Archive for the 'viagem' Category

Pratigi

20/01/2017

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Nem palavra, nem imagem traduz esse mar do Pratigi. É preciso voltar sempre, admirar o arco de água, areia e coqueiros a perder de vista. Caminhar, mergulhar. Receber no final da tarde o abraço de pele da água com temperatura de gente por dentro.

Maré

23/01/2015
Pratigi

Pratigi

“Guarde suas lágrimas porque o pior está por vir”. Ando numa maré tal que há dias rumino esta fala do cavalo do jovem herói do conto infantil russo “O pássaro de fogo” quando algo errado acontecia. A frase cai como uma luva nas mentes chegadas a um catastrofismo como a minha embora no conto tudo acabe bem no final.

Só para ilustrar a maré, duas historinhas. Das mais amenas, porque isso aqui é mas não deveria ser muro das lamentações.

Sempre fui chegado a uma furadeira e empresto meus atributos de brocador. Atributos desmoralizados quando esta semana consegui fazer jorrar água com precisão de mira a laser em dois canos em duas paredes de um mesmo banheiro.

Sempre fui o preparador de ovos mexidos da casa deste quando éramos dois. Hoje somos cinco e o ritual começa com ovo por ovo despejado num copo antes de ir para a frigideira depois de avaliado. Resolvi colocar direto e pela primeira vez na vida misturei um goro, o último.

Viver é sempre  arriscoso mas tá na hora desta maré virar.

O jeito é ir para onde tenha sol, como diz a velha canção do Júlio Nastácia. O jeito é ir para o Pratigi.

É pra lá que eu vou.

Travessia

19/07/2013

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BR 116 — em Milagres, Bahia.

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E se fosse um afogamento?

08/01/2013

André queria porque queria voltar de lancha rápida do Morro para a Ponta do Curral. Eu e Soraya insistíamos com o barquinho pô-pô-pô por ser a metade do preço, por levar gente da terra, por permitir olhar as margens com calma.

Mas a pressa para não dirigir à noite e a multidão agoniada no cais de domingo nos convenceram na volta.

Todos na proa da pequena lancha, subiamos e desciamos ao sabor das marolas provocadas pelos outros barcos, impulsionados pelo motor poten…. pifou no meio do mar. O marinheiro riu amarelo e rapidamente ligou novamente a máquina. – É entupimento, é entrada de ar. Choveram explicações.  A lancha avança e pifa, avançae pifa, pega velocidade, volta a quase morrer, pega velocidade, pula sobre as ondas, torna a sileciar, retoma o ronco.

Até então levava  na bricadeira e fazia piadas. Mas a lembrança de um barco que emborcou assim do nada em Abrolhos me fez pedir os coletes ao marinheiro. Pelo menos para André e Maria.

O marinheiro abriu a portinhola, pegou o primeiro colete e entregou à mão estendida assim do nada  de uma mulher por trás de uns óculos escuros enormes. Permanecemos eu e Soraya com os braços estendidos em vão esperando que o colete fosse passado de mão em mão até nós, enquanto a mulher de óculos enormes colocava o colete sofregamente. E fim e pronto.

Não sei por quanto tempo permanecemos com os braços no ar, olhando um para o outro, até alguém pedir um segundo colete. Tudo foi em câmera lenta e durou eternos cinco ou seis segundos.

Como seria num afogamento?

Conto esta historinha ilustrativa da natureza humana nem sei por quê. Ela me marcou.

Fico devendo falar sobre o atum delicioso preparado pela mana Rita, sobre a creperia Strike, de Dine e Xadai,  sobre o  banquete oferecido pela cunhada Regina, no Café com Arte, na Vila, sobre o  reencontro das crianças com o cão Taiti, sobre o que mudou desde a minha primeira visita ao Morro, há 23 anos, sobre os argentinos que tornam o português a segunda língua do lugar neste Verão,  tudo contido nas 46 ¨horinhas de descuido¨ passadas com a renca no Morro de Sâo Paulo. Qualquer dia volto ao assunto.

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O dia em que eles tiveram   um cachorro.

Somos cinco num pequeno apartamento e não queremos nem podemos ter um cachorro, o maior sonho de consumo de três dos cinco aqui de casa, maioria derrotada.
Enquanto isso, Maria se vira por um dia com Taiti, o cachorro do tio. Um grude só. A menina tomou duas doses de antirrábica no final do ano por causa de uma mordida no rosto de Quico, o cachorro do bisavô. No dia seguinte à segunda dose,  já estava aagarrada com o seu algoz e garantia ser amada por ele.

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Viagem

30/12/2012

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Juliana Cunha vai passar dois meses na Ásia. Serei leitor. Mas tudo pode ser diferente,  porque joguei na mega sena da virada. Aí serei viajante.  Juliana Cunha realiza parte dos meus sonhos. Sonhei um dia morar em São Paulo, em trabalhar na Folha, tudo o que Juliana fez. E sempre sonhei em viajar. Viajo então na viagem alheia e jogo na mega sena da virada.

Gosto de gastar o dinheiro da mega sena.

Tomo decisões, faço escolhas, estabeleço prioridades e descubro de quem mais gosto pelo tamanho dos presentes. Gente que há muito não convivo volta como presenteado. Arrumo a minha vida e a de muita gente. E viajo muito.

Tem uma serventia gastar o dinheiro da mega sena da virada. É como se fosse uma forma de gelatina, tirada a forma depois que fazem o sorteio e a gente não ganha. E  fica o sonho, pelo menos o formato,  ali na frente da gente.

Feliz sonhos para todos.

Cores na beira da estrada

20/11/2012

Sem tílo

Nunca me deixam parar para fazer fotos. Desta vez cederam e o combinado era parar toda vez que fosse avistada uma árvore florida, não valia verde. E aí surgiram os ipês roxos, três de uma vez, em frente ao povoado de Bravo. No céu a lua nova, um pássaro de papo amarelo, no chão formigueiros. Antes, outro Ipê roxo solitário e mais antes ainda, uma árvore vermelha, não sei o nome.

Vejas as fotos aqui: https://www.facebook.com/gusmaomarcus/media_set?set=a.3973821500710.2143537.1135737937&type=1

Olhos amestrados

12/10/2012
46547_3808995620166_253142937_nSempre quis parara para fotografar esta casa na beira da estrada Milagres Iacu. Hoje deu. E me dei conta mais uma vez do entorno. E dos nossos amestrados olhos turísticos. Estes olhos turísticos só se abrem diante dos destinos já carimbados, autorizados para a admiração geral. O que falta para Milagres, Itatim, Santa Terezinha, Iaçu entrarem no mapa turístico? Falta amestrar os olhos?
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Um rapaz velho e cansado

08/03/2012

Estou em Fortaleza, Ceará. Foi uma viagem de última hora, a trabalho, atrapalhou a rotina da casa, sobrecarregou Soraya, me roubou o café da manhã de aniversariante amanhã, mas trabalho é trabalho e, é preciso confessar, gosto muito de viajar. Pra qualquer lugar. Mesmo por um dia.

E hoje viajei também aos meus 20 anos, menos de 20 anos, quando peguei a estrada de mochilha e passei rapidamente por aqui em direção a Natal. Ao pesquisar no google para ver o local para onde eu deveria ir, notei que o bairro se chama Mucuripe e aí não tem como não lembrar dos versos de Fagner e Belchior. Não sabia que as velas de Mucuripe eram tão urbanas.

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No táxi, o motorista falou da Praia do Futuro e aí de novo veio a trilha sonora dos meus 20 anos. Aldeia, Aldeota, o farol velho e o novo, os olhos do mar e as duas velhas canções ficaram na minha cabeça o dia todo.

Meu irmão Dine está decidido a vir morar nesta cidade. Decisão acertada. Ao sair da jornada de trabalho embarquei num coletivo e liguei meu automático de peregrino. Fui peguntando aqui e ali, me deliciando com o sotaque, até descobrir uma pousada em conta, modesta, mas com o básico e mais internet, entre o centro e a praia de Iracema, numa área residencial, com crianças brincando na rua e pessoas nas calçadas. E ainda perto do Centro Cultural Dragão do Mar, uma estrutura engenhosa, interligada por passarelas e que ainda abriga um planetário. Por que Salvador não tem um planetário?

