Archive for the 'Cidadania' Category

Cumeadas

18/12/2016

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Saí ontem caipiroskado de uma confraternização de trabalho. Fim de tarde, temperatura agradável, resolvi voltar para casa a pé.

Andei 3,5km  mas atravessei cidades ao ir do Cidade Jardim, pela ladeira da Cruz da Redenção,  até o Acupe de Brotas. Da perspectiva de pedestre a gente enxerga melhor a cidade, especialmente as pessoas.

Na avenida de vale, só prédios e carros, muitos carros, raros caminhantes, raras mulheres, um cenário definido por  João Ubaldo Ribeiro como Los Angeles de pobre.

Ladeira também semideserta. Mas no topo, a pracinha do Largo da Cruz da Redenção fervilha.

Com Lelé, o arquiteto que gostava de gente, aprendi uma palavra bonita para definir estas partes altas da cidade, onde as pessoas ainda andam pelas ruas e convivem:  cumeadas.

Dia de Josef K.

27/11/2016

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Tudo começou mal por causa da diferença de expectativas. Eu me sentia a vítima – fui furtado e levado debaixo de vara, ou conduzido coercitivamente, porque confundi a data da primeira audiência – confundir datas é uma das minhas especialidades. E o juiz estava só aguardando a hora de passar um sabão no fugitivo da justiça: “Tive que botar a polícia atrás do senhor”
 
Colocado diante do sujeito do outro lado do vidro, via nele traços parecidos com aquele que pedia piedade sob o pé de um cara com uma pistola apontada para a sua cabeça, depois de ter roubado o celular na mão de Maria na Piedade, saído em disparada, mas capturado graças ao meus gritos de pega, pega em carreira atrás dele.
 
Mas eu não tinha a menor condição de dizer se aquele ali era o mesmo daquele dia. Tenho uma dificuldade absurda de reconhecer faces, vivo a dar fora nessa vida, por muitas vezes sustento sorriso amarelo e conversa incompleta até descobrir, ou não, quem é aquela pessoa com quem já tive contato mas não faço a mínima ideia de quem se trata.
 
Caí na besteira, por sugestão do policial designado para me conduzir, de enviar mensagem ao doutor juiz por um dos auxiliares, pedindo antecipação do depoimento para não perder um exame marcado do outro lado da cidade, já que eu havia sido comunicado da audiência na noite anterior. “Se tivesse vindo na primeira, até poderia ser”. Este recado deveria ter sido captado como um sinal.
 
Mal comecei a falar, fui interrompido pelo menos duas vezes com a advertência de me me limitar a responder o que ele perguntava, sim ou não. Contive minha habitual verborragia. Não adiantou. Como eu não podia garantir 100% se tratar da mesma pessoa, o juiz perguntou se eu o havia reconhecido no dia da prisão.
 
Na delegacia não houve um reconhecimento formal, expliquei, como havia acontecido há pouco. Havia sido levado na mesma viatura mas ao chegar, ele foi para um lado e eu para o outro.
 
Como se não tivesse ouvido, fez novamente a pergunta, duas, três vezes e eu mantive a resposta duas e três vezes. Aí ele encrespou, passou o sabão dele, citou minha profissão, onde eu trabalhava, e em seguida reafirmou que eu tinha que falar a verdade. Falei novamente.
Ele levantou e saiu da sala irritado. Busquei apoio nos demais ao me queixar da tratamento mas recebi de volta o silêncio do defensor, do escrivão, de uma auxiliar e de um sujeito sentado à frente, numa poltrona, não sei por que estava ali.
 
Senti que se eu tivesse dito uma palavrinha fora do tom, seríamos dois a voltar para a casa de detenção.

 

 

Imagem daqui.

 

 

 

Condução coercitiva pra chamar de minha

23/11/2016

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Nunca vá ao encalço de um ladrão de celular, especialmente se você tem mais de 55 anos  e IMC acima de 32. Ele pode se voltar e lhe quebrar na porrada, pode haver um cúmplice por perto e  lhe quebrar na porrada e ainda pode acontecer o pior de tudo: o ladrão ser preso.

Aí lenhou total. Pra ele e pra você.
Foi o que aconteceu comigo, contei o começo de tudo aqui.

Já havia esquecido da história e recebo em casa a simpática visita de uma oficial de justiça com a intimação para eu ir ao tribunal,  prestar novo longo depoimento, agora perante o doutor  juiz.  A tarde perdida  na delegacia naquele domingo valeu nada.

O problema é que só lembrei da tal audiência no dia seguinte à data marcada. .

Comentei com minha advogada, minha porque senta ao meu lado no trabalho, e ela me aconselhou a  ir até lá e dar satisfação ao doutor juiz, logo. Como ela sabia o que estava falando, coloquei a ida como prioridade, faz uns bons dias. Mas lista de prioridades de procrastinador vive eternamente em idade de crescimento.

E eis que meu hipocampo comprometido pelo DDA  tomou novamente a dianteira e, de posse da informação de que a justiça baiana é a mais lerda do país, calculou que eu só seria convidado a depor novamente lá por 2056, tempo  mais que suficiente para um zignal eterno.

O problema é que nossa  justiça falha mas de vez em quando e logo comigo não tarda.  Fui avisado hoje no começo da noite por um  simpático policial, que amanhã irei  testemunhar na marra neste importante processo de furto de um celular na Praça da Piedade.

De vítima passei a testemunha. E  agora a  réu, quase um Josef K. a ser conduzido coercitivamente amanhã até o senhor juiz.

Logo amanhã de manhã, quando duas tarefas atrasadas e dois procedimentos médicos sairiam finalmente da lista de prioridades…

 

Imagem daqui.

Made in Boiadeira

18/11/2016

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A Boiadeira é um bairro violento, na violenta Iaçu, como a maioria das pequenas cidades do interior. Bairro pobre, de uma cidade pobre, como quase todas as cidades do interior da Bahia.

Mas ao ler rótulo de uma barrinha de cereal Naturita, por acaso comprada na mão de uma amiga que está revendendo o produto aqui em Salvador, tive a surpresa. A barrinha é produzida numa cooperativa de Itaberaba, na unidade de produção da cidade vizinha de  Iaçu, na  Boiadeira,  na beira do Paraguaçu, nas margens da pista  em direção a João Amaro e Itaetê.

