Archive for the 'violência' Category

Tempo de listas

22/12/2016
10 tarefas possíveis e impossíveis para janeiro de 2017
(aceito dicas e ajuda para tornar todas possíveis)
Tomar banho de mar 7 dias seguidos.

Entender Alepo.
Trabalhar na horta do condomínio.
Saber mais sobre ação das facções que controlam bairros de Salvador.
Brincar com os filhos.
Fazer um caderno.
Dançar com Soraya.
Dar um caderno feito por mim de presente.
Chegar ao fim do mês com saldo negativo de peso.
Terminar de ler O Idiota, de Dostoiévski.
Chegar ao fim do mês com saldo positivo no banco.

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Praia do Pratigi, janeiro de 2012.

Dia de Josef K.

27/11/2016

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Tudo começou mal por causa da diferença de expectativas. Eu me sentia a vítima – fui furtado e levado debaixo de vara, ou conduzido coercitivamente, porque confundi a data da primeira audiência – confundir datas é uma das minhas especialidades. E o juiz estava só aguardando a hora de passar um sabão no fugitivo da justiça: “Tive que botar a polícia atrás do senhor”
 
Colocado diante do sujeito do outro lado do vidro, via nele traços parecidos com aquele que pedia piedade sob o pé de um cara com uma pistola apontada para a sua cabeça, depois de ter roubado o celular na mão de Maria na Piedade, saído em disparada, mas capturado graças ao meus gritos de pega, pega em carreira atrás dele.
 
Mas eu não tinha a menor condição de dizer se aquele ali era o mesmo daquele dia. Tenho uma dificuldade absurda de reconhecer faces, vivo a dar fora nessa vida, por muitas vezes sustento sorriso amarelo e conversa incompleta até descobrir, ou não, quem é aquela pessoa com quem já tive contato mas não faço a mínima ideia de quem se trata.
 
Caí na besteira, por sugestão do policial designado para me conduzir, de enviar mensagem ao doutor juiz por um dos auxiliares, pedindo antecipação do depoimento para não perder um exame marcado do outro lado da cidade, já que eu havia sido comunicado da audiência na noite anterior. “Se tivesse vindo na primeira, até poderia ser”. Este recado deveria ter sido captado como um sinal.
 
Mal comecei a falar, fui interrompido pelo menos duas vezes com a advertência de me me limitar a responder o que ele perguntava, sim ou não. Contive minha habitual verborragia. Não adiantou. Como eu não podia garantir 100% se tratar da mesma pessoa, o juiz perguntou se eu o havia reconhecido no dia da prisão.
 
Na delegacia não houve um reconhecimento formal, expliquei, como havia acontecido há pouco. Havia sido levado na mesma viatura mas ao chegar, ele foi para um lado e eu para o outro.
 
Como se não tivesse ouvido, fez novamente a pergunta, duas, três vezes e eu mantive a resposta duas e três vezes. Aí ele encrespou, passou o sabão dele, citou minha profissão, onde eu trabalhava, e em seguida reafirmou que eu tinha que falar a verdade. Falei novamente.
Ele levantou e saiu da sala irritado. Busquei apoio nos demais ao me queixar da tratamento mas recebi de volta o silêncio do defensor, do escrivão, de uma auxiliar e de um sujeito sentado à frente, numa poltrona, não sei por que estava ali.
 
Senti que se eu tivesse dito uma palavrinha fora do tom, seríamos dois a voltar para a casa de detenção.

 

 

Imagem daqui.

 

 

 

Condução coercitiva pra chamar de minha

23/11/2016

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Nunca vá ao encalço de um ladrão de celular, especialmente se você tem mais de 55 anos  e IMC acima de 32. Ele pode se voltar e lhe quebrar na porrada, pode haver um cúmplice por perto e  lhe quebrar na porrada e ainda pode acontecer o pior de tudo: o ladrão ser preso.

Aí lenhou total. Pra ele e pra você.
Foi o que aconteceu comigo, contei o começo de tudo aqui.

Já havia esquecido da história e recebo em casa a simpática visita de uma oficial de justiça com a intimação para eu ir ao tribunal,  prestar novo longo depoimento, agora perante o doutor  juiz.  A tarde perdida  na delegacia naquele domingo valeu nada.

O problema é que só lembrei da tal audiência no dia seguinte à data marcada. .

Comentei com minha advogada, minha porque senta ao meu lado no trabalho, e ela me aconselhou a  ir até lá e dar satisfação ao doutor juiz, logo. Como ela sabia o que estava falando, coloquei a ida como prioridade, faz uns bons dias. Mas lista de prioridades de procrastinador vive eternamente em idade de crescimento.

E eis que meu hipocampo comprometido pelo DDA  tomou novamente a dianteira e, de posse da informação de que a justiça baiana é a mais lerda do país, calculou que eu só seria convidado a depor novamente lá por 2056, tempo  mais que suficiente para um zignal eterno.

O problema é que nossa  justiça falha mas de vez em quando e logo comigo não tarda.  Fui avisado hoje no começo da noite por um  simpático policial, que amanhã irei  testemunhar na marra neste importante processo de furto de um celular na Praça da Piedade.

De vítima passei a testemunha. E  agora a  réu, quase um Josef K. a ser conduzido coercitivamente amanhã até o senhor juiz.

Logo amanhã de manhã, quando duas tarefas atrasadas e dois procedimentos médicos sairiam finalmente da lista de prioridades…

 

Imagem daqui.

Crianças presidiárias

03/08/2016

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Nem sei se neste aglomerado, ao lado da Empresa Gráfica da Bahia, no Retiro, existem facções. O que chama a atenção na imagem é a ausência de áreas de convivência, em ruas praticamente porta com porta. Coloque então conflitos armados aí dentro, realidade de muitos locais semelhantes nesta cidade, e você terá uma vaga noção de como anda o cotidiano de milhares de famílias em Salvador.

