Archive for the 'A que será que se destina?' Category

Tenho chorado pra cachorro

30/04/2017

Voltei a Belchior por meio de Luísa. Ela era criança quando Belchior se picou. Mas chegou outro dia de fevereiro nos intimando a ir ver o show de JosyAra e Giovani Cidreira.

Fomos. E choramos muito. Eu, Soraya e o pequeno teatro Gamboa lotado quase inteiro. O que acontecia ali? Belchior nos avisava que dera tudo errado?

Hoje pela manhã levei Luísa ao Centro Histórico e fui parar na Barroquinha. Ao contornar, avistei o velho edifício na descida, em frente ao antigo restaurante Lótus. Foi ali que ouvi pela primeira vez Belchior, disse a ela, numa festinha daquelas bem a cara da segunda metade da década de 70.

E ao abrir o computador vejo desfilar agora há pouco aqui na TL quase todo mundo confirmando que o sonho acabou mais uma vez.

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Coração Selvagem. Segunda sessão. Teatro Gamboa Nova

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Marcus Gusmão
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“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!”

Saudade da porra do Jorge Washington, do Eduardo Luedy, do Marcus Gusmão, da Raquel Almeida et alii.

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Marcus Gusmão
Marcus Gusmão Estou aqui, a ouvir duas, aguardando a justiça no segundo tempo, domingo, com 11 em campo.

 

Eduardo Luedy
Eduardo Luedy só Belchior para recuperar o parnasiano bilac :-) saudade tb Nelson Maca

 

Marcus Gusmão
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      Apresentação
      O que deixa você feliz? 😊
      Qual é o seu lema de vida? 💭
      Quais são os seus hobbies? 🛩 ⚽ 🎸
      Que lugar você gostaria de visitar? 🌍
      Qual é a sua comida predileta? 🍕 🍏 🍪

       

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Conversar com amigos

Pré Carnaval é um perigo

21/02/2017

Saí ileso da bagaceira do Furdunço.
Mas nesta terça não escapei. Ao tentar passar sobre  um cabo de computador a 30 cm do chão me enrosquei, dei um pequeno salto de saci à frente e na tentativa de não levar tudo junto ergui o pé preso mais um pouco e perdi o equilíbrio. Levantei também a mão que segurava o celular e então me estabaquei de peito aberto no chão feito um saco de batatas. No baque, tive a sensação de ter quebrado 200 costelas e rompido tudo por dentro. Emergência, radiografia, nada quebrado mas ainda caminho pisando em ovos e estou impedido de rir.

Queda é um perigo para gente vivida.

Lembrei da deliciosa descrição da queda e morte do Dr. Juvenal Urbino, na tentativa de  capturar um louro em um pé de manga, em O Amor no Tempo do Cólera:

“(…) El doctor Urbino agarró el loro por el cuello con un suspiro de triunfo: qa y est. Pero lo soltó de inmediato, porque la escalera resbaló bajo sus pies y él se quedó un instante suspendido en el aire, y entonces alcanzó a darse cuenta de que se había muerto sin comunión, sin tiempo para arrepentirse de nada ni despedirse de nadie, a las cuatro y siete minutos de la tarde del domingo de Pentecostés..(…)”

Quase morri  também sem tempo de me arrepender de nada e nem me despedir de ninguém, às oito e vinte da terça de pré Carnaval.

 

Viúvos

03/02/2017
Quem morreu primeiro foi minha avó materna. Nem a conheci. Lembro do meu avô Antônio, da sua solidão, cuidado pelas filhas, na casa de tia Dalva. Quem morreu primeiro foi tia Dalva, os dias estão bem difíceis pra meu tio Adauto. Quem morreu primeiro foi tio Ruguinha. Lembro dos dois sempre juntos na casa de Tanhaçu, que ficou ainda maior sem tia Quezinha. Quem morreu primeiro foi dona Ludu. Seu Rubem cortou um dobrado por quase 12 anos.
As mulheres são mais fortes, cuidam mais, vivem mais. Mas de vez em quando aprontam. Por isso me tocou muito a foto do abraço de consolo entre os viúvos Fernando e Luís.

Feliz maré nova!

29/12/2016

dsc044912

Em qual ciclo damos a volta em nós mesmos?
Num dia, com sua noite embutida?
Numa semana e seu cabalístico 7? Uma semana do trabalho de Deus e uma lua?
Num mês, com suas quatro luas?
Num ano, com suas quatro estações?

Ou será que o ciclo humano, nossa volta em nossos rasos e profundos, é o tempo de uma maré?
Tudo muda entre a maré alta e a baixa, o cenário é outro, as possibilidades são outras.

Talvez uma das chaves do tempo, dos ciclos, do nosso tempo humano, esteja nas 12 horas e 24 minutos entre o máximo e o mínimo da maré.

Maré que tem a ver com a lua, que tem a ver com o sol, que tem a ver com o movimento em espiral que vai nos levando universo afora.

