Archive for the 'Salvador' Category

Cumeadas

18/12/2016

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Saí ontem caipiroskado de uma confraternização de trabalho. Fim de tarde, temperatura agradável, resolvi voltar para casa a pé.

Andei 3,5km  mas atravessei cidades ao ir do Cidade Jardim, pela ladeira da Cruz da Redenção,  até o Acupe de Brotas. Da perspectiva de pedestre a gente enxerga melhor a cidade, especialmente as pessoas.

Na avenida de vale, só prédios e carros, muitos carros, raros caminhantes, raras mulheres, um cenário definido por  João Ubaldo Ribeiro como Los Angeles de pobre.

Ladeira também semideserta. Mas no topo, a pracinha do Largo da Cruz da Redenção fervilha.

Com Lelé, o arquiteto que gostava de gente, aprendi uma palavra bonita para definir estas partes altas da cidade, onde as pessoas ainda andam pelas ruas e convivem:  cumeadas.

Notícias de Salvador, notícias do front

03/08/2016

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Começo o dia de trabalho numa geral pelas notícias de Salvador, via google. E dou de cara com essa, de ontem. E marejo. Já havia visto ontem o filme da chegada da motocicleta, da saída da motocicleta. No intervalo, os tiros. Mas o olhar do garoto hoje me pega. Tem um quê do olhar do meu filho. Leio o lamento dos pais. O que ainda cabe na definição tragédia hoje? E fico aqui, marejado e impotente. Reclamar de quem? Reclamar de quê?

O medo é uma merda

03/07/2016

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Hoje senti medo da minha Piedade, da minha Carlos Gomes, da minha Castro Alves. Nunca, em décadas, havia sentido o que senti hoje. Temo muitas coisas, temo o futuro, temo as contas no fim do mês, temo a pressão alta, temo a balança, o ódio político, a ignorância, temo brochar, a falta de assunto no elevador, mas as ruas desta minha cidade inaugurei temer somente hoje.

Era um medo acumulado, já instalado e não notado. O gatilho havia sido disparado há mais ou menos um mês. A praça da Piedade tomada de moradores de rua, dois deles brigando, e eu indiferente, orientava Maria como fotografar melhor a fonte luminosa, os heróis da Conjuração Baiana, no cumprimento de uma tarefa escolar.

O celular foi arrancado da mão da menina num  bote rápido e certeiro. Sem pestanejar – pra que diabos fiz isso até agora não sei – parti no encalço do sujeito aos berros de pega, pega. Já voltava ofegante, humilhado e puto como a gente se sente nestas horas, quando alguém gritou: pegaram. O cara acabou no chão, com uma pistola apontada para a cabeça e o pé de um policial à paisana sobre as costas.

Fui  obrigado a seguir para a delegacia para cumprir o ritual do flagrante. No ponto em que as coisas chegaram, não havia mais como negociar a devolução do aparelho e liberar o sujeito. Segui com três policiais e o cara choramingando, pedindo clemência na mala da viatura, enquanto no rádio começava Vitória e Atlético MG.
– Fique quieto rapaz, se o Vitória tomar um gol aqui você vai ver o que é bom.
Passei a torcer pelo Vitória, pelo menos até a chegada à delegacia.

O gordo valentão que partiu pra cima de um miserável que arrisca ter que matar, ferir, apanhar, ou morrer por causa de uma porcaria de celular hoje percorreu as ruas do centro acuado. Não teve coragem de  caminhar  e fazer fotos como sempre. Descer do carro para ir ao Centro Cultural da Caixa com Soraya e Maria foi uma operação calculada, precedida de checagem de quem vinha, de quem ia. Ir depois ao Cine Glauber Rocha tomar um café, outra operação cercada de atenção.

Apesar da realidade gritar o contrário, nunca senti medo nas ruas. Sempre me achei parte da cidade.Morei na Senador Costa Pinto, no Largo 2 de Julho, me sentia imune, um sujeito da área. Achava estranho o texto de um amigo que certa vez me disse que seu grande prazer de ir à Europa não era visitar museus, catedrais, concertos. Era simplesmente andar tranquilo pela rua, sem medo de ser assaltado.

É uma pena ter que me render à realidade,  algum temor  é até útil como prevenção.

Mas talvez o medo seja pior que a violência consumada, porque é uma violência latente, permanente, corrosiva. O medo é uma merda. 