Ontem foi a vez de Franklin Silva Santos, de 17 anos, mais uma baixa “civil” desta guerra. Morreu porque vivia em território inimigo. Morreu para que outro que também morreu sem saber o motivo, no domingo, fosse vingado.

Talvez você seja capaz de discorrer longamente sobre o Estado Islâmico, sobre o conflito na Síria. Mas seguramente, como eu, saiba muito pouco sobre Bonde do Maluco, Katiara, Caveira, Comando da Paz.

Provavelmente, assim como eu, saiba ainda menos sobre o medo de crianças e adolescentes que vivem como presidiários em suas casas, por conta do toque de recolher, realidade cotidiana destes lugares.

Reduzir todos estes exércitos à denominação simplista de “traficantes” talvez resolva apenas nossa dificuldade de entendimento desta realidade.

Mas o buraco, seguramente, é mais embaixo. E sangra todo dia.

 

Notícias de Salvador, notícias do front

03/08/2016

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Começo o dia de trabalho numa geral pelas notícias de Salvador, via google. E dou de cara com essa, de ontem. E marejo. Já havia visto ontem o filme da chegada da motocicleta, da saída da motocicleta. No intervalo, os tiros. Mas o olhar do garoto hoje me pega. Tem um quê do olhar do meu filho. Leio o lamento dos pais. O que ainda cabe na definição tragédia hoje? E fico aqui, marejado e impotente. Reclamar de quem? Reclamar de quê?

O medo é uma merda

03/07/2016

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Hoje senti medo da minha Piedade, da minha Carlos Gomes, da minha Castro Alves. Nunca, em décadas, havia sentido o que senti hoje. Temo muitas coisas, temo o futuro, temo as contas no fim do mês, temo a pressão alta, temo a balança, o ódio político, a ignorância, temo brochar, a falta de assunto no elevador, mas as ruas desta minha cidade inaugurei temer somente hoje.

Era um medo acumulado, já instalado e não notado. O gatilho havia sido disparado há mais ou menos um mês. A praça da Piedade tomada de moradores de rua, dois deles brigando, e eu indiferente, orientava Maria como fotografar melhor a fonte luminosa, os heróis da Conjuração Baiana, no cumprimento de uma tarefa escolar.

O celular foi arrancado da mão da menina num  bote rápido e certeiro. Sem pestanejar – pra que diabos fiz isso até agora não sei – parti no encalço do sujeito aos berros de pega, pega. Já voltava ofegante, humilhado e puto como a gente se sente nestas horas, quando alguém gritou: pegaram. O cara acabou no chão, com uma pistola apontada para a cabeça e o pé de um policial à paisana sobre as costas.

Fui  obrigado a seguir para a delegacia para cumprir o ritual do flagrante. No ponto em que as coisas chegaram, não havia mais como negociar a devolução do aparelho e liberar o sujeito. Segui com três policiais e o cara choramingando, pedindo clemência na mala da viatura, enquanto no rádio começava Vitória e Atlético MG.
– Fique quieto rapaz, se o Vitória tomar um gol aqui você vai ver o que é bom.
Passei a torcer pelo Vitória, pelo menos até a chegada à delegacia.

O gordo valentão que partiu pra cima de um miserável que arrisca ter que matar, ferir, apanhar, ou morrer por causa de uma porcaria de celular hoje percorreu as ruas do centro acuado. Não teve coragem de  caminhar  e fazer fotos como sempre. Descer do carro para ir ao Centro Cultural da Caixa com Soraya e Maria foi uma operação calculada, precedida de checagem de quem vinha, de quem ia. Ir depois ao Cine Glauber Rocha tomar um café, outra operação cercada de atenção.

Apesar da realidade gritar o contrário, nunca senti medo nas ruas. Sempre me achei parte da cidade.Morei na Senador Costa Pinto, no Largo 2 de Julho, me sentia imune, um sujeito da área. Achava estranho o texto de um amigo que certa vez me disse que seu grande prazer de ir à Europa não era visitar museus, catedrais, concertos. Era simplesmente andar tranquilo pela rua, sem medo de ser assaltado.

É uma pena ter que me render à realidade,  algum temor  é até útil como prevenção.

Mas talvez o medo seja pior que a violência consumada, porque é uma violência latente, permanente, corrosiva. O medo é uma merda. 

 

 

 

 

 

A maldição da coruja

24/04/2014

Sou agnóstico mas busco Deus em tanta bala, tanta morte matada, mais de cem neste abril. Escuto pipocos, mais de cem. Conto as mães, mais de cem. Mais de cem é a  metade de mortes da boate incendiada no Rio Grande do Sul. E menos de um milésimo da atenção minha, sua, de todo o mundo.

Afora aqui e ali, os jornais silenciam, as pessoas silenciam. São todos “malas sujas”, gente que não presta, aprendi esta nova definição em Feira de Santana. E mala suja não é gente, não merece a minha e a sua empatia,  não é notícia. A não ser nos programas e sites e blogs  do chamado jornalismo abutre. É só dar um google  pra sua tela sangrar.

Mas acredito piamente na reverberação de toda esta dor. Ela volta pra gente, mais cedo ou mais tarde. Ela também nos cabe.

Também não acredito nos maus presságios das corujas. Mas Iaçu, cidade de menos de 30 mil habitantes, uma das muitas Macondos da Chapada Diamantina,  teve ontem mais um assassinato e duas crianças baleadas.

