Archive for the 'Cidades' Category

Cumeadas

18/12/2016

cruz-tratada

Saí ontem caipiroskado de uma confraternização de trabalho. Fim de tarde, temperatura agradável, resolvi voltar para casa a pé.

Andei 3,5km  mas atravessei cidades ao ir do Cidade Jardim, pela ladeira da Cruz da Redenção,  até o Acupe de Brotas. Da perspectiva de pedestre a gente enxerga melhor a cidade, especialmente as pessoas.

Na avenida de vale, só prédios e carros, muitos carros, raros caminhantes, raras mulheres, um cenário definido por  João Ubaldo Ribeiro como Los Angeles de pobre.

Ladeira também semideserta. Mas no topo, a pracinha do Largo da Cruz da Redenção fervilha.

Com Lelé, o arquiteto que gostava de gente, aprendi uma palavra bonita para definir estas partes altas da cidade, onde as pessoas ainda andam pelas ruas e convivem:  cumeadas.

Condução coercitiva pra chamar de minha

23/11/2016

hypocritesk

Nunca vá ao encalço de um ladrão de celular, especialmente se você tem mais de 55 anos  e IMC acima de 32. Ele pode se voltar e lhe quebrar na porrada, pode haver um cúmplice por perto e  lhe quebrar na porrada e ainda pode acontecer o pior de tudo: o ladrão ser preso.

Aí lenhou total. Pra ele e pra você.
Foi o que aconteceu comigo, contei o começo de tudo aqui.

Já havia esquecido da história e recebo em casa a simpática visita de uma oficial de justiça com a intimação para eu ir ao tribunal,  prestar novo longo depoimento, agora perante o doutor  juiz.  A tarde perdida  na delegacia naquele domingo valeu nada.

O problema é que só lembrei da tal audiência no dia seguinte à data marcada. .

Comentei com minha advogada, minha porque senta ao meu lado no trabalho, e ela me aconselhou a  ir até lá e dar satisfação ao doutor juiz, logo. Como ela sabia o que estava falando, coloquei a ida como prioridade, faz uns bons dias. Mas lista de prioridades de procrastinador vive eternamente em idade de crescimento.

E eis que meu hipocampo comprometido pelo DDA  tomou novamente a dianteira e, de posse da informação de que a justiça baiana é a mais lerda do país, calculou que eu só seria convidado a depor novamente lá por 2056, tempo  mais que suficiente para um zignal eterno.

O problema é que nossa  justiça falha mas de vez em quando e logo comigo não tarda.  Fui avisado hoje no começo da noite por um  simpático policial, que amanhã irei  testemunhar na marra neste importante processo de furto de um celular na Praça da Piedade.

De vítima passei a testemunha. E  agora a  réu, quase um Josef K. a ser conduzido coercitivamente amanhã até o senhor juiz.

Logo amanhã de manhã, quando duas tarefas atrasadas e dois procedimentos médicos sairiam finalmente da lista de prioridades…

 

Imagem daqui.

HAM! HAM! HAM! HAM!

23/11/2016

20161122_150341-copia

Esse muro conhece histórias. Registradas nas marcas de cabeças, ombros, bundas e pés, nos papelões que dormem no passeio. Talvez estes sejam os metros quadrados com mais dor explícita da cidade. Na Avenida D. João VI, em Brotas, Salvador, a Bahia pobre amanhece ao relento, em busca de uma chance contra o câncer. E o novembro aqui, e o outubro aqui, e todos os meses aqui não são rosas e muito menos azuis.

A doença nos cerca a todos. Mas maltrata mais, bem mais, muito mais, aqueles que dependem de uma vaga, de uma marcação de uma senha, de semanas entre diagnóstico e exames, entre exames e procedimentos. A urgência aqui é regida pela burocracia antes da necessidade.É pegar e esperar. Não há a opção largar.

Há quase três anos, desde que moro logo ali próximo, passo diariamente pelas palmeiras imperiais perfiladas por trás do muro, por estas letras vermelhas em baixo relevo carimbadas na parede. E elas me chegam como interjeições de dor, repetidas a cada bloco do muro, como uma sequência de um mantra. HAM! HAM! HAM! HAM! HAM!

Máscaras, sondas, muletas circulam no entorno, avançam para fora do muro e buscam seguir a vida, apesar dos pesares, debaixo do sol, do mormaço, da chuva, no ponto de ônibus de um lado e do outro da rua, atravessando a faixa, embarcando nos micro-ônibus e vans de prefeituras, num vai e vem diário também para o interior.

O passeio se transforma numa praça de alimentação sobre rodas, ali nos pequenos carrinhos, lanches são desjejum, almoço e jantar. Nos mais disputados há filas. Subfilas da eterna fila, formada por diagnosticados, parentes, amigos ou por profissionais que vivem de noites mal dormidas por uns trocados pela vaga negociada.

Passar por ali todo dia é como percorrer um corredor polonês de tapas na consciência, com uma pergunta infantil martelando o juízo: por que diabos tem que ser assim?

Made in Boiadeira

18/11/2016

boia

A Boiadeira é um bairro violento, na violenta Iaçu, como a maioria das pequenas cidades do interior. Bairro pobre, de uma cidade pobre, como quase todas as cidades do interior da Bahia.

Mas ao ler rótulo de uma barrinha de cereal Naturita, por acaso comprada na mão de uma amiga que está revendendo o produto aqui em Salvador, tive a surpresa. A barrinha é produzida numa cooperativa de Itaberaba, na unidade de produção da cidade vizinha de  Iaçu, na  Boiadeira,  na beira do Paraguaçu, nas margens da pista  em direção a João Amaro e Itaetê.

E por que eu li as letrinhas do rótulo? Porque eu me espantei com a qualidade. O  design, o sabor, a variedade. De longe a melhor barra de cereal que experimentei nos últimos anos. Aprovada também pela renca aqui em casa.

Dou uma googlada e vejo que  a fábrica é um investimento de R$ 1 milhão do Fundo Estadual de Combate e Erradicação à Pobreza (Funcep), foi inaugurada há um ano e fornece as barrinhas também para a merenda escolar.

