Arquivo mensal: dezembro 2017

Ponta d’unha

 

lua novaA lua nova cai com a tarde e no carro a música de Elomar segue comigo  em direção a Conquista.  Resolvo então contar quantas luas contêm apenas os discos Das Barrancas do Rio Gavião e Na Quadrada das Águas Perdidas.

tem a nova, feito ponta de unha, na passagem da onça

Lua nova sussarana vai passar
Seda branca, na passada ela levou
Ponta d´unha, lua fina risca no céu
A onça prisunha, a cara de réu
O pai do chiqueiro a gata comeu”

as mágicas, de um mundo encantado

“Falou de mundos de mil luas
Lindas deusas nuas
Monjas do astral”

a do retirante

Vai pela istrada enluarada
Tanta gente a ritirar
Levando só necessidade
Saudades do seu lugar”

a da perda

“Cuano saí lá de casa dexei os campo in fulô
A lua já deu treis volta só a buneca num voltô
Mais prá quê tanta labuta corre corre e confusão
Quanto mais junta mais dana é tribusana é só busão
Oras qui na vida in ança
O pobre cristão só discansa
Dibaixo d’um tampo de chão”

a do lobisomem

“Ah! Pois sim, vê se não esquece
D’inda nessa lua cheia
Nós vai brincar na quermesse
Lá no riacho d’areia
Na casa daquele homem,
Feiticeiro curador
O dia inteiro é homem
Filho de Nosso Senhor
Mas dispois da meia noite
É lobisomem comedor”
Dos pagão que as mãe esqueceu
Do Batismo salvador

a do amanhecer

“Os galos cantam pra fazer que a aurora
Rompa com noite e mande a lua embora
Os galos cantam, amada, o mais instante
O peito arfante cessa e eu vou me embora”

…  da paixão em duas fases…

“Amada atende um coração em festa
que em minha alcova entra nesse instante
pela janela tudo que me resta
Uma lua nova e outra minguante

…e apagada pelo brilho da amada

“Não sei porque você um quase nada
do universo perdido nos céus
apaga estrelas, luas e alvoradas
e enche de luz radiosa os olhos meus
Mulher formosa nesta madrugada
Somos apenas mistérios de Deus”

a que ilumina a estrada do pai e da filha

“Ô Zefinha
O luar chegou meu bem
Vamos pela estrada que seu pai passou
Quando era criancinha igual você também”

a da pressa, para levar a donzela.

“Aviai pois a viagem é longa
E já vim preparado para vos levar
Já tarda e quase que o minguante está a morrer nos céu

A do amor retirante, que nunca mais voltou

“Faz um ano em janeiro
Que aqui pousou um tropeiro
O cujo prometeu
De na derradeira lua
Trazer notícia tua
Se vive ou se morreu”

a da decepção com a terra natal

“Nos termos da Virgem imaculada
Não vejo mais crianças ao luar
Por estas me bato em retirada
Vou ino cantar em outro lugar
Cantá prá não chorar”

a que ilumina a festa

“Ai clariô, ai ai clariô
Purriba do lagêdo o luá chegô
ja cá na Cabicêra a função pispiô
amiã cedo a lua já entrô
eu vô passá a noite intêra
cantano clariô”

a da princesinha  sonhadora…

“Certo dia a princesinha,
Que vivia a sonhar
Saiu andando sozinha,  Ao luar…

… e  do pai pirado da princesinha…

“Contam que essa princezinha
Não parou de caminhar,
E o rei endoideceu,
E na janela do castelo morreu,
Vendo coisas ao luar.”

E, talvez, a da mesma princesa a vagar

E contam que em noites
De lua pela estrada encantada
Uma linda sinhazinha
Vestida de princesa
Perdida sozinha vagueia
Pelas areias
Guardando o ouro”

a da perda das contas

“Também não sei mais quantos foram
Os luares que passaram
Pelo vão dessa janela
Indagando suplicantes
Frios, pálidas, dementes,
Onde anda a amiga aquela”

a da esperança

oh lua nova quem me dera
eu me encontrar com ela
no pispei de tudo
na quadra perdida
na manhã da estrada
e começar tudo de novo”

a das potras

“Aparta Lubião, esse bode malvado, travanca o
Chiquêro
Ti avia a cuidar
Alas qui as polda di sheda rincharo ao luar
Na madrugada suadas de medo pr’a lá”

a do tempo..

Vai prá mais de duas lua
Que meu pai mandô eu no Nazaré
Buscá u’a quarta de farinha
Eu e o irmão Zé Bento vinha andano a pé”

.. e da seca
Mãe lua magrinha qui está no céu
Será qui cuano eu cheguo in minha terra
De nosso povo intonce se esqueceu”

a mais trágica e onipresente, em São Paulo…

“Mais tinha um qui dexô o qui era seu
Pra i corrê o trêcho no chão de Son Palo
Num durô um ano o cumpanhêro se perdeu
Cabô se atrapaiano com a lua no céu
Num certo dia num fim de labuta
Pelas Ave-Maria chegô o fim da luga
Foi cuano ia atravessano a rua
Parou iscupiu no chão pois se espantô com a lua
Ficô dibaixo das roda dos carro
Purriba dos iscarro oiano prá lua, ai sôdade

…e  na mesma hora, no sertão

Naquela hora na porta do rancho
Ela tamem viu a lua pur trais dos garrancho e no céu
Pertô o caçulo contra o peito seu
O coração deu um pulo os peito istremeceu
Soltô um gemido fundo as vista iscureceu
Valei-me Sinhô Deus meu apois eu vi Remundo
Nas porta do céu, ai sôdade”

 

 

Foto:  Lua nova em Iaçu.

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Mais tarde do que deveria

sotao uotmima.jpgQue horas são?
Mais tarde do que deveria, responde Tio Vânia. Precisei de duas sessões da peça,  uma delas incompleta, para perceber o tempo como o “personagem” principal da história, que se passa há mais de um século no interior da Rússia e foi revivida pra mim hoje e ontem no sótão do Palacete das artes, adaptada com o título de Um Vânia.

E o tempo passa a galope pra mim, pra você e pra todos naquele casarão da obra de Tchekhov, naquele sótao na Graça.. A galope e mal. Na história não se salva ninguém, todos infelizes, todos insatisfeitos, todos não correspondidos pela vida e pelas expectativas. Só se salva, talvez,  o espectador. Por paradoxal que seja, saí melhor do espetáculo.

Voltei por teimosia, porque no dia anterior paguei caro a insônia. Bastou baixar a luz que de tempos em tempos lá estava eu a dar cabeçadas, acordado por Soraya. Fiz bem em voltar, enfrentar fila para ver com os olhos abertos um clássico bem montado, limpo, direto.

Antes de sentar aqui dei uma busca no google e não achei nada além do release. Senti falta do texto de Clodoaldo Lôbo. Acho que ele iria gostar de rever o amigo Gideon mandando bem em cena novamente, rever Marcelo Praddo, como sempre impecável e, seguramente iria comentar, penso que bem favoravelmente, a direção de Gil Vicente Tavares e atuação dos novos atores Marcelo Flores, Alethea Novaes e Isadora Werneck, digo novos porque talvez ele não os tenha  visto em cena.

Da janela do cenário era vista e anunciada a tempestade na história original. Coincidentemente esses são dias de quase tempestade na cidade. Um tempo que, paradoxalmente,  também me deixa mais feliz.