E por que eu li as letrinhas do rótulo? Porque eu me espantei com a qualidade. O  design, o sabor, a variedade. De longe a melhor barra de cereal que experimentei nos últimos anos. Aprovada também pela renca aqui em casa.

Dou uma googlada e vejo que  a fábrica é um investimento de R$ 1 milhão do Fundo Estadual de Combate e Erradicação à Pobreza (Funcep), foi inaugurada há um ano e fornece as barrinhas também para a merenda escolar.

Um milhaozinho, troco na ordem de grandeza dos  esquemas cotidianos de corrupção, possivelmente está mudando a vida de centenas de pessoas.

Página da cooperativa no  facebook.
Se quiser experimentar aqui em Salvador: 99920-0262 (Fátima)

Notícias de Salvador, notícias do front

03/08/2016

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Começo o dia de trabalho numa geral pelas notícias de Salvador, via google. E dou de cara com essa, de ontem. E marejo. Já havia visto ontem o filme da chegada da motocicleta, da saída da motocicleta. No intervalo, os tiros. Mas o olhar do garoto hoje me pega. Tem um quê do olhar do meu filho. Leio o lamento dos pais. O que ainda cabe na definição tragédia hoje? E fico aqui, marejado e impotente. Reclamar de quem? Reclamar de quê?

O medo é uma merda

03/07/2016

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Hoje senti medo da minha Piedade, da minha Carlos Gomes, da minha Castro Alves. Nunca, em décadas, havia sentido o que senti hoje. Temo muitas coisas, temo o futuro, temo as contas no fim do mês, temo a pressão alta, temo a balança, o ódio político, a ignorância, temo brochar, a falta de assunto no elevador, mas as ruas desta minha cidade inaugurei temer somente hoje.

Era um medo acumulado, já instalado e não notado. O gatilho havia sido disparado há mais ou menos um mês. A praça da Piedade tomada de moradores de rua, dois deles brigando, e eu indiferente, orientava Maria como fotografar melhor a fonte luminosa, os heróis da Conjuração Baiana, no cumprimento de uma tarefa escolar.

O celular foi arrancado da mão da menina num  bote rápido e certeiro. Sem pestanejar – pra que diabos fiz isso até agora não sei – parti no encalço do sujeito aos berros de pega, pega. Já voltava ofegante, humilhado e puto como a gente se sente nestas horas, quando alguém gritou: pegaram. O cara acabou no chão, com uma pistola apontada para a cabeça e o pé de um policial à paisana sobre as costas.

Fui  obrigado a seguir para a delegacia para cumprir o ritual do flagrante. No ponto em que as coisas chegaram, não havia mais como negociar a devolução do aparelho e liberar o sujeito. Segui com três policiais e o cara choramingando, pedindo clemência na mala da viatura, enquanto no rádio começava Vitória e Atlético MG.
– Fique quieto rapaz, se o Vitória tomar um gol aqui você vai ver o que é bom.
Passei a torcer pelo Vitória, pelo menos até a chegada à delegacia.

O gordo valentão que partiu pra cima de um miserável que arrisca ter que matar, ferir, apanhar, ou morrer por causa de uma porcaria de celular hoje percorreu as ruas do centro acuado. Não teve coragem de  caminhar  e fazer fotos como sempre. Descer do carro para ir ao Centro Cultural da Caixa com Soraya e Maria foi uma operação calculada, precedida de checagem de quem vinha, de quem ia. Ir depois ao Cine Glauber Rocha tomar um café, outra operação cercada de atenção.

Apesar da realidade gritar o contrário, nunca senti medo nas ruas. Sempre me achei parte da cidade.Morei na Senador Costa Pinto, no Largo 2 de Julho, me sentia imune, um sujeito da área. Achava estranho o texto de um amigo que certa vez me disse que seu grande prazer de ir à Europa não era visitar museus, catedrais, concertos. Era simplesmente andar tranquilo pela rua, sem medo de ser assaltado.

É uma pena ter que me render à realidade,  algum temor  é até útil como prevenção.

Mas talvez o medo seja pior que a violência consumada, porque é uma violência latente, permanente, corrosiva. O medo é uma merda. 

 

 

 

 

 

ZIP

14/01/2015

Nao é permitido

– Não me bate que eu não sou vagabundo, nem ladrão, nem ‘estrupador’.
Quatro da manhã deste domingo na emergência lotada do Hospital do Subúrbio, a lógica torta do paciente surtado e com o maxilar fraturado soava aos brados em protesto contra o policial que lhe aplicava sopapos como calmante depois dele se desamarrar da maca mais de uma vez. Espancar em vez de conter um paciente surtado não cabe no manual de nenhum hospital. Nem se ele fosse ladrão ou estuprador.

Quem viu a barata foi Dan, cabelo estilo Neymar, que recebeu uma bala  saída de um cano de revólver enfiado na boca e está há mais de trinta dias estirado lutando para quem sabe sair do hospital tetraplégico. Coberto de escaras, passou o dia quase todo sem ser trocado. Diante do apelo de quem não aguentava mais as solicitações do rapaz, um som esganiçado saído do buraco da traqueostomia, a funcionária argumenta: é esse aí que rouba o seu celular.

A barata foi devidamente esmagada por Soraya, reincidente no gesto de matar barata, uma na emergência outra na enfermaria.

Depois de solicitar algumas vezes a troca da bolsa de urina cheia de um paciente, a acompanhante ouviu a resposta irritada da funcionária: tá cheia mas não vai explodir. Madrugada, mesmo paciente com diagnóstico de pneumonia está completamente molhado, é solicitada uma troca de roupa de cama. Negativo. É só uma por dia, há problemas na lavanderia. O copo descartável também tem que durar o dia inteiro.

Claro, há atendentes atenciosas, médicos também. E o aspecto geral do hospital não é ruim, melhor até do que enfermarias de outros hospitais da rede privada. Mas há uma  distância entre o que o hospital propaga e a realidade. As pessoas sabem disso. – Isso aqui é igual ao Itaú, diz um, só tem estrela. – Na televisão é tudo maravilhoso, diz outro. E as pessoas reclamam, sim, mas o protesto chega a lugar nenhum.

Depois de cinco ou seis dias em observação, paciente com diagnóstico de pancreatite foi informado de “alta” até o surgimento de uma vaga para cirurgia. Caso piorasse, poderia voltar. Rodou a baiana e a biblia, ameaçou  um abaixo-assinado com  os irmãos da igreja, lembrou que aquilo ali era bancado por seu imposto, que até numa caixa de fósforo a gente paga imposto.

