Archive for the 'Outros' Category

11/08/2017

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Leão pode ter sido criado no WhatsApp

02/05/2017

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A Escola Picolino de Artes do Circo mata um leão por dia para manter viva a arte circense.  Em mais de três décadas,  Picolino é sinônimo de circo na Bahia. Talvez seja esta presença forte no imaginário, este top of mind quando se fala em circo,  o alimento para o boato de que seria do Circo Picolino o ”feroz e faminto” leão fugitivo de uma jaula numa estrada no interior. O leão seria o responsável pelas mortes –  verdadeiras – de mais de 30 pequenos animais de criatórios de pequenos agricultores.

Mesmo que o Picolino não seja um circo itinerante, mesmo que o Picolino não tenha caminhão e nem trabalhe com animais desde sua criação,  há até  um motorista do Picolino e um local onde o bichano teria escapado,  a estrada – BA-409, perto de Serrinha. Há até “testemunhos” de moradores que teriam visto o animal.

Basta googlar “leão, circo, Picolino” (http://bit.ly/2p6KjZe) para ver que a “notícia” foi replicada em dezenas de blogs e sites regionais e até nos sites dos  jornais de Salvador. O Correio* já apagou – ficou apenas o registro na busca do google – mas a Tribuna mantém ainda a história publicada até hoje, dia 2 de maio.

A boa nova chegou de um site do interior, o Notícias de Santa Luz, que talvez tenha matado a charada. O site revela que desde o aparecimento de dezenas de animais mortos começaram a circular pelo WhatsApp mensagens sobre o leão do Circo Picolino, que teria fugido na noite deste sábado, 29 de abril.  Circulou até áudio do suposto motorista do caminhão do circo relatando a fuga do bichano. Para ilustrar a notícia, sites e blogs capturaram uma foto de um leão em uma estrada de Santa Catarina, publicada em 2013, como se fosse o leão do Picolino.

O Notícias de Santa Luz teve o cuidado também de ouvir o Circo Picolino, ouvir um veterinário e ouvir um morador para chegar a uma hipótese, talvez a mais próxima da verdade: os animais teriam sido mortos por cães, fato que vem se repetindo na região há mais de um ano.

Foto: Valter Pontes/Agecom – Apresentação da Picolino em homenagem a Gregório de Mattos  no Festival da Cidade 2017,

Nove verdades, uma mentira

12/04/2017

Eis o gabarito:

1 – Quebrei e abri a cabeça da boneca do presente da irmã no dia de Natal para entender como os olhos abriam e fechavam.
Natal de 1965,  talvez 66. Lembro da primeira etapa, a do convencimento. A pancada, a cabeça da boneca estraçalhada e o resultado decepcionante. Duas bolinhas sem graça, que em nada revelavam  a magia do abrir e fechar de olhos. O berreiro de Stael foi bem alto.

2 – Dormi andando na rua, bati a cabeça num poste e retornei caminhando no sentido oposto.
Madrugada. Voltava a pé, pela Avenida Paulo VI, exausto e meio bêbado, depois de um show da banda Faróis Acesos num bar da Orla, lá pelo começo dos anos 90. Perto de chegar ao destino, na altura do Superpão, ouvi a pancada, fiquei meio zonzo mas continuei. Alguns minutos depois me vi novamente na praça dos Correios, perto do ponto de partida.

3 – Integrei um bando de crianças no roubo a letras de bronze de jazigos à noite em um cemitério.
Castro Alves, 1973. A meninada subia em bando para o cemitério. Guardei umas letras de lembrança por um tempo. Até hoje gosto de cemitério. Mas não recomendo furtos.

4 – Quase morri afogado quatro vezes. Duas delas: ao tentar atravessar a nado o Rio Pardo e numa banheira de hotel.
Tinha eu 14 anos  e era o passeio de formatura do 1ºgrau. Minha exibição perdeu fôlego faltando uns 50 metros para a outra margem. Afundei. Por sorte, deu pé.
Estava a trabalho num congresso em Sauípe. Dispensei o jantar de abertura e fiquei só no vinho. Depois de concluída a tarefa, segui para o quarto. Só lembro de ter acordado na madrugada, com a banheira soltando água pelo ladrão e mãos e pés com aparência de 200 anos.
As outras duas: também ao tentar atravessar um rio, no interior, abrindo uma picada como topógrafo, e num vacilo ao andar sobre um rio congelado em Kiev. Contei esta história aqui.

5 – Ganhei um carro de presente.
Sim, com direito a bolas de soprar e fita. Contei aqui.

6 – Fiz uma ponta em um filme.
Mentira. Mas aberto a convites.

7 – Já andei em Salvador armado com uma pistola 765.
Até eu não acredito. Esqueceram a pistola no hotel de minha mãe em Conquista. Alguns anos depois, no final da década de 70, resolvi confiscar a arma para andar em Salvador e me sentir mais seguro, mesmo sem nunca ter dado um tiro.  Por sorte não fui assaltado nem revistado. Descasquei o pente na roça e fiquei sem munição. Ainda bem.

8 – Quase bati no carro de Gilberto Gil, ele ao volante.
Praça da Sé, ainda circulavam carros. Eu a bordo de um Chevette vermelho, freio bruscamente e no outro carro  reconheço Gil, ao volante.
– Você quase bateu na minha Ferrari, gritei, simulando irritação. Ele respondeu com uma risada: – Sua Ferrari ferrada.

9 – Dormi ao relento no batente da porta da igreja de Bom Jesus de Matozinhos, em Congonhas.
17 anos, de carona para conhecer Minas. Cheguei à noitinha e não tive como procurar um lugar para armar a barraca.

10 – Andei a pé num túnel de trem à noite.
Tinha chegado ao alojamento de estudantes à noite, perto de Sochi. Junto com um amigo, talvez Sacha Cavalcante,  resolvi explorar o entrono e fomos parar no meio do túnel, Ainda bem que o movimento era fraco. No dia seguinte, ao ver os trens circulando, me dei conta do tamanho do risco.

Pré Carnaval é um perigo

21/02/2017

Saí ileso da bagaceira do Furdunço.
Mas nesta terça não escapei. Ao tentar passar sobre  um cabo de computador a 30 cm do chão me enrosquei, dei um pequeno salto de saci à frente e na tentativa de não levar tudo junto ergui o pé preso mais um pouco e perdi o equilíbrio. Levantei também a mão que segurava o celular e então me estabaquei de peito aberto no chão feito um saco de batatas. No baque, tive a sensação de ter quebrado 200 costelas e rompido tudo por dentro. Emergência, radiografia, nada quebrado mas ainda caminho pisando em ovos e estou impedido de rir.

Queda é um perigo para gente vivida.

Lembrei da deliciosa descrição da queda e morte do Dr. Juvenal Urbino, na tentativa de  capturar um louro em um pé de manga, em O Amor no Tempo do Cólera:

“(…) El doctor Urbino agarró el loro por el cuello con un suspiro de triunfo: qa y est. Pero lo soltó de inmediato, porque la escalera resbaló bajo sus pies y él se quedó un instante suspendido en el aire, y entonces alcanzó a darse cuenta de que se había muerto sin comunión, sin tiempo para arrepentirse de nada ni despedirse de nadie, a las cuatro y siete minutos de la tarde del domingo de Pentecostés..(…)”

Quase morri  também sem tempo de me arrepender de nada e nem me despedir de ninguém, às oito e vinte da terça de pré Carnaval.