Então, para ser mais breve, não vou desejar feliz ano novo e sim uma feliz maré nova, seja ela alta ou baixa. Todos os dias.

 

Foto: Barra do Serinhaém, janeiro de 2009.
https://licuri.wordpress.com/2009/02/04/e-no-setimo-dia/

 

Organização, o retorno eterno

05/11/2016

setpubal-em-1990Entrei numas de tentar – mais uma vez –  organizar  cabeça, casa, orçamento, saúde, sonhos, trabalhos, enfim, a vida. Aí, arrumando papéis antigos,  encontrei este cartão de feliz 1991, do simpático e ferino Setúbal, feito num rápido intervalo  enquanto rabiscava sua charge diária na redação de A Tarde.
A gente muda muito pouco nesta vida.

7

02/11/2016

5

7 pecados capitais, 7 virtudes, 7 planetas, uma lua nova, 7 dias. Acontece é coisa em uma semana. Aqui na minha varanda, um milagre. Destes que estão aí em todos os lugares, a todo o tempo, banais até. Mas basta prestar atenção pra gente se espantar. Era só um toco o jasmim manga. De repente, começa a jorrar vida, numa quase explosão. Registrei em intervalos de 7 dias: https://www.facebook.com/gusmaomarcus/posts/10207175790369858?pnref=story

 

 

 

Areal de cima

18/10/2016

Areal de cima.png“Tresloucado amigo! Que conversas com elas? Que sentido Tem o que dizem, quando estão contigo?”
Eu não converso, eu me espanto com elas. Penso nos nossos dois limites: sob os pés, na areia da praia, e sobre a cabeça, no céu estrelado do sertão. E ao olhar para esta imagem vejo um areal. E me perco nas medidas das coisas. Pequeno e grande se confundem. Minúsculo e enorme. Imensidão pra baixo e pra cima. E viajo nesta imagem, neste vídeo que circula há um tempo. Ele tem um certo efeito terapêutico e gera uma pergunta incômoda. Que diabos de grandes problemas você tem?
Foto: http://www.spacetelescope.org/images/heic1502a/

 

Mortes

25/08/2016

Em junho foi Ana, em julho Clodoaldo e hoje  Paulo. Agosto do ano passado, Rubem. Outro dia  mais longe Maria, Márcia, Ludu, outro mais longe ainda, Álvaro, Auta, Dedé.

Primeira vez diante da morte, aos quatro anos, fui levantado por um adulto para ver o rosto do meu avô Antônio no caixão. Associei morte a algodão nas narinas. Depois desse dia foram mais de 20 anos de trégua, vida sem algodão,  éramos todos imortais.

Mas de um tempo pra cá esmaeço  a cada morte. Quem morre é quem fica, a morte leva com os outros  nossa memória, partes da gente.

Mas tudo é um pouco ainda mais cruel. Ontem, por acaso,  vi o filme Invasões Bárbaras. O diálogo do professor em estado terminal e sua jovem parceira nas doses de heroína, usada como lenitivo, comprova:

– O que você tanto amava?
– Tudo. Vinho, livros, música, as mulheres. (…)
– Ainda é um grande sedutor? – Não, não mais. Com a idade não é a mesma coisa.
– Você ainda gosta de vinho? – Infelizmente não. Não com o meu fígado.
– As viagens? – Hoje em dia há turistas por toda a parte.
– Não é o presente que você não quer largar… É o seu passado. Essa vida já está morta.

 

 

 

 

“Com que rosto ela virá?”

14/07/2016

A morte, surda, caminha ao meu lado, aceitou Raul. A morte está também na Sonata Nº2 de Chopin, mais visível no terceiro movimento. Estou assim, na contemplação e no encontro da  beleza na morte, esta inevitável. Ela anda nos cercando. Os mais antigos colocam uma pedra nesta conversa. Vamos de música.

 

Al-manākh

27/01/2016

Desde criança gosto de almanaques e suas informações curiosas e inúteis. Ao assistir Cosmos (não mexam com o meu Netflix) voltei a sentir aquele prazer Macabéa, de admirar e exibir conhecimento rádio relógio: a palavra desastre tem na raiz astro e deriva dos maus presságios provocados pelos cometas, a plêiade tem sete estrelas e a mais brilhante delas se chama Alcione, que por sua vez começa pelo famoso al, revelador da origem árabe. Falar nisso, o google informa, “La palabra “Almanaque” viene del árabe al-manākh (ciclo anual)…”

Conta-gotas

23/01/2016

Publica. E passa a contar o retorno. Como quem conta gotas de mel espremido do favo entre os dedos, os tragos antes de prender a respiração, os sopapos da pelve.
Quer mais, como o artista a contar os lugares já ocupados antes do espetáculo de quarta-feira, as notas no chapéu depois da apresentação. Com a mesma ansiedade do pai a esperar o toque de Brown no botão vermelho do The Voice Kids.
Conta, como um menino feliz conta e reconta suas bolas de gude amealhadas, sua coleção de figurinhas, suas estrelas de estimação. Ou como um menino com frio, a contar as parcas moedas numa noite de sinaleira. Dá um like aí, tio.