Ele tem toda a razão. O imposto da caixa de fósforo e de tudo o mais consumido por nós integrantes do universo dos  ZIP, aquele formado pelos Zero Important People, é juntado centavo por centavo até completar R$151,5 milhões anuais mensais, ou mais de R$400 mil/dia para os 313 leitos, entregues à empresa privada que administra o hospital, segundo matéria publicada na revista Época no início do ano passado.

Se levarmos em conta a revista e instituição acreditadora contratada, o Hospital do Subúrbio beira o paraíso do atendimento público. Não foi o que vi e ouvi nestes dias.  Na foto aqui publicada, Peterson tenta falar com o irmão internado e a mãe acompanhante. Veio de Itacaranha, neste sol de Verão, mas foi barrado na porta porque estava de camiseta, vestuário integrante da lista de proibidos afixada na entrada. Neste mesmo dia vi jalecos brancos passeando fora do hospital, o que do ponto de vista de segurança hospitalar parece bem mais grave.

As duas barras nas cores amarela e preta com a corrente que aparecem na foto é para organizar a fila das visitas. A regra é clara: só duas visitas por dia e uma por vez, das 15 às 17 horas. Próximo de três da tarde o segurança dá um grito para as pessoas se levantarem e entrarem em fila para o início da operação de entrada. O clima é de uma mistura de reformatório com quartel em ordem unida. Um paciente murmura, nem no hospital de  Irmã Dulce é assim. Lá não tem limite para visita.

O hospital fica a cerca de 25 km do centro da cidade, o acesso é difícil, pela BR, mas os horários de troca de acompanhantes são rígidos: 8 às 9, 13 às 14, 18 às 20h30. Fora deste horário, que não coincide com o de visita, tem que falar com a assistente social uma via crucis ainda não vencida por mim desde ontem.

Enfim, todo este relato aqui foi feito na esperança de chegar a quem pode avaliar o que está acontecendo. Meu amigo Ronaldo Jacobina, que tem acesso ao círculo VIP, marcou no penúltimo post o secretário de saúde do Estado, integrante do seu círculo de amigos no facebook.

Eu então me animei  com a possibilidade de escuta e detalho aqui hoje mais alguns episódios, na esperança de alguma  coisa ser feita para diminuir a distância entre a fantasia das matérias encomendadas  e a realidade, dura realidade de quem pertence ao círculo ZIP.

Somos todos Paris ou Periperi?

10/01/2015

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O grito é de mãe.
– Ele é diabético, ele está vomitando sangue.
O grito sai às oito horas da manhã, depois de mais de quatro horas de espera e zero atendimento. Comecei a filmar, de longe.

Um grupo maior do que o do atendimento, formado por funcionários, seguranças e policiais se armou em torno de mim. Apaga, não apaga. Não havia  imagem especial nenhuma, apenas os gritos da mãe, mas apagar aquele material era questão de honra para eles.

Manter também pra mim era, especialmente diante dos argumentos de que eu não tinha nada a ver com aquilo, que o meu paciente já estava internado, que mal agradecido que éramos, eu e Soraya, fazendo tumulto.

Sim, nosso paciente já estava internado. Mas isolado por 10 horas, sem que uma informação sequer fosse passada. Informação finalmente conseguida a fórceps depois de um noite de vigília. Informação obtida por conta dos argumentos pouco usados ali, de alguma maneira fomos privilegiados por manusear palavras.

Aquele  hospital com fachada aparentemente moderna, forma um círculo  de isolamento, uma linha de acesso, difícil de ser transposta. Esta noite estava lotado, dizem sempre estar lotado.

E quem consegue entrar, transpor a barreira do atendimento, cai num território isolado, onde o único direito dado a quem fica de fora é esperar até 15 horas do dia seguinte para ter acesso a alguma informação.

Madrugada. O homem com  afundamento de crânio perdeu a paciência, arrancou o acesso, pegou suas coisas e foi-se embora, acompanhado pela mulher.

No grito, um porteiro conseguiu internar a mulher na madrugada, depois de ter ficado manhã, tarde, noite fora da linha de acesso, a porta que separa atendimento e espera, a porta que não dá acesso a informação alguma.

Nos últimos dois dias eu havia matutado sobre Paris, sobre liberdade, fraternidade, igualdade. Essas coisas de uma Europa  pré-1800 que ainda não chegaram ao círculo de isolamento e micropoder do hospital do subúrbio, em Periperi desta noite de 2015 na Bahia.

E o que mais incomoda nem é a situação, o mau atendimento, o exercício de poder pelos  porteiros, seguranças, assistentes sociais. O que incomoda é a grande farsa no site do hospital. Dois mundos, o mundo do site, com missão e visão de belas palavras. Bela viola.

Levado a uma sala do posto policial e na iminência de ser conduzido a uma delegacia, cedi. Humilhado, tomei a decisão, apaguei o grito da mãe. Alívio geral, me estenderam a mão e eu apertei a mão de todos, estava estabelecida a síndrome baiana de Estocolmo.

Olho os jornais de hoje e  eles só falam de Paris. Da liberdade agredida em Paris, da violência em Paris. Sim, como ficar indiferente a tanta violência em Paris?

Difícil  entender também como ficamos indiferentes a tanta mentira, farsa e violência 24 horas por dia, ali, em Periperi.

A maldição da coruja

24/04/2014

Sou agnóstico mas busco Deus em tanta bala, tanta morte matada, mais de cem neste abril. Escuto pipocos, mais de cem. Conto as mães, mais de cem. Mais de cem é a  metade de mortes da boate incendiada no Rio Grande do Sul. E menos de um milésimo da atenção minha, sua, de todo o mundo.

Afora aqui e ali, os jornais silenciam, as pessoas silenciam. São todos “malas sujas”, gente que não presta, aprendi esta nova definição em Feira de Santana. E mala suja não é gente, não merece a minha e a sua empatia,  não é notícia. A não ser nos programas e sites e blogs  do chamado jornalismo abutre. É só dar um google  pra sua tela sangrar.

Mas acredito piamente na reverberação de toda esta dor. Ela volta pra gente, mais cedo ou mais tarde. Ela também nos cabe.