 

Show pa chorar

12/02/2017

Se você viesse me perguntar se eu choraria num show com músicas de Belchior talvez eu risse. Mas as lágrimas desciam silenciosas pelo canto do olho. Soraya chora até agora. Talvez seja o achonchego intimista do Teatro Gamboa, da fila do gargarejo. Talvez seja a vontade enrustida de  chorar por conta da pegada violenta desta vida. Mas com certeza pela interpretação dos dois – JosyAra e Giovani Cidreira. Mesmo aquelas músicas com versões definitivas na voz de Elis Regina ganharam pegada nova, emoção nova. Fiquei ali, a escutar  novidades nas letras, como se elas estivessem escondidas todos esses anos. Belchior anda sumido mas reapareceu diante de nós. Todos rejuvenescidos.

Viúvos

03/02/2017
Quem morreu primeiro foi minha avó materna. Nem a conheci. Lembro do meu avô Antônio, da sua solidão, cuidado pelas filhas, na casa de tia Dalva. Quem morreu primeiro foi tia Dalva, os dias estão bem difíceis pra meu tio Adauto. Quem morreu primeiro foi tio Ruguinha. Lembro dos dois sempre juntos na casa de Tanhaçu, que ficou ainda maior sem tia Quezinha. Quem morreu primeiro foi dona Ludu. Seu Rubem cortou um dobrado por quase 12 anos.
As mulheres são mais fortes, cuidam mais, vivem mais. Mas de vez em quando aprontam. Por isso me tocou muito a foto do abraço de consolo entre os viúvos Fernando e Luís.

Feliz maré nova!

29/12/2016

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Em qual ciclo damos a volta em nós mesmos?
Num dia, com sua noite embutida?
Numa semana e seu cabalístico 7? Uma semana do trabalho de Deus e uma lua?
Num mês, com suas quatro luas?
Num ano, com suas quatro estações?

Ou será que o ciclo humano, nossa volta em nossos rasos e profundos, é o tempo de uma maré?
Tudo muda entre a maré alta e a baixa, o cenário é outro, as possibilidades são outras.

Talvez uma das chaves do tempo, dos ciclos, do nosso tempo humano, esteja nas 12 horas e 24 minutos entre o máximo e o mínimo da maré.

Maré que tem a ver com a lua, que tem a ver com o sol, que tem a ver com o movimento em espiral que vai nos levando universo afora.

Então, para ser mais breve, não vou desejar feliz ano novo e sim uma feliz maré nova, seja ela alta ou baixa. Todos os dias.

 

Foto: Barra do Serinhaém, janeiro de 2009.
https://licuri.wordpress.com/2009/02/04/e-no-setimo-dia/

 

Cumeadas

18/12/2016

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Saí ontem caipiroskado de uma confraternização de trabalho. Fim de tarde, temperatura agradável, resolvi voltar para casa a pé.

Andei 3,5km  mas atravessei cidades ao ir do Cidade Jardim, pela ladeira da Cruz da Redenção,  até o Acupe de Brotas. Da perspectiva de pedestre a gente enxerga melhor a cidade, especialmente as pessoas.

Na avenida de vale, só prédios e carros, muitos carros, raros caminhantes, raras mulheres, um cenário definido por  João Ubaldo Ribeiro como Los Angeles de pobre.

Ladeira também semideserta. Mas no topo, a pracinha do Largo da Cruz da Redenção fervilha.

Com Lelé, o arquiteto que gostava de gente, aprendi uma palavra bonita para definir estas partes altas da cidade, onde as pessoas ainda andam pelas ruas e convivem:  cumeadas.

“Con los que te hacen reír quedate toda la vida.”

10/12/2016

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Início de 1976, um amontoado de adolescentes na faixa de 15 anos, sem pais por perto, se organizava em filas para a matrícula. Muitos éramos do interior, havíamos passado no teste da Escola Técnica e tudo ali era uma vida pela frente, hora de fazer novos amigos.

Sentado no canteiro do jardim interno da escola, com um vinil ainda embalado da loja na mão, o garoto atende a minha curiosidade e apresenta sua nova aquisição. Era um disco de Macalé e um pretexto para uma amizade estabelecida imediatamente naquele momento. Ontem a música nos aproximou novamente, num encontro marcado na plateia de Tom Zé, na Concha. Ângelo Sérgio Silva continua com a mesma voz grave, a gargalhada solta. Só mudou na  cor dos hoje poucos cabelos e na escolaridade. O garoto agora é professor doutor.

Alberto Freire Nascimento – mesmo os de memória fraca jamais esquecem o nome completo dos colegas de sala – outro de gargalhada fácil, também acumulou cabelos brancos e também virou professor doutor. Aprendo até hoje com os dois.

Numa das primeiras aulas de português, quase ninguém se conhecia, Betão atendeu o desafio da professora, levantou o braço e levou uns 10 minutos explicando as diferenças no estilo dos heterônimos de Fernando Pessoa. Eu, de queixo caído, mal sabia quem era o sujeito, e o cara já nadava de braçadas nas sutilezas dos muitos ali contidos em um. A admiração de décadas nasceu naquele dia.

Em 1985, fora de Salvador havia 2 anos, fui reencontrar Betão e conhecer sua Luíza, numa noite morna, no largo dos Aflitos, na porta do bar Toalha da Saudade. A conversa  rolou solta e longa ali fora mesmo,  lá dentro estava lotado. Outra de riso fácil, ironia de navalha na ponta da língua, e uma das pessoas mais rápidas no gatilho que conheço.

Ontem, eu e Soraya rimos muito, muito com os três até sermos expulsos gentilmente da única mesa ainda habitada, depois de todos sumirem em volta sem a gente nem notar.

E, sem saber, seguíamos ali o bom conselho de Juan Trasmonte, dado desde a Argentina, aqui nesta telinha, para ilustrar também uma mesa de bar com amigos:
“Con los que te hacen reír quedate toda la vida.”

Por supuesto.

Organização, o retorno eterno

05/11/2016

setpubal-em-1990Entrei numas de tentar – mais uma vez –  organizar  cabeça, casa, orçamento, saúde, sonhos, trabalhos, enfim, a vida. Aí, arrumando papéis antigos,  encontrei este cartão de feliz 1991, do simpático e ferino Setúbal, feito num rápido intervalo  enquanto rabiscava sua charge diária na redação de A Tarde.
A gente muda muito pouco nesta vida.