Enfim, estou aqui, à beira dos 51, mergulhado nas  lembranças e com saudade dos meus dias que ainda terei com a renca nesta cidade. E, quem sabe, Jericoacoara.

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Trapiá

21/02/2012

Hoje eu quero visitar meu pai, disse seu Rubem.

Ontem à noite ele lembrou do pai, lembrou da infância no Trapiá. O filtro do tempo se encarregou de decantar possíveis sofrimentos, possíveis tropeços. E e o pai, a mãe, a infância ressurgiram felizes.

E fomos hoje, com a filha Conceição, em direção à felicidade do passado  mais que perfeito, a cada dia mais perfeito.

Tivemos sorte de peregrinos. De Iaçu a João Amaro foi fácil,  pela margem esquerda do rio, menos usada e mais habitada, por uma estrada vicinal. Um vaqueiro  indicou o caminho certo em duas bifurcações e o motorista de um caminhão carregado de lenha (foram três na curta viagem e isto é outro assunto,  o resto de caatinga  queimando nos fornos de cerâmica) resolveu a dúvida em outra encruzilhada.

Na estrada a memória voltava forte como na noite de ontem, e de outros dias recentes, quando lembrou do jogo de bola de meia, da brincadeira no quintal, no dia em que presenteou o pai com um rádio de ondas curtas e do espanto do velho  ao escutar o locutor solenemente anunciar: –  Aqui fala a BBC de Londres, em transmissão para o Brasil.

– É verdade, disse João Reis,  onde o homem chegou. Um fala na Inglaterra e a gente escuta aqui!

Uma placa do progama luz para todos nos informa que estamos no município de Boa Vista do Tupim. Sempre ouvi  seu Rubem dizer que nasceu em João Amaro. A memória não respeita as novas divisões geográficas.

No caminho, lembranças do mix total de minha renca, com ancestralidade Africana, Européia e Árabe há apenas quatro gerações. E de novo a sorte de peregrino nos colocou diante de um jovem que informou não mais existir a casa da fazenda e nos  indicou três porteiras adiante. Na primeira encontramos Jurandir, filho do vaqueiro do Trapiá. Desmontou e se juntou a nós como guia.

Graças a Jurandir chegamos ao lugar exato da casa, onde em 9 de abril de 1921 nasceu o filho único de João dos Reis Almeida e Maria dos Santos Almeida, onde “sentiam-se felizes; densa caatinga, grande fauna, muita paz e muito amor”, como escreveu seu Rubem no dia dos 90 anos, no ano passado, numa caligrafia segura, sem erros e correções, de um sujeito que teve educação formal apenas até a quarta série primária.

Seu Rubem reconheceu os pés de amargoso, o poço hoje seco, que abrigava peixes e sanguessugas, as pedras dos morros onde caçava tatu, cotia, mocós e outros bichos. Não saiu do carro. Ficou observando, em silêncio.

Passei pela cerca, fui no ponto exato da antiga casa,  de frente para um pé de amargoso ainda em pé e dois no chão, como esqueletos do tempo. Vivo ainda estava também  o pé de umbu da sua época. A mangueira ao lado de um dos poços da casa é também esqueleto. O poço maior, também seco, reviveu a memória de Conceição,  que sente o  sabor de uma paçoca feita com as piabas pescadas com um cesto na lagoa.

Seu Rubem ficou silencioso a maior parte do tempo. Repetia agradecido, na volta,  a oportuidade de realizar um sonho, de retornar  ao lugar onde foi feliz e não havia voltado em mais de 50 anos. Mas Conceição disse a Soraya que ele não desceu porque ficou triste. Talvez esperasse encontrar a casa, mesmo diferente. Mais uma vez se confirma o conselho antigo, de que não devemos  retornar ao lugar onde fomos felizes.

Enquanto fazia as fotos imaginava o menino correndo, o barulho das galinhas, ovelhas e outros bichos que fazem a trilha sonora de quem vive no mato, a fumaça subindo da chaminé, o som chiado do  rádio de ondas curtas.

Se pela minha cabeça passou um filme,  imagine na do seu Rubem.

Em dez folhas de caderno, seu Rubem agradeceu um a um filhos e netos pelo aniversário de 90 anos, em abril do ano passado.

Em frente da antiga casa, o pé de amargoso remanescente dos três.

O umbuzeiro da porta da casa.

A mangueira do poço do fundo

Um dos pés de amargoso da porta da casa

A lagoa,o poço principal, que fornecia água para a casa. Hoje seco.

 

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Ilhas de pedras

19/02/2012


Sou doido por pedras. E estas, na região de Itatim-Milagres-Castro Alves sempre me encheram os olhos, desde criança. Um dia ainda largo o carro  e sigo andando. Ontem deu vontade de fazer isso. Ainda não foi desta vez.


Havia fotografado com Soraya da janela do carro em movimento na viagem para Iaçu mas as fotos não prestaram. Além do movimento, nosso sentido era de contraluz, no fim da tarde.


Por sorte, precisei ir ontem a Feira de Santana e fui sozinho, parando. Deu pra fazer estas imagens. Nao estão 50%  mas pelo menos permitem compartilhar a grandiosidade deste lugar.


Estas formações são chamadas pelos geológos de ilhas de pedras ou inselbergs. Achei um trabalho de três geógrafos formandos da UEFS sobre a gênese deste lugar. Veja aqui. E  quando eu for a pé, vai ser ver de perto a vegetação, descrita neste trabalho,


De repente as pedras surgem isoladas, exibindo  as mais variadas formas, esculpidas em pacientes quase 140 milhões de anos.  Para se ter uma idéia deste tempo, se você, como eu, tem 50 anos, isto seria algo como vivermos dois milhões e 800 mil vezes para testemunhar  este processo. Ou 70 mil vezes a era cristã. Santíssimas pedras.


Quem nunca teve a atenção chamada para esta boca? Está desdentada e merece ser tombada e recuperada por pertencer a memória afetiva de milhões de nordestinos e seu vai-e-vem em direção a sumpalo.


A grandiosidade das esculturas e a tentativa de imaginar isso se formando no tempo ajuda pensar o quanto tudo é tão maior do que a gente é quanto é curta nossa estadia nestes tempos corridos.

 

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me faça sempre peregrino, Maria.

16/02/2012

Ontem Maria completou 7 anos de caçulice. No final da tarde, depois de um dia corrido e engarrafado, fomos todos para uma praça aqui perto e o acaso nos levou a terminar o dia numa pizzaria desconhecida por nós e na companhia de amigos encontrados casualmente na praça.

A menina  insistia em ir para uma pizzaria onde comemoramos outros aniversários, e que para ela era a melhor do mundo. Em fração de segundo,  convencida por um amigo de André,  mudou de opinião e o lugar mais bacana do mundo mudou de lugar.

Maria é assim. Intensa nas suas crenças, passa do choro e berros ao sorriso e fala mansa numa rapidez tão grande que sempre desconfio errado de fingimento.

Maria tem tudo para ser peregrina em vez de turista nesta vida. Tomara.

Esta história de peregrino e turista surgiu sábado,  quando comentei com Soraya sobre o meu encantamento com as pedras abauladas pelos pés das portas da básilica do Mosteiro de São Bento, sobre as marcas de joelhos no confessionário, sobre a atmosfera  daquele lugar de 430 anos.

Soraya então me elogiou de peregrino, porque eu havia transformado em viagem uma  ida à igreja como acompanhante da minha mãe, que na verdade queria ir para a Igreja de São Pedro, na Piedade, mas eu confundi os santos e fomos parar numa missa de formatura com direto a incenso e cantos dos monges beneditinos.

Soraya então explicou as diferenças entre peregrino e turista, como o desapego aos destinos carimbados e aos roteiros traçados torna o primeiro  uma criatura livre e o segundo um quase escravo. Mas, diante do meu espanto com a concordância do que ela dizia com o que sempre pensei, fez questão de lembrar que este papo é velho e que muitas pessoas já escreveram sobre isso. Talvez temesse que eu corresse praqui, para anunciar a minha descoberta da pólvora.

