Posts Tagged ‘Arquitetura’

A força da grana

05/06/2013

Barão

Ao viajar por centenas de fotos do passado de Vitória da Conquista, contemplo o leite derramado e me ocorre uma pergunta. Como seria esta cidade caso seu crescimento respeitasse o passado, caso as novas construções buscassem outros espaços? Possivelmente nossa cidade teria se transformado num dos destinos turísticos mais interessantes do país.

O casario sertanejo, o frio, as pessoas, casas de cultura com a obra de Elomar, de Glauber,  bares, restaurantes, pousadas temáticas.

Outra pergunta. Por que cidades como Lençóis, para ficar num só exemplo, conservam sua cara, seu casario?

A resposta talvez esteja na grana.  Com o fim do dinheiro do diamante a cidade de Lençóis empobreceu completamente e como ninguém construía mais, também não destruíram.

No crescimento contínuo e desordenado, sem planejamento,  talvez esteja a explicação para  a destruição do passado sem dó nem piedade. Isso acontece também em Feira de Santana. As duas maiores cidades da Bahia ignoram a história e transformam seu passado arquitetônico em entulho. 

Um exemplo. Na década de 70 Conquista recebeu incentivo para plantar café e a cidade sentiu o impacto da entrada do diheiro. E o efeito colateral  mais visível foi a demolição do antigo Hotel Conquista  para a construção de um caixote modernoso, nova sede do Banco do Brasil.

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Existem outras causas. Quais?

Foto 1: Rua Grande, hoje Praça Barão do Rio Branco.
http://www.blogdopaulonunes.com/v3/category/historia/page/6/
Local Hoje: http://bit.ly/ZPTleO

Foto2: http://on.fb.me/19KaNDi

Vaga memória

02/06/2013

montagem

Era uma vez um cemitério, uma  igreja, uma escola, fontes luminosas, cinemas, sobrados.
Não quero bancar o nostálgico, acho bonito o atual Jardim das Borboletas de árvores e palmeiras crescidas, mostrado pelo google maps. Mas nele colo minha fonte da infância, numa montagem grotesca, só para perguntar.
Custava o quê preservar a fonte, o parque infantil, a biblioteca?

m título

52 anos, muito para um velho e gordo corpo, nada para um cemitério.
Em outros lugares, cemitérios guardam séculos, milênios. Mas na cidade onde nasci desapareceu em 1949 e  virou hoje  ponto de chaveiros.
A casa onde vivi, o cinema das minhas tardes de domingo, 
a escola onde estudei, deles quase  nada foi guardado, afora imagens, quando há. 

SobradoBanco

Era uma vez este sobrado e no quintal ao lado dele havia galinhas d’angola, eu me  lembro.
Este sobrado nasceu em 1906 e morreu em 1973, aos 67 anos, uma criança no mundo dos sobrados.
Minha Vitória da Conquista, a cidade de nome redundante, é assim. Não gosta de pedra sobre pedra. 

Sem título (2)

E não sobrou pedra do Colégio Barão de Macaúbas, onde frequentei catecismo e não entendia e até hoje tento entender por que Deus não pode ser visível, diante do desenho da invisibilidade de Deus feito pelo catequista.
Ali havia pés de manga e campos de futebol. Hoje há uma caixa com ar condicionado no lugar das amplas janelas.

Sem título

Era uma vez um Cine Glória, ô Glória.  Ali assisti a um show de Fagner e a duas, talvez três,  sessões contínuas de Amor Estranho Amor, com Xuxa.
Ao lado do cinema era uma vez um elefante no jardim.
E era uma vez, na casa ao lado do cinema, um elefante e anões de jardim, habitantes da memória de quem circulou com olhos de criança pela Rua Francisco Santos até outro dia e logo adiante passava por debaixo da marquise em curva da Tebasa.
Era uma vez Tebasa e sua marquise.