Nostalgia

16/08/2016

Do tédio dos domingos. De beber em avião. De larica. Dos rios da Chapada. De um macaquito vinho do primeiro encontro. Da alegria do primeiro filho. Da noite do nascimento dos três. Da descoberta da 5ª de Tchaikovsky, primeiro vinil Grammophon comprado na Carlos Gomes. Da boleia de caminhão, na carona. Da cidade de Tiradentes. Das escadarias do TCA. Da estante de madeira e blocos da casa do Garcia. Do cheiro de murta da Leovigildo Filgueiras às duas da manhã. De estrada. Do restaurante Grão de Arroz. Do disco de Mautner. Do sonho de mudar o mundo. De uma paulista entre amigos. De uma paulista a dois. De confiar em todo mundo. De chorar copiosamente. Do Rio Neva. De ver as luas de Júpiter e os anéis de Saturno. De vento frio na cara. Do planetário de Moscou. De receber uma carta coberta de selos. Dos círculos na água formados pelo impacto da chuva no jardim aos cinco anos. Da primeira insônia aos seis, depois do Circo Thiany. Do quintal do Hotel Maringá. Da busca por estrelas cadentes na fazenda de Tio Descartes, nas noites sem lua das Minas Gerais. Do arroz de pequi. De mata-burro nas estradas. Do gosto de jenipapo, de gemada e de manga no pé. Do cheiro de gaveta velha cheia de tranqueiras mais velhas ainda. Da gamela  de coalhada  na despensa e do leite espumando no curral, no copo de alumínio com açucar. De pescar acari com saco no barranco do rio. De álbuns de fotografias, com papel transparente, cantoneiras e cordão. De Vick Vaporub, das feiras do Parque de Exposição de Conquista. Da seda azul do papel da maçã. Do quarto do Hotel Lancaster. Da feiraa da Praça da Bandeira. Do Cine madrigal. Da luz que apagava às 10 em Tanhaçu, depois de três avisos. Da padaria, do balcão e da sanfona do primo Aldinho na venda de tio Deoclides. Do balcão da loja de tecidos do tio Ruguinha.De São João. Da Iemanjá num quadro da sala de tia Lurdes. Da cama do Hotel Livramento. Da Via Láctea no céu da roça de tio De Assis. Do cheiro de sargaço do primeiro banho de mar, em Amaralina. Do gosto de picolé salgado pelas ondas e do sanduíche de sardinha no Porto da Barra, seguidos do almoço de domingo com macarrão e pudim de sobremesa. De vela na lata em forma de lanterna quando faltava luz em Castro Alves, pelas ruas com a meninada. Da música O Divã numa vitrola vermelha. De plantar alface. De chacretes. Do banho da vizinha, no quintal. De picolé premiado. De tampinha premiada. Da cachoeira de Mané Roque. Do encontro com Raul Seixas no alto-falante, numa tarde chuvosa, em Conquista. De pescar traíra com anzol. De comer licuri. Do polivalente de Castro Alves. De dirigir um caminhão 608D na madrugada, aos 14. Da camisa azul da ETFBA. Das escadas do Centro Cívico. Do bar do Bio.  De Cássia Eller ao vivo, numa noite quente no Ad Libitum. Do ICBA. De tênis Mal Estar. Do boqueirão em Minas Gerais. Da Pentax que jamais tive. Deste tal pretérito, a cada dia mais perfeito. Mas, principalmente, do tempo em que éramos todos imortais.

(Terceira versão).
Primeira versão, em 3 de março de 2008: https://licuri.wordpress.com/2008/03/03/nostalgia/

Serra abaixo

04/08/2016

A primeira visão de Vitória da Conquista quando se vai pela BR-116 em direção a Minas é do alto da Serra do Periperi. No acostamento da estrada, por volta de 1969, descíamos a bordo de patinetes construídas sobre três rolamentos como este da foto.

Embarquei de volta a esse tempo da infância dos 8/9 anos ao ir em busca da peça para o conserto do motor da máquina de lavar.

Ouço o barulho do metal sobre o asfalto do acostamento da Rio-Bahia. Ele só é superado pelo ronco dos motores dos caminhões e carretas FNM, Scania e Mercedes quando passam rente, vencendo vagarosamente a serra.

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Crianças presidiárias

03/08/2016

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Nem sei se neste aglomerado, ao lado da Empresa Gráfica da Bahia, no Retiro, existem facções. O que chama a atenção na imagem é a ausência de áreas de convivência, em ruas praticamente porta com porta. Coloque então conflitos armados aí dentro, realidade de muitos locais semelhantes nesta cidade, e você terá uma vaga noção de como anda o cotidiano de milhares de famílias em Salvador.

Ontem foi a vez de Franklin Silva Santos, de 17 anos, mais uma baixa “civil” desta guerra. Morreu porque vivia em território inimigo. Morreu para que outro que também morreu sem saber o motivo, no domingo, fosse vingado.

Talvez você seja capaz de discorrer longamente sobre o Estado Islâmico, sobre o conflito na Síria. Mas seguramente, como eu, saiba muito pouco sobre Bonde do Maluco, Katiara, Caveira, Comando da Paz.

Provavelmente, assim como eu, saiba ainda menos sobre o medo de crianças e adolescentes que vivem como presidiários em suas casas, por conta do toque de recolher, realidade cotidiana destes lugares.

Reduzir todos estes exércitos à denominação simplista de “traficantes” talvez resolva apenas nossa dificuldade de entendimento desta realidade.

Mas o buraco, seguramente, é mais embaixo. E sangra todo dia.

 

Miseras

24/07/2016

índice

A primeira notícia bomba que recebi pela internet foi a morte da princesa Diana, pelo UOL, em agosto de 1997. Era um domingo, estava em casa e liguei imediatamente a TV para confirmar e acreditar. Naquele tempo, notícia para ser notícia deveria estar no impresso, na TV ou no Rádio.

Hoje, quase 20 anos depois,  recebi também  no domingo uma notícia bomba pela internet, pelo  WhatsApp. Também não acreditei. Ou seja, a internet continua com a credibilidade baixa.

Como estava na rua, liguei o rádio na Band News e ouvi de Humberto Sampaio a confirmação em rede nacional: havia um sujeito ameaçando se explodir junto com a Unijorge, na prova da OAB.

Tudo isso para dizer que, mesmo sem credibilidade, os grupos do  WhatsApp foram hoje minha principal fonte de informação sobre esta  bomba piada do dia. Vá lá, não deveria ser piada porque envolve a tragédia pessoal de um transtornado mental, mas virou tragicomédia por conta da histeria coletiva alimentada pelo  que vai pelo mundo.

Primeiro vieram os áudios das pessoas que estavam no local, o vídeo da correria, o texto do juiz que negociou a rendição, tudo fonte primária, e,  finalmente, as fotos do sujeito com sua fantasia de homem bomba recheado de bala de gengibre, estas  distribuídas pelas SSP.

O print do Instagram publicada aqui me chegou  também pelo   WhatsApp. Ele chama a atenção pelo espírito de deboche na porta da universidade, mesmo ainda quando não se sabia com certeza se uma pessoa poderia se explodir. Sim, estamos em Salvador e o  ato terrorista virou evento com direito às hashtag #eufui, #eutava. Como bem comentou uma amiga, faltou pouco para aparecer a turma do isopor com água e cerveja.

Não sei se turbinadas pelas galhofa em torno do exagero do Ministro da Justiça naquela presepada com nossos terroristas de internet para mostrar serviço ao mundo, as piadas foram a melhor parte do lado comédia desta história.