Mas os maus presságios de uma coruja  e uma piada do cantor de trio Bell sobre Iaçu repercutiram muito mais do que o assassinato e duas crianças atingidas por balas na Portelinha, conjunto habitacional com nome de bairro de novela, na  margem direita do Paraguaçu, perto da coruja.

E repercutiu muito menos ainda uma acusação de estupro, também na Portelinha, no início do mês. Acusação seguida de julgamento e morte do acusado dentro de uma cela da delegacia da cidade, rito sumário. Detalhe: o exame de corpo de delito, soube de fonte confiável, não confirmou o estupro, mas o trapo humano executado teve as pernas amarradas para caber no caixão.

E o  que eu e você temos a ver com isso?

Pressinto, creio que vai sobrar pra gente. Já sobrou. Sobrou conviver com a reverberação de toda essa dor, com a reverberação deste ritual praticado na delegacia por gente de 18, 20 anos. Ou pelo menos com a tal banalização, talvez mais grave ainda.

Estamos todos no mesmo barco. Eu, você, os moradores acusadores da Portelinha, o delegado de Iaçu, os jovens carrascos, as crianças baleadas. O barco é um só e muita gente não entendeu ainda.

Não disseram que estamos todos juntos nesta linda passarela de uma aquarela que um dia enfim descolorirá?

Tá acelerado este processo.

Ambivalência

28/10/2013

Sempre achei esta palavra negativa mas hoje fiquei mais amigo dela ao me tornar menos ignorante depois do comentário de Luiz Felipe Pondé, na Metrópole, quando foram citados vários exemplos da nossa natureza ambivalente. Eu me vi ali no que ele falava.
Sou ambivalente sobre Deus, sobre aborto, sobre vícios, e muitas outras coisas sobre as quais pessoas normais nem pestanejam.
E não bastassem estas ambivalências existenciais ainda tem aquelas pequenas do dia-a-dia.
Meu André completa 12 anos na quinta-feira e há algum tempo reivindica o direito de voltar sozinho da escola, uma caminhada de cerca de 1 km. Eu quero deixar, mesmo com medo, mas a mãe resiste.
Hoje resolvemos um meio termo. Ele viria andando a metade do caminho e nos encontraríamos num ponto de passagem. Chego depois do combinado e não encontro o menino. Sigo a pé em direção à escola, esqueço o telefone no carro. No meio do caminho avisto uma aglomeração.
Na rua dos fundos da escola, próximo onde passamos todos os dias, havia acabado de acontecer uma troca de tiros na tentativa de tomada de um carro de assalto. O motorista reagiu, levou um tiro na mão. O assaltante foi atingido na virilha, correu e tomou um carro de assalto adiante, assim disseram.
Fiz o percurso duas vezes sob o sol, até conseguir telefonar para casa e encontrar finalmente André, que não me esperou e levou uma bronca.
Mas o pior é amanhã e a tal ambivalência: deixar ou não o menino experimentar a rua.

https://www.facebook.com/gusmaomarcus/posts/10200753791583902

A médica e o monstro

16/10/2013

7h30 da manhã de um dia já azedo. Emparelho o carro ao lado de outros dois para virar à esquerda de uma transversal da Paulo VI, em direção à Orla. O sinal abre primeiro para quem sai à direita e eu deixei pouco espaço na pista. O cara vem de trás, consegue passar com uma certa dificuldade, para do meu lado e manda: – Seu idiota. E arranca.

Meu perfil é de um completo idiota em conflitos. Raramente briguei na infância e quando briguei, no máximo, empatei. Só levei “vantagem” uma única vez, quando arremessei uma pilha de rádio, tamanho grande, na cabeça de um primo. Outras poucas apanhei. Tenho reação retardada a agressões, sou exatamente como aquele personagem da TV dos anos 80, que respondia a um insulto com um ah é, é? ah é, é?. Já fiquei por vários dias matutando uma resposta jamais dada.

Mas naquele dia, ao ouvir o xingamento senti uma onda quente da pança às têmporas, virei o volante para a direita, acelerei o possante 1.0 na contramão em perseguição e alcancei o cara parado na sinaleira do Superpão. Apontei o dedo e devolvi na cadência do indicador: – Idiota é você seu imbecil, seu canalha, seu escroto, seu paspalho, seu filho de uma puta e mais um monte de seu num volume de voz que deve ter sido escutado nas salas de aula do Colégio Militar. O cara ficou estático, nem devolvia o olhar.

Terminado o show, caí em mim e segui adiante assustado, com as pernas trêmulas e rouco. Por isso consigo me colocar também no lugar da monstra.

https://www.facebook.com/gusmaomarcus/posts/10200676650575425

Sobreviventes

11/10/2013

Tem umas notícias que me pegam. Fujo delas mas elas grudam em mim. Tenho que fazer um clipping pela manhã e a busca pela palavra Salvador me leva a todas as notícias da cidade. Desde o momento em que vi só o título pensei nos irmãos, penseinos pais, pensei na motorista. Agora vi fotos dos jovens, vi foto da motorista e a tragédia foi bem maior do que eu pensei. Não foi um acidente, foi um duplo assassinato. Com cinco vítimas. Sim, considero a motorista também vítima desta loucura em que todos estamos metidos. Os  pais destes garotos são vítimas sobreviventes. Consigo me colocar no lugar dos cinco. Li agora um bom texto numa caixa de comentários. Compartilho aqui

 

https://www.facebook.com/gusmaomarcus/posts/10200652607814371

Outros quereres

11/09/2013

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Bela frase. Em outros contextos, pode mudar a vida para melhor.

Por que parou de fazer tudo para ler a coluna de Mãe Stella de hoje sobre o mito africano do Baobá?

Porque eu quis.

