Arquivo mensal: novembro 2017

O monge faz o hábito

mazinho para licuri
Mazinho aplaudido pela ala feminina da família, capitaneada por Maria Bonfim

Mesmo com a beleza da música, tudo é prenúncio de enfado e tédio. Lá de fora vem o som de batucadas no Terreiro de Jesus. No salão nobre da primeira faculdade de medicina do país, com seus lustres de cristal baccarat, mobiliário torneado em jacarandá e vinhático, colunas e deuses gregos, soa o canto lírico, numa voz de tenor.

Os membros da Academia de Medicina da Bahia buscam em cortejo o novo integrante, com os ombros cobertos por pelerine e colar verde com medalhão cor de ouro.  E ao som da marcha inglesa Pompa e Circunstância, lá vem Irismar Reis de Oliveira, ou Mazinho, como é conhecido na família, para mais um reconhecimento formal de suas qualidades como professor, médico e pesquisador.

É nesse momento que a coisa se inverte. Em vez do hábito fazer o monge, Mazinho dá o seu tom humano à solenidade que parece concebida para envernizar egos e criar semideuses. Com Mazinho em cena, a cerimônia passa a ter a sua cara e eu também começo a ficar mais à vontade dentro do meu traje passeio completo, alugado às pressas na Só a Rigor.

A começar pelas palavras do confrade indicado para fazer a saudação, o colega desde os tempos da faculdade Luiz Antônio Rodrigues de Freitas. Apoiado em fotografias projetadas, que insistiam em ir e vir no ritmo diferente da fala, Luiz Antônio começa a contar a história de Mazinho bem do começo, com fotos da infância e adolescência, da época em que conviveram na França, do cotidiano da família.

E eu revivo muitas destas histórias, como sua reprovação na segunda série primária. Sua mãe, Maria Bonfim, ou Tia Liinha, ali na fila do gargarejo a bordo dos seus 92 anos, toda orgulhosa, sempre contou esta história entre risos, e lembra que foi alertada pela professora que o filho teria algum problema mental, tamanha era a distração.

Lembro bem do dia, eu ainda criança, do ritual dos amigos rapando a cabeça de Mazinho em Conquista por ter passado no vestibular para medicina. Mas soube por Luiz Antônio que por desinteresse  Mazinho perdeu quase todas as matérias do primeiro ano de medicina. Abandonou o curso, retornou a Conquista, mas voltou a fazer vestibular no ano seguinte e passou novamente.

Resumo agora o que Luiz Antônio contou, para logo entrar com meu testemunho de paciente. Da Ufba, Mazinho foi à França, onde fez mestrado em Psiquiatria pela Université René Descartes, voltou, fez doutorado na UFBA, onde  foi livre docente e professor titular de Psiquiatria.  São cerca de 120 artigos, muitos deles  nas mais respeitadas revistas científicas do mundo e seis livros e  publicados, sozinho ou em parcerias.

A virada na vida profissional de Irismar se dá ao  se especializar em terapia cognitiva pelo Beck Institute, na Filadélfia, após o que concebeu  uma vertente batizada de  Terapia Cognitiva Processual (TCP), inspirada no livro O Processo, de Kafka. Mazinho tem difundido sua criação em  cursos e oficinas em diversos estados brasileiros e em países, como EUA, França, Panamá, Coreia do Sul e Eslovênia.

Ao chegar a sua vez de falar, como manda o figurino, Mazinho nos apresenta o patrono da sua cadeira, o professor Rubim de Pinho. E aí ele dá uma aula, a nos mostrar em vídeo um sujeito para além do seu tempo, com a cabeça aberta, que conseguiu pensar a psiquiatria na Bahia levando em conta nossa cultura. E ele nos despertou o desejo de conhecer melhor as ideias de Rubim de Pinho.

Mazinho é grande porque vê o outro, reconhece o outro. Sejam estes outros seus mestres Penildon Silva ou Rubim de Pinho, ou até mesmo eu, seu paciente. Ao autografar um de seus livros para mim, surpreendeu-me ao agradecer por tê-lo ajudado, mesmo sem eu saber, na sua formação. Até hoje não entendi direito mas fiquei bem feliz.

Para entrar na minha história, repito aqui o que falei sobre ele, no seu aniversário de 2007, no dia de Reis, data que lhe deu o sobrenome real no plural: – Vamos Marcus, levanta!