Também não acredito nos maus presságios das corujas. Mas Iaçu, cidade de menos de 30 mil habitantes, uma das muitas Macondos da Chapada Diamantina,  teve ontem mais um assassinato e duas crianças baleadas.

Mas os maus presságios de uma coruja  e uma piada do cantor de trio Bell sobre Iaçu repercutiram muito mais do que o assassinato e duas crianças atingidas por balas na Portelinha, conjunto habitacional com nome de bairro de novela, na  margem direita do Paraguaçu, perto da coruja.

E repercutiu muito menos ainda uma acusação de estupro, também na Portelinha, no início do mês. Acusação seguida de julgamento e morte do acusado dentro de uma cela da delegacia da cidade, rito sumário. Detalhe: o exame de corpo de delito, soube de fonte confiável, não confirmou o estupro, mas o trapo humano executado teve as pernas amarradas para caber no caixão.

E o  que eu e você temos a ver com isso?

Pressinto, creio que vai sobrar pra gente. Já sobrou. Sobrou conviver com a reverberação de toda essa dor, com a reverberação deste ritual praticado na delegacia por gente de 18, 20 anos. Ou pelo menos com a tal banalização, talvez mais grave ainda.

Estamos todos no mesmo barco. Eu, você, os moradores acusadores da Portelinha, o delegado de Iaçu, os jovens carrascos, as crianças baleadas. O barco é um só e muita gente não entendeu ainda.

Não disseram que estamos todos juntos nesta linda passarela de uma aquarela que um dia enfim descolorirá?

Tá acelerado este processo.

Cadeira

27/03/2014

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Calção, camiseta, havaianas. Fui até o cinema da UFBA buscar Luísa no estacionamento mas por conta de um desencontro acabei na antessala do cinema. Com a roupa que costumava assistir aula ali do outro lado do vale. O dobro da idade e quase o dobro do peso não pesaram e eu não me senti deslocado com esta roupa inadequada, como não me sentia na época de estudante. No cinema acontecia um debate depois da projeção do filme Iara e da sala saiu um candidato a reitor, meu contemporâneo. Estou velho, um contemporâneo pode ser reitor. Mas eu ali de calção e havaianas me sentia um aluno convidado, me sentia bem, de bem com a atmosfera. A universidade está um pouco mais miscigenada mas continua predominantemente branca. Encontrei André Santana, encontrei o artista gráfico Marcos Costa, eu me senti em casa apesar dos muitos anos depois. Agora Luísa tem aula ali. Fui um cara privilegiado, tive aula no primário numa escola pública, num curso técnico público, e numa universidade pública. Foi bom ver a universidade viva, com alma, com viço e ainda acolhedora. Como esta cadeira da antessala do cinema.

Moro sobre um crime ambiental batizado com nomes de jardins botânicos europeus

13/02/2014
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Imagem do Google Maps em 13/02/2014

O Google está desatualizado. Esta imagem copiada hoje mostra uma das maiores áreas verdes do Bairro do Acupe de Brotas, sobre a qual desenhei a olho a poligonal vermelha. Nesta poligonal, em agosto de 2009, ou seja, há quatro anos e meio, começaram a erguer um condomínio residencial com seis torres de 25 andares cada.

A história da construção  me intriga e me motiva a buscar, com a ajuda de vocês destas tais redes sociais, algumas respostas para umas perguntinhas básicas.

Pausa para algumas informações.

No dia 31 de agosto do ano passado, a promotora Hortênsia Pinho solicitou que a Justiça determinasse a suspensão das obras, dos efeitos da licença ambiental concedida pela prefeitura, a proibição da comercialização dos apartamentos, a demolição parcial das construções e a reparação dos danos ambientais, em ação ajuizada no Ministério Público Estadual.

No texto da divulgação da ação , publicado no site do MP, também é dito que as denúncias de irregularidades ambientais foram apuradas pelo MP em 2009, “quando foi instaurado inquérito civil e feita posterior proposição às empresas de Termo de Ajustamento de Conduta (TAC). O objetivo do Termo era promover a restauração ecológica da área degradada, a elaboração do EIV, e custeio de projetos ambientais ou aquisição de área preservada com três hectares de Mata Atlântica, no valor de R$ 3 milhões.”

Como estou escrevendo este texto na varanda de um dos 600 apartamentos construídos, significa que moro sobre um crime ambiental ainda sem castigo para as empreiteiras Arc Engenharia Ltda.,Brotas Incorporadora Ltda, PDG Reality S.A. Empreendimentos e Participações, e Agra Empreendimentos Imobiliários, parceiras na empreitada.   Quem começou a obra executada pela Arc foi a Brotas Incorporadora, vendida para a Agra, vendida para a Agre, vendida para a PDG.

As empresas foram acusadas de infringir a legislação ambiental e urbanística municipal. Segundo o MP, “as torres foram erguidas em Área de Preservação Ambiental Permanente (APP) e em Área Arborizada (AA) protegida por previsão expressa no PDDU, o que resultou no desmatamento total da vegetação sem qualquer autorização e no aterramento ilegal de recursos hídricos de bioma Mata Atlântica. O terreno ocupado irregularmente corresponderia a mais de 36 mil metros quadrados de área construída, ou duas torres e meia do empreendimento.”

Ironicamente, o crime ambiental contra a nossa Mata Atlântica foi batizado de Pátio Jardins e cada uma das torres recebeu o nome de um jardim botânico Europeu:  Montpellier,  Paris,  Pisa,  PáduaBolonha e Basel.

Aí você me pergunta. Que diabos você quer futucando esta história? Você não está morando, gostando, feliz com sua vista para o que restou da mata?

Explico. Já que a merda foi feita pela metade, vamos entender o que aconteceu para evitar que se repita com o que restou da área verde. Sei que estou agindo como paises europeus ou EUA, que depois de destruir suas matas, querem preservar as matas dos vizinhos.

Mas se alguém não colocar um freio, não vai restar folha sobre folha.

Vamos às perguntinhas básicas:

Por que o MP investiga o caso desde 2009 e só depois de mais de quatro anos, depois da obra construída e do leite derramado resolveu ajuizar a ação?

Como foi obtida a licença da prefeitura já que a área é de preservação?

Em que pé está o processo?

Quanto da área remanescente é ainda de preservação?

Por que o IBAMA não se manifestou, já que no terreno havia nascentes?

