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Sobre a cidade

Cumeadas

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Saí ontem caipiroskado de uma confraternização de trabalho. Fim de tarde, temperatura agradável, resolvi voltar para casa a pé.

Andei 3,5km  mas atravessei cidades ao ir do Cidade Jardim, pela ladeira da Cruz da Redenção,  até o Acupe de Brotas. Da perspectiva de pedestre a gente enxerga melhor a cidade, especialmente as pessoas.

Na avenida de vale, só prédios e carros, muitos carros, raros caminhantes, raras mulheres, um cenário definido por  João Ubaldo Ribeiro como Los Angeles de pobre.

Ladeira também semideserta. Mas no topo, a pracinha do Largo da Cruz da Redenção fervilha.

Com Lelé, o arquiteto que gostava de gente, aprendi uma palavra bonita para definir estas partes altas da cidade, onde as pessoas ainda andam pelas ruas e convivem:  cumeadas.

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Notícias de Salvador, notícias do front

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Começo o dia de trabalho numa geral pelas notícias de Salvador, via google. E dou de cara com essa, de ontem. E marejo. Já havia visto ontem o filme da chegada da motocicleta, da saída da motocicleta. No intervalo, os tiros. Mas o olhar do garoto hoje me pega. Tem um quê do olhar do meu filho. Leio o lamento dos pais. O que ainda cabe na definição tragédia hoje? E fico aqui, marejado e impotente. Reclamar de quem? Reclamar de quê?

O medo é uma merda

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Hoje senti medo da minha Piedade, da minha Carlos Gomes, da minha Castro Alves. Nunca, em décadas, havia sentido o que senti hoje. Temo muitas coisas, temo o futuro, temo as contas no fim do mês, temo a pressão alta, temo a balança, o ódio político, a ignorância, temo brochar, a falta de assunto no elevador, mas as ruas desta minha cidade inaugurei temer somente hoje.

Era um medo acumulado, já instalado e não notado. O gatilho havia sido disparado há mais ou menos um mês. A praça da Piedade tomada de moradores de rua, dois deles brigando, e eu indiferente, orientava Maria como fotografar melhor a fonte luminosa, os heróis da Conjuração Baiana, no cumprimento de uma tarefa escolar.

O celular foi arrancado da mão da menina num  bote rápido e certeiro. Sem pestanejar – pra que diabos fiz isso até agora não sei – parti no encalço do sujeito aos berros de pega, pega. Já voltava ofegante, humilhado e puto como a gente se sente nestas horas, quando alguém gritou: pegaram. O cara acabou no chão, com uma pistola apontada para a cabeça e o pé de um policial à paisana sobre as costas.

Fui  obrigado a seguir para a delegacia para cumprir o ritual do flagrante. No ponto em que as coisas chegaram, não havia mais como negociar a devolução do aparelho e liberar o sujeito. Segui com três policiais e o cara choramingando, pedindo clemência na mala da viatura, enquanto no rádio começava Vitória e Atlético MG.
– Fique quieto rapaz, se o Vitória tomar um gol aqui você vai ver o que é bom.
Passei a torcer pelo Vitória, pelo menos até a chegada à delegacia.

O gordo valentão que partiu pra cima de um miserável que arrisca ter que matar, ferir, apanhar, ou morrer por causa de uma porcaria de celular hoje percorreu as ruas do centro acuado. Não teve coragem de  caminhar  e fazer fotos como sempre. Descer do carro para ir ao Centro Cultural da Caixa com Soraya e Maria foi uma operação calculada, precedida de checagem de quem vinha, de quem ia. Ir depois ao Cine Glauber Rocha tomar um café, outra operação cercada de atenção.

Apesar da realidade gritar o contrário, nunca senti medo nas ruas. Sempre me achei parte da cidade.Morei na Senador Costa Pinto, no Largo 2 de Julho, me sentia imune, um sujeito da área. Achava estranho o texto de um amigo que certa vez me disse que seu grande prazer de ir à Europa não era visitar museus, catedrais, concertos. Era simplesmente andar tranquilo pela rua, sem medo de ser assaltado.

É uma pena ter que me render à realidade,  algum temor  é até útil como prevenção.

Mas talvez o medo seja pior que a violência consumada, porque é uma violência latente, permanente, corrosiva. O medo é uma merda.