Archive for the 'Cotidiano' Category

Mudo

20/03/2017

olhar,
ouvir,
mudar.

Pré Carnaval é um perigo

21/02/2017

Saí ileso da bagaceira do Furdunço.
Mas nesta terça não escapei. Ao tentar passar sobre  um cabo de computador a 30 cm do chão me enrosquei, dei um pequeno salto de saci à frente e na tentativa de não levar tudo junto ergui o pé preso mais um pouco e perdi o equilíbrio. Levantei também a mão que segurava o celular e então me estabaquei de peito aberto no chão feito um saco de batatas. No baque, tive a sensação de ter quebrado 200 costelas e rompido tudo por dentro. Emergência, radiografia, nada quebrado mas ainda caminho pisando em ovos e estou impedido de rir.

Queda é um perigo para gente vivida.

Lembrei da deliciosa descrição da queda e morte do Dr. Juvenal Urbino, na tentativa de  capturar um louro em um pé de manga, em O Amor no Tempo do Cólera:

“(…) El doctor Urbino agarró el loro por el cuello con un suspiro de triunfo: qa y est. Pero lo soltó de inmediato, porque la escalera resbaló bajo sus pies y él se quedó un instante suspendido en el aire, y entonces alcanzó a darse cuenta de que se había muerto sin comunión, sin tiempo para arrepentirse de nada ni despedirse de nadie, a las cuatro y siete minutos de la tarde del domingo de Pentecostés..(…)”

Quase morri  também sem tempo de me arrepender de nada e nem me despedir de ninguém, às oito e vinte da terça de pré Carnaval.

 

Tempo de listas

22/12/2016
10 tarefas possíveis e impossíveis para janeiro de 2017
(aceito dicas e ajuda para tornar todas possíveis)
Tomar banho de mar 7 dias seguidos.

Entender Alepo.
Trabalhar na horta do condomínio.
Saber mais sobre ação das facções que controlam bairros de Salvador.
Brincar com os filhos.
Fazer um caderno.
Dançar com Soraya.
Dar um caderno feito por mim de presente.
Chegar ao fim do mês com saldo negativo de peso.
Terminar de ler O Idiota, de Dostoiévski.
Chegar ao fim do mês com saldo positivo no banco.

pratigi
Praia do Pratigi, janeiro de 2012.

Organização, o retorno eterno

05/11/2016

setpubal-em-1990Entrei numas de tentar – mais uma vez –  organizar  cabeça, casa, orçamento, saúde, sonhos, trabalhos, enfim, a vida. Aí, arrumando papéis antigos,  encontrei este cartão de feliz 1991, do simpático e ferino Setúbal, feito num rápido intervalo  enquanto rabiscava sua charge diária na redação de A Tarde.
A gente muda muito pouco nesta vida.

Presente gera presente. E riscos.

14/08/2016

Luísa deu de presente de aniversário  a Soraya um curso de fazer caderno.  E hoje recebo de presente, neste dia dos pais, um caderno quase livro da aluna aplicada. No tamanho 9x13cm, o caderno livro é tão bacana que dá pena riscar.A

Tem até epígrafe luxuosa de Nildão.
girado para a esquerda

Mas páginas em branco do miolo são um convite ao risco.
eeeeesquerda
Vou arriscar.

Bola da vez

05/08/2016

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4 razões iniciais para gostar do Pokémon GO
1) É 0800, pelo menos no desembolso. Perdi a conta de quantas vezes morri em 20, 30 dinheiros para joguinhos na internet. Acho que terei uma trégua.
2) Os meninos andavam arredios a idas aos parques. Já se animaram para dar voltas de bicicleta ou caminhar para chocar ovos e conseguir os bichos neste final de semana.
3) A conversa com os dois meus e os outros dois de amigos na carona solidária nunca esteve tão animada. Eu incluído.
4) Eles se interessam mais pela geografia da cidade. Tiram os olhos das telas e começam a  se ligar na paisagem.

Há três dias que o assunto entre eles é monotemático. Pra não ficar de fora, pedi que me explicassem. E André começou bem do começo:
– Tinha um jogo, antes de eu nascer, que se chamava Pokémon.
Explicações dadas, reforçadas pro comentários de Maria, aprendi um pouco mais do pouco que sabia. Aprendi que tem ginásios onde travam batalhas entre jogadores, estações onde buscam as bolas para captura. E que são cerca de 250 tipos de bichos, cada um com características e habilidades variadas.Isso talvez seja mais do que os personagens de Cem Anos de Solidão. Mas a informação final jogou uma pá de cal no meu interesse. O celular que uso está obsoleto para entrar na brincadeira. Somos dois.

 

Foto:  Pikachu,  capturado por Maria no ano passado numa feira de cultura japonesa.

 

 

 

Miseras

24/07/2016

índice

A primeira notícia bomba que recebi pela internet foi a morte da princesa Diana, pelo UOL, em agosto de 1997. Era um domingo, estava em casa e liguei imediatamente a TV para confirmar e acreditar. Naquele tempo, notícia para ser notícia deveria estar no impresso, na TV ou no Rádio.

Hoje, quase 20 anos depois,  recebi também  no domingo uma notícia bomba pela internet, pelo  WhatsApp. Também não acreditei. Ou seja, a internet continua com a credibilidade baixa.

Como estava na rua, liguei o rádio na Band News e ouvi de Humberto Sampaio a confirmação em rede nacional: havia um sujeito ameaçando se explodir junto com a Unijorge, na prova da OAB.

Tudo isso para dizer que, mesmo sem credibilidade, os grupos do  WhatsApp foram hoje minha principal fonte de informação sobre esta  bomba piada do dia. Vá lá, não deveria ser piada porque envolve a tragédia pessoal de um transtornado mental, mas virou tragicomédia por conta da histeria coletiva alimentada pelo  que vai pelo mundo.

Primeiro vieram os áudios das pessoas que estavam no local, o vídeo da correria, o texto do juiz que negociou a rendição, tudo fonte primária, e,  finalmente, as fotos do sujeito com sua fantasia de homem bomba recheado de bala de gengibre, estas  distribuídas pelas SSP.