Arroz com feijão

22/01/2016

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Às vezes queremos ser ou parecer arroz. Mas não adianta, as transparecias desenganam. E o feijão aparece mais, bem mais do que imaginamos.

Aqui nas tais redes sociais é também assim. A pessoa tem toda a intenção, toda a crença, toda a certeza de postar arroz.  E muitos passam batidos, leem arroz, veem arroz e compartilham como se fosse arroz.

E nesse arroz com feijão a gente segue, crente que tá abafando.

Imagem: aqui

 

 

 

Médico

19/01/2016

10 horas da noite de ontem, uma mulher e um senhor vão de farmácia em farmácia na Graça em busca de um tranquilizante. Ele faz as vezes de motorista,  de segurança, a cidade está violenta. Sempre atencioso, às 10 da noite, depois de um dia extenuante de trabalho. Na hora de comprar o remédio é preciso uma prescrição específica para o genérico, único disponível. Ele prontamente puxa o receituário e prescreve novamente. As atendentes olham curiosas aquele médico e aquela mulher ali, 10 da noite, em busca de um tranquilizante. Eram 10 horas da noite e o médico acabara de fazer sua última visita do dia no Hospital Português,  ouviu pacientemente e consolou sua paciente oncológica que desabara no choro. Sua paciente de mais de 14 anos de batalha. Ele se prontifica a ir com a filha dela  em busca do tranquilizante, de farmácia em farmácia, na Graça, às 10 horas da noite.
Dizem que age assim, cotidianamente, com funcionários, colegas, pacientes.
Dr. Renato existe?

Passu japiassoca assu

07/01/2016

Silencio

-Oh, Ney Matogrosso!, disse Soraya, rolando a tela.
-Que foi, morreu? perguntei.
-Não, tem show dele…

Ando assim, com o pensamento meio Dassanta, a personagem de Elomar parceira inseparável da veia da foice.

A velha da foice é uma conhecida minha recente. Passou longe da minha vida na infância e adolescência, mesmo tendo sido premiado com quase 20 tios e mais de 60 primos.

Talvez por isso tenha cultivado por muito tempo o sentimento de imortalidade, pra mim e pro mundo. A morte habitava os livros, os jornais, a música, a história. As lembranças mais fortes de hospital eram de uma operação de fimose aos 10, 11 anos ou  quando ia visitar os irmãos quando nasciam e ficava impressionado com o cheiro e as caras das moças pedindo silêncio.

Mas de um tempo pra cá, a fila tá andando rápido, as visitas ao cemitério em procissão são frequentes, as visitas aos hospitais idem, as más notícias por telefone também, melhor encarar.

A esperança é que todos nós, assim como Dassanta, nos transformemos pelo menos em  pássaros das asas amarelas, Passu japiassoca assu.

 

 

 

 

 

 

 

 

Família, Familha, boatos e apedrejamentos

29/12/2015

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A moça amarrou o cabelo para mostrar a tatuagem nas costas. Foi mostrada pelas costas, alvo de chacota em sites de tatuagem desde 2014 e recentemente, com o incêndio no museu da língua portuguesa, renasceu como piada no facebook: encontrada a suspeita!

Impossível ficar indiferente à foto. Dá agonia, da pena, dá ginge. Mas aí surge uma dúvida. E se não for Português? Uma rápida googlada tradutora informa: Familha é família em catalão. Fico com esta possibilidade.

(P.S: infelizmente  errei, confiado no google tradutor. Vem da Espanha – no comentário de Marcia Cristina Rocha, no facebook, e no inbox, por consulta a Neyse Cunha Lima) – a informação de que família é família aqui e na Catalunha). Então, vale ainda mais a última frase deste texto)

A foto tem todos os ingredientes e descaminhos de boatos, ironias e apedrejamentos na internet.

Boato, porque é verossímil. A gente escreve família mas fala familha, sobrou pra quem tem pouca leitura, ou seja, a maioria de nós, brasileiros. 

O mais grave é o apedrejamento. Num dos comentários da foto alguém ainda riu da qualidade da bolsa da moça. E assim caminha a desumanidade. Saiu fora do padrão, pau.

Como desejo de ano novo, quero ficar mais atento ao que leio, rio e reproduzo.