Um milhaozinho, troco na ordem de grandeza dos  esquemas cotidianos de corrupção, possivelmente está mudando a vida de centenas de pessoas.

Página da cooperativa no  facebook.
Se quiser experimentar aqui em Salvador: 99920-0262 (Fátima)

Serra abaixo

04/08/2016

A primeira visão de Vitória da Conquista quando se vai pela BR-116 em direção a Minas é do alto da Serra do Periperi. No acostamento da estrada, por volta de 1969, descíamos a bordo de patinetes construídas sobre três rolamentos como este da foto.

Embarquei de volta a esse tempo da infância dos 8/9 anos ao ir em busca da peça para o conserto do motor da máquina de lavar.

Ouço o barulho do metal sobre o asfalto do acostamento da Rio-Bahia. Ele só é superado pelo ronco dos motores dos caminhões e carretas FNM, Scania e Mercedes quando passam rente, vencendo vagarosamente a serra.

13920809_10206672625591053_629360200087432516_n

Crianças presidiárias

03/08/2016

b202033b-b4bc-4ade-864a-b19b9b43ecca

Nem sei se neste aglomerado, ao lado da Empresa Gráfica da Bahia, no Retiro, existem facções. O que chama a atenção na imagem é a ausência de áreas de convivência, em ruas praticamente porta com porta. Coloque então conflitos armados aí dentro, realidade de muitos locais semelhantes nesta cidade, e você terá uma vaga noção de como anda o cotidiano de milhares de famílias em Salvador.

Ontem foi a vez de Franklin Silva Santos, de 17 anos, mais uma baixa “civil” desta guerra. Morreu porque vivia em território inimigo. Morreu para que outro que também morreu sem saber o motivo, no domingo, fosse vingado.

Talvez você seja capaz de discorrer longamente sobre o Estado Islâmico, sobre o conflito na Síria. Mas seguramente, como eu, saiba muito pouco sobre Bonde do Maluco, Katiara, Caveira, Comando da Paz.

Provavelmente, assim como eu, saiba ainda menos sobre o medo de crianças e adolescentes que vivem como presidiários em suas casas, por conta do toque de recolher, realidade cotidiana destes lugares.

Reduzir todos estes exércitos à denominação simplista de “traficantes” talvez resolva apenas nossa dificuldade de entendimento desta realidade.

Mas o buraco, seguramente, é mais embaixo. E sangra todo dia.

 

Notícias de Salvador, notícias do front

03/08/2016

13876113_10206666142108970_5281582001119303707_n

Começo o dia de trabalho numa geral pelas notícias de Salvador, via google. E dou de cara com essa, de ontem. E marejo. Já havia visto ontem o filme da chegada da motocicleta, da saída da motocicleta. No intervalo, os tiros. Mas o olhar do garoto hoje me pega. Tem um quê do olhar do meu filho. Leio o lamento dos pais. O que ainda cabe na definição tragédia hoje? E fico aqui, marejado e impotente. Reclamar de quem? Reclamar de quê?

O medo é uma merda

03/07/2016

original

Hoje senti medo da minha Piedade, da minha Carlos Gomes, da minha Castro Alves. Nunca, em décadas, havia sentido o que senti hoje. Temo muitas coisas, temo o futuro, temo as contas no fim do mês, temo a pressão alta, temo a balança, o ódio político, a ignorância, temo brochar, a falta de assunto no elevador, mas as ruas desta minha cidade inaugurei temer somente hoje.

Era um medo acumulado, já instalado e não notado. O gatilho havia sido disparado há mais ou menos um mês. A praça da Piedade tomada de moradores de rua, dois deles brigando, e eu indiferente, orientava Maria como fotografar melhor a fonte luminosa, os heróis da Conjuração Baiana, no cumprimento de uma tarefa escolar.

O celular foi arrancado da mão da menina num  bote rápido e certeiro. Sem pestanejar – pra que diabos fiz isso até agora não sei – parti no encalço do sujeito aos berros de pega, pega. Já voltava ofegante, humilhado e puto como a gente se sente nestas horas, quando alguém gritou: pegaram. O cara acabou no chão, com uma pistola apontada para a cabeça e o pé de um policial à paisana sobre as costas.

Fui  obrigado a seguir para a delegacia para cumprir o ritual do flagrante. No ponto em que as coisas chegaram, não havia mais como negociar a devolução do aparelho e liberar o sujeito. Segui com três policiais e o cara choramingando, pedindo clemência na mala da viatura, enquanto no rádio começava Vitória e Atlético MG.
– Fique quieto rapaz, se o Vitória tomar um gol aqui você vai ver o que é bom.
Passei a torcer pelo Vitória, pelo menos até a chegada à delegacia.

O gordo valentão que partiu pra cima de um miserável que arrisca ter que matar, ferir, apanhar, ou morrer por causa de uma porcaria de celular hoje percorreu as ruas do centro acuado. Não teve coragem de  caminhar  e fazer fotos como sempre. Descer do carro para ir ao Centro Cultural da Caixa com Soraya e Maria foi uma operação calculada, precedida de checagem de quem vinha, de quem ia. Ir depois ao Cine Glauber Rocha tomar um café, outra operação cercada de atenção.

Apesar da realidade gritar o contrário, nunca senti medo nas ruas. Sempre me achei parte da cidade.Morei na Senador Costa Pinto, no Largo 2 de Julho, me sentia imune, um sujeito da área. Achava estranho o texto de um amigo que certa vez me disse que seu grande prazer de ir à Europa não era visitar museus, catedrais, concertos. Era simplesmente andar tranquilo pela rua, sem medo de ser assaltado.

É uma pena ter que me render à realidade,  algum temor  é até útil como prevenção.

Mas talvez o medo seja pior que a violência consumada, porque é uma violência latente, permanente, corrosiva. O medo é uma merda. 

 

 

 

 

 

A maldição da coruja

24/04/2014

Sou agnóstico mas busco Deus em tanta bala, tanta morte matada, mais de cem neste abril. Escuto pipocos, mais de cem. Conto as mães, mais de cem. Mais de cem é a  metade de mortes da boate incendiada no Rio Grande do Sul. E menos de um milésimo da atenção minha, sua, de todo o mundo.

