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Janelas abertas, a internet e o general

Sim, eu poderia falar do general com suas medalhas de papel, general sem guerra e mais o que fazer, desejoso de golpe militar.

Sim, eu poderia falar da internet, do quanto dependo dela para acessar memórias, pensar, estabelecer sinapses.

Mas vou falar de Janelas Abertas e Janelas Abertas 2. Uma de Tom, outra de Caetano. Uma na minha lembrança, outra descoberta ontem.

Sim, o general incomodou. Não basta passar vergonha como país desigual, injusto, corrupto. Tem que ainda conviver com almas sebosas, saudosas da ditadura. E passar vergonha novamente como república de bananas.

Mas além da fala nefasta do general, a música amanheceu na minha cabeça e atende por Janelas Abertas 2. Não lembrava do nome.

Sou apresentado agora à música original de Tom, motivadora do contraponto de Caetano, no exílio. E a ouço também pela primeira vez na voz de Áurea Martins.

“Sim, eu poderia ficar sempre assim, como uma casa vazia, uma casa sombria, sem luz, sem calor. Mas quero abrir as janelas para que o sol possa vir iluminar nosso amor.”

E ouço mais uma vez Janelas Abertas 2, pela primeira na voz de Ana Moura.

“Sim, eu poderia em cada quarto rever a mobília, em cada um matar um membro da família até que a plenitude e a morte coincidisse um dia, o que aconteceria de qualquer jeito. Mas eu prefiro abrir as janelas para que entrem todos os insetos”

Vade retro general.

 

 

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Alta definição

Mala

A imagem percorreu mundo. Das conversas de buteco aos restaurantes caros, dos barracos aos casarões dos condomínios fechados, nos escritórios, oficinas, mercados, ônibus, tomou conta das redes, das agências de notícias. E ficou fixada no meu juízo.

As malas e caixas abarrotadas com os R$ 51.030.866,40 materializam de forma bem tosca o que se ouve sempre falar, o que se presume acontecer nos gabinetes. Aparece assim na frente da gente, em alta definição, como o resultado de um exame a mostrar com todas as cores e nuances os tumores, as pedras na vesícula, o aneurisma,  o comprometimento de órgãos vitais.

Nessa imagem mora a exclusão, a desigualdade, a falta de oportunidades. A aula vaga, a arma na cabeça por 10 reais, o exame marcado para daqui a seis meses, a fila do Aristides Maltez.

É nossa mais nítida ultrassonografia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Potente

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Quando Josias Pires certo dia, há alguns anos, me falou que ia registrar em vídeo e denunciar o conflito entre a Marinha e uma comunidade quilombola vizinha da Vila Naval, conjunto residencial de suboficiais da Marinha, pensei novamente com meus botões: esse meu amigo viaja em guerras impossíveis.

Quais chances teriam moradores pobres da periferia na briga por uma uma área cedida à Marinha? Minha acomodada cabeça previa guerra perdida.

O vídeo de 10 minutos, feito em 2011, em parceria com Igor Caiê do Amaral, ajudou a mim e a meio mundo a entender melhor o que estava acontecendo. Contra todos os prognósticos pessimistas, aquelas pessoas ali eram vencedoras, não se dobraram e nem estão dispostas a se dobrar.

Ao terminar de assistir ao longa-metragem Quilombo do Rio dos Macacos, que  vai estrear nesta terça, na sessão de abertura do CachoeiraDoc, a primeira surpresa foi terem-se passado duas horas desde o início do filme. Não ter sentido o tempo é apenas um dos sinais de que ali não está registrado apenas um documentário sobre um conflito por um pedaço de terra.

Josias e sua equipe foram muito mais além. Comprimiram em duas horas uma amostra de Brasil, construíram uma prova cabal, arrancaram para a posteridade um pedaço do nosso DNA.

Dizem que os adjetivos enfraquecem o argumento. Mas para este filme preciso de mais um: potente.