 

Foto: http://bit.ly/1mgIojl

 

 

 

Espelho

22/11/2015

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Fui ao centro hoje e resolvi retornar aos territórios de memória pessoal da cidade. Passei pela casa do Garcia. Não foi uma boa experiência. Gradeada, suja, descascada, não combina com a memória filtrada e cheia de luz daquele lugar de pulsar dos vinte anos.
Olhei pra fachada e me vi no espelho. Atualizado.
Futucando neste coco pequeno achei este texto sobre aqueles dias:

A casa do Garcia e as paulistas

22/07/2010

1981, 1982. A casa era comprida, de rua a rua, da Conde Pereira Marinho à Protestantes, no Garcia. Os quartos e banheiro ficavam diante de um corredor, seguido de uma sala, uma pequena cozinha e um quintal. Última casa da rua, tinha muitas janelas para o vale. A população de moradores era flutuante. Havia um núcleo mais ou menos fixo, mas a rotatividade era grande. Uns trabalhavam, outros estudavam e trabalhavam, tinha quem não trabalhava e nem estudava. Quase todos na faixa dos 20 anos.

Nos quartos, colchões, tatames, araras e baús de vime. Na sala, estante de pranchas de madeira sobre blocos de argila sustentava uma pequena biblioteca, aparelho de som e muitos LPS. The Wall, do Pink Floyd, talvez seja a trilha sonora daquela casa, junto com Trem das Cores, de Caetano.

Tinha também uma gata que se chamava Leila Diniz. E muito incenso.

Num sábado de Verão, alguém chegou com duas garotas conhecidas naquele dia na praia. As meninas iam voltar para o interior de São Paulo porque o dinheiro estava acabando e elas não tinham como continuar as férias hospedadas no Othon. Claro, foram convidadas a continuar em Salvador, hospedadas na casa do Garcia.

Tudo ali era novidade para elas. As namoradas que dormiam na casa, as portas quase permanentemente abertas, inclusive a do banheiro, os papos, enfim, estavam com juízo de meninas do interior de São Paulo e filhas de militares completamente retorcido.

Mas a porrada veio forte à noite, quando resolveram conhecer o Zanzibar, aquele mesmo onde os orixás acenaram com o não/sim. O bar ficava ali pertinho e dava para ir a pé. Numa só noite, viram de perto o que só conheciam de ouvir falar: dois homens se beijando, um grupo fumando maconha e Gilberto Gil.

https://licuri.wordpress.com/2010/07/22/a-casa-do-garcia-e-as-paulistas/

 

E nós?

21/11/2015

As mangueiras de Brotas são imunes às crises. Espremidas entre paredes, cercadas de cimento, seguem cheias, repletas, carregadas. Como os lírios do campo, tão nem aí. Fizeram a sua parte. Estão prontas para janeiro.

Retratos

12/09/2015

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“Era uma noite maravilhosa, uma noite tal como só é possível quando somos jovens, caro leitor”.
Esta é a abertura, bela abertura, do conto pretendido para leitura nos momentos de espera antes de receber na veia doses de radioatividade para tirar um retrato do velho coração descompassado.
São duas doses, dois retratos, mas o conto ficou pelo caminho. As conversas no pequeno cubículo com paredes grossas de chumbo, onde se reúnem homens e mulheres não jovens agora radioativos, tomaram conta da manhã. Uns com muitas falas, talvez os mais medrosos, outros no silêncio atento enquanto aguardam a vez.
Estirado debaixo da grande máquina fotográfica de coração eu me sinto um modelo do século retrasado diante do daguerreótipo, sem direito a  mexer nem uma unha, respiração contida. Tomara que este treco evolua como as máquinas de retrato de gente pelo lado de fora.
“Chegou bem amor? Ainda bem, te amo”, diz o médico ao celular enquanto aguardo todo conectado a fios e espetado por uma seringa por onde entrará a segunda dose radioativa durante uma caminhada na esteira. Nesta mesma semana tentei me despedir da médica que me fez um outro retrato do coração, daquela vez sonoro e transmitido diretamente para uma tela de TV. Mas não consegui nem ouvidos nem olhos,tão ligada ela estava à tela do seu espertofone.
É preciso esclarecer que a atenção aos telefones não invadiu o momento da realização dos exames. Estes gestos não me incomodam, vejo-os apenas como sintomas de um tempo, um tempo em que nascem também muitas novas palavras, como essa, espertofone,  até outro dia desconhecida.
Pretendo chegar ao final da leitura do conto na continuação da investigação médica. É um texto pequeno, Noites Brancas, de Dostoiévski. São apenas 97 páginas, quase um bilhete se comparado aos seus grandes clássicos.

 

Adeus, meu prezado!

10/08/2015

Ele se vai aos poucos, sem alarde, sem angústia, sem dor. O coração desacelera, o pulso cai devagar até o corpo ficar completamente em silêncio e frio.  Talvez as palavras mais sinônimas de morte sejam silêncio e frio.

Em volta a vida pulsa. No choro, na dor, no corre-corre para as providências dos adultos. As crianças, o cachorro, o papagaio também participam de alguma maneira do redemoinho, é um momento de quase transe para todos.

Uma morte à moda antiga, em casa, de uma forma a cada dia mais rara. Seu Rubem, meu querido amigo de 94 anos, que me chamava de meu prezado, muitas vezes de meu filho, avô de Soraya, bisavô da minha renca,  foi embora cercado de cuidado, de carinho, dos filhos, netos e bisnetos.