Afora aqui e ali, os jornais silenciam, as pessoas silenciam. São todos “malas sujas”, gente que não presta, aprendi esta nova definição em Feira de Santana. E mala suja não é gente, não merece a minha e a sua empatia,  não é notícia. A não ser nos programas e sites e blogs  do chamado jornalismo abutre. É só dar um google  pra sua tela sangrar.

Mas acredito piamente na reverberação de toda esta dor. Ela volta pra gente, mais cedo ou mais tarde. Ela também nos cabe.

Também não acredito nos maus presságios das corujas. Mas Iaçu, cidade de menos de 30 mil habitantes, uma das muitas Macondos da Chapada Diamantina,  teve ontem mais um assassinato e duas crianças baleadas.

Mas os maus presságios de uma coruja  e uma piada do cantor de trio Bell sobre Iaçu repercutiram muito mais do que o assassinato e duas crianças atingidas por balas na Portelinha, conjunto habitacional com nome de bairro de novela, na  margem direita do Paraguaçu, perto da coruja.

E repercutiu muito menos ainda uma acusação de estupro, também na Portelinha, no início do mês. Acusação seguida de julgamento e morte do acusado dentro de uma cela da delegacia da cidade, rito sumário. Detalhe: o exame de corpo de delito, soube de fonte confiável, não confirmou o estupro, mas o trapo humano executado teve as pernas amarradas para caber no caixão.

E o  que eu e você temos a ver com isso?

Pressinto, creio que vai sobrar pra gente. Já sobrou. Sobrou conviver com a reverberação de toda essa dor, com a reverberação deste ritual praticado na delegacia por gente de 18, 20 anos. Ou pelo menos com a tal banalização, talvez mais grave ainda.

Estamos todos no mesmo barco. Eu, você, os moradores acusadores da Portelinha, o delegado de Iaçu, os jovens carrascos, as crianças baleadas. O barco é um só e muita gente não entendeu ainda.

Não disseram que estamos todos juntos nesta linda passarela de uma aquarela que um dia enfim descolorirá?

Tá acelerado este processo.

Um dia quem sabe

27/02/2014

IMG_20140227_084421685 (2)

Um dia quem sabe ainda leio Hermann Hesse, Stefan Zweig. Estive diante deles rapidamente hoje pela manhã numa pequena excursão afetiva por um dos espaços mais agradáveis de leitura desta velha Salvador, a biblioteca do ICBA. A maioria dos títulos é em alemão, mas o que sobra em português é suficiente e sobra para minha carência de leitura.

A rápida visita à biblioteca, mesmo fechada, me foi franqueada pela bibliotecária depois que pedi a ela uma breve visita à minha memória afetiva das décadas de 70 e 80. No ICBA vi peças, shows, ali comecei a ler alguns livros, mas sobretudo flanei, respirei um ar diferente, um ar necessário e em falta em outros espaços da cidade nas décadas de 70 e 80.

Quem sabe um dia eu resolva ser leitor. Voltarei então à biblioteca do ICBA.

Moro sobre um crime ambiental batizado com nomes de jardins botânicos europeus

13/02/2014
unnamed

Imagem do Google Maps em 13/02/2014

O Google está desatualizado. Esta imagem copiada hoje mostra uma das maiores áreas verdes do Bairro do Acupe de Brotas, sobre a qual desenhei a olho a poligonal vermelha. Nesta poligonal, em agosto de 2009, ou seja, há quatro anos e meio, começaram a erguer um condomínio residencial com seis torres de 25 andares cada.

A história da construção  me intriga e me motiva a buscar, com a ajuda de vocês destas tais redes sociais, algumas respostas para umas perguntinhas básicas.

Pausa para algumas informações.

No dia 31 de agosto do ano passado, a promotora Hortênsia Pinho solicitou que a Justiça determinasse a suspensão das obras, dos efeitos da licença ambiental concedida pela prefeitura, a proibição da comercialização dos apartamentos, a demolição parcial das construções e a reparação dos danos ambientais, em ação ajuizada no Ministério Público Estadual.

No texto da divulgação da ação , publicado no site do MP, também é dito que as denúncias de irregularidades ambientais foram apuradas pelo MP em 2009, “quando foi instaurado inquérito civil e feita posterior proposição às empresas de Termo de Ajustamento de Conduta (TAC). O objetivo do Termo era promover a restauração ecológica da área degradada, a elaboração do EIV, e custeio de projetos ambientais ou aquisição de área preservada com três hectares de Mata Atlântica, no valor de R$ 3 milhões.”

Como estou escrevendo este texto na varanda de um dos 600 apartamentos construídos, significa que moro sobre um crime ambiental ainda sem castigo para as empreiteiras Arc Engenharia Ltda.,Brotas Incorporadora Ltda, PDG Reality S.A. Empreendimentos e Participações, e Agra Empreendimentos Imobiliários, parceiras na empreitada.   Quem começou a obra executada pela Arc foi a Brotas Incorporadora, vendida para a Agra, vendida para a Agre, vendida para a PDG.

As empresas foram acusadas de infringir a legislação ambiental e urbanística municipal. Segundo o MP, “as torres foram erguidas em Área de Preservação Ambiental Permanente (APP) e em Área Arborizada (AA) protegida por previsão expressa no PDDU, o que resultou no desmatamento total da vegetação sem qualquer autorização e no aterramento ilegal de recursos hídricos de bioma Mata Atlântica. O terreno ocupado irregularmente corresponderia a mais de 36 mil metros quadrados de área construída, ou duas torres e meia do empreendimento.”

Ironicamente, o crime ambiental contra a nossa Mata Atlântica foi batizado de Pátio Jardins e cada uma das torres recebeu o nome de um jardim botânico Europeu:  Montpellier,  Paris,  Pisa,  PáduaBolonha e Basel.

Aí você me pergunta. Que diabos você quer futucando esta história? Você não está morando, gostando, feliz com sua vista para o que restou da mata?