Como o motivo divulgado para o ato de desespero do nosso homem bomba seria já  ter tentado 11 vezes sem sucesso passar no teste da OAB, logo apareceram os alertas para o perigo potencial da  torcida do Vitória,  com  frustração semelhante há 117 anos.

A melhor foi o recado do Estado Islâmico, em legítimo baianês: “Alá  mandou você tomar vergonha na cara e estudar pra o exame sua misera”.

Mas tudo isso  mesmo é pra dizer: juízes aloprados, suas miseras, inventem de bloquear saporra nunca mais.

“Com que rosto ela virá?”

14/07/2016

A morte, surda, caminha ao meu lado, aceitou Raul. A morte está também na Sonata Nº2 de Chopin, mais visível no terceiro movimento. Estou assim, na contemplação e no encontro da  beleza na morte, esta inevitável. Ela anda nos cercando. Os mais antigos colocam uma pedra nesta conversa. Vamos de música.

 

O medo é uma merda

03/07/2016

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Hoje senti medo da minha Piedade, da minha Carlos Gomes, da minha Castro Alves. Nunca, em décadas, havia sentido o que senti hoje. Temo muitas coisas, temo o futuro, temo as contas no fim do mês, temo a pressão alta, temo a balança, o ódio político, a ignorância, temo brochar, a falta de assunto no elevador, mas as ruas desta minha cidade inaugurei temer somente hoje.

Era um medo acumulado, já instalado e não notado. O gatilho havia sido disparado há mais ou menos um mês. A praça da Piedade tomada de moradores de rua, dois deles brigando, e eu indiferente, orientava Maria como fotografar melhor a fonte luminosa, os heróis da Conjuração Baiana, no cumprimento de uma tarefa escolar.

O celular foi arrancado da mão da menina num  bote rápido e certeiro. Sem pestanejar – pra que diabos fiz isso até agora não sei – parti no encalço do sujeito aos berros de pega, pega. Já voltava ofegante, humilhado e puto como a gente se sente nestas horas, quando alguém gritou: pegaram. O cara acabou no chão, com uma pistola apontada para a cabeça e o pé de um policial à paisana sobre as costas.

Fui  obrigado a seguir para a delegacia para cumprir o ritual do flagrante. No ponto em que as coisas chegaram, não havia mais como negociar a devolução do aparelho e liberar o sujeito. Segui com três policiais e o cara choramingando, pedindo clemência na mala da viatura, enquanto no rádio começava Vitória e Atlético MG.
– Fique quieto rapaz, se o Vitória tomar um gol aqui você vai ver o que é bom.
Passei a torcer pelo Vitória, pelo menos até a chegada à delegacia.

O gordo valentão que partiu pra cima de um miserável que arrisca ter que matar, ferir, apanhar, ou morrer por causa de uma porcaria de celular hoje percorreu as ruas do centro acuado. Não teve coragem de  caminhar  e fazer fotos como sempre. Descer do carro para ir ao Centro Cultural da Caixa com Soraya e Maria foi uma operação calculada, precedida de checagem de quem vinha, de quem ia. Ir depois ao Cine Glauber Rocha tomar um café, outra operação cercada de atenção.

Apesar da realidade gritar o contrário, nunca senti medo nas ruas. Sempre me achei parte da cidade.Morei na Senador Costa Pinto, no Largo 2 de Julho, me sentia imune, um sujeito da área. Achava estranho o texto de um amigo que certa vez me disse que seu grande prazer de ir à Europa não era visitar museus, catedrais, concertos. Era simplesmente andar tranquilo pela rua, sem medo de ser assaltado.

É uma pena ter que me render à realidade,  algum temor  é até útil como prevenção.

Mas talvez o medo seja pior que a violência consumada, porque é uma violência latente, permanente, corrosiva. O medo é uma merda. 

 

 

 

 

 

Quem, quem a não ser o circo?

21/06/2016
Foto_Monica Jurberg
                                                   Foto: Monica Jurberg

Luana, criança, brinca por ali, no jardim da Escola de Teatro da UFBA. Eu entrevisto seu pai, Anselmo, e sua mãe, Verônica, sobre a escola de circo criada por eles. Estamos em 1986 ou 1987. Nem me lembro se a pauta vingou.

Lembro que anos depois estava eu com Luísa no colo, ao lado de Soraya, assistindo a um espetáculo da Escola Picolino, em Pituaçu, me surpreendendo pela primeira vez. Desta segunda lembrança, lá se vão quase 20 anos.

Pelas arquibancadas da Picolino já passou foi gente.

Hillary Clinton, por exemplo, deixou sua imagem ali numa foto com a boca aberta, que correu mundo, diante das crianças da Picolino, naquela época, muitas do Projeto Axé.

Passou também muita gente que nunca havia ido a um circo. Outro dia encontrei no meu trabalho uma senhora que tinha viva na memória aquela primeira vez, quando criança, com a turma da escola.

Pelo picadeiro, pelas aulas, também passou gente que brilhou em grandes circos ou apenas seguiu sua vida com boas lembranças daquele lugar. De vez em quando eles aparecem nas redes do circo e registram a saudade.

Quem nesta cidade não tem na memória pelo menos um dia de Picolino?

Desde aquela primeira vez sempre estive envolvido com aquela lona, várias vezes trocada, várias vezes rasgada pelo vento forte da orla.  Às vezes mais distante, às vezes mais próximo. Às vezes trabalho, às vezes ajudo, às vezes sumo, apareço, sou sempre bem recebido.

E sempre me surpreendendo com seus espetáculos. Com a sua produção, com seus resultados.

A Picolino criou um circo com nossa marca, a Picolino tem uma arte com nossa cara, a Pìcolino é o circo baiano. E está espalhada por aí, Bahia, Brasil, mundo afora. E  Viva.

Em Pituaçu, o circo ainda está nu, mas no cirquinho, na barriga quente da lona do cirquinho, no último fim de semana brilharam os movimentos, os sons, os corpos, a alma da Escola Picolino. Era circo, música, teatro, manifesto,  no espetáculo de título sugestivo: Que tal o impossível? 

Luana no comando, com apoio e retaguarda da Escola Picolino, de Anselmo, de Clovis, de Bia, de Márcia, de Jailson, de Carol, de Lucas, de Millenade Apoena. No picadeiro,  15 alunos do Curso Livre de Circo da Bahia, reunidos há pouco menos de um ano, num espetáculo que levantou a plateia. Ali estava também, de algum modo, representada a história da Picolino. Gente diversa, das mais variadas fontes, reunida sob o comando de uma trilha sob medida, conduzida por Beto Portugal.

Circo atual, contemporâneo, música contemporânea, versos como estes de Mautner,  de outros dias, da década de 80, como a Picolino, mas  atuais e necessários para o mundo hoje:

“Quem, quem, quem a não ser o som / Poderia derrubar a muralha dos ódios /  Dos preconceitos, das intolerâncias / Das tiranias, das ditaduras / Dos totalitarismos, das patrulhas ideológicas / E do nazismo universal?”

Veja as fotos de  Mônica Jurberg e de Camila Ribeiro.