Por que resolveu parar de reclamar do mundo e dos outros e focar nas ações que de fato transformam?

Porque eu quis e preciso.

Por que tomou a decisão de em janeiro ir a Barra de Serinhahém, nem que seja por um dia, comer uma moqueca de banana com camarão no restaurante de dona Lourdes?

Porque eu quis e a minha renca também quer.

Continua.

Foto: NINJA http://migre.me/g2nuH

 

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10200499026574936&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1&theater

Notícias da guerra

22/08/2013

Sou frouxo para imagens de morte, doença, miséria. Minha leitura de jornais é seletiva, passo longe destas notícias. No rádio mudo de estação; na televisão, de canal. Na estrada olho pro outro lado quando avisto acidente, distraio as crianças. Aqui no facebook sempre assinalo a opção de não querer ver este tipo de imagem.
Tento escapar do que gruda no meu juízo. Mas aqui em casa temos uma repórter ativa, Alcione o nome dela. Já falei aqui de nossa diarista, aquela que não vê sentido no Réveillon, festa de rico, de ficar relembrando do que não deu certo no ano todo, ao contrário do São João, só alegria. Ganhou dos amigos do buzu manta e macacão para o filho ainda no barrigão. Faltou contar que ela também já levou bolo de aniversário para um dos seus motoristas, o de segunda e quarta.
Alcione chegou, pra variar, atrasada. Trouxe mais e más notícias da guerra. Foi buscar seu filho caçula, de 8 anos, na casa do pai, assustado porque presenciou mais um assassinato, num domingo, muitos tiros na cabeça da amiga. Pela manhã havia brincado de bola com ela, numa das avenidas de casas separadas por canais próximos ao Juliano Moreira. O menino está dormindo mal, todo dia sonha com a amiga.
8 anos, duas mortes na retina, nos ouvidos, nas narinas. Qual o tamanho do estrago que esta guerra vai nos devolver nos próximos anos? Como serão estes adultos com este tipo de memória?
O futuro não tá nada animador. Viva o presente. Como puder.

 

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…somos iguais em desgraça, vamos cantar o blues da piedade

09/05/2013

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Tento me esquivar de notícias de sangue. Mas elas me atingem de raspão, no fragmento dos telejornais, nos informes de Alcione, a nossa diarista, no rolar da tela do computador.

O tabloide inglês dá notícia  da guerra em curso nesta cidade desde Tomé de Souza  e a notícia provoca comoção. Vou na memória deste coco pequeno, este diário onde tento jogar luz sobre minhas mini-incertezas e encontro a Praça da Piedade, num post de 10 de abril de 2007:

Esta praça tem um igreja de São Pedro, uma Igreja da Piedade, um instituto  histórico, um prédio de polícia estilo gotan city, um gabinete português de leitura, uma faculdade de economia, umas lojas, um Bradesco na esquina, uma fonte luminosa no meio, um gradil de Mário Cravo Caribé, um resquício do poeta Castro Alves, uns gritos dos poetas da Praça, uns muitos aposentados, um pouco da minha infância, um pouco da minha adolescência, um pouco de mim agora.

Cada um destes uns dá um post. Começo por um pouco de agora, por esta foto… Graças à sinaleira, para o carro na esquina. O display da máquina está queimado. Trago então o visor para o olho esquerdo e disparo à moda antiga, com a máquina encostada no rosto. Deu tempo de esperar o cara que vinha andando entrar na foto, para que ela não ficasse completamente desabitada.

Não deu para conferir o resultado na hora. Sigo então em frente a admirar o céu azul e esta cúpula,  que dá um toque árabe à praça, como um ladrilho no mosaico das lembranças da nossa ancestralidade moura. Este é um post emotivo, feito na madrugada…

Naqueles dias também descobri a ausência do busto de um dos heróis da Guerra dos Alfaites, enforcados na Praça e também escrevi sobre  o sumiço. E sobre a Praça e sua história. Já recuperaram o busto, a praça vive no mesmo abandono, à espera agora de adoção.

E cá estou eu, na véspera do aniversário de seis anos da foto e dos textos, a pensar na praça, na cena de sangue, na guerra cotidiana de Salvador , nas praças de guerra e morte recentes na Piedade e Campo Grande, dois dos principais espaços públicos e  de memória  desta cidade.

Vou en busca da notícia de sangue mais recente  e vejo as imagens da praça de guerra, praça de guerra,  e  lá estão os corpos estendidos no chão. As pessoas andando pra lá e pra cá, outras buscam se aproximar mais, há uma certa banalidade no cenário.

O jeito é cantar o Blues da Piedade.

E na busca pela trilha sonora  destas palavras, rencontro e João Bosco, na leitura poética deste tipo de cena.

 

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Flores de Outono

21/04/2013

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R$ 208 mil reais em flores, gastos pela presidência da república neste ano, informa Luísa. É isso mesmo, tem muita cerimônia, morre muita gente importante, tento argumentar. Mas os argumentos não se encaixam no começo do dia, quando vou a pé comprar pão.

O céu, as nuvens, o vento, a temperatura, tudo colabora para tornar bonança a manhã de Outono depois das tempestades. Na padaria, dona Maria de Lurdes, com um sorriso permanente por trás dos óculos, dá bronca numa colega de trabalho:

– Quebrado não, homossexual, diz ao pronunciar bem pausadamente homossexual.

A conversa na área interna da padaria é sobre um sujeito de comportamento estranho, não sei se desencubado recentemente ou assumido desde sempre. Tentei apurar em vão, ao fazer de conta que olho uns quitutes pra ficar mais perto da conversa.

Em seguida, no caixa, Maria de Lurdes explica:

– Como quebrado, se a pessoa é inteira?