 

 

 

 

 

ZIP

14/01/2015

Nao é permitido

– Não me bate que eu não sou vagabundo, nem ladrão, nem ‘estrupador’.
Quatro da manhã deste domingo na emergência lotada do Hospital do Subúrbio, a lógica torta do paciente surtado e com o maxilar fraturado soava aos brados em protesto contra o policial que lhe aplicava sopapos como calmante depois dele se desamarrar da maca mais de uma vez. Espancar em vez de conter um paciente surtado não cabe no manual de nenhum hospital. Nem se ele fosse ladrão ou estuprador.

Quem viu a barata foi Dan, cabelo estilo Neymar, que recebeu uma bala  saída de um cano de revólver enfiado na boca e está há mais de trinta dias estirado lutando para quem sabe sair do hospital tetraplégico. Coberto de escaras, passou o dia quase todo sem ser trocado. Diante do apelo de quem não aguentava mais as solicitações do rapaz, um som esganiçado saído do buraco da traqueostomia, a funcionária argumenta: é esse aí que rouba o seu celular.

A barata foi devidamente esmagada por Soraya, reincidente no gesto de matar barata, uma na emergência outra na enfermaria.

Depois de solicitar algumas vezes a troca da bolsa de urina cheia de um paciente, a acompanhante ouviu a resposta irritada da funcionária: tá cheia mas não vai explodir. Madrugada, mesmo paciente com diagnóstico de pneumonia está completamente molhado, é solicitada uma troca de roupa de cama. Negativo. É só uma por dia, há problemas na lavanderia. O copo descartável também tem que durar o dia inteiro.

Claro, há atendentes atenciosas, médicos também. E o aspecto geral do hospital não é ruim, melhor até do que enfermarias de outros hospitais da rede privada. Mas há uma  distância entre o que o hospital propaga e a realidade. As pessoas sabem disso. – Isso aqui é igual ao Itaú, diz um, só tem estrela. – Na televisão é tudo maravilhoso, diz outro. E as pessoas reclamam, sim, mas o protesto chega a lugar nenhum.

Depois de cinco ou seis dias em observação, paciente com diagnóstico de pancreatite foi informado de “alta” até o surgimento de uma vaga para cirurgia. Caso piorasse, poderia voltar. Rodou a baiana e a biblia, ameaçou  um abaixo-assinado com  os irmãos da igreja, lembrou que aquilo ali era bancado por seu imposto, que até numa caixa de fósforo a gente paga imposto.

Ele tem toda a razão. O imposto da caixa de fósforo e de tudo o mais consumido por nós integrantes do universo dos  ZIP, aquele formado pelos Zero Important People, é juntado centavo por centavo até completar R$151,5 milhões anuais mensais, ou mais de R$400 mil/dia para os 313 leitos, entregues à empresa privada que administra o hospital, segundo matéria publicada na revista Época no início do ano passado.

Se levarmos em conta a revista e instituição acreditadora contratada, o Hospital do Subúrbio beira o paraíso do atendimento público. Não foi o que vi e ouvi nestes dias.  Na foto aqui publicada, Peterson tenta falar com o irmão internado e a mãe acompanhante. Veio de Itacaranha, neste sol de Verão, mas foi barrado na porta porque estava de camiseta, vestuário integrante da lista de proibidos afixada na entrada. Neste mesmo dia vi jalecos brancos passeando fora do hospital, o que do ponto de vista de segurança hospitalar parece bem mais grave.

As duas barras nas cores amarela e preta com a corrente que aparecem na foto é para organizar a fila das visitas. A regra é clara: só duas visitas por dia e uma por vez, das 15 às 17 horas. Próximo de três da tarde o segurança dá um grito para as pessoas se levantarem e entrarem em fila para o início da operação de entrada. O clima é de uma mistura de reformatório com quartel em ordem unida. Um paciente murmura, nem no hospital de  Irmã Dulce é assim. Lá não tem limite para visita.

O hospital fica a cerca de 25 km do centro da cidade, o acesso é difícil, pela BR, mas os horários de troca de acompanhantes são rígidos: 8 às 9, 13 às 14, 18 às 20h30. Fora deste horário, que não coincide com o de visita, tem que falar com a assistente social uma via crucis ainda não vencida por mim desde ontem.

Enfim, todo este relato aqui foi feito na esperança de chegar a quem pode avaliar o que está acontecendo. Meu amigo Ronaldo Jacobina, que tem acesso ao círculo VIP, marcou no penúltimo post o secretário de saúde do Estado, integrante do seu círculo de amigos no facebook.

