Arquivo da categoria: livros

Pré Carnaval é um perigo

Saí ileso da bagaceira do Furdunço.
Mas nesta terça não escapei. Ao tentar passar sobre  um cabo de computador a 30 cm do chão me enrosquei, dei um pequeno salto de saci à frente e na tentativa de não levar tudo junto ergui o pé preso mais um pouco e perdi o equilíbrio. Levantei também a mão que segurava o celular e então me estabaquei de peito aberto no chão feito um saco de batatas. No baque, tive a sensação de ter quebrado 200 costelas e rompido tudo por dentro. Emergência, radiografia, nada quebrado mas ainda caminho pisando em ovos e estou impedido de rir.

Queda é um perigo para gente vivida.

Lembrei da deliciosa descrição da queda e morte do Dr. Juvenal Urbino, na tentativa de  capturar um louro em um pé de manga, em O Amor no Tempo do Cólera:

“(…) El doctor Urbino agarró el loro por el cuello con un suspiro de triunfo: qa y est. Pero lo soltó de inmediato, porque la escalera resbaló bajo sus pies y él se quedó un instante suspendido en el aire, y entonces alcanzó a darse cuenta de que se había muerto sin comunión, sin tiempo para arrepentirse de nada ni despedirse de nadie, a las cuatro y siete minutos de la tarde del domingo de Pentecostés..(…)”

Quase morri  também sem tempo de me arrepender de nada e nem me despedir de ninguém, às oito e vinte da terça de pré Carnaval.

 

Anúncios

Retratos

cover-145439-600

 

“Era uma noite maravilhosa, uma noite tal como só é possível quando somos jovens, caro leitor”.
Esta é a abertura, bela abertura, do conto pretendido para leitura nos momentos de espera antes de receber na veia doses de radioatividade para tirar um retrato do velho coração descompassado.
São duas doses, dois retratos, mas o conto ficou pelo caminho. As conversas no pequeno cubículo com paredes grossas de chumbo, onde se reúnem homens e mulheres não jovens agora radioativos, tomaram conta da manhã. Uns com muitas falas, talvez os mais medrosos, outros no silêncio atento enquanto aguardam a vez.
Estirado debaixo da grande máquina fotográfica de coração eu me sinto um modelo do século retrasado diante do daguerreótipo, sem direito a  mexer nem uma unha, respiração contida. Tomara que este treco evolua como as máquinas de retrato de gente pelo lado de fora.
“Chegou bem amor? Ainda bem, te amo”, diz o médico ao celular enquanto aguardo todo conectado a fios e espetado por uma seringa por onde entrará a segunda dose radioativa durante uma caminhada na esteira. Nesta mesma semana tentei me despedir da médica que me fez um outro retrato do coração, daquela vez sonoro e transmitido diretamente para uma tela de TV. Mas não consegui nem ouvidos nem olhos,tão ligada ela estava à tela do seu espertofone.
É preciso esclarecer que a atenção aos telefones não invadiu o momento da realização dos exames. Estes gestos não me incomodam, vejo-os apenas como sintomas de um tempo, um tempo em que nascem também muitas novas palavras, como essa, espertofone,  até outro dia desconhecida.
Pretendo chegar ao final da leitura do conto na continuação da investigação médica. É um texto pequeno, Noites Brancas, de Dostoiévski. São apenas 97 páginas, quase um bilhete se comparado aos seus grandes clássicos.

 

Gramática da Ira

maca3

Sou um leitor preguiçoso, deixo muitos livros esperando,  quase todos. Sou quase um leitor fraude. Mas de vez em quando um livro me pega e me vence. Assim terminei hoje de ler Gramática da Ira, de Nelson Maca, de uma segunda levada. E então me arrisco a compartilhar umas palavras sobre meus  sentimentos a partir da leitura.

Gosto de Maca falando poesia. O cara encarna, entra em transe, vira um caminhão lança mísseis de palavras. Certeiras.

No livro não é diferente, leio em voz alta e entro no seu ritmo. É um livro de guerra, de trincheira, sem meias palavras. A poesia de Macca é artilharia pesada em  branco e preto. É oito ou oitenta.

É guerra de guerrilha poética, sem bandeira branca. Macca vai à luta, se recusa a alisar a língua, a dar a outra face. De preto para preto, de preto para branco.

Li Declamei Vozes D’Africa em praça pública, quando criança. E ao ler Maca vejo que na sua poesia a garupa também sangra e a dor poreja. Mas na primeira pessoa.

Salve Maca, com respeito.