Saio rindo da padaria. Do outro lado da rua vem um bando de menino. Três adolescentes, mais dois quase de colo, enganchados na cintura das meninas maiores. Lembro de Maria no dia da tempestade, quando compartilhou com a mãe o medo e a preocupação com quem estava na rua naquela hora.

Avisto então a calçada da doceria Doces Sonhos coberta de lixo. Saco a máquina para registrar, para me queixar à prefeitura, afinal são 8 da manhã de domingo. Já estou próximo ao lixo quando o grupo pára também. Peço para seguirem, não os quero na foto. Mas eles empacam. Só então entendo, o lixo é o destino do grupo.

Sim, vão catar lixo às 8 horas da manhã de uma manhã amena de outono, sem chuva.

Faço a foto do lixo, sigo adiante adiante e não resisto. Viro pra trás, faço outra foto, mas uma das meninas se esconde atrás do grupo. Sinto vergonha, constrangimento.

Lá na frente encontro uma mulher com cara de evangélica. Emparelho com ela, comento, na ânsia de compartilhar. Ou ela não me ouve, ou tem a mesma ânsia e fala sobre um sujeito que está apanhando da polícia na outra esquina nesta manhã de domingo.

Eu desabafo, ela desabafa, seguimos em frente, as nuvens continuam no céu, venta um pouco, a temperatura é de 28 graus e Brasília gasta 208 mil reais em flores.

Foto: Rua de Salvador no dia 20 de março, dia da chegada do outono que se foi embora naquele mesmo dia mas já voltou.

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Boas novas

15/04/2013

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Sim, existe um site português dedicado exclusivamente a boas notícias:
Jovens devolvem 60 mil euros achados em comboio
Homem dá emprego a ladrão que lhe entrou em casa
Usar redes sociais no trabalho aumenta produtividade

Queria me mudar de Salvador e morar nestes últimos três dias neste site portuga. Porque por aqui as notícias são pancadas e nestes últimos três dias a pancada foi maior. Costumo me esquivar de tragédias, elas alteram meu humor, atrapalham meu trabalho, me consomem energia. E desde sexta só vejo más notícias embora o céu tenha sido sempre azul. Domingo, por exemplo, fomos à praia no final da tarde e Ipitanga parecia o paraíso. Mas desde sexta, abro os jornais e leio dor, dor de mãe, dor de pai, dor de famílias. Pra completar,  o resto do mundo também não ajuda. Contra minha vontade abro o vídeo e lá vejo corredores chegando numa linha de chegada, felizes, perto de cumprir o desafio e de repente uma bomba. Salvador e o mundo carecem de boas notícias. Vou para Portugal, pá.  

Campo Grande

15/04/2013

Mocinha veio do interior trabalhar em “casa de família” no Campo Grande e a “moça de família” da casa um dia perguntou o que ela fazia tanto e até tão tarde na praça, todo santo dia, em companhia das colegas e dos porteiros de edifício.

A moça de pronto enumerou as atividades sem alterar em nada a naturalidade da voz ao descrever as ações:

– Ah, nóis conversa, nóis namora, nóis dança, nóis fode, nóis chupa picolé…

Pois é, lembrei desta história contada por Nílson e desta matéria feita por mim em março de 1988 sobre o Campo Grande ao questionar uns amigos. Eles discordavam do caráter homofóbico, defendido por mim,  do crime que tirou a vida do estudante Itamar Ferreira. Sempre se namorou e fez tudo o que a moça descreveu acima, quase abertamente, no Campo Grande e escadarias adjacentes. Desconheço alguma morte relacionada a esta orgia cotidiana na praça até então. E então?

 O direito de não ser vegetal

14/08/2012

Camisa aberta até o começo da barriga de seus cinquenta e poucos anos a brigar com os botões, o desleixo corporal do escrivão é a minha própria imagem e semelhança. Tratei de me identificar como funcionário público para ganhar também o status de colega. Não deu outra. O atendimento na 16ª DP foi simpático, num ambiente de teto descascado, infiltrações pelas paredes, instalações elétricas em gambiarras.

O atendimento foi simpático e demorado. No meio apareceu uma trupe do Sindipoc, o sindicato da polícia civil, a colar cartazes, distribuir jornal e convidar para mais uma assembleia da campanha salarial 2012. Já vimos este filme.

O atendimento foi simpático mas saímos de lá com a certeza de culpa dos otários. Sim, o escrivão barrigudo como eu e em vias de se aposentar enumerou vários argumentos para provar a Luísa de que a culpa pelo assalto foi dela. Quem mandou levar documentos na bolsa, quem mandou levar equipamento eletrônico na bolsa, quem mandou carregar coisas úteis na bolsa?

Além da ocorrência, que não ficou pronta, claro, quem assina nunca está – fomos avisados disso na fila por uma pessoa mais escolada – saímos da delegacia com uma promessa de ocorrência para o dia seguinte. E o aviso sinistro de que tudo vai acontecer de novo. Portanto, tratar de não vacilar.

Mas, afinal, por que este escarcéu todo se devíamos agradecer aos céus por Luísa não ter levado tapas ou tiros? O que afinal roubaram de Luísa? Roubaram uma bolsa, presente do dia dos namorados, roubaram seu instrumento de comunicação com o mundo, um iPod, presente de 15 anos das amigas, roubaram todos os seus documentos.

Tudo isso é material e o que é material é possível substituir.

Mas este terceiro assalto tira de Luísa algo que talvez ela não recupere tão cedo, a possibilidade de andar pelas ruas sem medo. Da última vez andava assustada nos dias seguintes e mudou de calçada para evitar a proximidade com um desconhecido. Recebeu xingamentos pesados.