Eu então me animei  com a possibilidade de escuta e detalho aqui hoje mais alguns episódios, na esperança de alguma  coisa ser feita para diminuir a distância entre a fantasia das matérias encomendadas  e a realidade, dura realidade de quem pertence ao círculo ZIP.

Nildão, Claude Santos e Carybé

27/02/2014

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Encontros

E por falar em década de 80 andava eu pelo Campo Grande hoje pela manhã em busca de turistas chegantes para entrevistar e eis que vejo alguém em minha direção com um olhar de quem exercita pensamento, mirando todas as direções. Era Nildão. Estendi minha mão na cara de pau: – Seu amigo de facebook.

Para minha surpresa ele me reconheceu. Lembrei de uma entrevista que fiz na década de 80 sobre sua poesia escrita nas ciclovias. É muito bacana quando a gente encontra na rua gente que a gente vê todo dia no facebook. Sim, elas existem.

Sempre fui admirador da arte de Nildão e recebi hoje assim do nada em plena manhã um elogio de quem admiro, disse ele que eu escrevo bem. Disse a ele que até bem pouco não acreditava nisso, muito pelo contrário, ainda tenho dúvida, mas aceitei feliz o elogio.

Conversa vai e vem e Nildão comentou o desenho da minha camisa-farda do Carnaval, viu ali traços de Carybé. E apontou para a obra de Carybé nas pilastras e em um painel do edifício em nossa frente. Mesmo mergulhado na cidade, o olhar de Nildão consegue ser estrangeiro, olhar de quem nota o que já se tornou invisível para a maioria.

Nildão se vai depois de comentar sobre a possibilidade de ter algo de errado com uma sociedade que resolve se divertir em apenas uma semana do ano.

Mal recomeço a andar depois de fazer a foto deste post, que saiu meio esquisita, e esbarro com Claude Santos, este sim fotógrafo, e de quebra conhecedor de Canudos. Claude é um dos grandes artistas desta terra, homem também do audiovisual. Mas Claude a gente só encontra ao vivo, em cores e em preto e branco. O cara é meio arredio a internet.

Alegria pelos encontros. Carnaval é assim, mesmo quinta feira, mesmo 11 da manhã.

Sigo então em busca dos meus turistas, satisfeito com os encontro casuais com os artistas desta cidade.

PS

Resolvo revisar o texto há pouco, melhor não acreditar no elogio de Nildão. Tudo confuso, mais de 300 erros. Tento consertar. Melhor excluir e publicar de novo. A desculpa é que eu estava meio bêbado. E a vantagem da internet é a possibilidade da revisão constante.

Um dia quem sabe

27/02/2014

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Um dia quem sabe ainda leio Hermann Hesse, Stefan Zweig. Estive diante deles rapidamente hoje pela manhã numa pequena excursão afetiva por um dos espaços mais agradáveis de leitura desta velha Salvador, a biblioteca do ICBA. A maioria dos títulos é em alemão, mas o que sobra em português é suficiente e sobra para minha carência de leitura.

A rápida visita à biblioteca, mesmo fechada, me foi franqueada pela bibliotecária depois que pedi a ela uma breve visita à minha memória afetiva das décadas de 70 e 80. No ICBA vi peças, shows, ali comecei a ler alguns livros, mas sobretudo flanei, respirei um ar diferente, um ar necessário e em falta em outros espaços da cidade nas décadas de 70 e 80.

Quem sabe um dia eu resolva ser leitor. Voltarei então à biblioteca do ICBA.

Moro sobre um crime ambiental batizado com nomes de jardins botânicos europeus

13/02/2014
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Imagem do Google Maps em 13/02/2014

O Google está desatualizado. Esta imagem copiada hoje mostra uma das maiores áreas verdes do Bairro do Acupe de Brotas, sobre a qual desenhei a olho a poligonal vermelha. Nesta poligonal, em agosto de 2009, ou seja, há quatro anos e meio, começaram a erguer um condomínio residencial com seis torres de 25 andares cada.

A história da construção  me intriga e me motiva a buscar, com a ajuda de vocês destas tais redes sociais, algumas respostas para umas perguntinhas básicas.

Pausa para algumas informações.

No dia 31 de agosto do ano passado, a promotora Hortênsia Pinho solicitou que a Justiça determinasse a suspensão das obras, dos efeitos da licença ambiental concedida pela prefeitura, a proibição da comercialização dos apartamentos, a demolição parcial das construções e a reparação dos danos ambientais, em ação ajuizada no Ministério Público Estadual.