Enterrado ontem em João Amaro, ao lado de sua Ludu. Também numa tarde ensolarada de domingo.
Não casualmente Dia dos Pais.

___

Aqui umas histórias desta convivência: https://licuri.wordpress.com/?s=Rubem+Reis

Não vou me adaptar

21/07/2015

Na Rádio Educadora, Arnaldo Antunes prevê: Não vou me adaptar.

A tarde é de julho de 2014 mas a melodia cheira a anos 80,  lá se vão três décadas.
E a velha canção pós-adolescente cai hoje novamente como um luva nesta pré-terceira idade:

Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia…

A cada frase, mais atual…

No espelho essa cara já não é minha…

Não vou! Me adaptar!
Não vou! Me adaptar!

Não Vou Me Adaptar
Titãs

Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia
Eu não encho mais a casa de alegria
Os anos se passaram enquanto eu dormia
E quem eu queria bem me esquecia

Será que eu falei o que ninguém dizia?
Será que eu escutei o que ninguém ouvia?
Eu não vou me adaptar, me adaptar

Eu não tenho mais a cara que eu tinha
No espelho essa cara já não é minha
Mas é que quando eu me toquei
Achei tão estranho
A minha barba estava desse tamanho

Será que eu falei o que ninguém ouvia?
Será que eu escutei o que ninguém dizia?
Eu não vou me adaptar, me adaptar

Não vou!
Me adaptar! Me adaptar!
Não vou! Me adaptar!
Não vou! Me adaptar!

Joanita

22/06/2015

“Joanita havia completado dezenove annos, e d. Maria que se casara aos quinze, julgava aquella idade já um tanto elevada para uma menina casadoira.”
Que fim levou Joanita? Qual o desfecho da sua história na página 4 de O Combate, que circulava  aos domingos pela manhã, naquele domingo do São João de 1935? *

As palavras  amareladas no papel ressuscitam hoje  para os meus olhos e os de algumas dezenas de pessoas na página de fotos antigas de Conquista em cristal líquido.  No tempo de Joanita, o texto era  grudado no papel em tinta, na forma do linotipo, os l e os n eram algumas vezes dobrados e com ph se escrevia physionomicos.

A alegria de quem produz um texto, qualquer texto, é ser lido.

Produzo então aqui alegria póstuma e presto  homenagem a este escritor anônimo da primeira metade do século passado numa pequena cidade do sertão.

Que fim terá levado o autor do texto?

P.S: por sugestão de Paulo Galo, lanço aqui o desafio.
A moça vai resistir às pressões da mãe para a aceitar a corte dos “cow-boys”. Ou vai optar por um pretendente “civilizado”?
Enquanto não localizamos a página 4 de O combate, quem se arrisca a completar a história de Joanita?

Joanita1

Texto completo joanita

O S. João de Joanita

Joanita era o encanto da fazenda Páo d’Arco. Não era dessas moças que se fazem bellas, mediante  os enfeites, os atavios da moda, os recursos da arte. Ignorava a maquillage. Despresava o baton.  Sabia’se formosa, dessa formosura natural, cambiante a apenas ás variações do nosso clima  voluvel.
Bem nova ainda fora mandada á Capital, a estudar, interna, no Collegio dos Perdões.
Aos dezeseís annos, achava’se prestes a collar o gráo de alumna mestra, quando lhe morreu o pae.  A viuva d.Maria Vieira, não podera supportar mais, a ausencia da filha unica.
Joanita teve que voltar aos seus penates, sem o diploma de professora. Era o carinhoso genitor  quem fízera questão de um diploma qualquer para a sua adorada filhinha.
-Eu quero minha filha, disséra d. Maria, aos parentes, qundo do fallecimento de seu esposo. Graças  a Deus, temos com que viver. Ella não precisa de nenhuma carta. Eu é que preciso della. Não  poderei viver assim isolada.

*
* *

A inconsolavel viuva entregando a administrração da fazenda, a direcção de todos os seus negocios, a um irmão dedicado, Paulo Vieira, passara a viver quasi unicamente para a filha, que lhe recordava, pelos traços physionomicos, a imagem do defunto esposo.
Comtudo desejava casa-la. Joanita havia completado dezenove annos, e d. Maria que se casara aos quinze, julgava aquella idade já um tanto elevada para uma menina casadoira.
Os pretendentes é que não faltavam. A Fazenda Páo d’Arco era um castello encantado, onde uma pequenina castellã ou fadazinha, attrahia pela sua belleza magica, toda a “nobreza” das enstancias circumjacentes.
E os jovens fazendeiros, por mais esforços que fizessem não podiam desencantar a fada, encantando-lhe o coraçàozinho…
*
* *
Era dia de S. João.
Sentadas ambas na varanda da bella vivenda, d.Maria dissera a filha:
-Porque não acceitas o Everaldo Gomes? Um rapaz que está em boas condições, e que pode fazer’te feliz?
– Não, Mamãezinha. Não me fale num moço que me vem fazer a corte, vestido com um gibão e perneiras de couro! Julgam estes senhores que basta o seu porte de “cow-boys” para conquistar, num olhar, a nossa admiração!… Eu nunca me habituarei a um marido assim. Prefiroum homem civilizado, ainda que seja pobre.
_ Faça o que quizeres, minha filha. Creio, entretanto, que com essas ideias, ficarás para tia. A Bahia, civilizou’te talvez mais do que o necessário… Mas, eu não ponho obstaculos á tua linha de conducta… Seja como quizeres…

CONT. NA 4. pag.