O print do Instagram publicada aqui me chegou  também pelo   WhatsApp. Ele chama a atenção pelo espírito de deboche na porta da universidade, mesmo ainda quando não se sabia com certeza se uma pessoa poderia se explodir. Sim, estamos em Salvador e o  ato terrorista virou evento com direito às hashtag #eufui, #eutava. Como bem comentou uma amiga, faltou pouco para aparecer a turma do isopor com água e cerveja.

Não sei se turbinadas pelas galhofa em torno do exagero do Ministro da Justiça naquela presepada com nossos terroristas de internet para mostrar serviço ao mundo, as piadas foram a melhor parte do lado comédia desta história.

Como o motivo divulgado para o ato de desespero do nosso homem bomba seria já  ter tentado 11 vezes sem sucesso passar no teste da OAB, logo apareceram os alertas para o perigo potencial da  torcida do Vitória,  com  frustração semelhante há 117 anos.

A melhor foi o recado do Estado Islâmico, em legítimo baianês: “Alá  mandou você tomar vergonha na cara e estudar pra o exame sua misera”.

Mas tudo isso  mesmo é pra dizer: juízes aloprados, suas miseras, inventem de bloquear saporra nunca mais.

Dito e feito

24/02/2016

Na mata que dá para a minha janela, em Brotas, toda noite, a noite toda, canta uma saracura.
É um canto premonição. De tanto ouvir, decifrei:

Vai, ai, ai, ai
Amanhecer, vai
Vai, ai.

O pior é que a porra da saracura sempre acerta.

Ressurreição

18/02/2016

O telefone já dava sinais do fim próximo. Demorava de ligar, descarregava rapidamente, pegava quase no tombo. Hoje amanheceu morto.
Pedi ajuda aos universitários da área de informática no trabalho, nada. Só outro, talvez outra bateria. Fui de sala em sala atrás de um modelo semelhante para testar a bateria, nada. Na última tentativa, falo baixo com a secretária de uma sala mergulhada no trabalho. Lá do fundo, uma diretora reunida com a equipe me olha entre os óculos e a sobrancelha.
– O que foi?
É uma técnica graduada, pessoa fina, modelo executiva do Bird, já foi secretária de Estado.
Sem graça, aparelho escangalhado, dividido em três, bateria e capa na mão, explico minha necessidade.
– Acho que posso lhe ajudar. Levanta, vai até a bolsa de grife, retira um estojo e dele uma pequena lixa de unha. No melhor estilo MacGyver, toma a bateria da minha mão, esfrega a lixa nos conectores e depois nos conectores do aparelho. Bingo. O telefone ressuscita cheio de energia.
Admiro muito pessoas com habilidades insuspeitas.

Al-manākh

27/01/2016

Desde criança gosto de almanaques e suas informações curiosas e inúteis. Ao assistir Cosmos (não mexam com o meu Netflix) voltei a sentir aquele prazer Macabéa, de admirar e exibir conhecimento rádio relógio: a palavra desastre tem na raiz astro e deriva dos maus presságios provocados pelos cometas, a plêiade tem sete estrelas e a mais brilhante delas se chama Alcione, que por sua vez começa pelo famoso al, revelador da origem árabe. Falar nisso, o google informa, “La palabra “Almanaque” viene del árabe al-manākh (ciclo anual)…”

João-de-barro

26/01/2016

– Ele dá quanto para ajudar a criar o menino?
– Duzentos reais. Mas eu não ligo porque ele tá construindo a casa.
– Epa, o amor está no ar.
– Que nada, eu quero é sair do aluguel.

(Leitura feminina: – Mentira, ela ainda é a finzona dele.)

 

Adeus, meu prezado!

10/08/2015

Ele se vai aos poucos, sem alarde, sem angústia, sem dor. O coração desacelera, o pulso cai devagar até o corpo ficar completamente em silêncio e frio.  Talvez as palavras mais sinônimas de morte sejam silêncio e frio.

Em volta a vida pulsa. No choro, na dor, no corre-corre para as providências dos adultos. As crianças, o cachorro, o papagaio também participam de alguma maneira do redemoinho, é um momento de quase transe para todos.

Uma morte à moda antiga, em casa, de uma forma a cada dia mais rara. Seu Rubem, meu querido amigo de 94 anos, que me chamava de meu prezado, muitas vezes de meu filho, avô de Soraya, bisavô da minha renca,  foi embora cercado de cuidado, de carinho, dos filhos, netos e bisnetos.

Enterrado ontem em João Amaro, ao lado de sua Ludu. Também numa tarde ensolarada de domingo.
Não casualmente Dia dos Pais.

___

Aqui umas histórias desta convivência: https://licuri.wordpress.com/?s=Rubem+Reis

Não te perdoo por te trair

31/07/2015

Sem título

Ela tem 20 anos, cuida da casa e do filho de 2, em Cariacica, Espírito Santo. Ele tem 33 e é mecânico. Estavam juntos havia cinco anos mas 15 dias se passaram sem um toque, sem um chamego, sem cama.

15 dias é muita desatenção.

Ela então foi à luta e em uma semana tirou por duas vezes o atraso, com  outro, a última vez num domingo, quando os três se encontraram. Ele tentou jogar a moto em cima da moça, ela se esquivou.

Em casa, ela mandou ver de faca, caneta, até tampa de fogão. Brigaram mais uma vez, terminaram na  delegacia.

Na foto do jornal ela veste uma camisa onde se lê  Love Story. É ouvida e  liberada pelo delegado porque ele não quis prestar queixa.

A história está nas páginas do jornal A tribuna, de Vitória. E como bem lembrou  minha amiga Ana Lívia,  a moça não perdoou por  trair.

É a realidade tecendo mais uma trama, superando ficção. Se Gilberto, o corno de Nelson Rodrigues, assume a culpa e pede perdão por ser traído, se o traidor de Chico Buarque, em Mil Perdões, perdoa por trair, nossa heroína não pede desculpa e nem pede perdão.