No texto da divulgação da ação , publicado no site do MP, também é dito que as denúncias de irregularidades ambientais foram apuradas pelo MP em 2009, “quando foi instaurado inquérito civil e feita posterior proposição às empresas de Termo de Ajustamento de Conduta (TAC). O objetivo do Termo era promover a restauração ecológica da área degradada, a elaboração do EIV, e custeio de projetos ambientais ou aquisição de área preservada com três hectares de Mata Atlântica, no valor de R$ 3 milhões.”

Como estou escrevendo este texto na varanda de um dos 600 apartamentos construídos, significa que moro sobre um crime ambiental ainda sem castigo para as empreiteiras Arc Engenharia Ltda.,Brotas Incorporadora Ltda, PDG Reality S.A. Empreendimentos e Participações, e Agra Empreendimentos Imobiliários, parceiras na empreitada.   Quem começou a obra executada pela Arc foi a Brotas Incorporadora, vendida para a Agra, vendida para a Agre, vendida para a PDG.

As empresas foram acusadas de infringir a legislação ambiental e urbanística municipal. Segundo o MP, “as torres foram erguidas em Área de Preservação Ambiental Permanente (APP) e em Área Arborizada (AA) protegida por previsão expressa no PDDU, o que resultou no desmatamento total da vegetação sem qualquer autorização e no aterramento ilegal de recursos hídricos de bioma Mata Atlântica. O terreno ocupado irregularmente corresponderia a mais de 36 mil metros quadrados de área construída, ou duas torres e meia do empreendimento.”

Ironicamente, o crime ambiental contra a nossa Mata Atlântica foi batizado de Pátio Jardins e cada uma das torres recebeu o nome de um jardim botânico Europeu:  Montpellier,  Paris,  Pisa,  PáduaBolonha e Basel.

Aí você me pergunta. Que diabos você quer futucando esta história? Você não está morando, gostando, feliz com sua vista para o que restou da mata?

Explico. Já que a merda foi feita pela metade, vamos entender o que aconteceu para evitar que se repita com o que restou da área verde. Sei que estou agindo como paises europeus ou EUA, que depois de destruir suas matas, querem preservar as matas dos vizinhos.

Mas se alguém não colocar um freio, não vai restar folha sobre folha.

Vamos às perguntinhas básicas:

Por que o MP investiga o caso desde 2009 e só depois de mais de quatro anos, depois da obra construída e do leite derramado resolveu ajuizar a ação?

Como foi obtida a licença da prefeitura já que a área é de preservação?

Em que pé está o processo?

Quanto da área remanescente é ainda de preservação?

Por que o IBAMA não se manifestou, já que no terreno havia nascentes?

O terreno pertencia às famílias de Urbino de Aguiar, que deu nome à rua lateral,  e dos ex-governadores da Bahia Luiz Viana e Luís Viana Filho.  Um morador da Rua Urbino de Aguiar conta que havia um projeto de uma avenida ligando o Ogujá ao Bonocô, mas que foi abortado por Luís Viana para preservar a área. Essa história é verdadeira? onde pode haver informações sobre a origem do terreno?

Alguéns para responder?

Veja se o Google Maps foi atualizado aqui.

Facebook: https://www.facebook.com/gusmaomarcus/posts/10201385580618233?stream_ref=10

PS

Os antigos moradores espernearam mas não teve jeito. A OAS cravou outras 5 torres aqui perto, o City Park Brotas, com 671 apartamentos e acesso apenas em rua de 7 metros de largura para a Ladeira do Acupe. http://sos-acupe.blogspot.com.br/…/afinal-o-que-esta.

Luz, brisa, Brotas

18/01/2014

Fim de tarde de janeiro ilumina a Igreja de Nossa Senhora de Brotas. Ilumina todas as fachadas do asfalto sobre uma das principais cumeadas da cidade.

E seguimos para a nova casa satisfeitos com a luz e a brisa. Satisfeitos por escolher morar num lugar humano, com padarias, botecos, verdureiros, uma infinidade de portinholas de serviços.

Um lugar bacana, apesar do trânsito, apesar dos não-passeios.

Em Brotas brisa mesmo no sol de janeiro. E seguimos satisfeitos sob a luz e os novos ventos destes dias de mudança.

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Operário

22/11/2013

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Foto: Max Haack / clique na imagem para ampliar.