Mas voltando a Maria agora uma menina de 7 anos, no final de tarde ontem fomos todos peregrinos, Maria à frente, sem se importar em comemorar o aniversário na companha de amigos de Andŕe.

Resultado:  conhecemos um novo lugar que sempre esteve sob o nosso nariz, conversamos boas conversas voluntárias e casuais com os amigos, e o mais importante, Maria voltou feliz para casa.

Foto de Luísa, descolorida.

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De volta

01/02/2012

Você nunca deve voltar ao lugar onde foi feliz, já avisaram. O lugar é outro, você é outro e são outras as circunstãncias. Mas voltamos ao Pratigi para uma curta permanência de três dias e não perdemos a viagem. Estavam lá o Chalé Sabiá e a hospitalidade de Orlando. E a praia, imensa, amigável com as crianças, morna e iluminada no final da tarde. Enfim a alma resiste em ser pequena e o Pratigi é imenso. De volta à rotina, fica a lembrança das águas, aguas do mar, águas da Pancada Grande. Viva Oxum, viva Iemanjá, salve o 2 de fevereiro que chega daqui a pouco.

 

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Cheguei primeiro

10/09/2009

Cheguei primeiroPortão de construção em alvenaria entre as dunas e o mar, em Santo Antônio do Diogo, Litoral Norte da Bahia.

Caminho da roça

20/06/2009

caminho da roçaDSCcaminho da roça 205183Br 324 hoje pela manhã.  115 km em 2 horas e meia.
Bem melhor do que as cinco  horas do ano passado.

São Sebastião de Cairu

07/03/2009

Os homens até hoje gostam de se achar os primeiros, antes deles só donzelice. Talvez venha daí essa história de dizer que as praias são virgens. Mas as praias que circulam as terras da Ilha de Boipeba guardam muitas marcas de amor e dor e o povoado de São Sebastião, mais conhecido como Cova da Onça, a história de marujos que esbarraram nos seus corais e ali ficaram, não se sabe se por encantamento ou necessidade. E deixaram seus descendentes.

As tripulações grega e espanhola de pelo menos dois naufrágios ali por perto [um deles deu nome à ponta dos Castelhanos e se relaciona à lenda que explica a origem da Igreja da Graça, contada por Câmara Cascudo]  podem explicar a presença maior da população branca no povoado, incomum no litoral da Bahia, muito mais no Baixo-Sul.

Impossível visitar este passado e não esbarrar também nas marcas e histórias deixadas pelos missionários religiosos. A Cova da Onça, onde não tivemos  tempo de ir, é uma espécie de caverna ou gruta ocupada  pelos Jesuítas. A partir daí a história carece de exatidão. Uns dizem que ali se guardavam  ouro e pedras preciosas, outros que o túnel ia dar em Boipeba Velha, lenda semelhante às que existem em Salvador sobre ligações subterrâneas entre igrejas.

O certo é que na cova havia algo de valor. Suspeito terem sido sacras, deixadas lá quando empombaram com os Jesuítas e eles foram convidados a se retirar, por conta de querelas ultramarinas.

O marujo desmemoriado aqui perdeu o bloco de anotações, sobrou apenas o endereço do site de Jonas Nascimento  http://www.covadaonca.i-ssa.com/ morador do povoado, onde há um relato da histdória de ocudpação da Ilha.

Mas me impressionou  uma história  ouvida de pelo menos dois moradores, e que não vi em site algum, sobre um suposto desembarque noturno, na década de 1960, de pessoas que se diziam militares. Foram até à cova, dinamitaram uma das passagens e de  lá voltaram carregados, ninguém sabe de quê.

Se os Jesuítas esconderam o ouro ou se  levaram as imagens, até hoje ninguém pode até hoje afirmar, o certo é que deixaram a devoção a São Sebastião de Cairu.

Estávamos almoçando com o grupo de turistas que veio no barco com a gente, quando os fogos pipocaram, avisando que lá no cais vai chegando a procissão marítima. Larguei Soraya, meninos e prato na mesa e fui fotografar. Clique na primeira imagem pra ver um filmete curto com o som da bandinha.

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Em Moreré, gigolô de renca se dá bem

04/03/2009

Sabe aqueles meninos engraçadinhos na sinaleira a desafiar o nosso racional? Às vezes a gente não resiste. Descobri na viagem que também  uso esta técnica, de seduzir pela graça das crianças.
Inicialmente era inconsciente, mas depois de constatar o sucesso da presença deles nas situações de necessidades como atolamento, negociação dos pacotes de refeições e diárias, comecei a manipular os cenários. Assim foi em Moreré.
Chegamos à noite e sem tempo nem energia para procurar um lugar. Seguimos então a indicação de Rubem, artesão que vive no Capão e conhece o lugar (é interessante este fluxo bicho-grilo Chapada/Moreré). Fomos  então para a Pousada Moreré, a mais antiga do lugar, cujos donos são nativos. Desconto conseguido, dormimos todos num quarto que daria bem para um casal, mas não para uma renca de cinco.
Fabiana, filha do dono, ao ver nosso desconforto, fez uma proposta decente. O cunhado dela tinha a solução no fundo do restaurante da pousada. Conversa vai, conversa vem e nos instalamos numa casa de dois quartos, mobiliada do cortinado ao pano de prato, incluindo também gás, sal, detergente, além de gatos e  mangas no quintal. Tudo isso por R$ 60 a diária, com direito também  a companhia de crianças para brincar com  meninos. O que se assucedeu nestes dias  você acompanha neste resumo fotográfico abaixo:


É bom chegar a lugares desconhecidos à noite. Ao amanhecer a gente se vê como numa peça de teatro, quando a luz se acende num ambiente absolutamente novo. Vi esta mudança de cenário a bordo de uma das canoas ancoradas na praia.

Maré vazante

Pousada Moreré

Já em companhia de Luísa, caminhamos em direção à direita e por este caminho da foto e chegamos a Bainema, lugar sonhado por Soraya e que valeu a insistência dela em conhecer.

Por todo canto os Guaiamuns. Pela manhã bem cedo, a gente se encontra com estas figuras assustadas e ariscas, a alegria dos meninos.

Chegamos fnalmente a Bainema

Novo amanhecer no cenário presente em 9 de 10 fotos de quem vai a Moreré.A performance deste estrangeiro entoando mantras provocava muitos risos e brincadeiras entre nativos e turistas. Era uma espécie de sino a saudar o nascer e o pôr-do-sol. Figura bonita e de paz. Doido manso, na visão dos nativos.A performance deste estrangeiro entoando mantras provocava muitos risos e brincadeiras entre nativos e turistas. Era uma espécie de sino a saudar o nascer e o pôr-do-sol. Figura bonita e de paz. Doido manso, na visão dos nativos.
Aportada no mangue, uma das caravelas exibe sua cauda fatal, protagonista de uma cena digna de filme iraniano. Gritos lancinantes, garoto sai da água desesperado e logo uma roda de crianças e adultos se forma ao seu redor. Gritos e mais gritos. Quem já foi queimado por caravela sabe o tamanho da dor, que não passa. Mas logo aparece o avô. Para acalentar? Que nada, chinelo na mão, aplica uma sova no coitado pela desobediência de ter ido ao mar mesmo com o alerta de vento e da presença da frota lilás. Detalhe: a avó, desavisada, havia autorizado o banho.

Só na tarde do segundo dia tomamos o rumo da esquerda, onde ficam as famosas piscinas naturais de Moreré.Só na tarde do segundo dia tomamos o rumo da esquerda, onde ficam as famosas piscinas naturais de Moreré.
No terceiro dia partimos num passeio para Cova da Onça, povoado secular da outra ponta da ilha e aí novamente a sedução dos meninos ajudou nas negociações. R$ 50 para cada casal de turistas. Com mais R$ 20, incluímos os nossos três passageiros extras e seguimos a bordo do Ilha de Moreré para nossa aventura de um dia. Inicialmente os meninos super animados na proa, com a cara nos respingos e o corpo pra cima e pra baixo no balanço do mar. O que aconteceu minutos depois você acompanha no próximo capítulo porque a fita em série que se preza tem que acabar no melhor pedaço.