 

Joanita

* Publicado em https://fotosdevitoriadaconquista.wordpress.com/1935/06/23/o-sao-joao-de-joanita/

Conquista na época de Joanita:

rua-grande-1939

Foto: https://fotosdevitoriadaconquista.wordpress.com/1939/09/06/rua-grande-automoveis-postes/

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Maré

23/01/2015
Pratigi

Pratigi

“Guarde suas lágrimas porque o pior está por vir”. Ando numa maré tal que há dias rumino esta fala do cavalo do jovem herói do conto infantil russo “O pássaro de fogo” quando algo errado acontecia. A frase cai como uma luva nas mentes chegadas a um catastrofismo como a minha embora no conto tudo acabe bem no final.

Só para ilustrar a maré, duas historinhas. Das mais amenas, porque isso aqui é mas não deveria ser muro das lamentações.

Sempre fui chegado a uma furadeira e empresto meus atributos de brocador. Atributos desmoralizados quando esta semana consegui fazer jorrar água com precisão de mira a laser em dois canos em duas paredes de um mesmo banheiro.

Sempre fui o preparador de ovos mexidos da casa deste quando éramos dois. Hoje somos cinco e o ritual começa com ovo por ovo despejado num copo antes de ir para a frigideira depois de avaliado. Resolvi colocar direto e pela primeira vez na vida misturei um goro, o último.

Viver é sempre  arriscoso mas tá na hora desta maré virar.

O jeito é ir para onde tenha sol, como diz a velha canção do Júlio Nastácia. O jeito é ir para o Pratigi.

É pra lá que eu vou.

O céu, as grávidas, o quartzo, a fila no Aristisdes Maltez e o mineiro

12/01/2015

20150111_191819
Impossível não olhar para o céu de Salvador nestes dias, especialmente ao entardecer. É preciso dizer, os dias estão lindos, o tempo chama pras ruas – não é à toa que a Barra está entupida de gente – pra areia, pro litoral. Tento sintonizar estas coisas, afinal estou em férias, é Verão e a vida tem que ser bela.

Mas meus olhos incutidos cismam em olhar em outra direção. É como quando frequentei o curso técnico em Geologia, quartzo, feldspato e mica me saltavam aos olhos nos paralelepípedos. Quando trabalhei na Coelba, de repente as subestações ficaram todas visíveis. Nas três gravidezes de Soraya, o mundo inteiro engravidou junto.

Talvez por isso, por essa sintonia destes dias,  hoje às 5 e meia da manhã recebo o bom dia de uma fila de mais de quatrocentos metros na porta do Aristides Maltez, semelhante àquela de 2013, registrada aqui.

Impossível não ver a fila, impossível não se incomodar nestes dias em que de alguma maneira estou nesta fila, frequento a rede pública de saúde. E minha cabeça, apesar deste céu de janeiro, não deixa de latejar com perguntas quase infantis.
Por que é assim? por que tem de ser assim? por que não muda? o que precisa ser feito para mudar?

Vou continuar, mesmo sem resposta,  me incomodando, incomodando você. Difícil acostumar com isso.

É mais ou menos  como naquela velha piada do mineirinho, esbaforido e agoniado diante do compadre:
–  Corre, vem ver, tem um mulherão  tomando banho pelada ali na lagoa.
–  Uai, até parece que você nunca viu mulher nua, retrucou o compadre.
–  Claro, uai, já vi muitas. Mas nunca me acostumei.

O dia de Irismar Reis

06/01/2015

Assim como as cartas de amor, os posts confessionais são ridículos. Especialmente com o passar do tempo. Mas como bem acusou o poeta, posso revidar e chamar de ridiculo que nunca os cometeu. Invoco também Nego e Pierre Onassis e autorizo: pode falar, pode rir de mim.

Segue então, texto escrito há sete anos, num dia como hoje, de Reis. Talvez não hoje não o escrevesse com estas palavras, mas dele não retiro uma vírgula do sentimento.