 

Uma mostra da trilha:

 

 

 

 

Orquestras

29/02/2016

Quantos anos vive uma orquestra sinfônica? Muitas são centenárias mas a Orquestra Sinfônica da Bahia, a OSBA, está em estado terminal aos 34 anos.Assassinada por estrangulamento lento e contínuo por mais de uma década pelo mesmo Estado que a criou.

Vi essa menina nascer numa manhã ensolarada de domingo, ao ar livre. Cheguei atrasado àquele primeiro concerto em frente ao Iguatemi, um domingo do final de 1982ou inicio de 1983.

Não se mata uma orquestra em um dia. É preciso um garrote de tempo, parar de injetar sangue novo, deixar de recompor, de substituir quem sai em busca de novas oportunidades, quem se aposenta, quem morre.

Ênio se foi, Salomão morreu, Claudia se aposentou, Juracy ainda está lá, Christian também. Sim, há resistentes, daqueles presentes ao concerto no início da década de oitenta, e eles ainda tocam o barco.

***

Precisamos de uma Orquestra Sinfônica da Bahia? Sim, é preciso fazereste tipo de pergunta para entender a atual situação da OSBA. A resposta por quem poderia decidir pela sua existência e continuidade talvez contenha a causa da atual inanição.

Futucando na internet, a gente descobre que há 72 anos alguém respondeu sim a essa pergunta. E também, por dedução, que houve uma primeira morte da OSBA. Vamos então à tecla REW, velhinhos.

– Neste domingo vou a Cachoeira assistir aoconcerto da OSBA, com regência do Padre Mariz, lá no Cine Teatro Cachoeirano. Vamos?Este possível convite se deu em em 12 de setembro de 1948.

Quatro anos antes, o padre jesuíta Luiz Gonzaga de Mariz havia criado a Orquestra Sinfônica da Bahia. O que aconteceu com esta primeira tentativa?

A resposta pode estar no artigo História Musical da Bahia: Orquestra Sinfônica da Bahia, do Padre Mariz, escrito por Bárbara Nunes Brasil e Erick Vasconcelos, apresentado na Reunião da SBPC, em Recife, em 2003. Maestro Erick Vasconcelos, pode nos ajudar a responder?

***

E a sinfônica da UFBA?

Após a execução da abertura de A Flauta Mágica, de Mozart, o maestro JoséMauricio Brandão dirige-se à platéia, menos numerosa do que uma orquestra completa:“Boa Noite, esta é a Orquestra Sinfônica da Universidade Federal da Bahia. Temos aqui músicos funcionários da universidade e alunos em prática de orquestração. Nossa orquestra está, literalmente, caindo aos pedaços e a presença de vocês nos ajuda a evitar que ela acabe”.

Falei com o maestro no final do concerto e ele ratificou o desabafo: “Sim, caindo aos pedaços. Criada pelo reitor Edgard Santos, em 1954, esta orquestra acadêmica já foi a melhor do Brasil”.

O apelo e o desabafo foram feitos na abertura da temporada de 2011. Ao que parece, a situação continua aospedaços. Na página da orquestra constam hoje apenas 22 músicos.

***

Mas nós temos o Neojiba!

Sim, no meio de toda a crise da música de concerto na Bahia surge no cenário um músico conquistense de prestígio internacional, um secretário da Cultura antenado, uma ideia que dá certo na Venezuela desde de antes de Hugo Chávez, e a colaboração da iniciativa privada. O modelo .gov passou a .org e assim a nova estrutura e equação financeira viabilizaram o projeto.

Também estava lá no concerto de nascimento e contei mais ou menos assim a experiência, dia 20 de outubro de 2007:

Teatro Castro Alves. Programa gratuito. Eu, Soraya e nossa renca ocupamos cinco poltronas na parte de baixo. No palco, o primeiro concerto do Neojiba. E as lágrimas desceram nos primeiros acordes da música que encheu a sala lotada.

Do palco vinham trechos carimbados de obras conhecidas de Beethoven, Wagner, Dvorak, Brahms, Rossini que todos ali – parentes, amigos, colegas, o governador e o distinto público em geral – ouviram em algum momento da vida, nem que seja num comercial ou desenho animado.

E os meninos mandaram bem. Não tenho como avaliar o concerto, não tenho ouvido nem formação musical, mas minha intuição ignorante diz que aquilo era música da boa. Verdadeira e vital como deve ser qualquer arte. O som saía vigoroso de cada naipe. Muito claro, decidido, seguro. A platéia respondia. Aplaudia de pé e demoradamente a cada finalização. E os meninos agradeciam meio encabulados, quase não acreditando no impacto da sua música.

Teve também o bis divertido do cancã com as palmas da platéia regidas pelo venezuelano Manuel Lopéz Gomes, de 24 anos. Uma figura à parte.

Este concerto já está na história do TCA, na história da música na Bahia. Villa-Lobos, Widmer e Smetak aplaudiriam também hoje, de pé, o nascimento de uma nova geração de músicos na Bahia. Choveu no Sertão da nossa música. E brotou.

Passados quase 9 anos, a triste constatação é que o Neojiba brotou sozinho. Na época, imaginei que ali estava o que faltava no cenário, uma sementeira de novos músicos para recompor as demais orquestras, todos ganhariam, todos ganharíamos.

A realidade é que, no modelo atual, pra ser recomposta a OSBA depende de concurso público estadual, a OSUFBA depende de concurso público federal. Fudeu.

***

Mas derivo, como diz Franciel, um dos meus ídolos quando o assunto é mais de quatro linhas (nas quatro linhas, bem, deixa pra lá).

O assunto é de mais de quatro linhas, a tal crise crônica da OSBA e as possíveis e impossíveis soluções. Preciso derivar porque para voltar a este assunto quero falar em comunicação não violenta, a guerra de palavras na internet e as tentativas vãs de entender e conviver  com um mínimo de dignidade e alguma felicidade com a humanidade,  em casa, na internet, no trabalho,  na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê.

Vejo na estante de revistas da lanchonete a edição deste mês de Vida Simples e compro porque gosto da matéria de capa, sobre a importância da gente se comunicar de forma menos agressiva. Bateu com minha necessidade de conversar melhor com o mundo, principalmente com os meus, com minha renca. E como já me alertaram via ditado chinês, antes de sair para mudar o mundo, dê três voltas dentro de sua própria casa.

Com este aviso e vacina para que o assunto aqui não descambe para a fúria e cegueira político-partidárias, voltemos então à vaca fria neste texto de março de 2011, quando escrevi uma coluna como Wolfgang Berim Bau, no blog Bahia na Rede. O assunto era o mesmo de hoje, o de falta de músicos, problema que ficou todo este tempo incubado e agora ressurge mais agravado. Ao texto:

Orquestra de asteriscos até quando?

Um concerto bonito,  sonoro,  correto. A Orquestra Sinfônica da Bahia (OSBA) abriu ontem (16) o calendário de 2011 com novo maestro, Carlos Prazeres. No programa, Wagner, Woolorich e Tchaikovsky.