Médico é 99% diagnóstico

10/02/2009

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Retomo o oitavo/nono dia,  ao acampamento esperado por André e detestado por Maria. Ao acordar de madrugada molhada pelo xixi habitual, a menina reclamou: “Eu quero voltar pra minha casa de verdade”.

Tudo havia sido planejado na véspera, Soraya escolheu a sombra de uma amendoeira a 2 metros da linha da maré alta. Acertamos a infra/refeição com dona Lourdes, a dona do restaurante mais famoso do pedaço, onde conhecemos moqueca de camarão com banana (R$ 25), com direito a cerveja,  refrigerante e sobremesa ao preço final (R$40) mais feliz e mais barato do que uma rodada de Mc pra nossa renca de cinco.

Este post foi pensado também como serviço, na base do quanto custa. Mas dinheiro é  a coisa mais relativa do mundo, mais do que fio de cabelo – pouco na cabeça e muito na sopa.

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Ou como disse o filósofo Zé Pretinho, 73 anos, o piloto desta canoa acima e abaixo, a Dama de Ouro, “quem tem, tem tudo. Quem não tem, tem nada”, na melhor definição que já ouvi sobre desigualdade.

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Luísa foi designada gestora financeira da viagem. Peguei o que restou (?) das economias dos últimos frilas do ano, avancei no limite do cheque e reuni R$ 2.000 para a empreitada. R$ 200 por dia seria uma fortuna para um mochileiro como eu. Mas para uma renca de cinco, Chorik sabe o que é isso, é preciso mesmo contratar gestora financeira. O dinheiro deve dar conta da gasolina, da passagem de barco, de trator, de barco de novo, da água, muita água mineral, do gasto eventual com farmácia, além das três refeições  e da dormida para cinco.

O treino de Luísa na função de gestora para a apresentação de fim de ano da escola foi útil, mas teve incentivo: Seriam 10 dias, R$ 200 para cada dia. O que a gente conseguisse economizar, seria aplicado em mais dias de  praia. Conseguimos viajar 15 dias.

Graças ao Chalé Sabiá, e à Luísa mão de vaca e seu  veto à moqueca de lagosta, já estávamos no oitavo dia de viagem com finanças dos cinco primeiros. E só precisamos almoçar “em casa” um único dia, quando o macarrão caiu muito bem. O problema de macarrão e cuscuz, quem é pobre sabe disso, é a repetição.

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Já craque na arte de andar na areia, transformei o fora da estrada 1.0 num conversível porta-malas  para os meninos e partimos em direção à Barra do Serinhaém, o mesmo rio da cachoeira Pancada Grande. Desta vez não teve atolamento (na ida) e paramos para curtir novamente o banco abandonado e o banco de areia da curva divisa entre mar e rio. Clique na imagem abaixo para ter um 360º do lugar.

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Serinhaém, pela dificuldade de acesso por terra, tem jeito de ilha, tem ainda alma de aldeia de pescadores presente no imaginário dos mochileiros das décadas de 70/80. Tem a alma que Morro de São Paulo, por exemplo, já perdeu há muito tempo. E tem praça com crianças, tem nativos disponíveis para longas conversas, e muitos, muitos pacientes de Dr. Bernardo.

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Uma delas é Lorena,  esta penúltima à direita na foto acima, feita por Luísa. Perdi o papel com o nome da mãe, parturiente de Bernardo. O mais interessante é que ele não fez o parto, mas  para a mãe é como se tivesse feito, porque acertou na lata. De plantão, fez o exame de toque e avisou: vai pra Ituberá porque o menino nasce em 3 horas. Providenciou um barco, seguiu viagem mas encontrou uma médica (suponho que destes recém-formados que buscam no interior apenas o dinheiro fácil do PSA PSF (correção feita Dr, convite declinado)– não agravando a todos) que mandou a moça de volta. Dito e feito, nas três horas previstas pelo Dr, o menino quase nasce na rua. Para ela, e para mim, médico é 99% diagnóstico. O resto é detalhe.

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Passamos então parte do dia de bobeira na praça, meninos enturmados e brincando a valer. A noite trouxe o por-do-sol  na porta da nossa barraca e se fosse eu poeta como Nilson faria também uns versos para o nascer do sol também.

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Deu tudo certo, barraca desarmada, novamente retorno na maré vazante, nova parada no banco de areia e novo… atolamento.

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Partimos então para Torrinhas, já na Ilha de Cairu, onde o  fora de estrada 1.0 venceu bem os seis quilômetros de buracos e ladeiras em estrada de terra no trecho final , e descansou no estacionamento a R$ 5.00 a diária. De Torrinhas seguimos para Boipeba num barquinho pô-pô-pô-pô e de lá num trator para Moreré, segunda etapa da viagem e próximo capítulo. No caminho pelo Rio do Inferno, avistamos  uma igreja verde, coisa que não existe no sertão, porque dona Ludu, avó de Soraya, quando queria duvidar do futuro matrimônio  de uma moçoila, dizia: ela vai casar sim, mas numa igreja verde.

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E no sétimo dia…

04/02/2009

Em vez de se quietar no paraíso, a descansar como em todos os outros dias, resolvemos ir em busca de mais aventura pela praia, a bordo de um fora da estrada 1.0. Se não fosse a mão de deus e o empurrão de homens de boa vontade, o transportador de renca azul teria o mesmo fim de um ônibus carregado de crente, tempos atrás. Andar na praia de carro é igual a comer caranguejo. A depender do jeito que você trafega nas fronteiras de risco, é uma delicia ou dá merda. Pausa para reflexão: por que crente gosta tanto de tragédia?

Não foi bem uma tragédia, porque entre mortos e não feridos, sobrou todo mundo, aleluia. Mas o ônibus, contam, antes de ser rebocado como ferro velho ficou uns dias na praia absolutamente triturado, sem um vidro nem um banco para contar a história, como a testemunhar a força das águas.

Carregado com mil dicas recolhidas no dia anterior, algumas tábuas para desatolar, e o pavor secreto dos irresponsáveis, o outrora censurador de quem anda de carro pela praia partiu em ritmo de aventura, inicialmente cauteloso, mas em seguida a 80, 100 por hora, nos trechos mais abertos e completamente desertos. Uma parada aqui para acompanhar uma puxada de rede, outra ali para curtir um banco de areia e tirar foto num banco solitário, a viagem de 20 km resultou deliciosa.

Acontece que eu sou baiano, acontece que a placa indicativa de fim de linha havia sido derrubada naquele dia pela maré. Passei direto pelo ponto de entrada, justamente depois da curva entre o mar aberto e a foz do rio, quando a proximidade da água, antes segura, agora é é zona de risco.

Seguindo a regra de toda fita em série que se preze, deixo a história aqui no melhor pedaço: Barra de Serinhaém, no oitavo dia, quando voltamos novamente, desta vez para acampar.

dsc042121Puxada de rede na estradadsc043911Na rede vêm também os pequenos, no meio do sargaço.dsc046682Arraia se afoga com ar. Deu vontade de virar vegetariano.dsc044912Se toda ocupação fosse assim. Na praia, só o banco.dsc044602Atrás das árvores deve estar a casa do dono do bancoplaca-na-praia1Causa…dsc04235Consequência…dsc04277O crédito destas duas últimas  divido com Maria Sampaio.dsc04276

Pra não dizer que só falei de flores

31/01/2009

Nós andamos iguaais,
nós andamos iguaaaais
prum lado, pro outro/pra frente, pra trás
nós andamos iguaais

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Luísa trouxe esta brincadeira, um caminhada coreográfica, desafio para todos pisarem no mesmo passo, pé direito à frente, prum lado, pro outro, pra frente novamente e pra trás, aprendida por ela no Acampamento Verde de anos passados.

Assim partimos para a praia no domingo, péssimos aprendizes, mas felizes tal qual família de propaganda de margarina.