Era uma ordem firme e carinhosa para me tirar da prostração, do buraco existencial de uma bruta depressão em que me meti quando tinha 20 e tantos anos e que de lá não sairia não fosse a sua ajuda. Além de me acompanhar em todo o tratamento, ele saía da sua casa na Federação e ia até o Garcia me arrancar da cama, levar para andar na Barra, devolver em casa para só então seguir sua rotina na universidade.

Irismar não só me ajudou a sair do buraco, como me incentivou profissionalmente, me confiou a divulgação dos congressos e seminários organizados por ele. Tirava do próprio bolso para me remunerar.

Hoje ele ri e diz não ter explicação para o que aconteceu comigo, como consegui sair. Minha mãe acha que foi obra de Nossa Senhora de Fátima, quando a imagem esteve aqui em Salvador. Eu atribuo minha ressurreição a este monge distraído e generoso.

Generoso até nos comentários em meu blog, quando contou histórias divertidas da sua vida de também portador de Déficit de Atenção, como eu.

Também pude experimentar sua TCP e é impressionante como em apenas algumas sessões a gente toma pé das tais malditas crenças nucleares e consegue aprender a lidar com elas e com nossas distorções cognitivas.

Sempre quando o sinal amarelo da angústia acende no fundo da minha alma, corro pra Irismar. Mas vou ter que me virar sozinho caso o sinal acenda novamente.

Em março, o neto do velho Antônio Bonfim, de Itaquaraí, vai ali nos Estados Unidos, em Houston, onde assume por uma temporada a função de Professor Adjunto no Departamento de Psiquiatria e Ciências do Comportamento da Escola de Medicina McGovern, na Universidade do Texas.

Esse distraído vai longe.

Foto: Valtério Pacheco

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“… a mim que chegava, que sempre chegava, filho que era.”

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Sertão, relação pai filho. Tempo. E a palavra sempre. A poesia de Nilson bate, bate bem colocada nos sentimentos porque é cotidiano, tem raiz  sertaneja, é universal. E surge assim aparentemente do nada, de fatos aparentemente banais.

Contei a Nilson sobre o impacto que senti ao ver no google street a imagem de nosso Rubem Reis, bisavô das crianças, avô de Soraya, depois de morto, na varanda da casa em Iaçu. Tempos depois ele relata em poesia o que havia sentido ao buscar também Pedro, seu pai.

E acabamos eu e seu Rubem citados na poesia de Nilson. Isso pra mim é honra e alegria.

O poeta vai colocando quase tudo que vê pela frente na sua poesia. Coisas aparentemente banais, outras nem tanto, e aí cabe ao cristão entender as referências. Confesso que não entendo muitas, mas como disse o padre Antônio Vieira, as palavras, o estilo, devem ser como as estrelas, distintas, claras e altíssimas. E eu vejo assim o texto de Nilson “…tão claro que o entendam os que não sabem e tão alto que tenham muito o que entender os que sabem”

O que eu havia sentido ao ver a imagem de seu Rubem no google estava ali traduzido nas palavras de Nilson, e também o que eu sentia ao ver meu pai na janela acenando quando eu voltava pra Salvador depois das férias em Conquista, estava tudo ali, nas palavras do poeta.

E assim, a conversa aparentemente banal virou poesia, a poesia virou título de livro e agora vamos ali no Icba ganhar autógrafo. E celebrar a poesia. E a memória.

 

 

Yo soy un hombre sincero

omara escolhida
Omara Portuondo, no Rio Vermelho                    Foto: Shirley Stolze

Yo soy un hombre sincero

O mundo lá fora nega. E me muda de opinião: essa onda reaça é nada mais nada menos, bem nada menos, desespero pelo que já mudou. Pelo que já se estabeleceu.

E vimos isso tudo ali, em Cuba e Pernambuco e Bahia, sob os sons dos tambores e das vozes do Bongar, dos senhores cheios de ginga da Santería Cubana e de Omara Portuondo, a bordo dos seus 87 anos e um vozeirão puro Caribe.

E vimos, ouvimos e sentimos tudo isso ali na fila do gargarejo, colados nas grades, pertinho de Shirley Stolze e sua alegria de adolescente, com sua inseparável câmara.

Naquele lugar, num raio de alguns metros, o som chegava e emocionava um mix de gente das mais variadas fontes, modelos, gênero, peso, altura e melanina. Um casal de meninas se beija, numa roda fumam maconha, em outra o samba é de roda, outros bebem água e cerveja. O ar também cheira a acarajé da Cira.

Grandes novidades, diria você, estamos na Bahia, estamos no Rio Vermelho.
Verdade. Mas pelo menos estamos vivos e ainda acá.