Quem olha da plateia vê tudo normal. A orquestra é relativamente pequena, cerca de 60 músicos no palco, mas dá conta do recado. É no programa onde aparece o primeiro indício de problemas: os nomes dos músicos seguidos de asterisco. Embora o programa não explique isso, indica que se trata de convidado de outras orquestras.  Nesta condição tivemos no concerto o spalla e mais cinco violinos, três violas e dois violoncelos.

A OSBA completa 30 anos em 2012. Mas em vez de amadurecer e crescer, definha. O último concurso foi há mais de cinco anos e no próximo ano quatro músicos se aposentam. O que fazer para a reversão dessa trajetória declinante? As duas principais orquestras do país, a Osesp paulista e a Sinfônica de Minas Gerais funcionam como Organização Social (OS), o que reduz o cipoal burocrático para o pleno funcionamento. É esta a solução para a OSBA?

O pianista e ex-diretor da orquestra, Ricardo Castro, apostava nessa saída. Houve resistências dos músicos e a coisa desandou. Resta saber quais são os planos do novo regente e do secretário de Cultura para deixar a OSBA novamente de pé.

Antes de voltarmos ao assunto, divirta-se aqui com os comentários que se seguiram ao texto. https://blogbahianarede.wordpress.com/2011/03/17/orquestra-de-asteriscos-ate-quando/

***

Encontro casual com Manuel Veiga

Quando você fica incutido com um assunto, tudo conspira a favor.  Estava eu a trabalho numa assembleia de condomínio, quando reconheço um senhor tranquilo esperando o resultado da votação. Era ninguém menos que o pianista e professor emérito da UFBA Manuel Veiga, 85 anos, parte da memória viva da Escola de Música. Não resisti, puxei assunto, ouvi histórias que transpiravam a atmosfera da vida musical de Salvador nas décadas de 50 e 60.  Ao chegar em casa enviei para ele três perguntas por e-mail, uma breve entrevista.
E não é que ele respondeu?
Pediu apenas que fossem respostas sem pressa. “Vou comentar seus três quesitos da melhor maneira que puder. São boas perguntas que envolvem muita reflexão e por isso não quero correr” , disse.
Mas antes da primeira resposta,  um breve currículo do entrevistado: estudou piano de 1954 e 1957 nos Seminários de Música, que precederam a Escola de Música da UFBA. Venceu o concurso de piano da Orquestra Sinfônica Brasileira e fez sua estreia com a OSB em 1956, sob a regência de Eleazar de Carvalho. É mestre em piano pela Juilliard School of Musica e etnomusicólogo com doutorado pela Universidade da Califórnia (UCLA). É também membro da Academia Brasileira de Música, consultor e estudioso da modinha e do lundu. Ultimamente ainda anda pensado em consertar o mundo, mas já chegou a uma conclusão: “É uma idiotice”.

Qual a principal causa da carência de músicos em nossas orquestras (OSBA e OSUFBA)?

Sua pergunta precisa de alguns esclarecimentos prévios. “Principal causa”, por exemplo, pressupõe que hajam outras das quais uma seja a principal, no singular. Pressupõe também que haja um encadeamento linear entre causa e efeito, na dinâmica das culturas. Isso constituiria uma teleologia, isto é, partir do presente para olhar para o passado e lá encontrar uma causa que não se ramificasse no trajeto.  Não estou negando a história, mas afastando as ilusões.

Outro comentário se dirige a “carência de músicos”, com ênfase em “músicos”. Não há uma definição universal de música que reúna as condições essenciais, necessárias e suficientes, para que algum fenômeno sonoro seja “música” e não outra coisa.

Parece-me que o único axioma que poderíamos tomar como ponto de partida para uma teoria geral de música seria considerá-la como “som humanamente articulado” (J. Blacking). Isso tanto tem de verdadeiro quanto de vago. Mas sua pergunta é objetiva e explicita “em nossas orquestras” e, mais ainda, “OSBA e OSUFBA”.

Se não sei o que é música (espero, sim, reconhecê-la, mesmo que me seja muito estranha), tampouco sei o que são músicos. Na verdade, todos somos músicos, salvo alguma lesão cerebral séria; e em algum tipo e padrão de música somos enculturados no curso de nossa vida. Mas talvez exagere um pouco: sei que músicos “fazem” música e devem refletir sobre ela, não simplesmente apreciar passivamente. Isso dá algum trabalho, às vezes anos e anos de preparação.

Por “orquestra”, poderíamos entender “qualquer conjunto instrumental com características próprias” (Aurélio), como por exemplo a orquestra de pífaros de Caruaru. Um dos pontos cruciais de sua pergunta é que estamos nos referindo a “orquestras sinfônicas”, a conjuntos instrumentais de grande porte destinados à execução fiel de um tipo de repertório de um determinado período da história da música ocidental de concerto, nem sequer necessariamente brasileira. Há uma incongruência embutida no discurso da “carência de músicos” à vista da imposição a priori de um repertório instrumental que exige recursos que não temos, ou que não produzimos, ou que até mesmo não queremos: a velha história do ovo e da galinha… Essa é uma ilusão triunfalista e etnocêntrica. Para isso, uma solução paliativa, mas produtiva, seria encomendar obras do grupo de destacados compositores da Bahia, entre outros brasileiros, para os conjuntos instrumentais que podemos ter. Em adição, que essas obras fossem compatíveis com o nível educacional musical dos ouvintes, ainda que provocativas.

Tentando algumas respostas:

  1. Diante da complexidade do fenômeno musical, o mais prudente seria responder “Não sei! ”. Pessimista, entretanto, teria de pensar em preconceitos que andam pelo mundo há mais de dois mil e quinhentos anos, tomando como exemplo “A Cigarra e a Formiga”. A fábula de Esopo (séc. V a.C.) ensina que quem canta no verão morre de fome no inverno. Ou por outra: diante de um paciente em coma (o Brasil?), o necessário é um médico; a missa de réquiem vem depois. Nesses termos, a economia sempre se faz na área da cultura, sem consciência das perdas irreparáveis para o futuro.
  1. Menos prudente, passar a respostas grosseiras: “Dinheiro, falta de vontade e irresponsabilidade”. Temos quase todos os músicos competentes que precisamos, mas não são contratados e remunerados à altura dos anos e dos esforços que fizeram.
  1. Esperançoso, pensar em Educação, sim, a chave de tudo. Não precisa comentário. Eis aqui, talvez, seu feixe de causas.

Desculpe a prolixidade. Ainda estou pensando em consertar o mundo! É uma idiotice.

Continua

 

 

 

 

 

 

Al-manākh

27/01/2016

Desde criança gosto de almanaques e suas informações curiosas e inúteis. Ao assistir Cosmos (não mexam com o meu Netflix) voltei a sentir aquele prazer Macabéa, de admirar e exibir conhecimento rádio relógio: a palavra desastre tem na raiz astro e deriva dos maus presságios provocados pelos cometas, a plêiade tem sete estrelas e a mais brilhante delas se chama Alcione, que por sua vez começa pelo famoso al, revelador da origem árabe. Falar nisso, o google informa, “La palabra “Almanaque” viene del árabe al-manākh (ciclo anual)…”

O licuri e o diabo

22/01/2016

O menino queria, queria muito, ser o anjo da procissão em Iaçu.