Claro que o pau quebrou muitas vezes na viagem, mas as fotos até agora foram  feitas nas  muitas “horinhas de descuido” , como disse um dia seu Guimarães, bem lembrado por Bethânia. Ou naqueles momentos da “vida inteira num segundo”, como canta o bardo Odair José  na sua impagável A noite mais linda do mundo.

Interrompo aqui esta transmissão, como diria o ingresiástico Franciel, e paro de falar somente das flores. O assunto agora é lixo e a nossa capacidade de não enxergar o outro.

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Junto à praia estavam estacionados dois ônibus (vieram em excursão de Salvador, dos bairros de Lobato e Tancredo Neves), caminhões, camiontes e tantos outros transportes coletivos. A praia “virgem”  e deserta das fotos anteriores estava lotada no domingão.

Gentalha, gentalha, assim define os passageiros dos ônibus a dona de uma das 25 barracas que se espremem, umas coladas às outras, na faixa de praia liberada para o comércio.

Favela, diz o gerente de uma pousada próxima sobre as barracas.

Criminosos, diz o ambientalista sobre os donos de pousadas que teriam destruído o mangue e vegetação para ali colocar concreto.

No discurso de cada um deles, errado é sempre o outro. Ou seja, como diria dona Ludu, avó de Soraya, todo mundo é bom mas meu capote sumiu.

Meu amigo Josias, que muita coisa sabe há muito tempo, me falou um dia sobre uma palavrinha desconhecida, nem na moda ainda estava, a tal da alteridade. Entendi mais ou menos, mas ao juntar estas visões do outro recolhidas  beira a mar, chego à conclusão de que  tal plavrinha não passa de uma quimera da moda, irreal como a tal Liberté, Egalité, Fraternité –  merci bocu, merci bocu Não há de que (obrigado Madame K, por ter me trazido de volta Ednardo).

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A estrada chegou há 11 anos. No dia 28 de março de 1998 vi esta placa da foto acima novinha em folha. E fiquei espantado com uma estrada que rasgou o mangue, desviou rio em Jatimane e chegou até a areia da praia. Na época via carros trafegando pela praia e censurei. Iriam acabar com tudo.

A praia não acabou, mas também quase nada de bom foi feito. Parece que a interferência pública só foi a estrada mesmo. Ninguém organizou o baba, ninguém tomou conhecimento e o lixo da segunda-feira vira cartão de visita da praia.

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Depois de 11 anos, os únicos benefícios aparentes é o acesso à praia das pessoas de Ituberá, a ponta do dinheiro para o pessoal da região de uma rave chamada Universo Paralelo, que acontece há nove anos durante 10 dias depois do Natal. A praia, perto dali, é isolada por seguranças (fala-se em três mil) e uma multidão (fala-se em 13 mil, 3 mil estrangeiros) se diverte com pulseiras compradas a R$ 350,00, ao som de música eletrônica, ininterruptamente. É quando paraíso natural e paraísos artificiais se encontram, sem traumas.

dsc04507Bar da rave Universo Paralelo, único participante da festa encontrado

Há muito plástico nas areias das praias. Talvez daqui a alguns segundos geológicos (ou seja, milhões de anos) algum arqueólogo encontre por aqui imensos sambaquis de plásitco e batize nossa era de polimerozóica ou coisa parecida.

O lixo aparece em ondas, dizem que trazido pela corrente (sempre o outro), mas grande parte é produzida ali mesmo.

É ridiculo gente como eu. Recolhe o próprio lixo, fica em paz com a consciência,  mas se esquece que o almoço na barraca, os restos da pousada, enfim a economia do lugar gerada pela nossa presença produz e joga ali na praia mesmo sobras e embalagens.  Restos plásticos de festas, de passeios, de alegrias.

Mas vamos deixar de zanga. A era polimerozóica tem também seus momentos felizes, suas horinhas de descuido. Meus, seus, e de muita gente.

E o outrora censor viajou  também na areia, rumo a Barra de Serinhaém. Mas isto é assunto para o próximo capítulo.

Duas luas

27/01/2009

– Olha pai, tem duas luas. Uma lua assim , disse Maria, girando o dedinho indicador num duplo círculo para a direita. – E tem uma lua assim, repetiu o gesto. Desculpa aí a baba, mas tem definição mais lindinha para auréola lunar?

dsc04051-copia3Igreja do Jatimane

E a lua foi a nossa companheira de tarde/noite do dia seguinte, o quarto dia,  um sábado iniciado com um uma ida à feira de Ituberá para providenciar frutas, um bis na Cachoeira de Pancada Grande, quando o acaso nos levou a uma plantação de guaraná. Soraya apostava numa subida alternativa aos milhões de degraus para se chegar ao alto da cachoeira, porque ele vira um pessoal subindo, e eu teimava. Não havia.

dsc03932-copia3Fruto do guaraná

Pois havia. Mas antes de encontrar a tal subida, também feita a pé, pegamos uma direita errada e fomos parar numa plantação de guaraná. Os frutos pareciam olhos a nos espreitar. São impressionantes a cor e o formato. Deco lembrou então da história contada por Kátia Borges, no Crear, sobre uma lenda indígena. A semente original seria os olhos de um menino.

dsc040352Ponte da saici

Voltamos já noitinha, e lá estava ela novamente por trás da igreja do Jatimane, um vilarejo quilombola. Há dez anos, na abertura da estrada, o povo vivia da colheita da piaçava e da pesca. Tinha uma fita cassete gravada com a mais antiga moradora do lugar e dei de presente para Soraya, apaixonada por história oral. Ela promete encontrar a fita e me emprestar para eu ouvir novamente.

dsc04047-copia3Ponte da Saici, a leste, um pouquinho depois

Hoje o turismo já mudou o perfil do lugarejo, onde não há ainda pousada mas se vê várias placas para aluguel de casas. Quase ficamos hospedados no primeiro andar do restaurante de Jajá, onde, na beira do riacho, são  servidos peixe defumado e galinha da terra. Um dos ilustres fregueses é o Dr. Bernardo.
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Travessia

26/01/2009

Encontro a tarde em Salvador, trânsito calmo de domingo, encontro postes com reclames de Carnaval, encontro a casa vazia, cheia de contas debaixo da porta. Jet leg de férias traz os versos de Milton e Brandt, da casa que não é minha, do lugar que não é meu. Não achei a menor graça em voltar.

Esqueci o controle do portão da garagem e domingo não tem porteiro, esqueci o celular e não tenho nenhum número na cabeça, esqueci que havia desconectado o telefone e passo um tempão tentando resolver a não conexão da internet.

Queria ter me esquecido.

Mas a vida é bela e continua. A renca ficou mais uma semana em Iaçu e eu retomo à rotina sozinho com a minha bagunça.

Ficam aqui registradas três imagens do terceiro dia de viagem, dia inteiro de praia do Pratigi, do amanhecer com chuva ao anoitecer de véspera de lua cheia (as TRÊS duas últimas fotos foram feitas por Luísa).

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Azul e branco

23/01/2009

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Não comungo da concepção católica de Deus mas tenho uma grande simpatia por templos católicos. E os do Baixo Sul são especialmente bem localizados, na maioria das vezes no alto de colinas,  na maioria das vezes com grandes escadarias como este de Ituberá na foto acima. E também  na maioria das vezes  azul e branco como a maioria dos barcos que navegam por aqueles braços de mar e ilhas.

Porta da igreja matrizDetalhe da porta da igreja

Se eu fosse pintar um quadro do Baixo Sul eu também pintaria em azul e branco. Tudo ali é céu, mar e espuma . E ainda tem de quebra o verde da vegetação exuberante e variada. As matas invadem as cidades, os mangues invadem as águas.

Clique na imagem para ver e ouvir a cachoeira em movimentoClique na imagem para ouvir e ver a cachoeira em movimento.

Acordamos no segundo dia de viagem na intenção de Pancada Grande, a cachoeira. Estive também ali a trabalho há uma década e pra minha surpresa o entorno da cachoeira mudou para melhor. Na época só havia os escombros da casa de máquina da velha hidrelétrica e muito lixo deixado pelos visitantes.  Se não houvesse a intervenção que houve talvez estivesse coalhada de barzinhos , churrasqueiras e muito arrocha como a cachoeira dos Prazeres, no Rio Jequiriçá.