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Era uma vez um Colégio Batista Conquistense, escola de Bau, primo, de Fernando Eleodoro,  professor. E até meu, quando já fechado  abrigou o Complexo Escolar Polivalente de Vitória da Conquista.
Custava preservar as janelas agora cegas?

Sem título

Era uma vez outro cinema, foi Conquista, foi  Riviera mas virou point de eletrodomésticos em prestação.

Sem título

Era uma vez uma infância, uma cidade  com suas fachadas e seu passado hoje quase totalmente  escondidos sob placas.
Valei-me Santa Verônica, padroeira dos fotógrafos e por extensão da nossa vaga memória.
Porque a  única salvação está nas imagens.
Amém.

Fotos publicadas na página  https://www.facebook.com/pages/Fotos-antigas-de-Vit%C3%B3ria-da-Conquista/276638065774881

1 – Fonte Luminosa: http://bit.ly/13dTqHl
Jardim hoje: http://bit.ly/11Kh682

2- Sobrado: http://bit.ly/OhBFTC
Banco do Brasil: http://goo.gl/maps/P8nsu

3-  Cemitério: http://bit.ly/15toqTY
Chaveiros: http://bit.ly/1aMvKLG

4 – Colégio Barão de Macaúbas: http://bit.ly/12oAZD6
Forum: http://bit.ly/12VN1Pm

5 – Cine Glória:http://bit.ly/10EeBTm
Igreja Universal: http://bit.ly/19sJ61J

6 – Colégio Batista: http://bit.ly/12oB2Ps
Prédio hoje:  http://bit.ly/18ET9lA

7 – Cine Riviera: http://bit.ly/11g8O6f
Insinuante: http://bit.ly/Zyf0b9

8 –  Praça 9 de novembro: http://bit.ly/11xtHWa
Praça hoje: http://goo.gl/maps/t6oyz

 

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=4904824615206&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

Luz na passarela

04/08/2012

Googlei  “passarelas Lélé Salvador arquitetura Filgueiras” para web, imagens e notícias e resolvi tranformar parte do resultado numa página no facebook.

Ao contrário dos blogues, as páginas no facebook são auto sustentáveis. Elas têm vida própria e nem ligam para o abandono depois de uma rapidinha criação. E ainda mandam notícais quando recebem a atenção de alguém.

Criei outro dia uma página para Sagarana – https://www.facebook.com/pages/Sagarana/148842871839873 – depois de ler alguns contos do livro de Guimarães Rosa e vivo a receber a notificação de que alguém curtiu. Terminar de ler o livro ainda é um projeto.

Pois bem, acabei de criar a página Passarelas de Lelé no facebook – https://www.facebook.com/pages/Passarelas-de-Lel%C3%A9/499022436780119.

Vou colocar lá textos e fotos sobre Lelé, uma pessoa com quem conversei apenas duas vezes na vida mas ganhei muito com isso.

Aqui o resultado da última conversa.
https://licuri.wordpress.com/2009/05/15/socorro-lele/

29/08/2010

Sobre a Fonte Nova já falei há muito  aqui e aqui.
Passo hoje então a palavra a Paulo Munhoz, a Oxalá – curioso se curvou sobre seu opaxorô pra ver melhor – e a Oxum (?). Os três viram de perto.
Oxalá não superfaturem  minha nostalgia.

Passarela

19/08/2010

Silêncio!

18/09/2009

Hospital Santa Izabel 01

Minha primeira lembrança  de  hospital é a imagem de uma moça branca, com quepe branco,  dedo indicador nos lábios e a palavra silêncio em letras vermelhas num cartaz colado em quase todas as paredes.

Lembro do cheiro forte de éter,  de minha mãe deitada na cama do Hospital São Geraldo, em Conquista, convalescente de um aborto espontâneo. Lembro disso hoje, mais de quarenta anos depois, aqui  ao lado dela, deitada, convalescente de um exame simples, mas que aos 79 e artérias comprometidas exige internamento mais demorado.  