Explico. Já que a merda foi feita pela metade, vamos entender o que aconteceu para evitar que se repita com o que restou da área verde. Sei que estou agindo como paises europeus ou EUA, que depois de destruir suas matas, querem preservar as matas dos vizinhos.

Mas se alguém não colocar um freio, não vai restar folha sobre folha.

Vamos às perguntinhas básicas:

Por que o MP investiga o caso desde 2009 e só depois de mais de quatro anos, depois da obra construída e do leite derramado resolveu ajuizar a ação?

Como foi obtida a licença da prefeitura já que a área é de preservação?

Em que pé está o processo?

Quanto da área remanescente é ainda de preservação?

Por que o IBAMA não se manifestou, já que no terreno havia nascentes?

O terreno pertencia às famílias de Urbino de Aguiar, que deu nome à rua lateral,  e dos ex-governadores da Bahia Luiz Viana e Luís Viana Filho.  Um morador da Rua Urbino de Aguiar conta que havia um projeto de uma avenida ligando o Ogujá ao Bonocô, mas que foi abortado por Luís Viana para preservar a área. Essa história é verdadeira? onde pode haver informações sobre a origem do terreno?

Alguéns para responder?

Veja se o Google Maps foi atualizado aqui.

Facebook: https://www.facebook.com/gusmaomarcus/posts/10201385580618233?stream_ref=10

PS

Os antigos moradores espernearam mas não teve jeito. A OAS cravou outras 5 torres aqui perto, o City Park Brotas, com 671 apartamentos e acesso apenas em rua de 7 metros de largura para a Ladeira do Acupe. http://sos-acupe.blogspot.com.br/…/afinal-o-que-esta.

Luz, brisa, Brotas

18/01/2014

Fim de tarde de janeiro ilumina a Igreja de Nossa Senhora de Brotas. Ilumina todas as fachadas do asfalto sobre uma das principais cumeadas da cidade.

E seguimos para a nova casa satisfeitos com a luz e a brisa. Satisfeitos por escolher morar num lugar humano, com padarias, botecos, verdureiros, uma infinidade de portinholas de serviços.

Um lugar bacana, apesar do trânsito, apesar dos não-passeios.

Em Brotas brisa mesmo no sol de janeiro. E seguimos satisfeitos sob a luz e os novos ventos destes dias de mudança.

DSC00454 

Ambivalência

28/10/2013

Sempre achei esta palavra negativa mas hoje fiquei mais amigo dela ao me tornar menos ignorante depois do comentário de Luiz Felipe Pondé, na Metrópole, quando foram citados vários exemplos da nossa natureza ambivalente. Eu me vi ali no que ele falava.
Sou ambivalente sobre Deus, sobre aborto, sobre vícios, e muitas outras coisas sobre as quais pessoas normais nem pestanejam.
E não bastassem estas ambivalências existenciais ainda tem aquelas pequenas do dia-a-dia.
Meu André completa 12 anos na quinta-feira e há algum tempo reivindica o direito de voltar sozinho da escola, uma caminhada de cerca de 1 km. Eu quero deixar, mesmo com medo, mas a mãe resiste.
Hoje resolvemos um meio termo. Ele viria andando a metade do caminho e nos encontraríamos num ponto de passagem. Chego depois do combinado e não encontro o menino. Sigo a pé em direção à escola, esqueço o telefone no carro. No meio do caminho avisto uma aglomeração.
Na rua dos fundos da escola, próximo onde passamos todos os dias, havia acabado de acontecer uma troca de tiros na tentativa de tomada de um carro de assalto. O motorista reagiu, levou um tiro na mão. O assaltante foi atingido na virilha, correu e tomou um carro de assalto adiante, assim disseram.
Fiz o percurso duas vezes sob o sol, até conseguir telefonar para casa e encontrar finalmente André, que não me esperou e levou uma bronca.
Mas o pior é amanhã e a tal ambivalência: deixar ou não o menino experimentar a rua.

https://www.facebook.com/gusmaomarcus/posts/10200753791583902

A médica e o monstro

16/10/2013

7h30 da manhã de um dia já azedo. Emparelho o carro ao lado de outros dois para virar à esquerda de uma transversal da Paulo VI, em direção à Orla. O sinal abre primeiro para quem sai à direita e eu deixei pouco espaço na pista. O cara vem de trás, consegue passar com uma certa dificuldade, para do meu lado e manda: – Seu idiota. E arranca.

Meu perfil é de um completo idiota em conflitos. Raramente briguei na infância e quando briguei, no máximo, empatei. Só levei “vantagem” uma única vez, quando arremessei uma pilha de rádio, tamanho grande, na cabeça de um primo. Outras poucas apanhei. Tenho reação retardada a agressões, sou exatamente como aquele personagem da TV dos anos 80, que respondia a um insulto com um ah é, é? ah é, é?. Já fiquei por vários dias matutando uma resposta jamais dada.

Mas naquele dia, ao ouvir o xingamento senti uma onda quente da pança às têmporas, virei o volante para a direita, acelerei o possante 1.0 na contramão em perseguição e alcancei o cara parado na sinaleira do Superpão. Apontei o dedo e devolvi na cadência do indicador: – Idiota é você seu imbecil, seu canalha, seu escroto, seu paspalho, seu filho de uma puta e mais um monte de seu num volume de voz que deve ter sido escutado nas salas de aula do Colégio Militar. O cara ficou estático, nem devolvia o olhar.

Terminado o show, caí em mim e segui adiante assustado, com as pernas trêmulas e rouco. Por isso consigo me colocar também no lugar da monstra.

https://www.facebook.com/gusmaomarcus/posts/10200676650575425

O belo edifício sente o peso dos anos

26/09/2013

Sem título

https://www.facebook.com/gusmaomarcus/media_set?set=a.10200581081186250.1073741841.1135737937&type=1

Maldade

16/08/2013

O trânsito faz pessoas boas como eu más. E não tem fábrica mais potente de maldade e irritação do que criaturas a buzinar no primeiro segundo do sinal verde. 