– Onde já se viu anjo homem? Argumentou o padre, irritado.

Dia da procissão, o estouro diante da menina anjo, toda de branco. Nas pernas, o sangue brotava de vários pontinhos vermelhos provocados por estilhaços de licuri.

Pólvora socada no coquinho oco,  bomba construída e acionada pelo anjo. Devidamente excomungado pelo padre.

 

 

Família, Familha, boatos e apedrejamentos

29/12/2015

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A moça amarrou o cabelo para mostrar a tatuagem nas costas. Foi mostrada pelas costas, alvo de chacota em sites de tatuagem desde 2014 e recentemente, com o incêndio no museu da língua portuguesa, renasceu como piada no facebook: encontrada a suspeita!

Impossível ficar indiferente à foto. Dá agonia, da pena, dá ginge. Mas aí surge uma dúvida. E se não for Português? Uma rápida googlada tradutora informa: Familha é família em catalão. Fico com esta possibilidade.

(P.S: infelizmente  errei, confiado no google tradutor. Vem da Espanha – no comentário de Marcia Cristina Rocha, no facebook, e no inbox, por consulta a Neyse Cunha Lima) – a informação de que família é família aqui e na Catalunha). Então, vale ainda mais a última frase deste texto)

A foto tem todos os ingredientes e descaminhos de boatos, ironias e apedrejamentos na internet.

Boato, porque é verossímil. A gente escreve família mas fala familha, sobrou pra quem tem pouca leitura, ou seja, a maioria de nós, brasileiros. 

O mais grave é o apedrejamento. Num dos comentários da foto alguém ainda riu da qualidade da bolsa da moça. E assim caminha a desumanidade. Saiu fora do padrão, pau.

Como desejo de ano novo, quero ficar mais atento ao que leio, rio e reproduzo.

 

Foto: http://bit.ly/1mgIojl

 

 

 

E nós?

21/11/2015

As mangueiras de Brotas são imunes às crises. Espremidas entre paredes, cercadas de cimento, seguem cheias, repletas, carregadas. Como os lírios do campo, tão nem aí. Fizeram a sua parte. Estão prontas para janeiro.

Eclipse, tempo, insight

28/09/2015

Espelho

19/04/2015

Coloco a conversa em dia com a mãe, sobre minha geração, em Conquista.
Como está fulano?
Cortou as pernas, diabetes.
E sicrano?
Teve derrame.
Conversa vai, vem.
E beltrano, mãe?
Morreu de câncer, na barriga, menino novo.
Quer um pedaço de bolo?
Não, menti.
Fui à cozinha, cortei dois limões e tomei com água.

face

Aqui e agora

20/02/2015

El reloj e o bar do WhatsApp

31/12/2014

O tempo, este mistério,  intriga desde que me entendo. Talvez a primeira música da infância, El reloj, talvez daí o encanto pela língua espanhola.

Mas o tempo, o tempo. Ao andar pelas estradas de Iaçu vem a lembrança dos carros de boi na estrada para o Barreiro, em Tanhaçu, o canto do carro de boi da infância. Por mim passam hoje as motocicletas, o tempo é outro, da velocidade como previu Calvino – como diria nossa amigo Franciel, receba uma Ítalo pelas caixas, incréus,  mas é acidente. O livrinho foi presente de amigo secreto da virada do milênio, não sou estes leitores todo, mas esta história da velocidade me pegou.

Nem certo, nem errado passar depressa, apenas a certeza de que a cada dia é mais rápido o tempo passado.

Há uns anos, por exemplo, a novidade era desejar feliz ano novo pelo celular, numa loteria para conseguir sinal, quem sabe mãe, pai e uns poucos amigos. Hoje apenas um meme no WhatsApp serve para trocentos grupos que chegam a outros trocentos amigos.

A televisão perde terreno muito rapidamente. Antigamente, muito antigamente, nome de novela virava bar, como o Pé na Jaca, na estrada Iaçu-Ipirá. Mas hoje a tela é quase ignorada, a TV serve talvez apenas para relógio de contagem regressiva.

É a era do WhatsApp e o assalto em voga em Iaçu é motoqueiro roubando celular das meninas.
Moto e celular e whatsApp, Viva 2015!

Bar do WhatsApp

P.S – velho tem mania de guardar coisas. Guardo duas receitas de ano novo, uma de Carlos e outra de Juan.
Aqui as duas a quem interessa possa:

Carlos: http://pensador.uol.com.br/frase/MTM0MDQ5/
Juan: http://nemvem-quenaotem.blogspot.com.br/2008/12/receita-pra-virada.html

 

 

Espetinhos

12/12/2014

Saio em busca de uma lista de remédios perto de casa. Faltou um. Resolvo então andar os cerca de 1.500 metros entre o Acupe e o Largo da Cruz da Redenção, pela D. João VI, ao encontro de outras três farmácias e da garantia de que voltaria com a compra completa.

Sete da noite de sexta-feira, gente, muita gente, na volta pra casa, a fazer compras de última hora, do fim do dia, a beber, a comer, no vai e vem da mudança de turno das ruas de comércio, de botecos, de um tudo. Brotas é um bairro de um tudo, de muita gente nas ruas, de calçadas cheias. Este é o principal motivo da minha alegria nesta penúltima morada em Salvador antes dos dois metros quadrados definitivos.

Se um turista fizesse o mesmo percurso imaginaria que o espetinho –  no meu tempo diziam ser de gato – fosse nossa comida mais típica, apesar de quase uma dezena de baianas de acarajé além de pontos  de mingau, filas para beiju, carrinhos de milho cozido, cachorro quente. Comida é que não falta na rua.  Mas espetinho neste trecho é soberano, servido nas mesas da matriz e das duas filiais da rede Espetinho do Bolero e no Baú do Espetinho, todos lotados. E também nas esquinas, nas calçadas, lá está ele aqui e ali a queimar, sempre cercado de gente, de cerveja e do arrocha.

Não tem como evitar a lembrança da morte, da doença, mesmo com toda a vida nos passeios. Passo por duas funerárias, dois hospitais, muitas clínicas, faculdades da área médica. Alguns  pontos de ônibus concentram mais dores, de quem vem dos tratamentos, de quem acompanha tratamentos.

Se tem morte, tem igrejas,  muitas igrejas, católica, evangélica, pentecostal. A de Nossa Senhora de Brotas, a mais antiga, vazia e enfeitada, à espera de um casamento. Salões de beleza lotados, festa infantil num playground já animada. Frutas, todas que você imaginar, banana a preço de banana, a 1,99 a penca, na promoção da calçada, muitos mercadinhos.

Traio minha baiana e experimento o abará com pimenta da outra. E gosto mais, talvez pela novidade, motor das aventuras. Chego em casa, compra completa,  abro um vinho chileno barato e potencializo meu amor por Brotas.

 

 

Queria ser jornalista

12/10/2014

Foi a coisa que mais quis hoje à tarde, quando testemunhei notícia merecedora de um jornalista. Estavam  ali à mão, a notícia, as fontes, o ambiente. Mas  me faltaram o inglês, o jornal, a agilidade.