Aula

18/06/2015

Sentei num banco de espera, comprei uma paçoquita e puxei assunto. Há alguns anos houve uma campanha para ajudar na sua  cirurgia e aproveitei para saber do resultado. Normalmente calado e concentrado no atendimento aos clientes, me espantei com sua fluência, clareza, e tranquilidade para falar sobre o assunto.

Sabe tudo sobre seu tratamento. Contou como fazia religiosamente a cada seis meses o acompanhamento do PSA. Numa dessas, deu alto. Passou também a fazer biópsias regulares, seis meses PSA, seis meses biópsia. Mas não dava nada. Até que um dia deu e veio a decisão médica. Melhor tirar. Atendeu prontamente à indicação, tirou. Não precisou de procedimento adicional, tava bem no começo. “Tirei logo para resolver, depois não tive mais nada”, diz com uma ponta de alegria e total confiança em tudo que foi feito.

Não economiza resposta. Em alguns minutos soube detalhes de seus 73 anos de vida, como começou a trabalhar de motorista de trator e de caminhão no interior, como foi rebaixado a cobrador nos primeiros meses em Salvador por falta da carteira de habilitação. Tirou a carteira mas deixou a vida de motorista de ônibus para vender balas e doces. Um negócio que combina mais com sua natureza.

Jamais conheci alguém tão resolvido com rotinas médicas. Frequento aquele lugar há quase 15 anos e em todo este tempo poderia ter aprendido mais com o baleiro.

Maré

23/01/2015
Pratigi

Pratigi

“Guarde suas lágrimas porque o pior está por vir”. Ando numa maré tal que há dias rumino esta fala do cavalo do jovem herói do conto infantil russo “O pássaro de fogo” quando algo errado acontecia. A frase cai como uma luva nas mentes chegadas a um catastrofismo como a minha embora no conto tudo acabe bem no final.

Só para ilustrar a maré, duas historinhas. Das mais amenas, porque isso aqui é mas não deveria ser muro das lamentações.

Sempre fui chegado a uma furadeira e empresto meus atributos de brocador. Atributos desmoralizados quando esta semana consegui fazer jorrar água com precisão de mira a laser em dois canos em duas paredes de um mesmo banheiro.

Sempre fui o preparador de ovos mexidos da casa deste quando éramos dois. Hoje somos cinco e o ritual começa com ovo por ovo despejado num copo antes de ir para a frigideira depois de avaliado. Resolvi colocar direto e pela primeira vez na vida misturei um goro, o último.

Viver é sempre  arriscoso mas tá na hora desta maré virar.

O jeito é ir para onde tenha sol, como diz a velha canção do Júlio Nastácia. O jeito é ir para o Pratigi.

É pra lá que eu vou.

ZIP

14/01/2015

Nao é permitido

– Não me bate que eu não sou vagabundo, nem ladrão, nem ‘estrupador’.
Quatro da manhã deste domingo na emergência lotada do Hospital do Subúrbio, a lógica torta do paciente surtado e com o maxilar fraturado soava aos brados em protesto contra o policial que lhe aplicava sopapos como calmante depois dele se desamarrar da maca mais de uma vez. Espancar em vez de conter um paciente surtado não cabe no manual de nenhum hospital. Nem se ele fosse ladrão ou estuprador.

Quem viu a barata foi Dan, cabelo estilo Neymar, que recebeu uma bala  saída de um cano de revólver enfiado na boca e está há mais de trinta dias estirado lutando para quem sabe sair do hospital tetraplégico. Coberto de escaras, passou o dia quase todo sem ser trocado. Diante do apelo de quem não aguentava mais as solicitações do rapaz, um som esganiçado saído do buraco da traqueostomia, a funcionária argumenta: é esse aí que rouba o seu celular.

A barata foi devidamente esmagada por Soraya, reincidente no gesto de matar barata, uma na emergência outra na enfermaria.

Depois de solicitar algumas vezes a troca da bolsa de urina cheia de um paciente, a acompanhante ouviu a resposta irritada da funcionária: tá cheia mas não vai explodir. Madrugada, mesmo paciente com diagnóstico de pneumonia está completamente molhado, é solicitada uma troca de roupa de cama. Negativo. É só uma por dia, há problemas na lavanderia. O copo descartável também tem que durar o dia inteiro.

Claro, há atendentes atenciosas, médicos também. E o aspecto geral do hospital não é ruim, melhor até do que enfermarias de outros hospitais da rede privada. Mas há uma  distância entre o que o hospital propaga e a realidade. As pessoas sabem disso. – Isso aqui é igual ao Itaú, diz um, só tem estrela. – Na televisão é tudo maravilhoso, diz outro. E as pessoas reclamam, sim, mas o protesto chega a lugar nenhum.

Depois de cinco ou seis dias em observação, paciente com diagnóstico de pancreatite foi informado de “alta” até o surgimento de uma vaga para cirurgia. Caso piorasse, poderia voltar. Rodou a baiana e a biblia, ameaçou  um abaixo-assinado com  os irmãos da igreja, lembrou que aquilo ali era bancado por seu imposto, que até numa caixa de fósforo a gente paga imposto.

Ele tem toda a razão. O imposto da caixa de fósforo e de tudo o mais consumido por nós integrantes do universo dos  ZIP, aquele formado pelos Zero Important People, é juntado centavo por centavo até completar R$151,5 milhões anuais mensais, ou mais de R$400 mil/dia para os 313 leitos, entregues à empresa privada que administra o hospital, segundo matéria publicada na revista Época no início do ano passado.

Se levarmos em conta a revista e instituição acreditadora contratada, o Hospital do Subúrbio beira o paraíso do atendimento público. Não foi o que vi e ouvi nestes dias.  Na foto aqui publicada, Peterson tenta falar com o irmão internado e a mãe acompanhante. Veio de Itacaranha, neste sol de Verão, mas foi barrado na porta porque estava de camiseta, vestuário integrante da lista de proibidos afixada na entrada. Neste mesmo dia vi jalecos brancos passeando fora do hospital, o que do ponto de vista de segurança hospitalar parece bem mais grave.