Perdemos a cada dia mais nesta cidade inviável o direito ao deslocamento, presos nos engarrafamentos, presas de assaltos e do medo nas calçadas.

Esta cidade e seus governos querem nos negar o que nos diferencia dos vegetais, a possibilidade de deslocamento.

E eu só queria este direito básico, o de não ser vegetal.

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Foto: Roberto Viana/Bocão News

Pernambuco é aqui

08/02/2012

E não é que encontrei os soldados pernambucanos duas vezes hoje pela frente ao ir ao trabaho? E me deparei também com uma realidade prática: o Centro Administrativo da Bahia é hoje território federal, e quem manda lá é o general aquariano, que deve tomar uma decisão, iá que tá no camando: ou toma essa zorra ou isola o CAB e avisa pro governador parar de nos obrigar a esse teatr…o de que tá tudo normal.
Repare só: liguei a televisão pela manhã e recebo a informação de que basta apresentar identificação para ter acesso ao trabalho.
Segui pela Paralela e avistei a primeira alça do CAB desboqueada e pensei, liberou geral. Qual o quê, na primeira barreira o soldado foi inflexível. – Vá pela Sussuarana.
Pernambucano, ele não tinha a menor idéia de onde ficava essa onça. Retornei pelo viaduto Dona Canô, entrei em direção ao Tribunal de Contas e o engarrafamento antes da barreira fazia chegar aos 100ºC o velho motor do meu possante. E se essa zorra ferver aqui?
Lá na frente, outro pernambucano: Se o senhor chegasse há 5 minutos entrava, mas o general passou aqui e disse que não entra mais ninguém. Só a pé.
Parei então o carro a cerca de mil metros do trabalho e passei pela frente das duas tropas, na ALBA, uma de frente pra outra, que brincam de gato e rato há uma semana. Bizarra a cena, mas o coro é animado: Ôôoooo o Carnaval acabôôô, o Carnaval acabôôô…

Por vício do ofício fiquei um pouco por ali, de curioso. Mas colegas de trabalho também obrigados a percorrer a zona de conflito a pé ficaram deveras assustados e temerosos de a zorra pipocar e sobrar uma bala perdida para um barnabé desavisado. A coisa não é mais assustadora porque como bem lembrou Sami George Sami, “Bala de borracha não apaga”

Vão-se as roupas sujas, fica o gesto de um irmão

10/01/2011

Uma sacola com roupas sujas, um pneu careca, uma sacola com presentes que deveria ter ido de Iaçu  para Feira de Santana, um laptop de brinquedo com defeito, presente de um dos tios para Maria pra ser trocado, uma caixa de isopor. Informei tudo isto na ocorrência na delegacia e o cara me abre o texto com o verbo alegar. Odeio o verbo alegar. Nunca usei em texto de jornal, acho deselegante, mesmo com quem tem culpa no cartório. Eu não aleguei, eu informei.

Enfim, informei mais uma vez um furto , no mesmo lugar, na porta da minha casa, em pleno meio-dia de domingo, próximo ao Colégio Militar.  Furto   de porta-malas de carro velho. Contei pra um amigo e ele disse que outro dia no Imbuí, em minutos, levaram os 4 pneus de um carro. Eficiência de pit stop de F1.

Estava muito chateado até hoje ao assisti ao Jornal da Manhã, quando redimensionei minhas perdas, redimensionei a violência.

Pior é na guerra.

Na Bahia de todos os Santos, terra da felicidade, 37 pessoas foram assassinadas nos primeiros dias de janeiro. 37 vírgula, eram 37 até Giácomo Mancini fechar esta matéria que foi ao ar hoje para todo o país, no Bom Dia Brasil.

Estava mais chateado ainda ontem até o momento em que meu irmão teve mais um dos seus gestos de dar um nó na alma. Estava com ele quando  cheguei e encontrei  o porta-malas vazio. Minutos depois retorna  com uma desculpa esfarrapada para mais uma visita e na saída avisa da porta que deixou embaixo de um classificador uma ajuda para o prejuízo.

Da porta vi umas notas azuis,  peixes novos e reluzentes, e nem fui conferir.  Saí reclamando do exagero dele,  estava atrasado para ver o espetáculo de estréia das matinês no Circo.

No caminho, olhando o mar, marejei. Bom demais ter irmão. Bom demais ter este irmão.

Marinheiro só

09/01/2011

A renca se dispersou. André e Maria estão na pacata (?) Iaçu, eu na chuvosa Salvador, e Soraya com Luísa na pacificada(?) Rio de Janeiro.

Foram ver  o show de Amy casa de vinho e outras substâncias mais fortes e aproveitar para conhecer a tal cidade maravilhosa.

Luísa não teve aniversário de 15 anos. Nem o presente que o falastrão aqui prometeu quando ela tinha 5 e ficava fascinada ao saber que eu havia morado na Rússia: uma viagem a Moscou.

Mas como tem tios financeiramente bem mais equilibrados, juntou os dinheiros recebidos como presente e investiu nesta viagem.

Quem sabe Moscou aos 30 Lu? Ganho mais 15 anos de prazo pra me equilibrar o suficiente para bancar a promessa.

Ficaram hospedadas pertinho da moça, em Santa Tereza, separadas apenas pelos muitos zeros entre a diária da pousada de charme da estrela e a do albergue em que estavam até ontem.

Agora estão em Ipanema e de lá mandam as notícias mais irritantes para os ouvidos de quem fica: faltou você, a gente só pensava em você.

E Soraya, que estava com medo de ira ao Rio, aquele medo que todo mundo sente quando sabe que vai atravessar a Linha Vermelha? Pois na pacata(?) Iaçu as balas voaram a menos de 500 metros.

