HAM! HAM! HAM! HAM!

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Esse muro conhece histórias. Registradas nas marcas de cabeças, ombros, bundas e pés, nos papelões que dormem no passeio. Talvez estes sejam os metros quadrados com mais dor explícita da cidade. Na Avenida D. João VI, em Brotas, Salvador, a Bahia pobre amanhece ao relento, em busca de uma chance contra o câncer. E o novembro aqui, e o outubro aqui, e todos os meses aqui não são rosas e muito menos azuis.

A doença nos cerca a todos. Mas maltrata mais, bem mais, muito mais, aqueles que dependem de uma vaga, de uma marcação de uma senha, de semanas entre diagnóstico e exames, entre exames e procedimentos. A urgência aqui é regida pela burocracia antes da necessidade.É pegar e esperar. Não há a opção largar.

Há quase três anos, desde que moro logo ali próximo, passo diariamente pelas palmeiras imperiais perfiladas por trás do muro, por estas letras vermelhas em baixo relevo carimbadas na parede. E elas me chegam como interjeições de dor, repetidas a cada bloco do muro, como uma sequência de um mantra. HAM! HAM! HAM! HAM! HAM!

Máscaras, sondas, muletas circulam no entorno, avançam para fora do muro e buscam seguir a vida, apesar dos pesares, debaixo do sol, do mormaço, da chuva, no ponto de ônibus de um lado e do outro da rua, atravessando a faixa, embarcando nos micro-ônibus e vans de prefeituras, num vai e vem diário também para o interior.

O passeio se transforma numa praça de alimentação sobre rodas, ali nos pequenos carrinhos, lanches são desjejum, almoço e jantar. Nos mais disputados há filas. Subfilas da eterna fila, formada por diagnosticados, parentes, amigos ou por profissionais que vivem de noites mal dormidas por uns trocados pela vaga negociada.

Passar por ali todo dia é como percorrer um corredor polonês de tapas na consciência, com uma pergunta infantil martelando o juízo: por que diabos tem que ser assim?

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Uma ideia sobre “HAM! HAM! HAM! HAM!

  1. Reinaldo

    Também moro em Brotas e tenho sempre essa mesma sensação quando passo e percebo tanta necessidade e sofrimento!
    Excelente texto!

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