As duas barras nas cores amarela e preta com a corrente que aparecem na foto é para organizar a fila das visitas. A regra é clara: só duas visitas por dia e uma por vez, das 15 às 17 horas. Próximo de três da tarde o segurança dá um grito para as pessoas se levantarem e entrarem em fila para o início da operação de entrada. O clima é de uma mistura de reformatório com quartel em ordem unida. Um paciente murmura, nem no hospital de  Irmã Dulce é assim. Lá não tem limite para visita.

O hospital fica a cerca de 25 km do centro da cidade, o acesso é difícil, pela BR, mas os horários de troca de acompanhantes são rígidos: 8 às 9, 13 às 14, 18 às 20h30. Fora deste horário, que não coincide com o de visita, tem que falar com a assistente social uma via crucis ainda não vencida por mim desde ontem.

Enfim, todo este relato aqui foi feito na esperança de chegar a quem pode avaliar o que está acontecendo. Meu amigo Ronaldo Jacobina, que tem acesso ao círculo VIP, marcou no penúltimo post o secretário de saúde do Estado, integrante do seu círculo de amigos no facebook.

Eu então me animei  com a possibilidade de escuta e detalho aqui hoje mais alguns episódios, na esperança de alguma  coisa ser feita para diminuir a distância entre a fantasia das matérias encomendadas  e a realidade, dura realidade de quem pertence ao círculo ZIP.

Somos todos Paris ou Periperi?

10/01/2015

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O grito é de mãe.
– Ele é diabético, ele está vomitando sangue.
O grito sai às oito horas da manhã, depois de mais de quatro horas de espera e zero atendimento. Comecei a filmar, de longe.

Um grupo maior do que o do atendimento, formado por funcionários, seguranças e policiais se armou em torno de mim. Apaga, não apaga. Não havia  imagem especial nenhuma, apenas os gritos da mãe, mas apagar aquele material era questão de honra para eles.

Manter também pra mim era, especialmente diante dos argumentos de que eu não tinha nada a ver com aquilo, que o meu paciente já estava internado, que mal agradecido que éramos, eu e Soraya, fazendo tumulto.

Sim, nosso paciente já estava internado. Mas isolado por 10 horas, sem que uma informação sequer fosse passada. Informação finalmente conseguida a fórceps depois de um noite de vigília. Informação obtida por conta dos argumentos pouco usados ali, de alguma maneira fomos privilegiados por manusear palavras.

Aquele  hospital com fachada aparentemente moderna, forma um círculo  de isolamento, uma linha de acesso, difícil de ser transposta. Esta noite estava lotado, dizem sempre estar lotado.

E quem consegue entrar, transpor a barreira do atendimento, cai num território isolado, onde o único direito dado a quem fica de fora é esperar até 15 horas do dia seguinte para ter acesso a alguma informação.

Madrugada. O homem com  afundamento de crânio perdeu a paciência, arrancou o acesso, pegou suas coisas e foi-se embora, acompanhado pela mulher.

No grito, um porteiro conseguiu internar a mulher na madrugada, depois de ter ficado manhã, tarde, noite fora da linha de acesso, a porta que separa atendimento e espera, a porta que não dá acesso a informação alguma.

Nos últimos dois dias eu havia matutado sobre Paris, sobre liberdade, fraternidade, igualdade. Essas coisas de uma Europa  pré-1800 que ainda não chegaram ao círculo de isolamento e micropoder do hospital do subúrbio, em Periperi desta noite de 2015 na Bahia.

E o que mais incomoda nem é a situação, o mau atendimento, o exercício de poder pelos  porteiros, seguranças, assistentes sociais. O que incomoda é a grande farsa no site do hospital. Dois mundos, o mundo do site, com missão e visão de belas palavras. Bela viola.

Levado a uma sala do posto policial e na iminência de ser conduzido a uma delegacia, cedi. Humilhado, tomei a decisão, apaguei o grito da mãe. Alívio geral, me estenderam a mão e eu apertei a mão de todos, estava estabelecida a síndrome baiana de Estocolmo.

Olho os jornais de hoje e  eles só falam de Paris. Da liberdade agredida em Paris, da violência em Paris. Sim, como ficar indiferente a tanta violência em Paris?

Difícil  entender também como ficamos indiferentes a tanta mentira, farsa e violência 24 horas por dia, ali, em Periperi.

O lugar

04/11/2014

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Aos 15 anos, vindo do interior de Conquista, pisei pela primeira vez no carpete do teatro meu chinelo de couro. Muitos shows do projeto Pixinguinha com a camisa azul e os colegas da ETFBa, fui me acostumando, me viciando nas suas escadarias, um dos lugares mais mágicos desta cidade. Naqueles dias vi e ouvi Cartola. Só por isso valeu. Depois vi nascer a OSBA. Um belo dia me vi trabalhando nas entranhas daquele gigante, em todos os sentidos. E cresci. Vi Gil cantar pela primeira vez sua recente A linha e o Linho. Outro dia vi nascer o Neojiba e me emocionei. Vi o teatro lotado, no Domingo no TCA, de gente de todas as partes da cidade ocupando aquele lugar especial antes restrito.
Domingo será mais um dia especial. Tomara que lote mais uma vez.

Domingo, no Parque da Cidade

24/08/2014

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Amanhece e tudo se perde

22/08/2014

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Muitas, muitas fotos deste amanhecer no Acupe de Brotas, pouco mais das cinco da manhã deste 22 de agosto de 2014 se perderam. Ficaram uma ou duas num álbum publicado no facebook. Também se perderam muitas fotos do dia a dia da casa, de uns passeios com a renca, das crianças comendo licuri no quintal da casa de Iaçu, de muitas cenas do cotidiano, da calopsita Lupi, que já se foi também.

Todas as imagens se apagaram por uma distração. Ao receber a sugestão de reinstalar o sistema no celular de um sujeito num estande no shopping para resolver um problema de não registro dos últimos telefonemas, esqueci completamente que com isso iriam embora também  as fotos. Nem os contatos telefônicos ficaram, embora o tal sujeito tenha dito que não os perderia.

Estou puto, mais chateado ainda porque não foram poucas as vezes em que posterguei acionar o salvamento automático em outro ambiente, gesto que me tomaria uns cinco minutos. Ainda postergo.

