Arquivo mensal: janeiro 2018

Diagnóstico visual

Não faz uma pergunta, não toca a menina, apenas olha de longe e decreta com o olhar, numa consulta de alguns minutos: torcicolo.

Duas injeções, as primeiras que menina toma na vida, um relaxante muscular, um anti-inflamatório.

A menina sai do pronto-socorro ortopédico no sábado pela manhã com um colar cervical e uma receita com mais duas medicações. E muita dor.

A dor não passa.  Fim de semana de agonia.

Uma anamnese da pediatra, numa consulta com perguntas e toques, descarta torcicolo. Gânglio inflamado. O tratamento é outro, recomeçamos do zero.

Três dias perdidos e muita dor em vão.

 

 

 

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De volta ao Pratigi

Ao norte, Boipeba. Ao sul, Barra Grande. Entre os dois o Pratigi, um arco, uma enseada,  24 km de praia de areia fina, águas calmas, desde a Barra dos Carvalhos até a Barra do Serinhaém.

Palmilhei por estes extremos nos últimos dias, já há alguns anos volto, desde quando fui a trabalho na inauguração da estrada Ituberá-Pratigi, em 31 de março de 1998, lá se vão quase 20 anos.

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O Pratigi me lembra Barra Grande de há 20 e poucos anos, com suas praias desertas. Lembra o Morro de São Paulo há 30 e poucos  anos, nas caminhadas para a Quarta Praia. Lembra Berlinque, em Itaparica, lá se vão 40 e tantos anos, quando se tomava banho pelado na Ponta de My Friend.

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Pratigi, próximo à Barra dos Carvalhos. Ao fundo, Ilha de Boipeba.

Não quero ser saudosista, mas a sensação é de ter testemunhado nas últimas quatro décadas a ocupação destrutiva do nosso litoral.  A ilha está acabada, o Morro com praia imprópria pra banho, vestido ou pelado.

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Ponta do Apaga Fogo, à direita, Ilha de Kieppe.

Desta vez fomos a pé em direção a Barra dos Carvalhos, 6,5k de ida, o mesmo na volta e uma caminhada de quase duas idas ao Bonfim pela praia. No caminho, só um pescador perto de sua canoa, na espera da maré para puxar a rede, enquanto isso, checa o celular.

Praias desertas, lindas e  paradisíacas, como define o jargão turístico. E o plástico onipresente, em copos, embalagens, misturado às conchas e folhas do mangue.

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Para a Barra do Serinhahém, praia também é pista.

Para o norte a praia do Pratigi ainda é mais tranquila porque a barreira do rio que deságua na praia ao lado da estrada, impede o tráfego de carros. Para o sul a praia é uma rodovia movimentada na maré baixa, por onde trafegam muitas motos, carros de passeio e caminhões em direção à barra de Serinhahém.

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As festas deixam lembranças

Numa das fazendas de coco do Pratigi, na beira da praia, de dois em dois anos é organizado o festival Universo Paralelo. A economia do turismo do lugar gira em torno do festival. Nos intervalos entre um festival e outro, o movimento só acontece no Verão, com alguns turistas e o pessoal da região de Ituberá.

Ladeada pelos famosinhos Boipeba e Barra Grande, cuja ocupação foi no miudinho, o Pratigi está “desocupado”, de olhos e bolsos na engorda, à espera de grandes empreendimentos/investimentos.

Cerca de quarenta barracas de madeira coladas umas às outras  ocupam o final  da estrada de Ituberá, que vai até a praia. Mas de uma ponta a outra conta-se nos dedos os proprietários, dentre eles a Rainha “brasileira” da Suécia, conforme contam os moradores e as notas da imprensa, sobre a resistência do IMA em liberar a licença para um resort. O modelo parecido que encontrou resistência na vizinha Ponta dos Castelhanos, na Ilha de Boipeba.

Seja no miudinho, seja no atacado, a ocupação do nosso litoral não respeita mangue, não respeita a praia, não respeita nada além do que “me pertence”.

A lei do tudo nosso, o coletivo que se lasque, impera desde a ocupação por barracas até os casarões de madeira e vidro, cercados de grama aparada.

Enquanto isso vou voltando ao Pratigi, ainda vale muito a viagem.

Onde fomos bem tratados:
Hospedagem:  Chalé Sabiá, no Pratigi, onde sempre ficamos. Ideal para rencas como a nossa, com fogão, geladeira, ventiladores e utensílios. Contato:  73 9 91993038 chalesabia@gmail.com
Almoço em Barra do Serinháhem – Pousada Recanto da Natureza, com Emerson, ou Sinho.
Almoço em Barra dos Carvalhos: Restaurante do Paulista.
Cocada:  Feitas por Rose, do povoado de  Jatimane, na estrada Ituberá/Pratigi.

Outras viagens com a renca ao Pratigi:

2009
https://licuri.wordpress.com/2009/01/23/azul-e-branco/
https://licuri.wordpress.com/2009/01/27/duas-luas-2/
https://licuri.wordpress.com/2009/01/

2012
https://licuri.wordpress.com/2012/02/01/de-volta-3/

2015
https://licuri.wordpress.com/2015/01/23/mare/

2017
https://licuri.wordpress.com/2017/01/27/eles-envelhecem-muito-rapido/
https://licuri.wordpress.com/2017/01/20/pratigi/

Fortes

claude santos

Há sim, alguma vantagem em ser distraído. De repente um fragmento de mundo ignorado revela-se diante da gente e a emoção bate no juízo, reverbera no coração, volta para os olhos marejados.

Foi assim hoje por apenas alguns minutos de imersão completa em imagens, muitas imagens, ao passar pela primeira vez sob o portal do forte de Santa Maria, transformado em espaço de fotografia. Em concentrado de fotografia. Em caldo de cana de fotografia.

E a emoção veio forte ao ver uma imagem do meu amigo Claude Santos. Havia acabado de lembrar dele porque o audiovisual projetado era  a técnica que ele dominava como poucos. Em seguida, a imagem e a emoção.

Desde as escadarias, os nomes de muitos fotógrafos, alguns amigos, muitos conhecidos, muitos admirados. Soraya viu uma foto  de Maria Sampaio, outra que nos deixou.

A concepção do espaço empurra  você para um mergulho de apneia nas imagens, falta fôlego. Sempre gostei de fotografia, a fotografia cura cegueira, indica novas perspectivas. E a nova imagem revelada sempre tem o indicador do fotógrafo para um ponto de vista novidadeiro pra nosso olhar muitas vezes desatento.

Foram apenas alguns minutos, não havia tempo para mais,  numa escapulida da caminhada para perder peso, aproveitando a quarta-feira franqueada. Partimos então eu Soraya e Maria para o outro forte, só chegamos a tempo de ver Carinhoso pela flauta de Andrea Bandeira num concerto de câmara. A Barra fervilha, de forte a forte.

Peguei uns dias de férias. Vou voltar aos fortes. Como turista desatento, ainda falta retornar à casa de Jorge Amado, transformada em museu. Vou levar outra pancada.  Toma, distraído.

Foto: Claude Santos,  divulgação do Irdeb, Sem crédito.