Arquivo mensal: julho 2016

Miseras

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A primeira notícia bomba que recebi pela internet foi a morte da princesa Diana, pelo UOL, em agosto de 1997. Era um domingo, estava em casa e liguei imediatamente a TV para confirmar e acreditar. Naquele tempo, notícia para ser notícia deveria estar no impresso, na TV ou no Rádio.

Hoje, quase 20 anos depois,  recebi também  no domingo uma notícia bomba pela internet, pelo  WhatsApp. Também não acreditei. Ou seja, a internet continua com a credibilidade baixa.

Como estava na rua, liguei o rádio na Band News e ouvi de Humberto Sampaio a confirmação em rede nacional: havia um sujeito ameaçando se explodir junto com a Unijorge, na prova da OAB.

Tudo isso para dizer que, mesmo sem credibilidade, os grupos do  WhatsApp foram hoje minha principal fonte de informação sobre esta  bomba piada do dia. Vá lá, não deveria ser piada porque envolve a tragédia pessoal de um transtornado mental, mas virou tragicomédia por conta da histeria coletiva alimentada pelo  que vai pelo mundo.

Primeiro vieram os áudios das pessoas que estavam no local, o vídeo da correria, o texto do juiz que negociou a rendição, tudo fonte primária, e,  finalmente, as fotos do sujeito com sua fantasia de homem bomba recheado de bala de gengibre, estas  distribuídas pelas SSP.

O print do Instagram publicada aqui me chegou  também pelo   WhatsApp. Ele chama a atenção pelo espírito de deboche na porta da universidade, mesmo ainda quando não se sabia com certeza se uma pessoa poderia se explodir. Sim, estamos em Salvador e o  ato terrorista virou evento com direito às hashtag #eufui, #eutava. Como bem comentou uma amiga, faltou pouco para aparecer a turma do isopor com água e cerveja.

Não sei se turbinadas pelas galhofa em torno do exagero do Ministro da Justiça naquela presepada com nossos terroristas de internet para mostrar serviço ao mundo, as piadas foram a melhor parte do lado comédia desta história.

Como o motivo divulgado para o ato de desespero do nosso homem bomba seria já  ter tentado 11 vezes sem sucesso passar no teste da OAB, logo apareceram os alertas para o perigo potencial da  torcida do Vitória,  com  frustração semelhante há 117 anos.

A melhor foi o recado do Estado Islâmico, em legítimo baianês: “Alá  mandou você tomar vergonha na cara e estudar pra o exame sua misera”.

Mas tudo isso  mesmo é pra dizer: juízes aloprados, suas miseras, inventem de bloquear saporra nunca mais.

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“Com que rosto ela virá?”

A morte, surda, caminha ao meu lado, aceitou Raul. A morte está também na Sonata Nº2 de Chopin, mais visível no terceiro movimento. Estou assim, na contemplação e no encontro da  beleza na morte, esta inevitável. Ela anda nos cercando. Os mais antigos colocam uma pedra nesta conversa. Vamos de música.

 

O medo é uma merda

original

Hoje senti medo da minha Piedade, da minha Carlos Gomes, da minha Castro Alves. Nunca, em décadas, havia sentido o que senti hoje. Temo muitas coisas, temo o futuro, temo as contas no fim do mês, temo a pressão alta, temo a balança, o ódio político, a ignorância, temo brochar, a falta de assunto no elevador, mas as ruas desta minha cidade inaugurei temer somente hoje.

Era um medo acumulado, já instalado e não notado. O gatilho havia sido disparado há mais ou menos um mês. A praça da Piedade tomada de moradores de rua, dois deles brigando, e eu indiferente, orientava Maria como fotografar melhor a fonte luminosa, os heróis da Conjuração Baiana, no cumprimento de uma tarefa escolar.

O celular foi arrancado da mão da menina num  bote rápido e certeiro. Sem pestanejar – pra que diabos fiz isso até agora não sei – parti no encalço do sujeito aos berros de pega, pega. Já voltava ofegante, humilhado e puto como a gente se sente nestas horas, quando alguém gritou: pegaram. O cara acabou no chão, com uma pistola apontada para a cabeça e o pé de um policial à paisana sobre as costas.

Fui  obrigado a seguir para a delegacia para cumprir o ritual do flagrante. No ponto em que as coisas chegaram, não havia mais como negociar a devolução do aparelho e liberar o sujeito. Segui com três policiais e o cara choramingando, pedindo clemência na mala da viatura, enquanto no rádio começava Vitória e Atlético MG.
– Fique quieto rapaz, se o Vitória tomar um gol aqui você vai ver o que é bom.
Passei a torcer pelo Vitória, pelo menos até a chegada à delegacia.

O gordo valentão que partiu pra cima de um miserável que arrisca ter que matar, ferir, apanhar, ou morrer por causa de uma porcaria de celular hoje percorreu as ruas do centro acuado. Não teve coragem de  caminhar  e fazer fotos como sempre. Descer do carro para ir ao Centro Cultural da Caixa com Soraya e Maria foi uma operação calculada, precedida de checagem de quem vinha, de quem ia. Ir depois ao Cine Glauber Rocha tomar um café, outra operação cercada de atenção.

Apesar da realidade gritar o contrário, nunca senti medo nas ruas. Sempre me achei parte da cidade.Morei na Senador Costa Pinto, no Largo 2 de Julho, me sentia imune, um sujeito da área. Achava estranho o texto de um amigo que certa vez me disse que seu grande prazer de ir à Europa não era visitar museus, catedrais, concertos. Era simplesmente andar tranquilo pela rua, sem medo de ser assaltado.

É uma pena ter que me render à realidade,  algum temor  é até útil como prevenção.

Mas talvez o medo seja pior que a violência consumada, porque é uma violência latente, permanente, corrosiva. O medo é uma merda.