Só restou tomar o acidente como exercício de desapego, como ensinamento. Assim como as fotos, a vida também irá embora daqui a pouco, como as nuvens que já são agora mais claras, como eu e você , como a lua minguante da parte de cima da foto, como o dia já perto das seis, hora de acordar as crianças para a escola, .

Daqui a pouco é muito ou pouco tempo? quem vai saber?

Um bom lugar

27/04/2014

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Seu Ari, ontem neste lugar só faltou você. Pessoas, música, poesia. E tudo quase por acaso, do meu ponto de vista, é claro. Dizem, texto adjetivado e repetitivo perde a força. Mas eu preciso completar: pessoas fantásticas, música e poesia absurdamente boas e da mais alta qualidade, papo gostoso. Uma tarde de sábado inesquecível. Só faltou você.

E tudo quase por acaso, do meu ponto de vista, é preciso repetir.

Foi uma tarde de muitas designorâncias pra mim. Aprendi, por exemplo, que Sábado em Copacabana é de Dorival Caymmi. E não é que a letra cabe direitinho ali?

“Depois de trabalhar toda a semana
Meu sábado não vou desperdiçar
Já fiz o meu programa pra esta noite
E sei por onde começar”

Cheguei atrasado para a homenagem a Manoel de Barros, mas a ponto de ouvir o último poema. Bem sacaninha:

“Êta mundão
moça bonita
cavalo bão
este quarto de pensão
a dona da pensão
e a filha da dona da pensão
sem contar a paisagem da janela que é de se entrar de soneto
e o problema sexual que, me disseram, sem roupa
alinhada não se resolve.”

E as pessoas reclamam muito da falta de homenagens a Caymmi no centenário. Mas é nestes pequenos encontros, neste formato intimista é que as homenagens são mais verdadeiras.

E para ficar no lugar comum, Alexandre Leão deu um show, ali na voz e violão, botando o público pra cantar, falando sobre as músicas.

Gosto muito da casualidade destes eventos pequenos, sem muita pompa, sem ingresso, sem multidão. São uma boa forma da gente ter nosso imposto revertido em serviço.

E este formato parece mais com a vida cotidiana. Ali sentado, tomando um vento, olhando as árvores e diante de pessoas talentosas, produtivas, vivas. Depois um papo com os amigos, sem ter marcado, sem compromisso, falar mal da oposição, falar mal do governo, falar mal e bem dos outros, conversar sobre as crianças, sobre a vida.

Aqui em Brotas, no Engenho Velho, temos um espaço parecido e sinto a mesma coisa quando vou lá no Parque Solar Boa Vista. O lugar é ocupado pelas pessoas do bairro, tem sempre alguma coisa acontecendo.

Enfim seu Ari, ou Meu Rei, seu súdito aqui agradece e muito a tarde de sábado no seu, no nosso palacete. Estou acompanhando seu cronômetro, quando passar a maresia, quero ir de novo num sábado qualquer neste bom lugar pra gente jogar conversa fora.

 

Cadeira

27/03/2014

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Calção, camiseta, havaianas. Fui até o cinema da UFBA buscar Luísa no estacionamento mas por conta de um desencontro acabei na antessala do cinema. Com a roupa que costumava assistir aula ali do outro lado do vale. O dobro da idade e quase o dobro do peso não pesaram e eu não me senti deslocado com esta roupa inadequada, como não me sentia na época de estudante. No cinema acontecia um debate depois da projeção do filme Iara e da sala saiu um candidato a reitor, meu contemporâneo. Estou velho, um contemporâneo pode ser reitor. Mas eu ali de calção e havaianas me sentia um aluno convidado, me sentia bem, de bem com a atmosfera. A universidade está um pouco mais miscigenada mas continua predominantemente branca. Encontrei André Santana, encontrei o artista gráfico Marcos Costa, eu me senti em casa apesar dos muitos anos depois. Agora Luísa tem aula ali. Fui um cara privilegiado, tive aula no primário numa escola pública, num curso técnico público, e numa universidade pública. Foi bom ver a universidade viva, com alma, com viço e ainda acolhedora. Como esta cadeira da antessala do cinema.

Nildão, Claude Santos e Carybé

27/02/2014

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Encontros

E por falar em década de 80 andava eu pelo Campo Grande hoje pela manhã em busca de turistas chegantes para entrevistar e eis que vejo alguém em minha direção com um olhar de quem exercita pensamento, mirando todas as direções. Era Nildão. Estendi minha mão na cara de pau: – Seu amigo de facebook.

Para minha surpresa ele me reconheceu. Lembrei de uma entrevista que fiz na década de 80 sobre sua poesia escrita nas ciclovias. É muito bacana quando a gente encontra na rua gente que a gente vê todo dia no facebook. Sim, elas existem.

Sempre fui admirador da arte de Nildão e recebi hoje assim do nada em plena manhã um elogio de quem admiro, disse ele que eu escrevo bem. Disse a ele que até bem pouco não acreditava nisso, muito pelo contrário, ainda tenho dúvida, mas aceitei feliz o elogio.

Conversa vai e vem e Nildão comentou o desenho da minha camisa-farda do Carnaval, viu ali traços de Carybé. E apontou para a obra de Carybé nas pilastras e em um painel do edifício em nossa frente. Mesmo mergulhado na cidade, o olhar de Nildão consegue ser estrangeiro, olhar de quem nota o que já se tornou invisível para a maioria.

Nildão se vai depois de comentar sobre a possibilidade de ter algo de errado com uma sociedade que resolve se divertir em apenas uma semana do ano.

Mal recomeço a andar depois de fazer a foto deste post, que saiu meio esquisita, e esbarro com Claude Santos, este sim fotógrafo, e de quebra conhecedor de Canudos. Claude é um dos grandes artistas desta terra, homem também do audiovisual. Mas Claude a gente só encontra ao vivo, em cores e em preto e branco. O cara é meio arredio a internet.

Alegria pelos encontros. Carnaval é assim, mesmo quinta feira, mesmo 11 da manhã.

