500 metros entre o Acupe e o Largo da Cruz da Redenção, pela D. João VI, ao encontro de outras três farmácias e da garantia de que voltaria com a compra completa.

Sete da noite de sexta-feira, gente, muita gente, na volta pra casa, a fazer compras de última hora, do fim do dia, a beber, a comer, no vai e vem da mudança de turno das ruas de comércio, de botecos, de um tudo. Brotas é um bairro de um tudo, de muita gente nas ruas, de calçadas cheias. Este é o principal motivo da minha alegria nesta penúltima morada em Salvador antes dos dois metros quadrados definitivos.

Se um turista fizesse o mesmo percurso imaginaria que o espetinho –  no meu tempo diziam ser de gato – fosse nossa comida mais típica, apesar de quase uma dezena de baianas de acarajé além de pontos  de mingau, filas para beiju, carrinhos de milho cozido, cachorro quente. Comida é que não falta na rua.  Mas espetinho neste trecho é soberano, servido nas mesas da matriz e das duas filiais da rede Espetinho do Bolero e no Baú do Espetinho, todos lotados. E também nas esquinas, nas calçadas, lá está ele aqui e ali a queimar, sempre cercado de gente, de cerveja e do arrocha.

Não tem como evitar a lembrança da morte, da doença, mesmo com toda a vida nos passeios. Passo por duas funerárias, dois hospitais, muitas clínicas, faculdades da área médica. Alguns  pontos de ônibus concentram mais dores, de quem vem dos tratamentos, de quem acompanha tratamentos.

Se tem morte, tem igrejas,  muitas igrejas, católica, evangélica, pentecostal. A de Nossa Senhora de Brotas, a mais antiga, vazia e enfeitada, à espera de um casamento. Salões de beleza lotados, festa infantil num playground já animada. Frutas, todas que você imaginar, banana a preço de banana, a 1,99 a penca, na promoção da calçada, muitos mercadinhos.

Traio minha baiana e experimento o abará com pimenta da outra. E gosto mais, talvez pela novidade, motor das aventuras. Chego em casa, compra completa,  abro um vinho chileno barato e potencializo meu amor por Brotas.