Pois bem, o sinal verde abriu e ao ouvir a buzina meu carro “morreu”. Liguei imediatamente o pisca, “tentei” ligar novamente, abri o vidro, estiquei o braço, fiz sinal com o polegar para baixo, incorporei minha irmã atriz Monica Gedione, fiz cara de desespero.

Ao mesmo tempo curtia internamente o desespero do impaciente condutor, enganchado, com carros passando velozmente nos dois lados, sem conseguir sair do lugar.

Deliciosos 5, 10 segundos se passaram até que o boyzinho, num esforço de contorcionista, conseguiu se desvencilhar e passar picado na minha frente. Liguei o carro de verdade e segui engarrafado mas feliz da vida.

A partir do segundo parágrafo este texto é ficção. Mas da próxima vez, quando me buzinarem no primeiro segundo do sinal verde, será realidade.

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10200354449680604&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

Segunda-feira de cinzas

24/06/2013

Sem título

Estrada Iaçu-itaberaba-Ipirá

https://www.facebook.com/gusmaomarcus/media_set?set=a.10200092186964200.1073741836.1135737937&type=1

Feirante

16/06/2013

Sem título

Vivi a primeira infância do lado da feira, no Hotel Maringá, Travessa Santa Rita, esquina com a Praça da Bandeira. Uma das memórias mais antigas é a travessia pela  praça  para o segundo hotel da família, na mudança para o Lancaster, do outro lado, na esquina da Rua do Triunfo, marcado com um círculo na foto.

Conquista, Vitória, Triunfo. Até hoje não entendo por que deu errado.

A lembrança é justamente a passagem pelo mercado desta foto, pelo lado direito da foto, numa noite de 1965, 66,  tinha 4, 5 cinco anos.  Cada membro da família leva um apetrecho, numa das levas da mudança, eu carrego um travesseiro. A lembrança é um filme de alguns segundos.

Dali em diante acordava aos sábados com o burburinho da feira, às vezes antes do amanhecer. Lembro do som dos propagandistas com seus alto-falantes estridentes, microfones presos  no  pescoço, cobertos por um pano, das malas com cobras, dos ventríloquos, dos peixes elétricos e da lista de doenças, quase um compêndio de medicina recitado no mesmo fôlego.

Ao passar as férias na casa do Tio Deoclides, em Tanhaçu, aos 10, 11 anos, seguia domingo e segunda em cima de uma caminhão para as feiras de Sussuarana e Ourives. Ajudava a vender sabonetes, fátimas, misses, leite de colônia, espelhos e outras miudezas da barraca. Nesta mesma época fiz uma horta de alface no quintal de nossa casa em Castro Alves e vendia o excedente na feira.

Quando mudamos para Salvador, meu pai vendia carne do sol, manteiga e requeijão trazidos da feira de Conquista para a feira do Largo 2 de Julho.

Todas estas lembranças vieram junto com o garimpo de fotos das feiras de Conquista para construir uma linha do tempo da minha cidade com imagens. Acabei me encontrando mo meio delas. http://fotosdevitoriadaconquista.wordpress.com/category/lugares-instituicoes/feiras-livres/

100-feira-grande (1)

Primeira feira de Conquista, no final dos anos 30.

Duas páginas musicais dedicadas ao tema.

http://www.youtube.com/watch?v=1m_233GsseM

http://www.youtube.com/watch?v=EA-0HN7qsRs

 

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=4964354823424&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

Vento sul

14/06/2013

Sopra um forte vento sul. De lá vêm gritos, balas de borracha e fumaça. Aqui reina uma paz de engarrafamento. Tudo devagar, quase andando.

 

 

O inferno em 11 meses

08/06/2013

última hora

Desde 30 de outubro de 2007 sabíamos da copa de junho de 2014 no Brasil. Lá se vão quase seis anos. Neste sétimo ano, quando deveríamos segundo a Bíblia descansar, eis que resolvemos começar: duplicar a Pinto de Aguiar, fazer complexo de viadutos no Imbuí sobre a Paralela, mais um viaduto adiante, requalificar a Orla, fazer Metrô andar, fazer o trânsito andar, requalificar a Baixa do Sapateiro, construir quatro passarelas sobre a Via Expressa, tudo em 11 meses ao mesmo tempo agora. Iniciamos assim nosso ano letivo de pós-doutorado em inferno urbano. Me acordem em julho de 2014.

Imagem: http://bit.ly/18fQQ99

A força da grana

05/06/2013

Barão

Ao viajar por centenas de fotos do passado de Vitória da Conquista, contemplo o leite derramado e me ocorre uma pergunta. Como seria esta cidade caso seu crescimento respeitasse o passado, caso as novas construções buscassem outros espaços? Possivelmente nossa cidade teria se transformado num dos destinos turísticos mais interessantes do país.

O casario sertanejo, o frio, as pessoas, casas de cultura com a obra de Elomar, de Glauber,  bares, restaurantes, pousadas temáticas.

Outra pergunta. Por que cidades como Lençóis, para ficar num só exemplo, conservam sua cara, seu casario?

A resposta talvez esteja na grana.  Com o fim do dinheiro do diamante a cidade de Lençóis empobreceu completamente e como ninguém construía mais, também não destruíram.

No crescimento contínuo e desordenado, sem planejamento,  talvez esteja a explicação para  a destruição do passado sem dó nem piedade. Isso acontece também em Feira de Santana. As duas maiores cidades da Bahia ignoram a história e transformam seu passado arquitetônico em entulho. 

Um exemplo. Na década de 70 Conquista recebeu incentivo para plantar café e a cidade sentiu o impacto da entrada do diheiro. E o efeito colateral  mais visível foi a demolição do antigo Hotel Conquista  para a construção de um caixote modernoso, nova sede do Banco do Brasil.

941713_379099158862104_890838361_n

Existem outras causas. Quais?