Quando eu era criança, ficava intrigado com o discurso do meu pai. -Fiz esta parede, fiz este quarto, coloquei este telhado, explicava ele as reformas na casa. Intrigado porque nunca vi meu pai com uma colher de pedreiro. Hoje, claro, entendo. Conceber, planejar e delegar também faz parte do fazer. 

Mas ao passar sábado na Barra pelos operários numa intensa labuta, de um lado para o outro debaixo de uma super lua de meio dia, e hoje, ao ver esta foto de Max Haack, um belo registro da concentração e dedicação de um deles para encaixar as peças do novo piso, me veio à lembrança aquele senso infantil de justiça.

 

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Fui de bike e voltei quebrado

17/11/2013

Testamos ontem as laranjinhas de renca e aprovamos. O único senão é o retrovisor, mais enfeite. A campainha funciona muito bem e as marchas também.
Hoje pela manhã me animei e acordei a patroa para uma jornada mais longa. Saímos da Praça dos Correios, criamos coragem para ir em frente no Jardim de Alá, grave erro, seguimos até a Boca do Rio, passando pelas ruínas do Aeroclube.
Quem vai precisa voltar, não havia dinheiro pra ônibus, só cartão. Já aconteceu algo semelhante quando resolvemos, com Luísa, ainda na cadeirinha, dar a volta olímpica no Parque de Pituaçu. Boiei no km 7, mais ou menos a metade do caminho. Ou voltava ou seguia, dava no mesmo.
Hoje, coração pela boca, pedi menos e um reforçado café da manhã na padaria da esquina da Jorge Amado.
Aos 52, aprendemos que dois tiros sem tirar do pedal precisa de uma parada para repor as energias.
A sorte foi a leve ladeira abaixo do retorno, quando 0,0001 grau de inclinação foi aproveitado para economizar músculos, articulações e artérias já não muito confiáveis.
Impressionado também como esse negócio pegou. As laranjinhas hoje são parte da paisagem móvel da orla. Noto também que as pessoas criaram coragem e estão saindo mais com suas bicicletas. A adesão em massa seguramente vai levar à multiplicação das estações mais rapidamente. Oxalá.

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Árvores‎ incomodam? veneno e motosserra nelas

15/11/2013

Arvore

A rua mais agradável de Salvador para transitar é o Corredor da Vitória, transformada em túnel de sombra sob velhos oitis. A cidade também conta com um grupo chamado Canteiros Coletivos, dedicado a plantar árvores. E a prefeitura de Salvador tem como meta plantar 100 mil árvores nos próximos 3 anos. Uma rua com árvores é sempre mais agradável, especialmente no Verão.

Mas na esquina das ruas Bahia e Território do Rio Branco, na Pituba, árvores são estorvo e nos últimos tempo mataram 4 grande amendoeiras, 1 cortada e as outras três envenenadas.

Mais detalhes neste álbum no facebo0k: https://www.facebook.com/gusmaomarcus/media_set?set=a.4537156623736.1073741825.1135737937&type=3

Ambivalência

28/10/2013

Sempre achei esta palavra negativa mas hoje fiquei mais amigo dela ao me tornar menos ignorante depois do comentário de Luiz Felipe Pondé, na Metrópole, quando foram citados vários exemplos da nossa natureza ambivalente. Eu me vi ali no que ele falava.
Sou ambivalente sobre Deus, sobre aborto, sobre vícios, e muitas outras coisas sobre as quais pessoas normais nem pestanejam.
E não bastassem estas ambivalências existenciais ainda tem aquelas pequenas do dia-a-dia.
Meu André completa 12 anos na quinta-feira e há algum tempo reivindica o direito de voltar sozinho da escola, uma caminhada de cerca de 1 km. Eu quero deixar, mesmo com medo, mas a mãe resiste.
Hoje resolvemos um meio termo. Ele viria andando a metade do caminho e nos encontraríamos num ponto de passagem. Chego depois do combinado e não encontro o menino. Sigo a pé em direção à escola, esqueço o telefone no carro. No meio do caminho avisto uma aglomeração.
Na rua dos fundos da escola, próximo onde passamos todos os dias, havia acabado de acontecer uma troca de tiros na tentativa de tomada de um carro de assalto. O motorista reagiu, levou um tiro na mão. O assaltante foi atingido na virilha, correu e tomou um carro de assalto adiante, assim disseram.
Fiz o percurso duas vezes sob o sol, até conseguir telefonar para casa e encontrar finalmente André, que não me esperou e levou uma bronca.
Mas o pior é amanhã e a tal ambivalência: deixar ou não o menino experimentar a rua.