Na vizinha da casa da mãe dela, onde as crianças costumam brincar, uma bala ficou alojada na parede. Veja aqui o dia em que Iaçu virou manchete neste início de janeiro.  O anedotário da cidade ganhou um novo personagem. O povo não perdoa.  O delegado, que foi obrigado pelos bandidos a esvaziar os malotes de moedas jogando o dinheiro para o alto, agora é conhecido como Sílvio Santos.

A violência nossa de cada dia

14/06/2010

Domingo, por volta do meio-dia, voltava de uma jornada extra na cidade baixa (sim, barnabé trabalha também aos domingos), rumo à cidade alta, pela Ladeira da Montanha. Coloquei a máguina do lado de fora e fui clicando na subida. Gostei muito do resultado, principalemente do céu e do cachorro, aqui no canto inferior direito.

A foto ficou bacana mas não mostra a realidade, não mostra os humanos, os trapos humanos que vivem ali. A ladeira está punk. Foi-se há muito tempo o “glamour” do brega da Montanha, lugar onde os boêmios das décadas de 50 e 60 terminavam as noitadas. Agora é só miséria.  Ali perto, na ladeira da Preguiça, toda vez que vou visitar a minha mãe no Areal de Cima, na descida encontro com adolescentes e adultos esqueléticos pitando um cachimbo do crack.

Conheci de perto algumas drogas, mas o crack é um desconhecido,  só vejo quando passo por ali, ou nas ladeira que dão acesso ao Terreiro de Jesus, no Centro Histórico.Vejo também indiretamente nos cachimbos vendidos nas barracas da feira de Iaçu, ao lado de tesouras, corta-unhas e pentes patapata.

Vejo na TV neste exato momento, no intervalo do CQC, uma propaganda do governo da Bahia, tão ufanista  quanto às do governo anterior. Nada iguala tanto os governos quanto a  propaganda.

Esta ira e este desabafo é por conta de um assalto sofrido hoje a tarde por minha filha na Orla. Assalto besta para as estatístiscas. Um marmanjo aborda a garota, diz que tem uma faca, e toma o celular peba. Nunca fui assaltado, ja fui roubado, e o sentimento é de impotência e revolta. O assalto gera um medo contínuo, persistente,  tira a paz de uma caminhada pela cidade, uma das poucas atividades de prazer que a vida urbana nos oferece.
Sei que um assalto besta é muito, muito pouco em relação às dezenas de assassinatos que acontecem quase todo fim de semana. Mas é diferente ler uma notícia no jornal e vê a violência estampada na cara de um filho.

Fui ao google, joguei violência + Bahia e encontrei este post de Paixão Barbosa, repulicado no blog do Noblat. Assino embaixo:

Violência na Bahia de todos nós
Paixão Barbosa

06.04.10
12 Comments

A população baiana sente o aumento da violência no seu dia a dia, no temor cada vez maior que os atinge os pais – pobres e ricos – quando os filhos saem às ruas, na quantidade cada vez maior de conhecidos e amigos que são assaltados ou agredidos, na presença cada vez mais de viciados em crack e outras drogas, que circulam como zumbis praticando pequenos furtos ou assaltos. Esta sensação de insegurança não é transmitida por propaganda ou discursos da oposição, ela chega e se instala ante a constatação da realidade. E não desaparece com os discursos e palavras otimistas das autoridades.

Mas, quando acontecem crimes de maior repercussão na mídia, como o assassinato do delegado Clayton Leão, de Camaçari, ou o ousado assalto a uma das maiores, e mais caras, churrascarias de Salvador, parece que a sensação de insegurança atinge o seu clímax. Porque o sentimento que fica é: se nem a figura de um delegado e uma churrascaria do porte da Villas, situada em zona nobre estão fora do alcance dos bandidos, quem estará?

Resta a impressão de que o governo perdeu mesmo o controle sobre a segurança pública, como dizem os discursos dos “abutres” (para lembrar a classificação infeliz do deputado federal Walter Pinheiro) da oposição. E, para completar, os jornais noticiam que somente no feriado da quinta-feira ocorreram  nove assassinatos na Região Metropolitana de Salvador.

Também é verdade que, parte desta oposição (refiro-me especialmente ao DEM) dirigiu os destinos do Estado durante 16 anos (entre 1990 e 2006) e é claro que a escalada da violência não ocorreu somente nos anos do governo Jaques Wagner. Mas também é verdade que, segundo os dados oficiais, os índices de violência só fizeram crescer na atual administração. E crescer de modo cada vez mais acelerado, como revela quadro do documento “Desafio da Segurança Pública para a Bahia”, publicado no site  Observatório da Segurança Pública na Bahia (clique aqui para ler a íntegra do documento).

Vejam os números, entre 2006 (governo Paulo Souto) a 2009 (três do atual governo):

Ano            Homicídios   População     Gp 100.000       Taxa /100.000

2006        3188                13.950.125         139,50125                 22,85
2007       4197                14.083.771        140,83771                 29,8
2008       4253                14.502.575        145,02575                 29,33
2009       4256                14.637.500        146,375                      29,08
Fonte SSP/BA para 2006; 2007, 2008 e 2009; SENASP 2005;. SEI/BA 1999 até 2004; População atualizada anualmente pelo http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/tabcgi.exe?ibge/cnv/popba.def

ATENÇÃO: Não estou escrevendo aqui em busca de culpados pela situação em que nos encontramos. Coloquei os dados acima somente como forma de mostrar a gravidade do quadro e também salientar que não há santos nesta história. E, que, antes de acusarmos os que estão denunciando o poblema de “abutres”, vejamos se está realmente sendo feito o possível para combater o aumento da violência.