Mas a Michelin, aquela do boneco gorducho, e dona do pedaço, se penitenciou do fedorzão que joga nos ares da entrada de Ituberá com sua usina de borracha e criou uma pequena reserva no entorno da cachoeira. Os carros dos visitantes são barrados numa zona de contenção a cerca de quinhentos metros da queda d´água e os visitantes caminham por um corredor de mata. Perfeito.

No final da manhã chegaram mais alguns banhistas. São aqueles pontinhos sessenta metros abaixo.
Os pontinhos à esquerda são banhistas que chegram no final da manhã

Como chegamos cedo, num dia de semana, tivemos o privilégio de sermos os únicos banhistas naquele início de manhã. O tempo passou rápido e a gente teve que voltar às pressas para fechar a diária do hotel antes do meio dia e partir para Pratigi para arriscar camping, pousada ou o tal chalezinho sonhado por Soraya.

E não é que o tal chalezinho  rolou?  Quarto exclusivo para o casal, meninos amontoados em bicamas na sala, bar americano, geladeira grande, relógio, fogão, escorredor, suporte de  garrafão de água mineral,  kit cozinha, rede na varanda e chuveiro quente, quintal, lavanderia, chuveirão  e um mercadinho perto.  Tudo isso por R$ 50 o dia. Pra quem estava preparado para gastar quase isso num camping, o sentimento foi de ter encontrado um cinco estrelas.  Tudo isso acompanhado da simpatia de Dona Lenice e de sua irmã Emília. Telefones para reservas:   (73) 9988 1598/ (71) 3249 2839.

Chalé SabiáChalé Sabiá

Deu ainda tempo para  um mergulho. Voltamos já noite, curiosos com a sugestão de Dona Lenice de um passeio pela praia a Barra do Serinhaém. As duas últimas fotos foram feitas no dia seguinte, mas reproduzem bem os programas e a alegria deste segundo dia de viagem.

Maria no PratigiMaria no Pratigi

Valha-me meu Santo Antõnio da Anta Gorda

23/01/2009

Depois de chorar o Chorik que se mandou, apenas por uns tempos, espero, foi a vez de constatar o fim da Menina da Ilha.  Paulo Galo já havia parado e Maria Fabriani não posta desde o primeiro Advento do ano que passou.  Blog é um negócio cíclico, como época de gude e arraia e de tudo o mais nesta vida.

Mas ainda tenho gás e estou aqui me coçando para contar a tal viagem, nascida de uma entrevista com um médico de 85 anos. Na verdade a mãe de tudo é Soraya, que vinha  sugerindo há algum tempo uma viagem de férias, não seria  tão caro assim, poderíamos achar uns chalezinhos em conta para acomodar todo mundo. E achamos.

A última viagem da renca de férias, noves fora Natal e São João para Iaçu, Conquista e Minas, foi há seis anos para Igatu e Andaraí, quando Maria sequer existia. Teve o reveilon do ano retrasado, na Ilha, com  Marcinha, mas foi uma coisa rápida. Ano passado passei janeiro trabalhando.

A  tal entrevista foi decisiva. O sujeito já viajou o mundo, todos os destinos exóticos imagináveis  e na última pegou o transiberiano, se picou para a Mongólia. Acampou numa tenda mongol com direito a xixi ao relento do frio de rachar Gengis Khan.

Então pensei  cá com meus botões, dinheiro não tenho para ir tão longe mas tenho uma barraca e uma renca. Por que não?

Pensamos inicialmente em  Camamu e Barra Grande, mas optamos pelo Pratigi, onde estive há dez anos a trabalho, na inaguração da estrada. Mergulhei  naquele mar com roupa e tudo e prometi um dia voltar lá. Voltei.

Tenho algumas destas promessas ainda na cabeça.

Ia a trabalho, passava um, no máximo dois dias, e sonhava, e prometia voltar  com mais calma e com os meus. Nunca havia cumprido sequer uma destas promessas. A Cachoeira de Tremembé, também no Baixo Sul, Gentio do Ouro, próximo a Xique-Xique,  o Parque Estadual das Sete Passagens, em Miguel Calmon, Correntina, no Oeste, são alguns destes destinos sonhados.

Viajei com a Viagem do Elefante na cabeça, resultado da leitura de presentes de fim de ano. Uma amiga recomendou, com o devido esclarecimento de que era best seller mas era muito bom. Não tenho preconceito com best-sellers. Pra mim tem a vantagem adicional de poder ser lido até o final. Gosto de Saramago, do português de Portugal, que é a mesma coisa sem ser, como o ditado sobre o bom entendedor, para quem até meia palavra sobra.

Lá pelas tantas, ao explicar um deus indiano, ele se refere a um deles que não se preocupava em ter filhos, posto que era imortal. Ao ver Luluthica ansiosa para acordar de madrugada e ir ver o sol nascer, eu me senti meio que continuado nela.

A viagem me colocou mais perto deles e de Soraya. Nos colocou a todos um perto do outro. Demasiadamente perto muitas vezes. Era briga todo dia, mas era grude também.

Já falei sobre o primeiro dia, no post do dia 07, quando saímos às 8h30 da manhã de Iaçu para Ituberá , do licuri em direção ao dendê, com o Vale do Jequiriçá no caminho. Acrescentei no post antigo duas fotos que não entraram naquele dia por dificuldades na lan house.

A Cachoeira dos prazeres, no Rio Jequiriçá, foi ocupada bem ao modo  de quase tudo neste país.  De um lado invadiram os pobres, com seus quiosques movidos a churrasco e arrocha. Na outra margem,  o melhor hotel da região também não se acanha de quase cair dentro d´água para dar conforto e proximidade aos seus clientes. Mas eu não vim aqui para me queixar. A água estava boa e limpa, e ter uma cachoeira no juízo, despencando na cabeça, de fato  é um dos prazeres desta vida.

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Água

07/01/2009

Cá estamos a renca em Ituberá (Bernardo, cadê você, viemos aqui só pra te ver) depois de um dia inteiro de viagem desde Iaçu para percorrer 287,4 km de  lajedos,  morros, vales cachoeiras, rios, brigas de meninos no carro, gritos, choros, alegria de viajar e muita, muita água,. Porque baixo-sul da Bahia significa água. A lan house vai fechar e eu aqui só tenho tempo de fazer este relato fotográfico bem viagem família. Fica o registro e o custo de ter perdido A Favorita, só para nãodeixar de postar. Ontem teve uma cena antológica de Líliam Cabral a relatar apavorada a perspectiva de sexo com o novo namorado depois de anos e anos de donzelice monogâmica.  Amanhã o programa é mais água: cachoeira de Pancada Grande pela manhã  e a tarde rumamos para Pratigi para nosso acampamento meso-selvagem. Será que lá dá pra assistir A Favorita? E Maysa?

Rumo a Lajedo Alto

Rumo a Lajedo Alto

Cerca viva da fazenda Santo Antônio da Anta Gorda

Cerca viva da fazenda Santo Antônio da Anta Gorda

Vale do Jequiriçá

Vale do Jiquiriçá

Deco

Cachoeira dos Prazeres, Rio Jiquiriçá.

Cachoeira dos Prazeres, Rio Jequiriçá.

 

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Rio Graciosa

Rio Graciosa

Taperoá

Taperoá

João Amaro

01/01/2009

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Estive hoje em João Amaro e visitei novamente a estação abandonada. As fotos são de hoje, mas o texto abaixo, do Licuri no Uol, é de Janeiro de 2007.

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João Amaro –  hoje distrito de Iaçu – foi o núcleo de povoação inicial  e lá está parte da ancestralidade da minha renca. No cemitério da cidade, ao lado de uma igreja construída pelos jesuítas, estão os quatro avós e tios de Rubem Reis e tetravós das crianças.