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A médica e o monstro

16/10/2013

7h30 da manhã de um dia já azedo. Emparelho o carro ao lado de outros dois para virar à esquerda de uma transversal da Paulo VI, em direção à Orla. O sinal abre primeiro para quem sai à direita e eu deixei pouco espaço na pista. O cara vem de trás, consegue passar com uma certa dificuldade, para do meu lado e manda: – Seu idiota. E arranca.

Meu perfil é de um completo idiota em conflitos. Raramente briguei na infância e quando briguei, no máximo, empatei. Só levei “vantagem” uma única vez, quando arremessei uma pilha de rádio, tamanho grande, na cabeça de um primo. Outras poucas apanhei. Tenho reação retardada a agressões, sou exatamente como aquele personagem da TV dos anos 80, que respondia a um insulto com um ah é, é? ah é, é?. Já fiquei por vários dias matutando uma resposta jamais dada.

Mas naquele dia, ao ouvir o xingamento senti uma onda quente da pança às têmporas, virei o volante para a direita, acelerei o possante 1.0 na contramão em perseguição e alcancei o cara parado na sinaleira do Superpão. Apontei o dedo e devolvi na cadência do indicador: – Idiota é você seu imbecil, seu canalha, seu escroto, seu paspalho, seu filho de uma puta e mais um monte de seu num volume de voz que deve ter sido escutado nas salas de aula do Colégio Militar. O cara ficou estático, nem devolvia o olhar.

Terminado o show, caí em mim e segui adiante assustado, com as pernas trêmulas e rouco. Por isso consigo me colocar também no lugar da monstra.

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Sobreviventes

11/10/2013

Tem umas notícias que me pegam. Fujo delas mas elas grudam em mim. Tenho que fazer um clipping pela manhã e a busca pela palavra Salvador me leva a todas as notícias da cidade. Desde o momento em que vi só o título pensei nos irmãos, penseinos pais, pensei na motorista. Agora vi fotos dos jovens, vi foto da motorista e a tragédia foi bem maior do que eu pensei. Não foi um acidente, foi um duplo assassinato. Com cinco vítimas. Sim, considero a motorista também vítima desta loucura em que todos estamos metidos. Os  pais destes garotos são vítimas sobreviventes. Consigo me colocar no lugar dos cinco. Li agora um bom texto numa caixa de comentários. Compartilho aqui

 

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Gentileza

03/10/2013

Ao dar ré noto um carro na minha direção e então paro. Mas para minha surpresa ganho a preferência, a gentileza e toda a paciência do mundo na espera para eu completar a minha manobra. 
Não recebo buzinada, nem sinal de luz, nem gesto impaciente, muito menos obsceno, nada, nada, só um paciente silêncio e uma espera, resignada até. 
Em poucos segundos revejo meus conceitos, a humanidade não é todo este miserê, existem sim pessoas bacanas, o amor é lindo, o dia é de sol e a vida é bela. 
Busco então a face generosa pelo retrovisor mas já é tarde. 
O outro veículo já havia ocupado rapidamente a vaga deixada por mim.

 

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Mão de gente metida a besta

02/10/2013

Moro num bairro com uma razoável concentração de gente metida a besta. E não foi a primeira, nem a segunda, nem a terceira das muitas vezes em que flagrei gente tocando o pão exposto no cesto para checar se está quente. Mudarei, espero, em breve para um bairro com menor concentração de gente metida a besta. Oxalá comerei a partir de então meu pão livre de mão de cu.

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O belo edifício sente o peso dos anos

26/09/2013

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Caruru

02/09/2013
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Aqui na cidade da Bahia ser convidado para um caruru em setembro é sinal de existência social. 
Estou me sentindo ao sair com a renca para o primeiro da temporada.
 

 

 

Humaitá

13/08/2013

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Fotos: https://www.facebook.com/gusmaomarcus/media_set?set=a.10200338249315605.1073741840.1135737937&type=1

Teletubbies

13/08/2013
Teletubbies

Quem primeiro me falou deles foi Guilherme Filgueiras. Não acreditei. Como Tinky Winky, Dipsy, Laa-Laa e Po, nossos teletubbies vivem no subsolo. Mas o Tubbytronic Superdome dos nossos fica ali no Rio das Tripas e não tem nada de encantado.

