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Cumeadas

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Saí ontem caipiroskado de uma confraternização de trabalho. Fim de tarde, temperatura agradável, resolvi voltar para casa a pé.

Andei 3,5km  mas atravessei cidades ao ir do Cidade Jardim, pela ladeira da Cruz da Redenção,  até o Acupe de Brotas. Da perspectiva de pedestre a gente enxerga melhor a cidade, especialmente as pessoas.

Na avenida de vale, só prédios e carros, muitos carros, raros caminhantes, raras mulheres, um cenário definido por  João Ubaldo Ribeiro como Los Angeles de pobre.

Ladeira também semideserta. Mas no topo, a pracinha do Largo da Cruz da Redenção fervilha.

Com Lelé, o arquiteto que gostava de gente, aprendi uma palavra bonita para definir estas partes altas da cidade, onde as pessoas ainda andam pelas ruas e convivem:  cumeadas.

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Condução coercitiva pra chamar de minha

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Nunca vá ao encalço de um ladrão de celular, especialmente se você tem mais de 55 anos  e IMC acima de 32. Ele pode se voltar e lhe quebrar na porrada, pode haver um cúmplice por perto e  lhe quebrar na porrada e ainda pode acontecer o pior de tudo: o ladrão ser preso.

Aí lenhou total. Pra ele e pra você.
Foi o que aconteceu comigo, contei o começo de tudo aqui.

Já havia esquecido da história e recebo em casa a simpática visita de uma oficial de justiça com a intimação para eu ir ao tribunal,  prestar novo longo depoimento, agora perante o doutor  juiz.  A tarde perdida  na delegacia naquele domingo valeu nada.

O problema é que só lembrei da tal audiência no dia seguinte à data marcada. .

Comentei com minha advogada, minha porque senta ao meu lado no trabalho, e ela me aconselhou a  ir até lá e dar satisfação ao doutor juiz, logo. Como ela sabia o que estava falando, coloquei a ida como prioridade, faz uns bons dias. Mas lista de prioridades de procrastinador vive eternamente em idade de crescimento.

E eis que meu hipocampo comprometido pelo DDA  tomou novamente a dianteira e, de posse da informação de que a justiça baiana é a mais lerda do país, calculou que eu só seria convidado a depor novamente lá por 2056, tempo  mais que suficiente para um zignal eterno.

O problema é que nossa  justiça falha mas de vez em quando e logo comigo não tarda.  Fui avisado hoje no começo da noite por um  simpático policial, que amanhã irei  testemunhar na marra neste importante processo de furto de um celular na Praça da Piedade.

De vítima passei a testemunha. E  agora a  réu, quase um Josef K. a ser conduzido coercitivamente amanhã até o senhor juiz.

Logo amanhã de manhã, quando duas tarefas atrasadas e dois procedimentos médicos sairiam finalmente da lista de prioridades…

 

Imagem daqui.

HAM! HAM! HAM! HAM!

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Esse muro conhece histórias. Registradas nas marcas de cabeças, ombros, bundas e pés, nos papelões que dormem no passeio. Talvez estes sejam os metros quadrados com mais dor explícita da cidade. Na Avenida D. João VI, em Brotas, Salvador, a Bahia pobre amanhece ao relento, em busca de uma chance contra o câncer. E o novembro aqui, e o outubro aqui, e todos os meses aqui não são rosas e muito menos azuis.

A doença nos cerca a todos. Mas maltrata mais, bem mais, muito mais, aqueles que dependem de uma vaga, de uma marcação de uma senha, de semanas entre diagnóstico e exames, entre exames e procedimentos. A urgência aqui é regida pela burocracia antes da necessidade.É pegar e esperar. Não há a opção largar.

Há quase três anos, desde que moro logo ali próximo, passo diariamente pelas palmeiras imperiais perfiladas por trás do muro, por estas letras vermelhas em baixo relevo carimbadas na parede. E elas me chegam como interjeições de dor, repetidas a cada bloco do muro, como uma sequência de um mantra. HAM! HAM! HAM! HAM! HAM!

Máscaras, sondas, muletas circulam no entorno, avançam para fora do muro e buscam seguir a vida, apesar dos pesares, debaixo do sol, do mormaço, da chuva, no ponto de ônibus de um lado e do outro da rua, atravessando a faixa, embarcando nos micro-ônibus e vans de prefeituras, num vai e vem diário também para o interior.

O passeio se transforma numa praça de alimentação sobre rodas, ali nos pequenos carrinhos, lanches são desjejum, almoço e jantar. Nos mais disputados há filas. Subfilas da eterna fila, formada por diagnosticados, parentes, amigos ou por profissionais que vivem de noites mal dormidas por uns trocados pela vaga negociada.

Passar por ali todo dia é como percorrer um corredor polonês de tapas na consciência, com uma pergunta infantil martelando o juízo: por que diabos tem que ser assim?