Cachorro com pena

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Luísa sempre sonhou com um cachorro. Chegou a desenvolver o desejo de ser veterinária talvez por conta desta paixão frustrada. Um dia, finalmente, venceu a resistência de Soraya e ouviu a promessa. Teria um quando não houvesse mais fraldas em casa. André deixou as fraldas junto com a notícia da chegada de Maria. Promessa retirada.

Para não dizer que nunca havia entrado outros bichos na casa, vieram os peixes. Não por vontade, mas pela imposição de um saco plástico com o condenado dentro, lembrança de  festa de aniversário. Presente que resultou sempre na busca por aquário, bomba, apetrechos e, principalmente, companhia para o solitário. Teve de tudo em uma das empreitadas. Brigas conjugais no aquário, tentativa de fuga ou suicídio – nunca ficou esclarecido o que aconteceu para o peixe amanhecer um dia no chão, no meio da sala. Enfim, longas histórias todas com final infeliz, contadas aqui, aqui e aqui.

A cantilena por um sexto morador na casa continuou com a mudança para o novo apartamento, no início do ano passado, coro reforçado por Maria. Mas foi André quem incutiu, queria ter uma calopsita. Pesquisa daqui, pergunta dali, estávamos quase comprando uma  quando Lupi entrou na nossa vida, por coincidência. Vivia em Feira de Santana solto numa casa, até que nasceu uma criança e ele foi doado para a família  da tia avó das crianças. Lá precisou ser engaiolado por conta de uma tentativa de homicídio praticada  pelo cachorro da casa.

Lupi recuperou a liberdade em Salvador. Oficialmente era de André, mas foi adotado integralmente por Maria. Ele pressentia e anunciava a chegada da menina, para sair tínhamos de correr e bater a porta antes dele pular para o corredor. Maria ia  com ele no ombro à loja comprar ração ou ao supermercado. Se ficasse com a gente na porta e ela entrasse, danava a gritar chamando pela menina.

A foto mostra bem a relação. Maria dorme, ele aguarda.

Um dia voou, foi parar na mata ao lado do prédio. Foi um Deus nos acuda.Mas aquela  fuga teve um final feliz. Lupi foi recuperado e voltou à sua rotina de cachorro com asas. Um dia, fui me desviar dele e pisei no bicho. Escapou por milagre. Num outro, recebi a ligação de Soraya avisando que havia sumido, desde cedo, não havia mais canto da casa a ser revirado.  Dei a notícia todo preocupado à menina na escola e ela nem tchum. Ao chegar, bastou um chamado dela  pra gente ouvir um pio como resposta de dentro do forro do sofá.

Mas a tragédia não tardou. Logo com ela, Maria. Ao levantar do sono, seu pé encontrou o apoio no fiel companheiro que esperava ali, colado como sempre.

Foi em prantos até o veterinário. E lá se desesperou com a confirmação da morte. Vi o que nunca havia visto, um profissional  experiente marejar diante da dor da menina.

Lupi foi enterrado no Parque da Cidade por toda a família, naquela mesma tarde, na trilha onde Maria aprendeu a andar de bicicleta, ao lado de um banco conhecido, onde tiramos fotos em anos diferentes.

O retorno para casa foi de absoluto silêncio. Choros diários antes de dormir e ao acordar. Até que o tempo passou. Cicatrizou  a ponto de eu ser liberado finalmente  para contar esta história aqui.

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