Foto 1: Rua Grande, hoje Praça Barão do Rio Branco.
http://www.blogdopaulonunes.com/v3/category/historia/page/6/
Local Hoje: http://bit.ly/ZPTleO

Foto2: http://on.fb.me/19KaNDi

Vaga memória

02/06/2013

montagem

Era uma vez um cemitério, uma  igreja, uma escola, fontes luminosas, cinemas, sobrados.
Não quero bancar o nostálgico, acho bonito o atual Jardim das Borboletas de árvores e palmeiras crescidas, mostrado pelo google maps. Mas nele colo minha fonte da infância, numa montagem grotesca, só para perguntar.
Custava o quê preservar a fonte, o parque infantil, a biblioteca?

m título

52 anos, muito para um velho e gordo corpo, nada para um cemitério.
Em outros lugares, cemitérios guardam séculos, milênios. Mas na cidade onde nasci desapareceu em 1949 e  virou hoje  ponto de chaveiros.
A casa onde vivi, o cinema das minhas tardes de domingo, 
a escola onde estudei, deles quase  nada foi guardado, afora imagens, quando há. 

SobradoBanco

Era uma vez este sobrado e no quintal ao lado dele havia galinhas d’angola, eu me  lembro.
Este sobrado nasceu em 1906 e morreu em 1973, aos 67 anos, uma criança no mundo dos sobrados.
Minha Vitória da Conquista, a cidade de nome redundante, é assim. Não gosta de pedra sobre pedra. 

Sem título (2)

E não sobrou pedra do Colégio Barão de Macaúbas, onde frequentei catecismo e não entendia e até hoje tento entender por que Deus não pode ser visível, diante do desenho da invisibilidade de Deus feito pelo catequista.
Ali havia pés de manga e campos de futebol. Hoje há uma caixa com ar condicionado no lugar das amplas janelas.

Sem título

Era uma vez um Cine Glória, ô Glória.  Ali assisti a um show de Fagner e a duas, talvez três,  sessões contínuas de Amor Estranho Amor, com Xuxa.
Ao lado do cinema era uma vez um elefante no jardim.
E era uma vez, na casa ao lado do cinema, um elefante e anões de jardim, habitantes da memória de quem circulou com olhos de criança pela Rua Francisco Santos até outro dia e logo adiante passava por debaixo da marquise em curva da Tebasa.
Era uma vez Tebasa e sua marquise.

título

Era uma vez um Colégio Batista Conquistense, escola de Bau, primo, de Fernando Eleodoro,  professor. E até meu, quando já fechado  abrigou o Complexo Escolar Polivalente de Vitória da Conquista.
Custava preservar as janelas agora cegas?

Sem título

Era uma vez outro cinema, foi Conquista, foi  Riviera mas virou point de eletrodomésticos em prestação.

Sem título

Era uma vez uma infância, uma cidade  com suas fachadas e seu passado hoje quase totalmente  escondidos sob placas.
Valei-me Santa Verônica, padroeira dos fotógrafos e por extensão da nossa vaga memória.
Porque a  única salvação está nas imagens.
Amém.

Fotos publicadas na página  https://www.facebook.com/pages/Fotos-antigas-de-Vit%C3%B3ria-da-Conquista/276638065774881

1 – Fonte Luminosa: http://bit.ly/13dTqHl
Jardim hoje: http://bit.ly/11Kh682

2- Sobrado: http://bit.ly/OhBFTC
Banco do Brasil: http://goo.gl/maps/P8nsu

3-  Cemitério: http://bit.ly/15toqTY
Chaveiros: http://bit.ly/1aMvKLG

4 – Colégio Barão de Macaúbas: http://bit.ly/12oAZD6
Forum: http://bit.ly/12VN1Pm

5 – Cine Glória:http://bit.ly/10EeBTm
Igreja Universal: http://bit.ly/19sJ61J

6 – Colégio Batista: http://bit.ly/12oB2Ps
Prédio hoje:  http://bit.ly/18ET9lA

7 – Cine Riviera: http://bit.ly/11g8O6f
Insinuante: http://bit.ly/Zyf0b9

8 –  Praça 9 de novembro: http://bit.ly/11xtHWa
Praça hoje: http://goo.gl/maps/t6oyz

 

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=4904824615206&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

Larica’s

20/05/2013

Porko-Larica

Larica é a fome incontrolável pós-consumo da cannabis. Com larica existencial recheada de tristeza, sem consumo prévio, sento no banco de balcão do Larica’s lanches e peço um Americano sem salada e um suco de cacau.

Saco nas costas, sujo e confuso, ele se aproxima e pede meu suco. Dou de ombros, nego, aponto para o copo mostrando que aquele é meu, com a certeza já cristalizada da inutilidade da caridade, certeza demonstrada cotidianamente nas sinaleiras, nas mesas de bar, nas filas de supermercado, no meio da rua ou em qualquer lugar desta abordagem comum para quem vive numa cidade de pedintes.

Ao meu lado três garotos de 20 e poucos anos estão concentrados em dividir opiniões sobre imagens nas telas dos celulares dos três. O pedinte se aproxima de um deles, um jovem branco, de bermuda, com uma tatuagem  de listras na perna e uma trança de dreadlock até o ombro sob o cabelo encaracolado. O jovem nem tira a atenção da tela, levanta a mão e comanda:

– um hambúrguer pro brother aqui.

O brother não entende, pede novamente, o  garoto pede calma com o polegar. Sem tirar os olhos da tela, conversa  com os demais.

Ao receber o hambúrguer,  o sujeito joga sobre ele um jato de catchup, um  jato de mostarda e um jato de Zero Cal, arrancando risos dos três por uma fração de segundo em que tiraram os olhos das telas.

Sai feliz, quase saltitante, atravessa a rua em direção ao Colégio Militar.

Os jovens voltam às suas telas, leves e soltos como antes, despreocupados com a banalidade da cena, com a banalidade do pedido, com a banalidade do gesto solidário.

Engulo o americano sem salada e sigo para casa mais faminto e mais triste. Um dia, com o tempo daqueles garotos, pensei em ter tatuagem, pensei em ter um cabelo diferente, pensei em exercer a caridade. Fiquei no meio do caminho, 30 anos mais velho, 25 kg mais pesado e com uma larica existencial mais incontrolável.