O terreno pertencia às famílias de Urbino de Aguiar, que deu nome à rua lateral,  e dos ex-governadores da Bahia Luiz Viana e Luís Viana Filho.  Um morador da Rua Urbino de Aguiar conta que havia um projeto de uma avenida ligando o Ogujá ao Bonocô, mas que foi abortado por Luís Viana para preservar a área. Essa história é verdadeira? onde pode haver informações sobre a origem do terreno?

Alguéns para responder?

Veja se o Google Maps foi atualizado aqui.

Facebook: https://www.facebook.com/gusmaomarcus/posts/10201385580618233?stream_ref=10

PS

Os antigos moradores espernearam mas não teve jeito. A OAS cravou outras 5 torres aqui perto, o City Park Brotas, com 671 apartamentos e acesso apenas em rua de 7 metros de largura para a Ladeira do Acupe. http://sos-acupe.blogspot.com.br/…/afinal-o-que-esta.

Luz, brisa, Brotas

18/01/2014

Fim de tarde de janeiro ilumina a Igreja de Nossa Senhora de Brotas. Ilumina todas as fachadas do asfalto sobre uma das principais cumeadas da cidade.

E seguimos para a nova casa satisfeitos com a luz e a brisa. Satisfeitos por escolher morar num lugar humano, com padarias, botecos, verdureiros, uma infinidade de portinholas de serviços.

Um lugar bacana, apesar do trânsito, apesar dos não-passeios.

Em Brotas brisa mesmo no sol de janeiro. E seguimos satisfeitos sob a luz e os novos ventos destes dias de mudança.

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Dois elogios e um pedido de doação de sangue

27/11/2013

1 – Médicos e profissionais, desta vez, do Português

O sujeito chega escangalhado, vem uma turma pra cima dele e depois de agulhadas e escarfunchadas certeiras, dias de agonia monitorada, fica quase zero bala, pronto para a próxima. 

2 – Planserv
Um plano que funciona, especialmente quando o bicho pega, na necessidade de UTI, de tratamento de complexidade maior.  Os barnabés da Bahia e seus familiares agradecem.

Pedido de doação

Recebemos ontem um telefonema do banco de sangue do Português. Precisam repor o sangue utilizado durante o tratamento de um familiar.

O sangue já foi utilizado, na emergência. O pedido, portanto, é para outra pessoa, pra quem precisar daqui pra frente.

Nossa família é do interior, daí a dificuldade maior.

Se você é doador, fica então o pedido, para reposição do estoque.

Precisamos de quatro doadores, já temos 2.

Sangue O+

( Se for outro tipo de sangue, a cota sobre para 5 doadores. Os AB + estão dispensados)

Endereço: Instituto de Hematologia, da Bahia. Rua da Flórida, 4, próximo ao HSBC. Das 7 às 13, de segunda a sábado.

Paciente: Nicodemos  Alves Moreira.

Gratos.

Rei do tempo

21/11/2013

Vi apenas uma parte da exposição Gil 70, no Palacete das Artes, prorrogada até janeiro de 2014. Do pouco que vi, este vídeo me impressionou muitíssimo. E antigo mas eu não conhecia. Nele Gil aparece  como uma colagem do futuro. Parece aquelas fotos antigas em preto e branco e uma personagem em cores, sobreposta. Fica bem evidente a diferença daquelas pessoas naquela sala, de mundo e de tempos distintos, no discurso, nas roupas, na postura.  O sorriso maroto diante do linguajar empolado da autoridade é impagável.

 

https://licuri.wordpress.com/2013/11/21/gil/

Sou mais macho que muito homem

19/11/2013

Como na música Pagu, minha Soraya foi mais macho que muito homem ao ir pra cima de um PM hoje na defesa dos seus alunos da escola pública no largo da Cruz da Redenção. Tristes cenas, professora levando gravata de policial,  crianças de 15 levando spray de pimenta nos olhos, trabalhadora de salário mínimo da escola pública de muitos anos,  há três meses sem receber salários,   jogada em fundo de camburão. Tudo por conta de uma manifestação pacífica de professores e alunos da escola pública estadual Luis Viana contra a demissão de todas as oito merendeiras depois de três meses sem receber salários. Depois de anos de trabalho.

Sim. É essa a realidade. Todas as oito merendeiras de uma escola pública demitidas depois de três meses sem receber salários, depois de anos de trabalho. Que engenharia de gestão pública é essa,  tão complicada que não consegue administrar o contrato terceirizado e o pagamento de oito merendeiras de uma  escola pública,  demitidas depois de três meses sem receber salários. Depois de anos de trabalho.

Não sei qual a violência maior. Professora levar gravata de PM, aluno de 15 anos levar spray de pimenta na cara, merendeira jogada no fundo de um camburão porque defendeu a filha de 15 anos da violência policial ou oito merendeiras da escola pública demitidas depois de três meses sem receber salários. Depois de anos de trabalho.

PS

Vi agora à noite as cenas da manifestação e da agressão à merendeira na matéria de TV. Amo essa mulher minha. Ela está no lugar certo no mundo, do lado certo do mundo: http://g1.globo.com/videos/bahia/batv/t/edicoes/v/merendeira-diz-que-foi-agredida-por-policial-durante-protesto-em-salvador/2966149/

PS2

A versão de Soraya:

Depois de me agredir fisicamente (segurou meu pescoço e queria bater no meu rosto mas foi impedido pela funcionária e pelos estudantes) porque o responsabilizei pela entrada do ônibus na rua, pelos excessos durante todo o percurso da manifestação, recusou-se a mostrar sua identificação e continuou a truculência. Eles reagiam de forma exaltada, a nos provocar. Qualquer reação desmedida ( se é que palavras de ordem “polílicia é pra ladrão”, significam ação desmedida) era considerada desacato e serviu de justificativa para mais violência. Quem nos protege da polícia?
Não sei como se sentem as vítimas de violência mas a sensação que tenho agora é esquisita. Incômodo diante do tratamento dispensado a D. Célia (esta sim, mulher macho sim senhor, que me protegeu). Pavor diante do que acontece na periferia com a população que a polícia deveria proteger. Fiquei transtornada, me descontrolei ao vê-la na viatura. Ou o pior, sentimento de culpa e de impotência. De que estava errada ou, contraditoriamente, de que deveríamos ter feito mais diante de tanta covardia e autoritarismo. Obrigada, D. Célia, pela solidariedade e coragem. Obrigada meninos. Obrigada colegas e e-amigos.

https://www.facebook.com/soraya.almeida.587/activity/776502235710144?og_perm_src=OPEN_GRAPH_SINGLE_STORY

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Deixa eu ir também, PDG

18/11/2013

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Tem uma história infantil sobre a saga de um menino e um cavalo. Quando os dois se deparavam com uma situação absurdamente difícil e o menino começava a chorar, o cavalo advertia: guarde suas lágrimas, o pior ainda está por acontecer.

