Arquivo da categoria: Cidadania

Desenharam pra mim

Aos 17, desci de Conquista na boleia de um caminhão de carona, e de carona em carona conheci a parte antiga de Minas, subi pela Belém-Brasília num caminhão carregado de pneus de trator para a construção da usina de Tucuruí, entrei pelo Maranhão e desci pelo litoral. Conheci muito caminhoneiro, ouvi muitas histórias. Tenho um tio que foi assassinado ao volante de um caminhão, um primo que morreu num acidente, também ao volante, enfim, conheço um pouco essa realidade.

E ao ouvir muita baboseira sobre o que está acontecendo, finalmente encontrei em dois vídeos as versões que resumem quase toda a ópera. A de um caminhoneiro, que de quebra dá uns cascudos na mídia, e a de um estudioso do assunto. Dá gosto ouvir quem vive uma realidade e quem entende do recado.

 

 

 

 

 

Anúncios

Janelas abertas, a internet e o general

Sim, eu poderia falar do general com suas medalhas de papel, general sem guerra e mais o que fazer, desejoso de golpe militar.

Sim, eu poderia falar da internet, do quanto dependo dela para acessar memórias, pensar, estabelecer sinapses.

Mas vou falar de Janelas Abertas e Janelas Abertas 2. Uma de Tom, outra de Caetano. Uma na minha lembrança, outra descoberta ontem.

Sim, o general incomodou. Não basta passar vergonha como país desigual, injusto, corrupto. Tem que ainda conviver com almas sebosas, saudosas da ditadura. E passar vergonha novamente como república de bananas.

Mas além da fala nefasta do general, a música amanheceu na minha cabeça e atende por Janelas Abertas 2. Não lembrava do nome.

Sou apresentado agora à música original de Tom, motivadora do contraponto de Caetano, no exílio. E a ouço também pela primeira vez na voz de Áurea Martins.

“Sim, eu poderia ficar sempre assim, como uma casa vazia, uma casa sombria, sem luz, sem calor. Mas quero abrir as janelas para que o sol possa vir iluminar nosso amor.”

E ouço mais uma vez Janelas Abertas 2, pela primeira na voz de Ana Moura.

“Sim, eu poderia em cada quarto rever a mobília, em cada um matar um membro da família até que a plenitude e a morte coincidisse um dia, o que aconteceria de qualquer jeito. Mas eu prefiro abrir as janelas para que entrem todos os insetos”

Vade retro general.

 

 

Alta definição

Mala

A imagem percorreu mundo. Das conversas de buteco aos restaurantes caros, dos barracos aos casarões dos condomínios fechados, nos escritórios, oficinas, mercados, ônibus, tomou conta das redes, das agências de notícias. E ficou fixada no meu juízo.

As malas e caixas abarrotadas com os R$ 51.030.866,40 materializam de forma bem tosca o que se ouve sempre falar, o que se presume acontecer nos gabinetes. Aparece assim na frente da gente, em alta definição, como o resultado de um exame a mostrar com todas as cores e nuances os tumores, as pedras na vesícula, o aneurisma,  o comprometimento de órgãos vitais.

Nessa imagem mora a exclusão, a desigualdade, a falta de oportunidades. A aula vaga, a arma na cabeça por 10 reais, o exame marcado para daqui a seis meses, a fila do Aristides Maltez.

É nossa mais nítida ultrassonografia.