Estavam ali sob a lona do Picolino turistas estrangeiros. Voaram de várias partes do mundo para Salvador e embarcariam no final da tarde em navio da National Geographic para um cruzeiro diferente.

No picadeiro, crianças da companhia Mirim da Picolino, quase todas do projeto Conexão Vida,  numa parceria mantida por estrangeiros, por italianos que fazem adoção à distância e proporcionam a elas aulas de circo no turmo complementar. Na plateia 99 turistas, pessoas que pagaram mais caro para fazer um turismo especial, acompanhados por especialistas em botânica, cultura, música, pássaros. Sim, eles pagam US$ 1.000,00 por dia para entender o mundo.

Eu é que não entendo. Há cinco anos me chamou atenção uma notícia dos jornais. Governador, secretários, prefeito e uma caralhada de aspones foram assistir ao Cirque du Soleil levantar lona. Isso mesmo que você leu. Não foi espetáculo, os caras deixaram suas ocupaçoes para ver a lona subir. Nenhum deles se dignava naqueles dias a visitar um circo com aparência mambembe em Pituaçu, onde um menino da Boca do Rio começou, e que estreava na Bahia naquela semana como artista no mesmo circo merecedor da atenção deles para assistir a lona subir.

Os turistas do National Geographic Explorer viajam na contramão dos nossos turistas,  que vão a Las Vegas ver o Soleil. Eles preferem vir a Salvador ver o Picolino. Talvez tenha mais mágica, mais esforço, mais cenas do impossível do circo ali no picadeiro à beira-mar em Pituaçu, com crianças e adolescentes de cotidiano nada fácil  mas que sobem com elegância no trapézio, dão saltos e cambalhotas,  se contorcem no limite, deslizam com alegria no alto dos seus monociclos gigantes, caminham sem medo sobre o fio do arame, manejam com muitos acertos os seus malabares.

Enfim, minha cabeça de aprendiz de jornalista tinha a seguinte pergunta. Por que diabos pessoas que poderiam ir a qualquer lugar para ver o melhor feito em circo no mundo preferem vir assistir ao Picolino, com lona estropiada, instalações precárias? Consegui fazer a pergunta a um casal, Bart e Kathleen Little-Astor, da Virgínia, EUA. A resposta está ainda sem legendas  neste vídeo, mas em essência eles dizem que preferem ver a vida de outra maneira.

Não estou cético sobre o olhar da minha cidade e do meu país para o Picolino. As coisas começam a se mover. O caminho escolhido pelo circo/escola, o de financiamento coletivo para uma nova lona e um trato no visual do circo decolou hoje e decolou bem. Veja aqui.  A campanha é um duplo salto  de trapézio sem rede. É acertar ou acertar. Espero daqui a 60 dias comemorar a notícia de que teremos lona e circo novos.

Com sorte de aprendiz, descobri agora no google que o cara que entrevistei é escritor, autor de best sellers, de um guia de vida para quem tem mais de 50 anos. Justo a fase em que me encontro. Tentando ser jornalista sem jornal e sem inglês.

Agradeço a Cristiana Damiano, bióloga paulista, uma das especialistas embarcadas no navio para a expedição, que segue para Abrolhos, Ilhéus, Rio Parati e Rio Grande do Sul. Ela foi tradutora das minhas perguntas para a entrevista.

Viva o Circo. Viva o Picolino.

#SomosTodosGuerreiros

05/09/2014

plateia-picolino

O Circo Picolino está em busca daqueles que passaram por sua lona, que participaram de alguma maneira destes seus quase 30 anos. Eu sou uma dessas pessoas. Há poucos jornalistas em Salvador que nunca tenham feito uma pauta da Picolino a partir de 1985. Foi por esta época que entrevisteiAnselmo e Verônica Tamaoki e desde então sempre olhei com simpatia aquela lona e o trabalho que se realizava ali. Anos depois, Virginia Yoemi me convidou para um espetáculo, destes de formatura de fim de ano, a partir daí fui a quase todos e um belo dia resolvi integrar a trupe como parceiro na divulgação. Atendo agora ao chamado de Anselmo também como pai de aluna da Picolino, uma escola diferente, bacana, astral, que deve continuar seu trabalho com uma lona nova, bonita e, com seu entorno recuperado. Estamos juntos, colados nesta campanha. Veja aqui: http://circopicolino.wordpress.com/

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20/08/2014

3. Lejana (Bestiario, em português)

Lara/Diana, o duplo e o tal repertório.
Ler é prazer. E mais prazer depende de repertório? Se um texto se apresenta em camadas, são várias portas, avançar depende de sensibilidade e entendimento?

Em Lejana, ao contrário do dois anteriores, dependi de algumas chaves para ir um pouco mais além. Antes de ler, me avisaram que o assunto,  o tema central, é o duplo.

Já disseram também  que sensibilidade é informação concentrada. Desta maneira seria melhor  tocado pelo texto quem tivesse lido O Médico e o Monstro, de Stevenson; O Lobo da Estepe, de Hesse; O Monge Negro, de Tchekhov.

Mas minha principal referência de duplo é Irmãos Coragem, de Janete Clair.  Acompanhei as fantásticas mudanças de personalidade de Lara/Diana pela televizinha,  nos meus 11 anos de idade. Foi suficiente? Quem sabe?

O interessante é que estas referências são “descobertas” depois pelos leitores e críticos. Veja, nesta  entrevista, o que diz o próprio Cortázar:

-¿Por dónde empezamos?; ¿por el tema del doble? -aparece ya en un cuento tan temprano como “Lejana”, de Bestiario; la volvemos a encontrar en “Los pasos en las huellas”, deOctaedro.

-Sí, hay en mí una especie de obsesión del doble

¿Viene de la lectura temprana de Doctor Jekyll and Mister Hyde, de Stevenson, de “William Wilson”, de Edgar Allan Poe, o toda la literatura alemana que está habitada por el tema del doble?

No creo que se trate de una influencia literaria. Cuando yo escribí ese cuento que usted cita, “Lejana”, entre 1947 y 1950, estoy absolutamente seguro -y en ese sentido tengo buena memoria- esa noción de doble no era, en absoluto, una contaminación literaria. Era una vivencia.

El tema del doble aparece ya con toda su fuerza en ese cuento. Usted recordará que se trata de una “pituca” de Buenos Aires que por momentos tiene como una especie de visión de que ella no solamente está en Buenos Aires sino también en otro país muy lejano donde es todo lo contrario: una mujer pobre, una mendiga. Poco a poco se va trazando la idea de quién puede ser esa mujer y finalmente va a buscarla, la encuentra en un puente y se abrazan. Y es ahí que se produce el cambio en el interior del doble y la mendiga se va en el maravilloso cuerpo cubierto de pieles, mientras la “pituca” se queda en el puente como una mendiga harapienta.

Futuquei por aqui: http://clescudero.blogspot.com.br/2007/12/anlisis-de-lejana.html

Faltam 97: https://licuri.wordpress.com/2014/08/17/99-contos-argentinos-para-ler-antes-de-morrer/