Não tive coragem de conversar com eles, são dezenas, na foto podemos ver alguns nas calçadas. Conversei com as pessoas da área, todos os conhecem, vivem ali invisíveis há anos, nas galerias, no esgoto, em velhos colchões, juntos com ratos, em frente à velha rodoviária.
Taí uma verdadeira casa fora do eixo. Totalmente fora do eixo, fora da compreensão, fora de tudo. Eu me recuso, a partir de hoje, a discutir qualquer coisa sobre nossa cidade, humanidade, ideologia, políticos, partidos, drogas, deus, religião, aborto, racismo pobreza, riqueza, sem levar em conta essa realidade.
Enfim, não dá pra discutir nada sem ter como ponto de partida nossa convivência pacífica com essa teletubbilândia em nossas tripas.
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O melhor de Salvador

13/08/2013

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Passei a manhã/tarde do domingo com minha renca na ponta de Humaitá, o melhor lugar de Salvador. Tava lá o pequeno farol, a mureta/mirante, a igrejinha aberta, a vista da cidade, do forte de Mont Serrat, do resto da cidade.
Se alguém de fora me pergunta onde ir, não pestanejo. Humaitá.
Onde há também este monumento em homenagem ao que seria, ao que poderia ser, ao que deveria ser. Seria um cais, um terminal hidroviário, seria um ponto de embarque e desembarque. Mas é nada, é desperdício, é esquecimento.
Tudo nessa Bahia parece começar e nunca terminar. Encontrei perdido no google o futuro mais que imperfeito num slideshare do que poderia ter sido:http://www.slideshare.net/turismobahia/plano-estratgico-do-turismo-nutico-da-baa-de-todosossantos

 

 

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10200337991429158&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

Algum crédito

07/08/2013

Para aqueles que, como eu, tem pouca fé na humanidade aumentar o crédito:
Alcione, a pessoa que trabalha conosco como diarista, barrigão de 8 meses, abre toda feliz uma caixa. Manta e macacão de saída da maternidade, produtos de qualidade. E bonito.
Presente de quem? Dos amigos do buzu.
Se você não sabe que instituição é essa, saiba que ela é poderosa.

https://www.facebook.com/gusmaomarcus/posts/10200307506587056

 

 

MIx

03/07/2013

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“Quem vive de acreditar na mudança dos outros é o dono do carreto”. Baseado nesta verdade lembrada hoje aqui por Mariana Borges começo estas breves mal traçadas sobre o que vi ontem na manifestação, digo, Caminhada ao Bonfim, digo, Parada do 7 de Setembro, ops, na Mudança do Garcia, quer dizer, no Cortejo do 2 de julho.

Sim, foi um mix. Em comum estas jornadas cívico-protestadora-religiosa-festivas têm o caminhar.
E caminhamos da 7 Portas até a Soledade, de lá para a Praça da Sé e depois ao Campo Grande. No caminho alguns amigos especiais e muita fanfarra.

Sim, as fanfarras deram o tom da festa. São muitas, elas aparecem de todos os lados com suas roupas coloridas, seus quepes e penachos, suas balizas exibidas.

Enfim, voltando ao começo, chego à seguinte conclusão: ir às ruas muda quem vai às ruas. Seja lá pra quê.

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10200132479771495&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

Eu vou

19/06/2013

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Não existem mais passantes destes caminhos. Mais outro tanto de tempo não existirão passantes da tarde de hoje. A vida passa. Eu vou.

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Foto: http://urbanizacaoemsalvadorseculoxix.wordpress.com/2010/12/17/processo-de-urbanizacao-em-salvador-no-seculo-xix/

Toquinho no Terreiro de Jesus

17/06/2013

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E a gente no meio da rua
Do mundo, no meio da chuva

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=4967399619542&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

O inferno em 11 meses

08/06/2013

Desde 30 de outubro de 2007 sabíamos da copa de junho de 2014 no Brasil. Lá se vão quase seis anos. Neste sétimo ano, quando deveríamos segundo a Bíblia descansar, eis que resolvemos começar: duplicar a Pinto de Aguiar, fazer complexo de viadutos no Imbuí sobre a Paralela, mais um viaduto adiante, requalificar a Orla, fazer Metrô andar, fazer o trânsito andar, requalificar a Baixa do Sapateiro, construir quatro passarelas sobre a Via Expressa, tudo em 11 meses ao mesmo tempo agora. Iniciamos assim nosso ano letivo de pós-doutorado em inferno urbano. Me acordem em julho de 2014.