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Como seu Rubem está nos seus vigorosos 86 anos, estamos falando de gente que viveu ali pelo século XVIII. Em João Amaro está também dona Ludu, mulher de seu Rubem, a avó de Soraya. Chamava Luísa de Garrinchinha e André de Muquequinha. Pena que Maria não chegou a tempo de ganhar também seu apelido. Em João Amaro seu Rubem viveu a infância. E gosta de voltar ao seu lugar e de recordar histórias. Histórias que Soraya sonha ainda em resgatar mais a fundo.

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Histórias registradas na Folha da Manhã, de 25 de janeiro de 1940: “E, por onde passam as legiões bandeirantes, surgem povoados, levantam-se arraiaes. Em Matto Grosso, Paschoal Moreira funda Cuyabá… Na Bahia, João Amaro Maciel Parente funda a villa de João Amaro… Investem para o Sul, até o rio da Prata, avançam para Oeste, até os contra-fortes dos Andes…

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…percorrem o Norte, povoam o Nordeste… Legiões de bandeirantes entram em Goyaz, surgem no Pará. Outros vão dar na bacia amazônica. Moraes Navarro e Mathias Cardoso, salvam o Nordeste derrotando os barbaros no Maranhão, Piauhy, Ceará e Rio Grande do Norte, João Amaro arraza os indios revoltados da Bahia. Domingos Jorge Velho estirpa o kisto negro dos Palmares. Ha bandeiras anonymas no Amazonas, no Perú, por todo o immenso territorio sul-americano, em lutas com indios e castelhanos. Legiões paulistas concorrem para a “restauração de Pernambuco” em poder dos hollandezes. Os paulistas – na phrase de Euclydes da Cunha – desarranjavam toda a geographia sul-americana”.

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E no site Estações Ferroviárias: “A ESTAÇÃO de João Amaro foi aberta pela E. F. Central da Bahia como estação terminal no prolongamento de sua linha principal, em 1885. Em 1888 a linha foi prolongada até Bandeira de Mello.
As fontes de datas são conflitantes nas diversas literaturas. Segundo Cesar Lima, a estação “ainda existe e está inteirinha“, em 06/2005. “

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Que bom se ela de fato estivesse ainda inteirinha…

As Três Marias

31/12/2008

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Dizem que não se deve voltar aos lugares das lembranças. Com razão, porque a gente nunca volta ao mesmo lugar. Imagens, sons, cheiros, cores, atmosfera, normalmente decepcionam na proporção direta das expectativas. Mesmo assim gosto de voltar aos lugares e às pessoas. Nesta viagem de Natal, o roteiro  Iaçu-Conquista-Iaçu me levou a lembranças da infância: às roças dos tios, na estrada Conquista-Anagé, e à cidade de Tanhaçu, para a casa de Tia Lurdes.

A casa e o terreiro acima, em foto desta semana, me trazem as férias da infância, quando brincava com os primos, próximos a este pé de eucalipto, onde recolhíamos os pequenos peões/sementes.  Era acolhido pela madrinha, tia Alzira, e nas madrugadas acordava nesta casa, debaixo dos cobertores, com a propaganda dos cobertores das casas Pernambucanas, num diálogo musical entre uma dona de casa e o frio:  – Quem bate? – É o frio!  – Não adianta você bater, que eu não deixo você entrar… Ali perto, na roça de tio de Assis vi pela primeira vez a Via Láctea nas noites sem luar do sertão.

Ao passar por Tanhaçu, veio na memória uma viagem de trem, desde Castro Alves. Minha primeira aventura, primeira vez que viajei sozinho, com 12 ou 13 anos, pendurado na escada do último vagão e intrigado com a perseguição das Três Marias, que me seguiam. E chegaram comigo. Lembro que em Tanhaçu acordei certa vez de madrugada para tentar ver a tal Estrela Dalva e vi. Ou acreditei ter visto.

Anos depois aprendi a ver no céu os planetas a algumas constelações. Gosto muito de planetários mas na nossa triste Bahia só existe um, em Feira de Santana.

Anteontem coloquei as crianças menores no carro e segui para fora da cidade, o suficiente apenas para chegar a um ponto escuro e apagar os faróis para que eles vissem o céu e as estrelas.  E lá estavam novamente as Três Marias.

Elas me seguem até hoje.

Um 2009 de céus estrelados para todos nós!

Flores de Verão

30/12/2008

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Fefé jaz próximo às roseiras da vó Conceição. Pressentia que aquilo não ia dar certo, embora a torcida aqui neste coco pequeno tenha sido forte, sincera e qualificada. Mas o transporte do moribundo foi mais um gesto motivado pela culpa de ter relaxado na manutenção do aquário nos últimos tempos. 
Consegui uma casa para a viúva, que ficou em Iaçu esquecida num canto, em companhia de dois peixes de vidro, pendurados por fios de nylon, num velho aquário ressuscitado da poeira do quartinho dos fundos.
Desde a estrada André já havia começado a cantilena. Queria um pinto. Tanto encheu o saco que mal chegamos estávamos a escolher as próximas vítimas na Casa do Criador. Escolhas feitas, dois pintinhos amarelinhos, Maria com o saquinho de ração de crescimento e André com a caixa voltaram em desfile solene. O séquito chamava a atenção da multidão que se aglomerava na fila da bolsa-família de véspera de Natal e tomava o passeio por uns 50 metros entre a porta da lotérica e porta de vovô Rubem.aaad-licuri

Bichos acomodados entre o forno de biscoito, o chuveirão e o tanque, os meninos ficaram por ali encantados e a gente foi cuidar da vida, do nada fazer de férias. Daí a pouco o alarme: cadê André e Maria? Buscas no quintal, nos quartos, e nada. Vovó Mônica já saía desbandeirada. Chegam então os dois, André novamente com uma caixa de papelão na mão, seguido pela cúmplice Maria. O menino resolveu investir as próprias economias em mais um pinto e foi com a irmã às compras.

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Mas os três bípedes não voltarão conosco. O destino deles já está selado. Se sobreviverem à primeira infância, cairão na panela da casa de tio Mô,  para onde irão depois das férias das crianças, fazer companhia aos parentes criados no quintal como fonte de proteína.

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Primavera?
Bem que a indústria da moda, das vitrines e até Roberto Carlos com seu estranho flamboyant que floresce na primavera, tão bonito que ele era, tentam nos convencer do contrário. Mas a realidade das estradas comprova, basta prestar um pouco de atenção, que a verdadeira estação das flores por aqui é o Verão.

6Tenho boas lembranças dos muitos, muitos livros que já quase li. As primeiras páginas de Zen e a Arte de Manutenção de Motocicletas, por exemplo, traz uma dica preciosa: as melhores estradas são as vicinais. Elas, com suas muitas flores cruzaram nosso caminho numa decisão de última hora.

3

Dormi do dia 22 para o 23 com quatro preocupações antes de seguir de Iaçu para Conquista, pela BR 316. Os assaltos no trecho de 50 km de Iaçu a Milagres, blitze no meu IPVA 2004, pane no motor 99/2000 e acidentes, prato cheios dos telejornais de fim de ano. Enquanto enumerava estas preocupações para Soraya, na cama, ouço uma voz do outro quarto, a voz da tia Réia dos meninos, oferecendo um  carro praticamente zero bala para  a travessia (tem coisa melhor do que chuva no telhado e as conversas compartilhadas das meias paredes do inteirior?)
eeeeeee

Contas feitas, o estirão até Conquista ida e volta consumiria cerca de 660 km, a conta certa para ultrapassar os 10 mil da primeira revisão do carro de Réia. Não daria. O jeito foi confiar na revisão de Jaldeck, o melhor mecânico de Iaçu, que recomendou apenas checar diariamente o óleo, já que não houve tempo de trocar aquela junta lá detrás do motor que provoca uma pequena incontinência óleo/urinária no velhote.
Manhã da partida, eis que chega vó Conceição com o pão quentinho e uma sugestão ouvida enquanto esperava a padaria abrir e abria para a fila de espera do pão nosso destino e planos de viagem, como uma espécie de blog oral.
Alguém então sugeriu: por que não ir por dentro, por uma estrada de chão que sai em Planaltino, depois mais um pulo até Maracás, Contendas do Sincorá, Sussuarana, Anagé e Conquista e ainda de quebra economizar 50 Km?
Fui checar então o roteiro alternativo com o autor da idéia e voltei ainda entusiasmado com a informação que o roteiro nos levaria ao  entroncamento de Tanhaçu, a nove quilômetros de minhas melhores lembranças de infância.

