Arquivo da categoria: violência

Tempo de listas

10 tarefas possíveis e impossíveis para janeiro de 2017
(aceito dicas e ajuda para tornar todas possíveis)
Tomar banho de mar 7 dias seguidos.

Entender Alepo.
Trabalhar na horta do condomínio.
Saber mais sobre ação das facções que controlam bairros de Salvador.
Brincar com os filhos.
Fazer um caderno.
Dançar com Soraya.
Dar um caderno feito por mim de presente.
Chegar ao fim do mês com saldo negativo de peso.
Terminar de ler O Idiota, de Dostoiévski.
Chegar ao fim do mês com saldo positivo no banco.

pratigi
Praia do Pratigi, janeiro de 2012.

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Dia de Josef K.

vara

Tudo começou mal por causa da diferença de expectativas. Eu me sentia a vítima – fui furtado e levado debaixo de vara, ou conduzido coercitivamente, porque confundi a data da primeira audiência – confundir datas é uma das minhas especialidades. E o juiz estava só aguardando a hora de passar um sabão no fugitivo da justiça: “Tive que botar a polícia atrás do senhor”
 
Colocado diante do sujeito do outro lado do vidro, via nele traços parecidos com aquele que pedia piedade sob o pé de um cara com uma pistola apontada para a sua cabeça, depois de ter roubado o celular na mão de Maria na Piedade, saído em disparada, mas capturado graças ao meus gritos de pega, pega em carreira atrás dele.
 
Mas eu não tinha a menor condição de dizer se aquele ali era o mesmo daquele dia. Tenho uma dificuldade absurda de reconhecer faces, vivo a dar fora nessa vida, por muitas vezes sustento sorriso amarelo e conversa incompleta até descobrir, ou não, quem é aquela pessoa com quem já tive contato mas não faço a mínima ideia de quem se trata.
 
Caí na besteira, por sugestão do policial designado para me conduzir, de enviar mensagem ao doutor juiz por um dos auxiliares, pedindo antecipação do depoimento para não perder um exame marcado do outro lado da cidade, já que eu havia sido comunicado da audiência na noite anterior. “Se tivesse vindo na primeira, até poderia ser”. Este recado deveria ter sido captado como um sinal.
 
Mal comecei a falar, fui interrompido pelo menos duas vezes com a advertência de me me limitar a responder o que ele perguntava, sim ou não. Contive minha habitual verborragia. Não adiantou. Como eu não podia garantir 100% se tratar da mesma pessoa, o juiz perguntou se eu o havia reconhecido no dia da prisão.
 
Na delegacia não houve um reconhecimento formal, expliquei, como havia acontecido há pouco. Havia sido levado na mesma viatura mas ao chegar, ele foi para um lado e eu para o outro.
 
Como se não tivesse ouvido, fez novamente a pergunta, duas, três vezes e eu mantive a resposta duas e três vezes. Aí ele encrespou, passou o sabão dele, citou minha profissão, onde eu trabalhava, e em seguida reafirmou que eu tinha que falar a verdade. Falei novamente.
Ele levantou e saiu da sala irritado. Busquei apoio nos demais ao me queixar da tratamento mas recebi de volta o silêncio do defensor, do escrivão, de uma auxiliar e de um sujeito sentado à frente, numa poltrona, não sei por que estava ali.
 
Senti que se eu tivesse dito uma palavrinha fora do tom, seríamos dois a voltar para a casa de detenção.

 

 

Imagem daqui.

 

 

 

Condução coercitiva pra chamar de minha

hypocritesk

Nunca vá ao encalço de um ladrão de celular, especialmente se você tem mais de 55 anos  e IMC acima de 32. Ele pode se voltar e lhe quebrar na porrada, pode haver um cúmplice por perto e  lhe quebrar na porrada e ainda pode acontecer o pior de tudo: o ladrão ser preso.

Aí lenhou total. Pra ele e pra você.
Foi o que aconteceu comigo, contei o começo de tudo aqui.

Já havia esquecido da história e recebo em casa a simpática visita de uma oficial de justiça com a intimação para eu ir ao tribunal,  prestar novo longo depoimento, agora perante o doutor  juiz.  A tarde perdida  na delegacia naquele domingo valeu nada.

O problema é que só lembrei da tal audiência no dia seguinte à data marcada. .

Comentei com minha advogada, minha porque senta ao meu lado no trabalho, e ela me aconselhou a  ir até lá e dar satisfação ao doutor juiz, logo. Como ela sabia o que estava falando, coloquei a ida como prioridade, faz uns bons dias. Mas lista de prioridades de procrastinador vive eternamente em idade de crescimento.

E eis que meu hipocampo comprometido pelo DDA  tomou novamente a dianteira e, de posse da informação de que a justiça baiana é a mais lerda do país, calculou que eu só seria convidado a depor novamente lá por 2056, tempo  mais que suficiente para um zignal eterno.

O problema é que nossa  justiça falha mas de vez em quando e logo comigo não tarda.  Fui avisado hoje no começo da noite por um  simpático policial, que amanhã irei  testemunhar na marra neste importante processo de furto de um celular na Praça da Piedade.

De vítima passei a testemunha. E  agora a  réu, quase um Josef K. a ser conduzido coercitivamente amanhã até o senhor juiz.

Logo amanhã de manhã, quando duas tarefas atrasadas e dois procedimentos médicos sairiam finalmente da lista de prioridades…

 

Imagem daqui.