PS 1 Contei a história pra Luísa a caminho do colégio, falei do desfecho do meu texto e ela deu a segunda nota: – Que drama.
PS 2  Antes de contar a história, comentei com Luísa minha disposição a cada dia maior para escrever, colocar as coisas na tela sem pretensão, sem querer aparecer. Ela deu a primeira nota: – Vai falar tudo isso e não quer aparecer?
PS 3 Dedico este texto a Alberto Freire, meu amigo Betão, testemunha recente desta minha insensibilidade social com um vendedor de amendoin  numa mesa do Ponte Aérea 2.

Ilustração: http://bit.ly/12pmjOW

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=4840622730199&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

Murta

03/05/2013

600761_4765346648344_1330236830_n

Sim, tinha algo de muito bom no engarramento cotidiano desta noite abafada .
O cheiro forte da floração da murta no canteiro em frente ao Parque da Cidade.

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=4765346648344&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1&theater

Flores de Outono

21/04/2013

64736_4615662386331_2017335101_n

R$ 208 mil reais em flores, gastos pela presidência da república neste ano, informa Luísa. É isso mesmo, tem muita cerimônia, morre muita gente importante, tento argumentar. Mas os argumentos não se encaixam no começo do dia, quando vou a pé comprar pão.

O céu, as nuvens, o vento, a temperatura, tudo colabora para tornar bonança a manhã de Outono depois das tempestades. Na padaria, dona Maria de Lurdes, com um sorriso permanente por trás dos óculos, dá bronca numa colega de trabalho:

– Quebrado não, homossexual, diz ao pronunciar bem pausadamente homossexual.

A conversa na área interna da padaria é sobre um sujeito de comportamento estranho, não sei se desencubado recentemente ou assumido desde sempre. Tentei apurar em vão, ao fazer de conta que olho uns quitutes pra ficar mais perto da conversa.

Em seguida, no caixa, Maria de Lurdes explica:

– Como quebrado, se a pessoa é inteira?

Saio rindo da padaria. Do outro lado da rua vem um bando de menino. Três adolescentes, mais dois quase de colo, enganchados na cintura das meninas maiores. Lembro de Maria no dia da tempestade, quando compartilhou com a mãe o medo e a preocupação com quem estava na rua naquela hora.

Avisto então a calçada da doceria Doces Sonhos coberta de lixo. Saco a máquina para registrar, para me queixar à prefeitura, afinal são 8 da manhã de domingo. Já estou próximo ao lixo quando o grupo pára também. Peço para seguirem, não os quero na foto. Mas eles empacam. Só então entendo, o lixo é o destino do grupo.

Sim, vão catar lixo às 8 horas da manhã de uma manhã amena de outono, sem chuva.

Faço a foto do lixo, sigo adiante adiante e não resisto. Viro pra trás, faço outra foto, mas uma das meninas se esconde atrás do grupo. Sinto vergonha, constrangimento.

Lá na frente encontro uma mulher com cara de evangélica. Emparelho com ela, comento, na ânsia de compartilhar. Ou ela não me ouve, ou tem a mesma ânsia e fala sobre um sujeito que está apanhando da polícia na outra esquina nesta manhã de domingo.

Eu desabafo, ela desabafa, seguimos em frente, as nuvens continuam no céu, venta um pouco, a temperatura é de 28 graus e Brasília gasta 208 mil reais em flores.

Foto: Rua de Salvador no dia 20 de março, dia da chegada do outono que se foi embora naquele mesmo dia mas já voltou.

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=4716691912006&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

Campo Grande

15/04/2013

Mocinha veio do interior trabalhar em “casa de família” no Campo Grande e a “moça de família” da casa um dia perguntou o que ela fazia tanto e até tão tarde na praça, todo santo dia, em companhia das colegas e dos porteiros de edifício.

A moça de pronto enumerou as atividades sem alterar em nada a naturalidade da voz ao descrever as ações:

– Ah, nóis conversa, nóis namora, nóis dança, nóis fode, nóis chupa picolé…

Pois é, lembrei desta história contada por Nílson e desta matéria feita por mim em março de 1988 sobre o Campo Grande ao questionar uns amigos. Eles discordavam do caráter homofóbico, defendido por mim,  do crime que tirou a vida do estudante Itamar Ferreira. Sempre se namorou e fez tudo o que a moça descreveu acima, quase abertamente, no Campo Grande e escadarias adjacentes. Desconheço alguma morte relacionada a esta orgia cotidiana na praça até então. E então?

Ela gosta de frete

03/02/2013

Sem título

Bom demais ver e participar de uma festa que dispensa o palavrão revitalizar. Mais viva do que sempre, a Festa do Rio Vermelho nos fez feliz mais uma vez, com seus tambores, sua luz, sua diversidade. É uma festa profana especialmente porque o sagrado é escancarado, esmiuçado, fotografado, sem nenhum pudor.

A filha de santo em transe é acolhida pelos seus, pelas palmas, pelos olhares e pelas fotos dos desconhecidos. Vi muitas mulheres em transe, na água, na areia, na fila dos presentes. Acho bonito, me lembra um orgasmo. E as pessoas ali, imersas na sua fé, tão nem aí pra quem assiste, tão nem aí para quem fotografa, estão inteiras e dentro de si no meio da multidão.

Tem também quem tira da fé uns trocados e arranca dos turistas uma graninha pela bênção. Tem também a cervejaria e o partido político que em nenhum pudor cravam suas bandeiras nos barcos pra tirar proveito também. Tem até evangélicos a exercer a liberdade de pentelhar a festa alheia.

E todos querem levar uma imagem. Somadas todas as fotos tiradas nos dias da festa em todo o século 20 talvez o resultado não alcance o que foi fotografado somente ontem. Com minha cyber shot de Luísa em punho também mandei ver.

E enquanto fazia umas imagens da dona da festa reproduzida às centenas nas bancas de presentes, Soraya provocou a dona de uma delas sobre meu pedido de permissão, obtida no ato: – Pode fotografar, ela gosta de frete.