Hoje é dia do Santo Reis

E do aniversário de Irismar Reis de Oliveira, uma das pessoas mais importantes da minha vida. Tia Maria foi advertida pela professora que aquele garoto calado e distraído tinha algum problema. Hoje, tia conta esta história com o orgulho de mãe coruja elevada à décima potência como ela sempre foi. De fato, o menino era especial e se tornou também um adulto especial. Virou médico, mestre, doutor, professor livre docente, ganhou o mundo e  e continua um garoto distraído e sangue bom.
– Vamos Marcus, levanta!
Era uma ordem firme e carinhosa para me tirar  da prostração, do buraco existencial de uma bruta depressão em que me meti quando tinha 20 e tantos anos e que de lá não sairia não fosse a sua ajuda. Além de me acompanhar em todo o tratamento, ele saía da sua casa na Federação e ia até o Garcia me arrancar da cama, levar para andar na Barra, devolver em casa para só então seguir sua rotina na universidade.
O que dizer a um cara desses hoje e sempre?
Parabéns! E, mais uma vez, obrigado!

Volta pra casa

23/12/2014

Das festas impositivas Natal é a mais estressante. Tudo se afunila e todos os prazos são dia 23, com várias confraternizações pelo meio e a melosidade das boas intenções dos cartões e das mensagens. Pra piorar, cinco dias depois vem a festa cujo imperativo é ir para algum lugar.

Mas o que fazer? Entrar no clima.

E desta maneira, neste embalo de balanços de fim de ano, faço também minha promessa de ano novo, motivado por um provérbio chinês visto advinha onde? Numa mensagem publicitária de Natal:

“Antes de começar a reformar o mundo, dê três voltas em sua casa”.

Parece fácil de cumprir, mas a facilidade é enganadora. Especialmente quando você lê sua casa como seu corpo, sua alma, seu ponto de vista.

Desejo então para 2015 mudanças profundas na casa de todo mundo.

Promessas

27/10/2014

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Votei nulo. Não acreditei nas promessas de melhoras no país feitas por ele. Não acredito nas mudanças prometidas por ela, a imagem daquela galera ao fundo na coletiva, a turma aliada, sustenta com folga minhas dúvidas.
Mas vi nas ruas ontem uma grande festa desde cedo. Além do céu azul, do mar delicioso e dos aviões de carreira sobre o mar de Ipitanga a apontar necessidades de maiores viagens interiores.
Vivemos hoje num país onde, bem ou mal, as pessoas decidiram a política no voto, uma alma, um voto.
Minha alma pede mudanças interiores, primeiro. Tenho dúvidas sobre vitórias aqui também.
Como os políticos, mantenho as promessas.

Um bom lugar

27/04/2014

palacio - Cópia

Seu Ari, ontem neste lugar só faltou você. Pessoas, música, poesia. E tudo quase por acaso, do meu ponto de vista, é claro. Dizem, texto adjetivado e repetitivo perde a força. Mas eu preciso completar: pessoas fantásticas, música e poesia absurdamente boas e da mais alta qualidade, papo gostoso. Uma tarde de sábado inesquecível. Só faltou você.

E tudo quase por acaso, do meu ponto de vista, é preciso repetir.

Foi uma tarde de muitas designorâncias pra mim. Aprendi, por exemplo, que Sábado em Copacabana é de Dorival Caymmi. E não é que a letra cabe direitinho ali?

“Depois de trabalhar toda a semana
Meu sábado não vou desperdiçar
Já fiz o meu programa pra esta noite
E sei por onde começar”

Cheguei atrasado para a homenagem a Manoel de Barros, mas a ponto de ouvir o último poema. Bem sacaninha:

“Êta mundão
moça bonita
cavalo bão
este quarto de pensão
a dona da pensão
e a filha da dona da pensão
sem contar a paisagem da janela que é de se entrar de soneto
e o problema sexual que, me disseram, sem roupa
alinhada não se resolve.”

E as pessoas reclamam muito da falta de homenagens a Caymmi no centenário. Mas é nestes pequenos encontros, neste formato intimista é que as homenagens são mais verdadeiras.

E para ficar no lugar comum, Alexandre Leão deu um show, ali na voz e violão, botando o público pra cantar, falando sobre as músicas.

Gosto muito da casualidade destes eventos pequenos, sem muita pompa, sem ingresso, sem multidão. São uma boa forma da gente ter nosso imposto revertido em serviço.

E este formato parece mais com a vida cotidiana. Ali sentado, tomando um vento, olhando as árvores e diante de pessoas talentosas, produtivas, vivas. Depois um papo com os amigos, sem ter marcado, sem compromisso, falar mal da oposição, falar mal do governo, falar mal e bem dos outros, conversar sobre as crianças, sobre a vida.

Aqui em Brotas, no Engenho Velho, temos um espaço parecido e sinto a mesma coisa quando vou lá no Parque Solar Boa Vista. O lugar é ocupado pelas pessoas do bairro, tem sempre alguma coisa acontecendo.

Enfim seu Ari, ou Meu Rei, seu súdito aqui agradece e muito a tarde de sábado no seu, no nosso palacete. Estou acompanhando seu cronômetro, quando passar a maresia, quero ir de novo num sábado qualquer neste bom lugar pra gente jogar conversa fora.