Não me lembro do desfecho da história mas este trecho serve de alerta e guia para desesperados e ainda inexplicavelmente  otimistas como eu diante da PDG.

Depois de 2 anos, 45 dias, 20 horas e 35 minutos de atraso, a PDG entregou  finalmente o condomínio no mês passado em assembleia , se livrou da responsabilidade  e passou a convocar os compradores para fazer o financiamento, como se tudo estivesse em ordem.

Só que ainda não está.

A PDG ainda não entregou os documentos necessários para o financiamento. Nem explica o que está acontecendo. Só promete.

As crianças estavam animadas para tomar banho de tanque com os futuros vizinhos dos outros 599 apartamentos da nova morada. Pelo jeito, vou ter que providenciar um tanque menor, como essa aí da foto, para enfrentar o Verão que já se anuncia quente.

Lá em casa somos uma renca de cinco. Ainda tem uma vaga na nossa futura caixa. Vem.

Fui de bike e voltei quebrado

17/11/2013

Testamos ontem as laranjinhas de renca e aprovamos. O único senão é o retrovisor, mais enfeite. A campainha funciona muito bem e as marchas também.
Hoje pela manhã me animei e acordei a patroa para uma jornada mais longa. Saímos da Praça dos Correios, criamos coragem para ir em frente no Jardim de Alá, grave erro, seguimos até a Boca do Rio, passando pelas ruínas do Aeroclube.
Quem vai precisa voltar, não havia dinheiro pra ônibus, só cartão. Já aconteceu algo semelhante quando resolvemos, com Luísa, ainda na cadeirinha, dar a volta olímpica no Parque de Pituaçu. Boiei no km 7, mais ou menos a metade do caminho. Ou voltava ou seguia, dava no mesmo.
Hoje, coração pela boca, pedi menos e um reforçado café da manhã na padaria da esquina da Jorge Amado.
Aos 52, aprendemos que dois tiros sem tirar do pedal precisa de uma parada para repor as energias.
A sorte foi a leve ladeira abaixo do retorno, quando 0,0001 grau de inclinação foi aproveitado para economizar músculos, articulações e artérias já não muito confiáveis.
Impressionado também como esse negócio pegou. As laranjinhas hoje são parte da paisagem móvel da orla. Noto também que as pessoas criaram coragem e estão saindo mais com suas bicicletas. A adesão em massa seguramente vai levar à multiplicação das estações mais rapidamente. Oxalá.

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Prisões

17/11/2013

Preguiça de opinar sobre a prisão dos políticos. Mas se eu fosse chargista eu desenharia uma porta para o inferno com uma imensa fila a e o sete peles escolhendo alguns dos últimos para entrar primeiro na fornalha.
Fica a torcida para a fila andar. E que o diabo tenha senso de prioridade.

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Senhas Aborrecem Cidadão

05/11/2013

Temos aqui na Bahia um tal de SAC, um serviço muderninho de atendimento estatal, que funciona em função do barnabé e não do cidadão.
Preste atenção: se você chega às 21h59 num shopping que fecha às 10 você entra. Se você chega num banco às 15h59, um minuto antes do encerramento do expediente externo, você entra e é atendido independentemente de quantas pessoas estejam lá dentro.
Mas no SAC baiano (PS: pelo menos no serviço que tentei usar) o horário de funcionamento é ficção. Vale mesmo é a tal da senha, cuja quantidade é estabelecida por eles.
Terminou a cota do dia de senha, mesmo duas ou três horas antes do previsto para o fechamento, foda-se você e volte no dia seguinte. Se quiser.

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Conversão difícil

05/11/2013

Tenho problemas sérios de memória com o IPVA, licenciamento, estas coisas geradoras de boletos indesejáveis. 
Para piorar, a Sefaz resolveu retomar a tradição de colocar pessoas da literatura na comunicação e convocou um poeta para a cadeira já ocupada por Guido Lili Passeata Guerra.
E o sujeito em vez se dedicar somente à poesia, que é o seu forte, fica tocando o terror via manchetes de A Tarde, Correio, TVs, rádios, sites, blogs e o escambau, martelando vai ter blitz, vai ter blitz, vai ter blitz.
Tornei-me assim, do nada, graças a essa maldosa campanha de mídia, um cidadão cioso dos seus deveres.
Vou então ao SAC – um inteligente sistema de distribuição de senhas sempre a favor de quem trabalha lá e descubro que as tais senhas são objetos raros nestes dias de caloteiros convertidos e acabam muito cedo, na metade do expediente.
Depois de muito penar pago o bendito IPVA, com uma multa menos salgada do que na blitz, mas sou avisado da espera de cinco dias úteis ou pelo menos 168 horas para os potentes computadores da Sefaz informarem aos potentes computadores do Detran que o cidadão aqui deixou de ser caloteiro do IPVA para só então ficar liberado para pagar o licenciamento.
Enquanto os computadores da Sefaz e do Detran trabalham, vou torcer para não precisar mostrar os documentos.

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Ambivalência

28/10/2013

Sempre achei esta palavra negativa mas hoje fiquei mais amigo dela ao me tornar menos ignorante depois do comentário de Luiz Felipe Pondé, na Metrópole, quando foram citados vários exemplos da nossa natureza ambivalente. Eu me vi ali no que ele falava.
Sou ambivalente sobre Deus, sobre aborto, sobre vícios, e muitas outras coisas sobre as quais pessoas normais nem pestanejam.
E não bastassem estas ambivalências existenciais ainda tem aquelas pequenas do dia-a-dia.
Meu André completa 12 anos na quinta-feira e há algum tempo reivindica o direito de voltar sozinho da escola, uma caminhada de cerca de 1 km. Eu quero deixar, mesmo com medo, mas a mãe resiste.
Hoje resolvemos um meio termo. Ele viria andando a metade do caminho e nos encontraríamos num ponto de passagem. Chego depois do combinado e não encontro o menino. Sigo a pé em direção à escola, esqueço o telefone no carro. No meio do caminho avisto uma aglomeração.
Na rua dos fundos da escola, próximo onde passamos todos os dias, havia acabado de acontecer uma troca de tiros na tentativa de tomada de um carro de assalto. O motorista reagiu, levou um tiro na mão. O assaltante foi atingido na virilha, correu e tomou um carro de assalto adiante, assim disseram.
Fiz o percurso duas vezes sob o sol, até conseguir telefonar para casa e encontrar finalmente André, que não me esperou e levou uma bronca.
Mas o pior é amanhã e a tal ambivalência: deixar ou não o menino experimentar a rua.