Sigo então em busca dos meus turistas, satisfeito com os encontro casuais com os artistas desta cidade.

PS

Resolvo revisar o texto há pouco, melhor não acreditar no elogio de Nildão. Tudo confuso, mais de 300 erros. Tento consertar. Melhor excluir e publicar de novo. A desculpa é que eu estava meio bêbado. E a vantagem da internet é a possibilidade da revisão constante.

Um dia quem sabe

27/02/2014

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Um dia quem sabe ainda leio Hermann Hesse, Stefan Zweig. Estive diante deles rapidamente hoje pela manhã numa pequena excursão afetiva por um dos espaços mais agradáveis de leitura desta velha Salvador, a biblioteca do ICBA. A maioria dos títulos é em alemão, mas o que sobra em português é suficiente e sobra para minha carência de leitura.

A rápida visita à biblioteca, mesmo fechada, me foi franqueada pela bibliotecária depois que pedi a ela uma breve visita à minha memória afetiva das décadas de 70 e 80. No ICBA vi peças, shows, ali comecei a ler alguns livros, mas sobretudo flanei, respirei um ar diferente, um ar necessário e em falta em outros espaços da cidade nas décadas de 70 e 80.

Quem sabe um dia eu resolva ser leitor. Voltarei então à biblioteca do ICBA.

Solidariedade feminina

10/02/2014

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Sou do tempo do discar. O 1 voltava rápido. O zero era uma eternidade no retorno com barulhinho de catraca contrariada, bem anos 70. Depois evoluí para a tecla, mesmo assim meu tempo é do telefone para telefonar. Máquina fotográfica pra fotografar. Filmadora pra filmar. Computador pra computar.

Comprei ontem uma máquina fotográfica e filmadora acompanhadas por telefone com duas linhas e um computador com acesso à internet e 16 gigas de memória.

Resisti bastante à mudança. Defendia e até me “exibia” com meu telefone peba. Mas meu erro fatal foi mudar do peba Nokia para o peba Alcatel. E quando você junta um peba Alcatel com a TIM o resultado pode ser desastroso.

A gota d’água aconteceu na sexta, quando no meio de uma conversa crucial com a chefia, a primeira demanda importante no retorno das férias, o Alcatel ficou mudo. A bateria acabava duas vezes por dia sem se dignar a avisar.

Mas o pior eram as ligações ignoradas. Nestes dias de muita pressa e muitíssima carência, não retornar uma ligação em 3 segundos pode ser interpretado como lerdeza ou desprezo.

Como não queria os amigos magoados e nem ser despachado do trabalho por incompetência,  fui em busca da marca Sansung. Já havia definido  também há muito meu futuro ingresso na tribo Androide. Tenho uma antipatia inexplicável por iPhone mesmo sem jamais ter usado um. Mas também uma simpatia absurda pelo Mac, um dia ainda terei um.

Entrei na loja perguntando pelo Sansung Duo. Mas fui na concorrência checar a novidade alternativa oferecida pelo primeiro vendedor. Voltei e saí com um Moto G nas mãos.

Como assim Moto G? Motorola não era aquele marca do tijolão da pré-história da telefonia celular?

Era, mas foi comprada pelo Google. Já havia ouvido falar vagamente sobre isso e do lançamento do aparelho no final do ano passado. Mas os dois vendedores me informaram os detalhes, da procura maior, do sistema operacional com garantia de atualização, da rapidez, da máquina que faz foto apertando em qualquer lugar da tela e da possibilidade de fotos em sequência, da bateria potente e toda a lista de vantagens na ponta da língua de todo vendedor.  Acreditei.

Mas pesaram mesmo na minha decisão duas palavras: Google e Androide.

Pode falar, pode rir de mim, até me chamar de besta, mas sou bastante grato ao Google, até fã.Teria largado há muito a profissão  caso não surgisse uma fonte de pesquisa como essa, rapidíssima e confiável quando bem feita. Além da quase ausência de memória, defeito grave em quem trabalha com comunicação, necessito sempre confirmar a existência de muitas coisas. E não tem ferramenta melhor para constatar a existência das coisas do que o Google.

Com a aquisição, resolvi praticamente todos os meus problemas de comunicação e ainda ganhei o bônus de passar a pertencer depois de séculos ao mundo desconhecido dos que usam Instagran e whatsApp.

Mas ganhei também três problemas:

Nunca me roubaram um celular peba. Devo ter sido muitas vezes revistado com os olhos e liberado. Com esse bonitão no bolso, corro sério risco de virar estatística nesta nossa guerrinha muitas vezes fatal pela posse de bugigangas tecnológicas. Soraya disse que na porta do Luís Viana, aqui perto, quase todo o dia ouve berros de alunos chorando a perda depois do ataque de pequenas gangs,  de tocaia nas cercanias do colégio.

O segundo problema é que estou com sérias dificuldade para operar  tanta tecnologia concentrada. André e Maria já são íntimos, já pegaram no bicho resolvendo tudo com seus polegares opositores afiados de nascença e se oferecem piedosamente para me ensinar a dar os primeiros passos. Ando tão  lerdo que demorei até para acertar a atender a primeira ligação.

O terceiro e mais grave é que perdi todos os argumentos para adiar a compra das  muitas coisas que faltam para a casa. Sempre fui contra prestações, mas o ser humano se trai no desejo e terei longos 10 meses sem argumentos.

O pior é que a contradição é mais visível do que eu pensava. Ao receber nossa primeira visita, de um casal amigo, Soraya teve a solidariedade feminina. Foi só eu encontrar uma oportunidade de me exibir com o novo aparelho para nossa amiga, testemunha  ocular da bagunça da casa por conta da ausência de suporte para as coisas, soltar imediatamente e quase indignada a perguntinha travada na garganta de Soraya há quase 48 horas:

E os armários?

Pidão, charmoso ou dotado de muita oxitocina?

09/02/2014

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Sei, você vai dizer que sou pidão. Mas voltei todo feliz  pra casa com esta jaca como troféu. Ganhei na padaria da esquina. Queria comprar, o cara disse que não estava à venda mas em seguida mandou a frase mágica, a alegria dos pidões: leva pra você.