 

https://www.facebook.com/gusmaomarcus/media_set?set=a.4355183794529.2148991.1135737937&type=1

De bendita a maldita chuva

23/01/2013

iacu09

Não consigo entender esta enchente de Iaçu.
Sem querer ser leviano, e correndo forte risco de ser neste momento em que as pessoas estão empenhadas em ajudar os desabrigados, arrisco a dizer que esta enchente é uma grande obra da prefeitura, tramada por anos de construções sem o devido planejamento do escoamento, aterramentos de lagoas, calçamento de ruas sem bocas de lobo – nunca vi uma boca de lobo em Iaçu.
Quando soube da enchente pensei que o rio Paraguaçu tivesse subido. Nada, ele estava lá tranquilo no seu leito.

A cidade de Iaçu naturalmente seria a prova de enchentes porque o rio corre lá embaixo e a cidade tem uma leve inclinação que facilita o escoamento das águas para o rio.

Abusaram das construções mal planejadas, dos aterramentos. Pavimentaram, ao longo dos anos, uma grande bica de concreto sobre as regiões mais baixas da cidade.

Soube que o estrago maior foi provocado pelo queda do muro do estádio, transformado pela chuva em uma represa cheia. E se rompeu levando tudo pela frente.
A chuva  sempre foi bem vinda no sertão mas  se transforma de repente na grande vilã. Injustamente.
Os grandes vilões desta história somos nós, por incompetência ou omissão. Mas enfim, como bem diz Nicanor Ramos, o momento é de reconstrução. Vamos ajudar.
Foto: Junior Carneiro / Iaçu Notícias

Somos todos Guarani e Cuíca

10/11/2012

Foto: Tainá Guarani Kaiowá

Chegamos ao Campo Grande às 18h40 sem esperança de encontrar alguém. Mas estavam todos lá, cantando e dançando, como índios. De conhecidos só Jocete, a médica das crianças, e Franciel com sua amada estrangeira. Seguimos para o Largo dois de Julho, como um bloco de índio, tomando as ruas, no mesmo percurso do  Carnaval.

Na saída do Campo Grande Soraya avistou um menino, olhou para a mãe e chutou. Será Tainá? Sim, era Tainá, nossa amiga de facebook se materializava ali. Sim, este povo do facebook existe e se encontra na rua como Ivete Sangalo. Acredite. O melhor é a alegria, como se a gente já se conhecesse desde criancinha.

Lembrei da primeira passeata, em 1977, 78. Saímos da Politécnica, descemos pela Praça Reis Católicos com  viadutos ainda em construção, gritando para os operários –  “não fique aí parado, você é explorado”, – não convencemos ninguém a nos seguir. Lá na frente, no Tororó, encontramos a polícia e as bombas de gás lacrimogêneo.

Hoje, na Avenida Sete, quem tava nas calçadas até ria da gente. “Não tem nem um índio aí”, vi alguém comentar em tom de gozação. No Largo 2 de julho o grupo se concentrou, a dança ficou mais intensa, eu me senti na minha tribo.

Outro dia estava conversando entre amigos sobre este tipo que somos, de querer mudar o mundo, mal conseguimos conduzir nossas vidas, mas insistimos em mudar o mundo. Mas vale a pena, não me arrependo e não poderia ser de outra maneira. Nem a gente e nem o mundo tem jeito.

Na praça Castro Alves deixamos nosso bloco seguir e fomos ao encontro de outra tribo no Cine Glauber. E lá se materializou  muita gente, muita mesmo, gente bacana da Escola Técnica, em torno de Josias para a estreia de Cuíca.

Confesso que tive medo de não gostar, documentário longa metragem é barra pesada pra gente impaciente com cinema como eu. Normalmente durmo em cinema e já estava me preparando pra sentir sono.

Qual o quê. O filme me pegou do começo ao fim, pela pesquisa de imagem, pelos depoimentos, pela costura, pelo personagem, pela conexão com seu tempo. Josias e Joel fizeram uma aula sobre história da Bahia em movimento. Muito, muito bacana.

Voltamos para casa com a alma lavada. Viva os Guarani, Viva Cuíca, Viva Nóis.

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=3925629015928&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1


                       Foto: blog Cuíca de Santo Amaro, o filme

Outros tempos

24/08/2012

Vivo melhor em outros tempos. Gosto de percorrer imagens de outros tempos. Por acaso acho uma imagem de outros tempos na internet, e viajo. Acho depois outra, outra… e sigo tempo afora.

Resolvi então montar aqui um álbum de figurinhas, com pedaços da história de Vitória da Conquista, cidade  de nome redundante onde nasci, onde um grupo de forasteiros venceu e conquistou o território indígena a ferro e fogo.

E construiu seu casario na mesma direção do Rio Verruga, norte Sul, Bahia -Minas.

Neste blog encontrei reunidas a maioria das imagens antigas de conquista disponíveis na busca pelo google:  http://catadodeideias.blogspot.com.br/ Mas são poucas as informações, faltam datas, fotógrafo, mais referências.

Neste aqui há mais referências, mais informações: http://tabernadahistoriavc.com.br/category/conquista/

Rua Grande II – clique na foto para ampliar.

A mesma praça da foto anterior, vista  do plano, de cima pra baixo, com as mesmas três árvores, uma delas uma espécie de pinheiro, semelhante a uma araucária.  (Foto).

Rua Grande III

Olha aqui o pinheiro em detalhe e outra criança na imagem.

Foto: http://tabernadahistoriavc.com.br/antigos-matadouros-de-conquista/#

Rua Grande – IV

No detalhe um homem e três crianças.

Foto: http://tabernadahistoriavc.com.br/wp-content/uploads/2012/02/PTN-PB0030-Rua-Grande-d%C3%A9cada-de-1930.jpg

Praça na década de 1940  http://tabernadahistoriavc.blogspot.com.br/2010/11/acervo-fotografico-3.html

Rua Grande V – A feira. Registro fotográfico mais antigo, de 1911

Sobre esta foto e a feira:

http://tabernadahistoriavc.com.br/a-primeira-feira-livre-de-conquista-foi-a-da-rua-grande/

Feiras – Da Rua Grande para a Avenida Lauro de Freitas e Praça da Bandieira

http://blogdopaulonunes.com/noticias_especificas2008a/20080308_noticia_08.htm