Dia de Josef K.

vara

Tudo começou mal por causa da diferença de expectativas. Eu me sentia a vítima – fui furtado e levado debaixo de vara, ou conduzido coercitivamente, porque confundi a data da primeira audiência – confundir datas é uma das minhas especialidades. E o juiz estava só aguardando a hora de passar um sabão no fugitivo da justiça: “Tive que botar a polícia atrás do senhor”
 
Colocado diante do sujeito do outro lado do vidro, via nele traços parecidos com aquele que pedia piedade sob o pé de um cara com uma pistola apontada para a sua cabeça, depois de ter roubado o celular na mão de Maria na Piedade, saído em disparada, mas capturado graças ao meus gritos de pega, pega em carreira atrás dele.
 
Mas eu não tinha a menor condição de dizer se aquele ali era o mesmo daquele dia. Tenho uma dificuldade absurda de reconhecer faces, vivo a dar fora nessa vida, por muitas vezes sustento sorriso amarelo e conversa incompleta até descobrir, ou não, quem é aquela pessoa com quem já tive contato mas não faço a mínima ideia de quem se trata.
 
Caí na besteira, por sugestão do policial designado para me conduzir, de enviar mensagem ao doutor juiz por um dos auxiliares, pedindo antecipação do depoimento para não perder um exame marcado do outro lado da cidade, já que eu havia sido comunicado da audiência na noite anterior. “Se tivesse vindo na primeira, até poderia ser”. Este recado deveria ter sido captado como um sinal.
 
Mal comecei a falar, fui interrompido pelo menos duas vezes com a advertência de me me limitar a responder o que ele perguntava, sim ou não. Contive minha habitual verborragia. Não adiantou. Como eu não podia garantir 100% se tratar da mesma pessoa, o juiz perguntou se eu o havia reconhecido no dia da prisão.
 
Na delegacia não houve um reconhecimento formal, expliquei, como havia acontecido há pouco. Havia sido levado na mesma viatura mas ao chegar, ele foi para um lado e eu para o outro.
 
Como se não tivesse ouvido, fez novamente a pergunta, duas, três vezes e eu mantive a resposta duas e três vezes. Aí ele encrespou, passou o sabão dele, citou minha profissão, onde eu trabalhava, e em seguida reafirmou que eu tinha que falar a verdade. Falei novamente.
Ele levantou e saiu da sala irritado. Busquei apoio nos demais ao me queixar da tratamento mas recebi de volta o silêncio do defensor, do escrivão, de uma auxiliar e de um sujeito sentado à frente, numa poltrona, não sei por que estava ali.
 
Senti que se eu tivesse dito uma palavrinha fora do tom, seríamos dois a voltar para a casa de detenção.

 

 

Imagem daqui.

 

 

 

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