Juro que não pedi, queria comprar. Há uma semana namoro as jacas dos pés carregados desta matinha aí da foto, remanescente do que sobrou do crime ambiental sobre o qual eu moro.

Tal como a Europa que devastou suas matas e resolveu preservar o resto do mundo, estou empenhado em preservar esta aí, que me garante o canto dos sapos, dos pássaros e uma noite mais escura e ventilada.

Mas voltando ao meu charme, o dono da padaria não resistiu à minha alta concentração de oxitocina no sangue, ou o tal hormônio da empatia, e eu estou aqui admirando tanto a moça que estou até com pena de comer. Vou comer sozinho porque os meninos não gostam e Soraya só aceita jaca dura.

É servido? É jaca mole. Ou você também só gosta de dura?

O sofá, a peça e a insistência

06/02/2014

Escrevo neste Licuri desde 2006 e sempre tive um retorno emocional absurdo com ele. Elogios, emoções reveladas, reencontro com velhos amigos, o saldo é azul , bem azul. Com o facebook então, o retorno tem sido ainda maior.

Certa vez cheguei a ter retorno financeiro. Escrevi um post sobre minha necessidade de arrumar trabalho extra para aumentar a receita combalida e logo em seguida recebi o convite para um frila, que resultou num bom desaperto no orçamento.

Nesta semana voltei a ter retorno material misturado com emocional.

Recebo a ligação com a proposta. Dona de um novo apartamento maior, daqueles que trazem a palavra mansão antes do nome,  quer passar para a frente por um preço simbólico e em prestações,  uma sofá e um buffet, que no meu interior conhecemos como peça.

Conhecemos a dona da oferta mas ela foi feita por uma pessoa mais próxima da gente e dela, interlocutora cheia de dedos.

E agora? E se a gente não gostar? e se não combinar com o que a gente pensa para a casa? Como recusar uma oferta dessa, depois da pessoa se disponibilizar a ir com a gente ver os móveis, abrir um tempo na agenda apertada de empresária e simplesmente ser desdenhada?

Soraya diz que a culpa dessas situações é da exposição permanente da nossa vida aqui. E é verdade, não adianta eu tentar me conter, faço parte da tribo do suicídio coletivo da privacidade, como já definiu o Boni.

A sorte é que gostamos dos móveis e da sugestão de transformações possíveis feitas pela própria dona. E da surpresa do texto do fechamento do negócio. O que seria venda virou doação.

A doadora disse que gostou do que tenho escrito sobre a nossa mudança de casa, gosta dos meus textos, não se manifesta mas se emociona, já chorou até com um deles.

Pronto. Estou remunerado pelo que escrevo, remuneração econômica e afetiva por conta dos elogios.

Ficamos meio boquiabertos com a proposta mas eu resisti pouco. Poderia insistir com o pagamento, mesmo simbólico.

A minha pouca resistência me fez lembrar uma história contada por Nilson, atribuída a um personagem de Brumado, mas na verdade é uma daquelas anedotas universais repetidas para ilustrar um comportamento típico.

A visita aparecia com a mesma conversa mole todo dia, faltando 15 minutos para o meio-dia. Mesa posta, a família se sentava e alguém convidava quase baixinho, entredentes. – Vamos almoçar?

A resposta vinha efusiva, quase contrariada: – Já que você insiste!

Nossas caixas, nossa vida, um aceno

29/01/2014

O simples é o estado mais difícil. O simples requer clareza, desapego, funcionalidade, inteligência, combinação. Organizar  uma casa é como construir um texto. O alfabeto é o mesmo, as palavras as mesmas, o segredo está na combinação, na economia, na disposição.

Casa nova, desafio de arrumar. Com quase dinheiro nenhum. Na casa só caixas e móveis renegados. O desejo de Soraya seria começar do zero, cama de tatame, dura caminhada.

Mas somos cinco. Muito papel acumulado, muita tralha. O sanitário da primeira suíte da vida do casal está de caixa até o teto, sem previsão de liberação para uso. O que fazer?

Um aceno

Vimos primeiro a criança, colega das escolas dos meninos. Em seguida os pais, um casal de arquitetos conhecido de oi, oi e de alguns papos na praça e na escola. Eles em busca  lanterna na seção de ferramentas da loja de construção para o acampamento da pequena, a gente por uma chave de fenda adequada para desarmar uma estante.

Conversa vai, conversa vem, vai, vem e de repente o convite.

– Vamos lá em casa, é aqui perto, vocês vão ver como resolvemos.

Tomamos um susto com o convite. Abriram a casa para a gente, franquearam a intimidade, numa generosidade absurda.

Adepta do faça você mesmo, ela conseguiu com estantes de aço, destas de escritório, moduladas, mais caixas organizadoras, construir um ambiente bacana, absolutamente personalizado. Nada ali lembrava nada já visto nas lojas, quase tudo material simples, mas combinados com sofisticação.  Mesa e camas foram feitas de portas revestidas. Cada móvel, cada canto tinha a cara do casal. Um  apartamento pequeno como o nosso, mas absurdamente acolhedor. 

Pronto, é por aí. O problema é como fazer. Soraya leva jeito, mas sou absolutamente analfabeto em arrumação de casa. Não adianta usar os mesmos materiais se não há habilidade na combinação. Tivemos  com esse encontro um aceno da ajuda, de orientação, mas o corre-corre da mudança e a viagem para pegar os meninos no interior interrompeu o contato.

Retomaremos.

Tentar fazer é a única saída para quem tem pouco dinheiro e quer fugir da padronização. 

Esse Licuri agora só pensa em mudança e casa nova. Vamos quebrar esse coco.