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Defina notícia

15/09/2013

Um cidadão recebe o diagnóstico de câncer. Então resolve encarar a doença. Tenta um tratamento pelo SUS e a perspectiva de marcar uma consulta, repito, uma consulta, é para outubro, novembro ou dezembro.

Ao me deparar, por acaso, com esta fila ontem, achei que o assunto chegaria com destaque aos jornais de hoje.

Mas a repercussão foi infinitamente menor do que a saída de Bell do Chiclete.

O Correio fez um pequeno registro e A Tarde ignorou.

O que é mesmo notícia?

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“É a fila da morte.”

14/09/2013

A resposta bem-humorada do senhor no final da fila tem um fundo de verdade. Também penso na morte quando vou ao médico.

Nesta manhã de sábado, às 6h50 da madrugada, levo a amostra de urina que falta de uma bateria de exames num laboratório em Brotas. Penso na morte.
1

Dou então de cara com esta fila, a serpentear as ladeiras de Brotas, em direção ao Hospital Aristides Maltez, top of mind quando se pronuncia tratamento oncológico pelo SUS em Salvador.

2

Lembro de Maria Sampaio, amiga querida, a se indignar com este tratamento dado aos pacientes de câncer em tratamento pelo SUS. Claro, nem todos nesta fila são portadores de câncer. Mas se foram encaminhados para marcação de exame no HAM, as suspeitas são fortes.

3

Tenho respeito pelos mortos, pelas famílias dos mortos e não aprovo o escárnio nas redes sociais quando pacientes políticos tratam o câncer ou morrem no conforto do Sírio-Libanês. Mas é inevitável a comparação.

Percorro a fila, que já anda há algum tempo, durante 8min37seg. E continua a chegar gente. Se tiver paciência, veja  o vídeo:

http://www.youtube.com/watch?v=vL7LKH2Hufw

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10200512884161367&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

Tem agendadmento, mas acabou

05/09/2013

Existe um tal juizado especial, para pequenas causas, criado para tornar a Justiça mais acessível e rápida. Liguei e recebi a orientação para ir a uma central, no Teatro Jorge Amado. Cheguei às seis da manhã, já havia bem mais do que a cota de 30 pessoas para o dia, gente que chegou às 3h30 da manhã. Acionei então ouvidoria, via internet, e me deram um telefone. O atendente me aconselhou a “estar ligando” para um agendamento no Shopping Paralela. Liguei. Tem agendamento, mas acabou.
Aceito sugestão de palavrões. Os meus também acabaram.

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10200466296796712&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

Pedágio sobre buracos

31/08/2013

Sob aguaceiro na BR-324 hoje passaram por minha cabeça o medo de acidente e uma uma dúvida. Será que existe algum outro lugar no mundo em que se paga pedágio para trafegar em rodovia esburacada?

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Dúvida

23/06/2013

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As manifestações, se não derem em nada, ao menos ajudam a elastecer o vocabulário da rapaziada. Diante de um cartaz exibido por um rapaz a bordo de um minitrio na manifestação de Feira de Santana, a menina pergunta:
– Meu cu é laico? Como assim, não é Lycra não?

Foi assim mesmo Ana Paula? O que você respondeu a ela?

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=4996754113386&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

Foto: http://bit.ly/12X1I8U

 

 

Vou e volto. Faustino eu?

22/06/2013

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Vou e volto. E no meio das manifestações encaro o meu e o seu maniqueísmo. Entre a luz e a as trevas destes dias procuro um lugar.
E vou e volto.
E vou e volto, com o dedo indicador a girar o botão do mouse. Na tela rolam argumentos pra todo gosto.

No engarrafamento da BR 324, sou minoria. Mulher e filha defendem ir às ruas de Salvador neste dia de Brasil x Itália. Eu ficaria em casa. Estou com as orelhas em pé. E enquanto elas não baixarem, empaco, não volto às ruas. Coxinha eu? Faustino eu?

A estrada resolveu o dilema a meu favor. Somos do interior.

Ninguém imaginaria um São João e uma Copa das Confederações neste clima. Imagina na Copa do Mundo. Vem aí o 2 de Julho, o 7 de setembro, com um agosto inteiro no meio. Ninguém tem a menor ideia no que isso vai dar. Mas à medida em que a temperatura aumenta é preciso ter discernimento, calma e habilidade para mudar para melhor. Todos estão jogando o jogo. Uns jogam limpo, outros jogam sujo, é preciso ficar atento. 

Nas ruas da capital acompanhamos de perto um conflito de recolhimento de uma bandeira do PSTU. No rescaldo conversamos com dois jovens da turma do sem partido. Nem de longe pareciam boys malhados ou classe média neófita nas ruas.  Incomodava a  bandeira do outro ali do lado porque  os vestia também.  Passaria a mensagem, o atestado simbólico  de que aquele movimento pertencia ao partido e afastaria outras pessoas. Naquele momento concordei. Coxinha, eu? 

Na concentração do Campo Grande vi uma faixa de gráfica, levada por um grupo com camisetas de gráfica. Destoavam do improviso da maioria. Os grupos organizados se “infiltram” e sabem o que estão fazendo. A coisa de  está se tornando profissional. Coxinhas eles?

Vi também o fogo ao lado de um poste de iluminação. Eu me incomodo com a depredação. A vontade era apagar, aquilo ali vai custar caro consertar, a conta é nossa.  Coxinha eu?

E para encerrar, desço do muro para afirmar que sob sob esta temperatura e pressão minha palavra de ordem até as eleições é: Fica Dilma. Coxi…

Gosto muito de coxinhas

Até a semana passada coxinha pra mim era apenas sinônimo de coisinhas  gostosas.  A gíria paulistana aterrissou nas caixas de comentários da internet. Tem até página no facebook, de onde foi copiada a imagem deste postNuma tradução aproximada para o baianês, seria Faustino, o personagem de Miguel Cordeiro, habitante dos muros da cidade.  

