Não é só amor. Tem fedor.

Tomei algumas doses deste Carnaval, à noite, depois do expediente.
Terça, chegamos encharcados na descida da Ladeira de São Bento, um dos trechos mais agradáveis do percurso, quando o espreme-gato alivia e a a praça se descortina com brisa, na parada do trio para  passar outro bloco subindo a Carlos Gomes

Talvez já estivesse observando a gente pulando igual no meio da roda da meninada da Baiana, com média de idade pelo menos metade da nossa.

Eu me queixo do meu cheiro.  – É só amor (pra aguentar), ironiza Soraya, no embalo do bordão de Passapusso.
Aí ela entra na conversa, talvez pegando só a última frase.
– Como faz para ser felizes pra sempre?
– Não faz. Não existe feliz pra sempre. É enquanto dura, entre tapas e beijos, responde Soraya.
Os olhos cobertos de glitter marejam.
-Vocês têm filhos?  – Sim, três.
– Eu tenho um, ele outro, mas nos separamos. A última palavra aumentou o brilho no glitter.  Recebeu um abraço de Soraya e o choro veio nos ombros.

No afasta e abraça com afagos, entro também no abraço, agora triplo.

– Tem também muito fedor, argumentei. . Ela concordou ao se afastar um pouco. Fiquei em dúvida se concordou com a metáfora ou com meu ombro.

O triângulo amoroso, que parecia durar uma eternidade, foi interrompido bruscamente por uma mão. Uma garota puxa a menina pelo braço e desaparecem  na multidão, mas antes vem a descompostura:

– Não acredito que você tá chorando com desconhecidos!

 

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