O fundamental, antes que os partidários de cada lado comecem a querer crucificar os adversários, é que haja uma conscientização de que somente uma ação integrada, envolvendo todos os setores das administrações federal, estadual e municipal será capaz de por um freio nesta calamidade pública. E que isto deve acontecer sem se pensar no resultado eleitoral de ouutbro deste ano.

Afinal, o que realmente importa é a paz e a tranquilidade da população. E estas estão sendo perdidas a cada dia.

Caros amigos, o segundo tiro me assassina

12/03/2010

Ouço Maninha no DVD Caros Amigos, de Chico,  presente de aniversário de um caroamigoirmão.

Clique na imagem para ver outras homenagens de cartunistas

E  penso  na estupidez da morte de Glauco.

Nunca vi Glauco de perto, mas o Casal Neuras,  o Geraldão, o Geraldinho, a Dona Marta, o Zé do Apocalipse, o Boy George eram chegados meus. Ria com eles todos, sou um pouco o Casal Neuras, sou um pouco Geraldão, todos chacinados por um louco imbecil, com vários tiros.

Ao passear ontem pelos blogs amigos encontrei a dor de Bernardo . Ele perdeu um amigo com vários tiros, assassinado pela mesma cidade que também matou seu irmão de sangue  e amigo de infância.

Prometi aqui falar só de coisas bacanas, mas tá difícil.

Eu era criança e ainda sou, canta  Miucha.

Só contando  uma piada para espairecer, ouvida do meu caro amigo Mário Queiroz, historinha síontese do meu incômodo com este mundo de mortes a tiro e em  acidente de carro, duas das modalidades de morrer mais difíceis  de  acostumar.

Dialogo do mineirinho com um amigo:

– Tem  muié tomando banho nuinha  na lagoa. Corre, vamo vê cumpadi!!!
– Nunca viu mué pelada, não uai?
– Vi, uai,  mas inda num  acostumei.

Pois é, também não me acostumo.

Outro dia foi o irmão de uma outra amiga, morto entre os 14 assassinados pela sede de vingança da polícia da minha cidade, Vitória da Conquista.

Dois anos atrás enfiaram 7 tiros em um artista da Picolino, que passava férias em Salvador e batia um baba com os amigos perto de casa. Também a Polícia. O Estado não deu escola, não deu futuro, não deu nada. O sujeito se virou,  virou artista e vivia bem, contratado por num circo médio. Morreu nas mãos de um assassino pago pelo Estado.

Quando vejo notícias sobre a morte de alguém com vários tiros lembro imediatamente de um vídeo com Clarice Lispector, sua última entrevista, quando ela fala sobre sobre um dos seus  textos preferidos, sobre  a execução de um bandido chamado Mineirinho:

 ” …  há alguma coisa que, se me fez ouvir o primeiro tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina – porquê eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.” Veja íntegra do texto aqui.

Clarice fala de Mineirinho por volta dos 2 minutos e 40s do vídeo.

Iaçu, década de 70

30/10/2009

projeto-iacu-cultural-no-orkutUma das 2.843 fotos do Iaçu Cultural, projeto de memória criado por Deborah em um perfil  no Orkut e que agora está também no Facebook.

Busquei a imagem para ilustrar este post sobre uma minissaia, motivo  de rebelião num presídio, digo, numa universidade  de São Paulo. 
Soube deste assunto via twitter, há uma eternidade em tempo de internet, mas não consegui ver o vídeo postado no Boteco Sujo porque a Uniban colocou funiconários para enxugar gelo, ou seja, ficam de plantão vasculhando a rede para pedir a retirada dos vídeos ao You Tube.

E hoje finalmente vi um video completo. Veio num e-mail indignado  de Bárbara Jolie, do Vinte e Cinco Inquietações, com o link para uma matéria de tv postada no Bahia em Pauta.  Resolvo entar  na roda porque a história me impressionou.

E pela primeira vez vejo  unanimidade nos comentários no You Tube. O nível é baixo, como sempre, mas a pontaria é certeira. Ou chamam os homens de viadinhos ou as mulheres de invejosas, ou a universidade de Unibambi, ou até aceitam o coro absurdo de puta, mas defendem o direito das putas  frequentarem uma faculdade.

O anúncio no portal da Uniban oferece cursos de até R199,00 por mês. Ou seja, tá mais pra mercadinho. A arquitetura circular do prédio lembra grandes bibliotecas do mundo mas no vídeo mais parece pátio de presidio em motim de filme americano.

Os gritos têm a força dos gritos do movimento estudantil, movido a saias tão ou mais curtas como a da moça. Saias como estas da foto,  usadas à vontade em Iaçu, na Chapada diamantina, pssivelmente por volta de 1968, o ano portador da  ilusão de que o mundo mudaria pra melhor.

Atualizado em 09/11: a decisão da uniban é mais absurda ainda do que tudo o que aconteceu. É inacreditável. Episódio gera  vídeo  hilário.
Atualizado em 10/10: uniban volta atrás. Distribuída pela AP, notícia ganhou o mundo:  The Guardian.

Serviço incompleto

18/06/2009

Maria da Conceição foi retirada de casa na noite de terça-feira, no bairro de Canabrava. Em seguida,  executaram seus três filhos, suspeitos. Era o início de um acerto de contas sem burocracia pelo assassinato de um policial. Alguém tinha que pagar, sobrou para Maria da Conceição. Os filhos  foram paridos em sequência. Três gravidezes, três partos,  nos anos de 1985, 1986 e 1987. Mas na morte foram trigêmeos. Se os executores tivessem mais coração, dariam também cabo do que sobrou da mãe.