 

 

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=4991313257368&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

 

 

Goku precisa de nós

21/06/2013

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Pedi ajuda aos universitários para entender o apelo Goku, escrito num dos cartazes erguidos na caminhada do Campo Grande em direção à Fonte Nova. Depois da explicação entendi mais ou menos, era algo do bem.

A pergunta fica no ar, na discussão na madrugada aqui em casa. Quem é do bem, quem é do mal  em todo este movimento?
Só tenho duas pequenas certezas. Não tem santo nesta história e  nem ninguém parado enquanto as ruas se movimentam.  E que é preciso ir as ruas para tentar sentir o que está acontecendo. Sentir um pouco na pele e nas mucosas não ajuda a entender mas torna a gente um pouco sujeito e menos espectador.

Fomos em três, eu, Soraya e  Luísa. No Campo Grande encontramos Paulo e a filha Paulinha e os colegas da escola de Luísa. Enquanto descíamos o Politeama em direção ao dique,  Guilherme, o namorado de Luísa, e sua irmã Carolina,  estavam no front, diante das bombas e tropa de choque. Na ladeira  encontramos Nilson e o filho Caio.  O grupo maior se se dispersou no final da ladeira próximo ao estacionamento dos Barris, de onde muitos já retornavam,  escorraçados pela barreira da  choque.

Ficamos ali, no meio do caminho, vendo de longe subir colunas de fumaça e o estouro das bombas. Um sujeito derruba uma placa e é vaiado. Um outro acelera um carro  para abrir caminho e é vaiado. Na nossa frente começa uma discussão, um grupo obriga um militante do PSTU a recolher sua bandeira. Ele protesta, tenta reagir, mas acaba vencido e humilhado pelo coro que começa com PSTU e termina em  rima.

Um  grupo de mascarados em cima de uma camionete passa em direção aos Barris gritando – Para a prefeitura, para a prefeitura. Mas é seguido por quase ninguém.

A correria no no contrafluxo aumenta, o mal-estar produzido pela fumaça e gás trazido pelo vento nos obriga a bater em retirada também. Na subida, boatos de que a polícia havia fechado as saídas. No politeama,   fogueiras de lixo e em pequenas barricadas  davam a impressão de batalha recente. 

No Forte de São Pedro o cenário é de madrugada de Carnaval, com gente andando de um lado pro outro, vendedores de cerveja, sujeira por todo o lado. O barulho das bombas de efeito moral na esquina da casa D’Itália faz lembrar a palavra de ordem: Não é Carnaval, é Salvador caindo na real.

Espalhado pela calçada e colados nas paredes do Forte, centenas de cartazes deixados pelos manifestantes, numa espécie de mural de ex-votos formado por palavras de ordem e  pedidos de mudança.

No campo Grande encontramos Guilherme e Carolina, assustados mas já refeitos. O barulho das bombas vem agora do Hotel da Bahia. No caminho para casa, tudo aparentemente normal.  Cansado, dormi e só acordei de madrugada. Soraya dava notícia do que ia nas redes, dos boatos de manipulação, do que andam tramando pelas alcovas e me faz lembrar a música O que Será, de Chico.
O que será?

O que aconteceu la na frente>

 

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Eu vou

19/06/2013

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Não existem mais passantes destes caminhos. Mais outro tanto de tempo não existirão passantes da tarde de hoje. A vida passa. Eu vou.

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Foto: http://urbanizacaoemsalvadorseculoxix.wordpress.com/2010/12/17/processo-de-urbanizacao-em-salvador-no-seculo-xix/

De onde veio esse pessoal?

17/06/2013

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Do alto da passarela do Iguatemi, às 15 para as 7, dava pra ver gente até o viaduto da Rodoviária, mas de 300 metros de multidão, por toda a extensão da pista.

– De onde veio este pessoal? Pergunta o garoto de uns 17 anos, morador de Coutos, ao meu lado. Ele não se enxerga na sua cidade ali. – Parece que é do Rio ou São Paulo, tenta entender. E completa antes de sair: – Nunca vi aqui tanta gente assim.

Eu também não. Assim, não. Não estava aqui nos comícios das diretas. Mas na na época dos caras pintadas posso comparar.  Se colocasse aquele povo todo de hoje no circuito Campo Grande – Castro Alves seria talvez o dobro da última e maior  passeata contra Collor.

O garoto de Coutos não se identificava com a multidão. Eram estrangeiros para ele. Eu também me sinto estrangeiro naquele lugar. São todos, todos muito mais jovens.

Desço em direção à estação de transbordo e encontro Soraya com uma aluna. A menina mora em Aguas Claras. Veio à escola pela manhã, em Brotas,  voltou para o trabalho em São Marcos  e retornou para participar da manifestação.  Traz um cartaz em inglês que diz: Bem-vindos turistas à realidade do Brasil.

Subimos o Raul Seixas lotado, grupos picham  frases contra a Fifa na borda do viaduto. Encontramos Luísa com o namorado e  um grupo da escola. Diante do Iguatemi o clima é de Praça Castro Alves em dia de festa. Ou de pátio de escola. Olho para todos os lados e não encontro ninguém da minha geração. Todos têm menos da metade da minha idade. O mais velho ali é Hilton, o vereador, que dá entrevista a uma rádio.

Na porta do Iguatemi  e na pista oposta, os ônibus são parados por grupos que organizam o passe livre decretado pelos manifestantes. O  clima é de festa, animada por um forró do vendedor de CD.

Os ônibus saem cheios,  aos gritos de palavras de ordem.

– Hoje é por conta da Fifa ordena um manifestante, aboletado na porta  do ônibus, dos muitos que organizam a entrada pela frente.

Volto pra casa sem entender direito o que  acontece. Vejo muito vigor, muita alegria, muita vontade. Muita juventude. Mas onde isso vai parar, que mudanças virão disso, não consigo projetar.

De todo modo, o dia de hoje entra pra história desta cidade. Foi um dia diferente.

O dia de hoje entra pra história do Brasil.

PS: Achei no Facebook, dia 26 de junho, uma foto panorâmica  e o registro em vídeo da continuação do que vi, no Viaduto Raul Seixas.

Foto Gulherme Neto

Vídeo deste momento: aqui

Foto e video: Guilherme Neto

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