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Fomos então na direção da estrada de João Amaro, depois de mais uns quatro quilômetros perdidos para frente e para trás até encontrar a tal estradinha vicinal da vicinal. Em minutos estávamos já comemorando o novo roteiro. Estrada de chão bem melhor do do que a buraqueira até Milagres. Casas, cachorros, bicicletas, árvores floridas. E o sentimento de segurança absurdo. Carro só passava por nós de vez em quando, mas com direito a aceno.

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Menos de 20 KM de viagem, primeira parada na casa de seu José. Convite para entrar. Pés de umbu-cajá floridos e umbus carregados, licuri, siriguela e outras frutas circundavam a casa que tinha no quintal uma vistosa parabólica, item praticamente obrigatório hoje nas moradias do sertão. Maria se encantou com as galinhas chocando no cesto.
Daí em diante foi um pára-pára que transformou os estimados 300 e poucos Km em mais de 400… E mais 400 e tantos de volta…
 

 

Sete viajantes

20/12/2008

 

Lembra de Fefé? O sétimo morador? Tudo começou assim:

…Fefé, o guerreiro. Assim foi batizado por André o sétimo habitante da casa, este sujeito aí da foto. Fefé é um daqueles seres que desembarcam na nossa vida de forma compulsória, não desejada, sacana até (tem presente mais grego do que um peixe num saco plástico?), mas acabam conquistando o seu lugar. Fefé, o guerreiro prateado, chegou nesta sexta a bordo da alegria inocente e contagiante de André.

Vai morrer amanhã. Pensei cá com meus botões. Luísa arranjou uma vasilha plástica de sorvete, primeiro upgrade na morada do condenado. Eliene teve que resistir bravamente aos pedidos de Maria por pão, já que a menina aprendeu que peixe come pão, pelo menos os da lagoa de Pituaçu. Soraya, já empenhada na sobrevida do sem teto, deu a idéia de irmos todos ali no shopping comprar um aquariozinho, dos pequenininhos. Comecei a capitular.

O sem-chances acabou ganhando… (veja o resto aqui)

Fefé se deu bem. Ganhou uma parceira, mas se revelou um grande FDP…(veja por que aqui )

A paz conjugal do aquário finalmente foi selada, não sei se pela descoberta de afinidades ou falta de opção mesmo. Eu até tinha filmado os dois nadando tranqüilos, um do lado do outro. Cheguei a ter a impressão de que às vezes iam  juntos pro mesmo lugar do aquário, como se estivessem de barbatanas dadas.

Um ano e quase três meses se passaram e eu tinha até um post pronto na cabeça sobre o dia em que Maria chegou na sala pela manhã e gritou pra mãe: – Quem pescou este peixe?

Era Fafá, que jazia estatelada no piso da sala. Soraya pegou um papel para recolher o cadáver e eis que ele deu um pinote. Continua feliz e serelepe até hoje. A pobre da Maria, suspeita número um de ter aberto o aqário, nega de pé junto que não mexeu em nada. Até hoje a gente não sabe o que aconteceu. Passamos a acreditar na inocência da menina quando Luís, nosso sobrinho de coração,  contou que já aconteceu fato semelhante com um colisa na casa dele.

Mas como eu ia dizendo, estávamos na semana de corre-corre pré-viagem e um dia de repente Fefé foi pro canto do aquário e ficou de lado quieto. Não come e só se mexe de vez em quando já faz uns quatro dias. Resolvemos então ir em busca de ajuda na loja de peixes e voltamos de lá com um aquário portátil e antibiótico. Vamos transportar o morimbundo e sua parceira juntos pra tratamento em Iaçu. André reagiu bem  à possível perda do bicho. De todos os prisioneiros em sacos pláticos presentados naquele aniversário de um ano e três meses atrás, Fefé é o último sobreveivente. Mas um colisa, informou o vendedor/veterinário/orientador  da loja, vive até seis anos. Vamos tentar.

Daqui a pouco segue portanto nossa  camicleta azul 1999-2000, IPVA 2004, com os cinco moradores bípedes mais o casal de nadadeiras,  três bicicletas penduradas no fundo cobrindo a placa. Destino Feira de Santana hoje e amanhã Iaçu. Até lá.

 

 

 

 

 

 

Let’s travel

20/12/2008

Nunca consegui aprender inglês. Tinha 17 anos, o sonho era cair na estrada, pegar o Trem da Morte, ir a Cochabamba, depois Machu Picchu. Como era menor, segurei minha onda e resolvi ir à Minas antiga. Passei por Cordisburgo e Itabira, Ouro Preto, Congonhas. Subi pela Belém-Brasília, desci costeando o Nordeste até Conquista novamente. Numas dessas quebradas, encontrei um casal europeu perdido num entroncamento.Abri um sorriso e perguntei:

– Do you speak english?
– Yeh, Yeh responderam em coro e alegres também! Finalmente uma conversa.
– I don’t, disse eu, já meio sem graça.
Silêncio. Que situação. Este sou eu desde os 17.

Mas então vamos falar deta outra viagem solitária, em janeiro de 2007. Nuns diazinhos de folga, fui a Xerém, digo Macondo, digo Iaçu, para encontrar a minha renca e mais ou menos assim contei a viagem no Licuri no uol:

Saí de casa ainda escuro. Meia hora depois, Parei para fazer a foto.

 A gente vai ficando velho e a infância vai retornando, se aproximando. E uma das melhores lembranças é a barra do dia aparecendo na estrada Anagé – Conquista. Eu na boléia do caminhão de tio De Assis, espantado com o vermelho que ia tomando o céu num crescendo até aparecer o disco no horizonte limpo do céu sem nuvens do sertão.

 

Resolvo então perseguir minhas lembranças e sigo pela  BR116 em direção a Milagres em vez de pegar o caminho mais calmo via Ipirá. Passa Santo Estevão e então de repente se descortina lá embaixo o vale do Paraguaçu. É uma
imagem fantástica. São formações que parecem  ilhas de pedras, que os geológos chamam de inselbergs, quando numa quase planície de repente desponta uma grande rocha aqui, outra ali.  Ali perto está Castro Alves, onde vivi dos 9 aos 13 anos.

 
Um dia  íamos com minha mãe para Conquista e o ônibus quebrou exatamente neste local. Fiquei impressionado com a pedra e com a palavra Tyresoles.  Ela deve pertencer também ao imaginário de milhões de sertanejos. Neste ponto eles já viajaram mais de 1.200 km desde São Paulo, já entraram na Bahia há umas seis horas ou 400 km. Só aqui finalmente recebem as boas vindas de verdade, na placa, no clima, na vegetação. Enfim, eis o sertão. 

Surge então Milagres  das pedras. Glauber era fixado neste cenário. Aqui ele recriou o clima de
western de O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro .
A cidade também foi cenário de Os Fuzis, de Ruy Guerra, e mais recentemente, voltou para as telas em uma das cenas de Central do Brasil. Este lugar bate na alma dos sertanejos. É um dos destinos de romarias mas fortes do sertão.


E eis que surge Macondo, à 10h30. A outra entrada, via Itaberaba, é mais bonita porque você encontra logo o rio e as pontes. Nesta aqui o primeiro  impacto são as chaminés da cerâmica, que geram polêmica na cidade:
quem  está no poder diz que gera emprego. Quem esta na oposição diz que é fonte  de destruição do rio e de poluição. Todos têm razão e ninguém faz nada.
Lá no alto esquerdo da foto você vê uma pedra de onde se tem das melhores vistas da cidade com o rio e seus meandros e a vastidão do vale.
E então, tchibummm no Paraguaçu, com renca e tudountitled3

Estrada

16/12/2008

A imagem acima, que ilustra a partir de hoje este Licuri,  é do trecho  Feira-Milagres, na 316.  Logo depois de Santo Estevão, o Vale do Paraguaçu se descortina para estas formações que os geólogos chamam de inselbergs ou ilhas de pedras.