 

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=4924500907101&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

Amanhã

27/05/2013

Chove, chove muito sobre as promessas de segunda-feira.
Melhor voltar pra cama. Deus molha quem cedo madruga.

 

https://www.facebook.com/gusmaomarcus/posts/4868051535902

 

 

…somos iguais em desgraça, vamos cantar o blues da piedade

09/05/2013

Piedadepraca

Tento me esquivar de notícias de sangue. Mas elas me atingem de raspão, no fragmento dos telejornais, nos informes de Alcione, a nossa diarista, no rolar da tela do computador.

O tabloide inglês dá notícia  da guerra em curso nesta cidade desde Tomé de Souza  e a notícia provoca comoção. Vou na memória deste coco pequeno, este diário onde tento jogar luz sobre minhas mini-incertezas e encontro a Praça da Piedade, num post de 10 de abril de 2007:

Esta praça tem um igreja de São Pedro, uma Igreja da Piedade, um instituto  histórico, um prédio de polícia estilo gotan city, um gabinete português de leitura, uma faculdade de economia, umas lojas, um Bradesco na esquina, uma fonte luminosa no meio, um gradil de Mário Cravo Caribé, um resquício do poeta Castro Alves, uns gritos dos poetas da Praça, uns muitos aposentados, um pouco da minha infância, um pouco da minha adolescência, um pouco de mim agora.

Cada um destes uns dá um post. Começo por um pouco de agora, por esta foto… Graças à sinaleira, para o carro na esquina. O display da máquina está queimado. Trago então o visor para o olho esquerdo e disparo à moda antiga, com a máquina encostada no rosto. Deu tempo de esperar o cara que vinha andando entrar na foto, para que ela não ficasse completamente desabitada.

Não deu para conferir o resultado na hora. Sigo então em frente a admirar o céu azul e esta cúpula,  que dá um toque árabe à praça, como um ladrilho no mosaico das lembranças da nossa ancestralidade moura. Este é um post emotivo, feito na madrugada…

Naqueles dias também descobri a ausência do busto de um dos heróis da Guerra dos Alfaites, enforcados na Praça e também escrevi sobre  o sumiço. E sobre a Praça e sua história. Já recuperaram o busto, a praça vive no mesmo abandono, à espera agora de adoção.

E cá estou eu, na véspera do aniversário de seis anos da foto e dos textos, a pensar na praça, na cena de sangue, na guerra cotidiana de Salvador , nas praças de guerra e morte recentes na Piedade e Campo Grande, dois dos principais espaços públicos e  de memória  desta cidade.

Vou en busca da notícia de sangue mais recente  e vejo as imagens da praça de guerra, praça de guerra,  e  lá estão os corpos estendidos no chão. As pessoas andando pra lá e pra cá, outras buscam se aproximar mais, há uma certa banalidade no cenário.

O jeito é cantar o Blues da Piedade.

E na busca pela trilha sonora  destas palavras, rencontro e João Bosco, na leitura poética deste tipo de cena.

 

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=4789882941736&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

Murta

03/05/2013

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Sim, tinha algo de muito bom no engarramento cotidiano desta noite abafada .
O cheiro forte da floração da murta no canteiro em frente ao Parque da Cidade.

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=4765346648344&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1&theater

Boas novas

15/04/2013

site portuga

Sim, existe um site português dedicado exclusivamente a boas notícias:
Jovens devolvem 60 mil euros achados em comboio
Homem dá emprego a ladrão que lhe entrou em casa
Usar redes sociais no trabalho aumenta produtividade

Queria me mudar de Salvador e morar nestes últimos três dias neste site portuga. Porque por aqui as notícias são pancadas e nestes últimos três dias a pancada foi maior. Costumo me esquivar de tragédias, elas alteram meu humor, atrapalham meu trabalho, me consomem energia. E desde sexta só vejo más notícias embora o céu tenha sido sempre azul. Domingo, por exemplo, fomos à praia no final da tarde e Ipitanga parecia o paraíso. Mas desde sexta, abro os jornais e leio dor, dor de mãe, dor de pai, dor de famílias. Pra completar,  o resto do mundo também não ajuda. Contra minha vontade abro o vídeo e lá vejo corredores chegando numa linha de chegada, felizes, perto de cumprir o desafio e de repente uma bomba. Salvador e o mundo carecem de boas notícias. Vou para Portugal, pá.