Mudanças

28/01/2014

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Falar em mudança, relembro aqui texto antigo, publicado neste coco pequeno ainda no tempo do Uol Blog ( http://bit.ly/1mTaeuK ), em 27 de setembro de 2006, quando mudamos do Pau da Lima para a Pituba:

Felicidade na alma. Vou mudar. Gosto disso. Sou por natureza mutante de corpo, casa e alma. Lembro da primeira mudança aos seis anos, abraçado a dois travesseiros, atravessando a praça da Bandeira, do Hotel Maringá, onde nasci, para o Hotel Lancaster onde vivi até os oito anos, em Conquista. Depois fiquei viciado em mudança, experimentando sempre, voluntária e involuntariamente em mais de duas dezenas de endereços: Salvador, Castro Alves, Manoel Vitorino, Conquista, Salvador, Moscou, Salvador. O lugar onde vivi mais tempo é onde viverei até sexta. Fecho um ciclo de oito anos dos 45 de vida, com a chegada do segundo e do terceiro filho. Saio do apertamento próprio, cercado de verde e pobreza. Vou para o apertamento alugado, cercado de concreto e classe mérdia, como dizia o poeta revoltado de antigamente. Vou acampar ao lado da escola dos meninos. Estou me sentindo como o pai que sai do interior e vai para a capital levar os filhos para estudar. Os meninos perdem os amigos, o pai ganha a alforria do volante na Avenida Paralela engarrafada quatro vezes ao dia, e a mãe perde o sonho da reforma. Todos perdemos e ganhamos, como o macaco da cumbuca.

Em tempo: em vez do golpe de machado na testa do senhorio, tive vontade de tascar um beijo na careca dele depois do contrato assinado. Deu tudo certo, o resto era agonia.

 

Ilustração: http://bit.ly/1d6lpL9

 

Vistoria

28/01/2014

Meu senhorio se revelou uma pessoa chata, muito chata, desde o primeiro contato, há pouco mais de sete anos. Na época, tive ganas de virar Raskolnikof, quando ele desdenhou de nossa pressa de mudar. 

Nossa relação começou errada. Na ansiedade de alugar o apartamento, localizado perto das três escolas das crianças,  aceitamos tudo, um contrato que dizia estar o apartamento todo ok, com descrição de todos os itens no detalhe, até de um varal de alumínio.

Só que não estava. Os armários já apresentavam pó de cupim desde o começo, tudo ali era muito elegante e antigo, muito perfeito na década de 70. O tempo passou, a PDG me sacaneou e eu fui renovando o contrato sempre a favor do senhorio, não tinha argumentos, na hora h amofinava, enfim, sempre fui um péssimo negociador. O resultado é que depois deste tempo todo pagava o maior aluguel do prédio.

E agora, como entregar um armário de aglomerado destroçado, sem uma das portas, um armário do banheiro sem um vidro, um suporte de tanque de área de serviço todo despedaçado por um vazamento, um par de porta de box quebrada, piso arranhado, maçanetas soltas, portas quebradas? Enfim, tornar novo o velho só com mágica. Conseguida por Cardoso, marceneiro de Cajazeiras, sukgerido por Elias, um faz tudo especializado em pisos, indicado na lista de e-mails de novos vizinhos. Nesta lista, que além de amaldiçoarem a PDG em 9 de 10 mensagens, os moradores trocam também informações preciosas sobre prestadores de serviço.

Gastei mais no velho apartamento do que no novo, Cardoso fez mágica, recuperou os armários, trocou portas, arranjou até um velho vidro jateado, igual aos demais. Fui na Ladeira da Soledade e renovei as portas de box com se Antônio, com preço 1\3 menor do que na Barros Reis. Mas depois de todo este esforço, a tensão sobre a aceitação dos consertos permaneceu. Nem tudo ficou perfeito, uma gaveta foi esquecida e colada às pressas na véspera, por nós mesmos. 

9 horas em ponto de segunda chega ele com sua gravata, paletó maleta e contrato na mão. Começou dando parabéns por Luísa, viu o nome dela no jornal, na publicidade do Oficina. Disse que a filha também é arquiteta, em todos os encontros fala desta filha moradora da Áustria, um típico pai babão, mas nisso empatamos. Tem orgulho também do filho, que passou em primeiro lugar no concurso federal na frente de outros quatro mil candidatos. 

Entrou, começou a testar as janelas, se queixou da pintura que respingou no rodapé, fez várias perguntas, eu e Soraya, moídos pela faxina da véspera, começamos a pensar no pior.

A medida que a vistoria avançava, a interrogação aumentava. A conversa sobre filhos misturada a detalhes em falta não nos garantia se a reforma seria aprovada ou se teríamos mais uma dívida pela frente, sem falar do aluguel e condomínio do mês ainda em aberto.

Estávamos prontos para o pior. Fizemos o possível para não criar problema com o senhorio nem dor de cabeça para meu cunhado e fiador, uma pessoa correta que não merece ser importunada. Mas se aquele senhor fizesse mais exigências acionaríamos nossos advogados juniors porém competentes Dr. Victor ou Dr João, ambos de prontidão para reaver parte do prejuízo provocados em nossa vida pela  PDG.

Suspense no final, entreguei todas as chaves e esperei o pior. E aí?

– Tudo certo, cumpriram o contrato.

Alívio geral.

– E o aluguel deste mês, perguntei, na intenção de engatilhar um pedido de parcelamento.

– Vocês não me devem nada, sou um pessoa correta, e gosto de incentivar pessoas corretas como vocês.

E tirou dois cartões do bolso, onde se lê Manoel Vitorio da Silva, Advocacia e Consultaria. Se precisar de qualquer coisa, é só me procurar, considero vocês meus amigos, pessoas admiráveis e de bem.

Olhei para Soraya, quase marejamos, quase demos um beijo na careca do sujeito, quase pedimos perdão. Ele, que havia sido sacaneado pelo inquilino anterior, sempre foi inflexível conosco. Mas na última hora se revelou outro.

E se revelou outro  por ter transportado e plantado com as mãos as árvores da rua em 1972 (recentemente envenenadas), por prezar pelos jardins e pelas áreas comuns, enfim, se revelou, de verdade, uma pessoa que jamais havíamos conhecido nestes sete anos de embate. Uma pessoa muito bacana, não pelos R$1400 de presente, absolutamente não previstos no contrato nem na nossa mais otimista previsão, mas pelo gesto.

Um forte abraço Dr. Manoel Vitório. Estamos gratos, muito gratos por tudo. Até pela oportunidade de revermos nossos conceitos.