Arquivo mensal: agosto 2016

Mortes

Em junho foi Ana, em julho Clodoaldo e hoje  Paulo. Agosto do ano passado, Rubem. Outro dia  mais longe Maria, Márcia, Ludu, outro mais longe ainda, Álvaro, Auta, Dedé.

Primeira vez diante da morte, aos quatro anos, fui levantado por um adulto para ver o rosto do meu avô Antônio no caixão. Associei morte a algodão nas narinas. Depois desse dia foram mais de 20 anos de trégua, vida sem algodão,  éramos todos imortais.

Mas de um tempo pra cá esmaeço  a cada morte. Quem morre é quem fica, a morte leva com os outros  nossa memória, partes da gente.

Mas tudo é um pouco ainda mais cruel. Ontem, por acaso,  vi o filme Invasões Bárbaras. O diálogo do professor em estado terminal e sua jovem parceira nas doses de heroína, usada como lenitivo, comprova:

– O que você tanto amava?
– Tudo. Vinho, livros, música, as mulheres. (…)
– Ainda é um grande sedutor? – Não, não mais. Com a idade não é a mesma coisa.
– Você ainda gosta de vinho? – Infelizmente não. Não com o meu fígado.
– As viagens? – Hoje em dia há turistas por toda a parte.
– Não é o presente que você não quer largar… É o seu passado. Essa vida já está morta.

 

 

 

 

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Nostalgia

Do tédio dos domingos. De beber em avião. De larica. Dos rios da Chapada. De um macaquito vinho do primeiro encontro. Da alegria do primeiro filho. Da noite do nascimento dos três. Da descoberta da 5ª de Tchaikovsky, primeiro vinil Grammophon comprado na Carlos Gomes. Da boleia de caminhão, na carona. Da cidade de Tiradentes. Das escadarias do TCA. Da estante de madeira e blocos da casa do Garcia. Do cheiro de murta da Leovigildo Filgueiras às duas da manhã. De estrada. Do restaurante Grão de Arroz. Do disco de Mautner. Do sonho de mudar o mundo. De uma paulista entre amigos. De uma paulista a dois. De confiar em todo mundo. De chorar copiosamente. Do Rio Neva. De ver as luas de Júpiter e os anéis de Saturno. De vento frio na cara. Do planetário de Moscou. De receber uma carta coberta de selos. Dos círculos na água formados pelo impacto da chuva no jardim aos cinco anos. Da primeira insônia aos seis, depois do Circo Thiany. Do quintal do Hotel Maringá. Da busca por estrelas cadentes na fazenda de Tio Descartes, nas noites sem lua das Minas Gerais. Do arroz de pequi. De mata-burro nas estradas. Do gosto de jenipapo, de gemada e de manga no pé. Do cheiro de gaveta velha cheia de tranqueiras mais velhas ainda. Da gamela  de coalhada  na despensa e do leite espumando no curral, no copo de alumínio com açucar. De pescar acari com saco no barranco do rio. De álbuns de fotografias, com papel transparente, cantoneiras e cordão. De Vick Vaporub, das feiras do Parque de Exposição de Conquista. Da seda azul do papel da maçã. Do quarto do Hotel Lancaster. Da feiraa da Praça da Bandeira. Do Cine madrigal. Da luz que apagava às 10 em Tanhaçu, depois de três avisos. Da padaria, do balcão e da sanfona do primo Aldinho na venda de tio Deoclides. Do balcão da loja de tecidos do tio Ruguinha.De São João. Da Iemanjá num quadro da sala de tia Lurdes. Da cama do Hotel Livramento. Da Via Láctea no céu da roça de tio De Assis. Do cheiro de sargaço do primeiro banho de mar, em Amaralina. Do gosto de picolé salgado pelas ondas e do sanduíche de sardinha no Porto da Barra, seguidos do almoço de domingo com macarrão e pudim de sobremesa. De vela na lata em forma de lanterna quando faltava luz em Castro Alves, pelas ruas com a meninada. Da música O Divã numa vitrola vermelha. De plantar alface. De chacretes. Do banho da vizinha, no quintal. De picolé premiado. De tampinha premiada. Da cachoeira de Mané Roque. Do encontro com Raul Seixas no alto-falante, numa tarde chuvosa, em Conquista. De pescar traíra com anzol. De comer licuri. Do polivalente de Castro Alves. De dirigir um caminhão 608D na madrugada, aos 14. Da camisa azul da ETFBA. Das escadas do Centro Cívico. Do bar do Bio.  De Cássia Eller ao vivo, numa noite quente no Ad Libitum. Do ICBA. De tênis Mal Estar. Do boqueirão em Minas Gerais. Da Pentax que jamais tive. Deste tal pretérito, a cada dia mais perfeito. Mas, principalmente, do tempo em que éramos todos imortais.

(Terceira versão).
Primeira versão, em 3 de março de 2008: https://licuri.wordpress.com/2008/03/03/nostalgia/

Presente gera presente. E riscos.

Luísa deu de presente de aniversário  a Soraya um curso de fazer caderno.  E hoje recebo de presente, neste dia dos pais, um caderno quase livro da aluna aplicada. No tamanho 9x13cm, o caderno livro é tão bacana que dá pena riscar.A

Tem até epígrafe luxuosa de Nildão.
girado para a esquerda

Mas páginas em branco do miolo são um convite ao risco.
eeeeesquerda
Vou arriscar.