 

A maldição da coruja

24/04/2014

Sou agnóstico mas busco Deus em tanta bala, tanta morte matada, mais de cem neste abril. Escuto pipocos, mais de cem. Conto as mães, mais de cem. Mais de cem é a  metade de mortes da boate incendiada no Rio Grande do Sul. E menos de um milésimo da atenção minha, sua, de todo o mundo.

Afora aqui e ali, os jornais silenciam, as pessoas silenciam. São todos “malas sujas”, gente que não presta, aprendi esta nova definição em Feira de Santana. E mala suja não é gente, não merece a minha e a sua empatia,  não é notícia. A não ser nos programas e sites e blogs  do chamado jornalismo abutre. É só dar um google  pra sua tela sangrar.

Mas acredito piamente na reverberação de toda esta dor. Ela volta pra gente, mais cedo ou mais tarde. Ela também nos cabe.

Também não acredito nos maus presságios das corujas. Mas Iaçu, cidade de menos de 30 mil habitantes, uma das muitas Macondos da Chapada Diamantina,  teve ontem mais um assassinato e duas crianças baleadas.

Mas os maus presságios de uma coruja  e uma piada do cantor de trio Bell sobre Iaçu repercutiram muito mais do que o assassinato e duas crianças atingidas por balas na Portelinha, conjunto habitacional com nome de bairro de novela, na  margem direita do Paraguaçu, perto da coruja.

E repercutiu muito menos ainda uma acusação de estupro, também na Portelinha, no início do mês. Acusação seguida de julgamento e morte do acusado dentro de uma cela da delegacia da cidade, rito sumário. Detalhe: o exame de corpo de delito, soube de fonte confiável, não confirmou o estupro, mas o trapo humano executado teve as pernas amarradas para caber no caixão.

E o  que eu e você temos a ver com isso?

Pressinto, creio que vai sobrar pra gente. Já sobrou. Sobrou conviver com a reverberação de toda essa dor, com a reverberação deste ritual praticado na delegacia por gente de 18, 20 anos. Ou pelo menos com a tal banalização, talvez mais grave ainda.

Estamos todos no mesmo barco. Eu, você, os moradores acusadores da Portelinha, o delegado de Iaçu, os jovens carrascos, as crianças baleadas. O barco é um só e muita gente não entendeu ainda.

Não disseram que estamos todos juntos nesta linda passarela de uma aquarela que um dia enfim descolorirá?

Tá acelerado este processo.

A gente se vê por aqui

05/04/2014

Tenho vivido insônias rolando a barra do facebook. Sem falar nada, curtindo aqui e ali. Antigamente era a tv, ligada muitas vezes sem som. Observava as pessoas, o mundo na tela.
Aqui as pessoas se revelam. De uma maneira diferente do que imaginam se revelar. E eu também me revelo. Também de uma maneira diferente do que imagino. E nesse jogo de espelhos seguimos todos, com muitas impressões, mais perto ou bem mais longe da realidade.
Gosto, gosto muito de muitas pessoas daqui. Gosto especialmente das que se escancaram, se arreganham, são gente.
Não vou negar que na minha tela passa muita bobagem. Ninguém tem mais de 100 amigos no facebook impunemente. Encaro o cascalho com a esperança e a alegria de encontrar aqui e ali o melhor, o mais humano, o mais comovente, o mais belo da natureza humana, que muitas vezes nem é o mais belo, se é que você me entende.
Pode falar, pode rir de mim, mas aqui encontro literatura da melhor qualidade, poesia da melhor qualidade, fotografia idem, humor, música, gente também.
Isso aqui lembra a leitura de um papiro, de um pergaminho. Acho que nem cheguei na idade média. Um dia, quem sabe, renascerei.

No facebook

Cadeira

27/03/2014

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Calção, camiseta, havaianas. Fui até o cinema da UFBA buscar Luísa no estacionamento mas por conta de um desencontro acabei na antessala do cinema. Com a roupa que costumava assistir aula ali do outro lado do vale. O dobro da idade e quase o dobro do peso não pesaram e eu não me senti deslocado com esta roupa inadequada, como não me sentia na época de estudante. No cinema acontecia um debate depois da projeção do filme Iara e da sala saiu um candidato a reitor, meu contemporâneo. Estou velho, um contemporâneo pode ser reitor. Mas eu ali de calção e havaianas me sentia um aluno convidado, me sentia bem, de bem com a atmosfera. A universidade está um pouco mais miscigenada mas continua predominantemente branca. Encontrei André Santana, encontrei o artista gráfico Marcos Costa, eu me senti em casa apesar dos muitos anos depois. Agora Luísa tem aula ali. Fui um cara privilegiado, tive aula no primário numa escola pública, num curso técnico público, e numa universidade pública. Foi bom ver a universidade viva, com alma, com viço e ainda acolhedora. Como esta cadeira da antessala do cinema.