Nasci no São Vicente, da Santa Casa de Misericórdia de Vitória da Conquista, pelas mãos de irmãs parteiras. Agora estamos no Santa Izabel, também Santa Casa de Misericórdia, e ela me conta que cheguei ao hospital já coroando. Nasci cinco minutos depois, sempre apressado. Este papo a gente teve às cinco da manhã.

Nada como necessidades médicas para tirar a gente da correria pra não sei onde e nos devolver a prosa sem pressa da madrugada de um hospital.
Sua companhia oficial é uma de minhas irmãs, a caçula mulher dos seis filhos. Estou aqui de turista, na segunda noite de acompanhante. Na primeira, dormi como uma pedra e nem ouvi as gozações da enfermeira a perguntar a ela quem acompanhava quem.

Hospital Santa Izabel 02

Mas esta noite, um Tupolev disfarçado de ar condicionado nas minhas costas, com pontuais decolagens e pousos forçados a cada 20 minutos, não me deixa dormir. Então rascunhei este post e botei a conversa familiar em dia. Minha mãe está na ala mais feia do hospital, num apartamento do segundo andar de um puxadinho, construído ao lado do prédio do século XIX, cercado por gradis forjados em Valença. Minhas andanças pelos hospitais de Salvador indicam que a tendência arquitetônica adotada pela maioria é o estilo puxadinho-caixote-asfixiante.

Na ala mais antiga e mais bela do hospital, estão as enfermarias, que conheci a caminho do refeitório. Seus corredores de pé direito alto, suas portas em arco, me lembraram um hospital para onde fomos levados os estudantes estrangeiros, recém-chegados a Moscou, também num setembro, em 1983, para os exames médicos. Eu, que havia sido deslocado pra longe, tive a sensação de ter sido levado a outra viagem, desta vez no tempo. Voltei no tempo também ao percorrer  os corredores do Santa Izabel.

Não gosto de hospital, ninguém gosta, mas prefiro os mais amplos, mais abertos. O único em que se respira nesta cidade é o Sarah, pensado para aproveitar a brisa, pensado para acolher e não encaixotar. De resto, o que impera é a arquitetura do caixote e do puxadinho. Será que um dia a arquitetura do Sarah vai chegar aos demais hospitais?

Hospital Santa Izabel 03

Na pirâmide do Lelé

29/08/2009
Encontro prévio no mezanino da Piola. Vamos lá de novo?

Encontro prévio no mezanino da Piola. Vamos lá de novo?

Gosto de todo ambiente criado por Lelé. Das amplitudes dos ambientes criados por Lelé. Das cores dos ambientes criados por Lelé. Da respiração dos ambientes criados por Lelé. Talvez venha daí meu astral sempre alto quando estou na Pirâmide do Rio Vermelho. Talvez venha daí o fato de ter sempre muita gente naquele lugar concebido por Lelé.

Gosto de conversar com gente sabida, com mestres. Uma das melhores tardes do ano que passou, passei ao lado de Lelé, ouvindo o cara, conhecendo o hospital da  Rede Sarah em Salvador, uma das suas obras primas, ouvindo sobe os projetos dele para Salvador como os bondinhos como este instalado no hospital, mas que serviria também para dar acesso às cumeadas da cidade, as histórias de vida de Lelé, a visão de mundo de Lelé. Tentei  resumir tudo  nesta entrevista publicada na revista da Unifacs. Revista inventada e editada por Marcinha e Emília, com matérias de Nilson, Kátia Borges, Ana Cristina Barreto, Franciel Cruz.

A revista foi lançada na Pirâmide, Marcinha já não estava conosco. Voltaremos quase todos os que estavam naquela revista novamente para a Pirâmide, desta vez para o lançamento dos livros de Maria e Nilson.

E este lançamento tem sido a brincadeira mais bem sucedida que eu me meti nos últimos anos. Tudo dá certo. Talvez pelo alto astral permanente de Maria, talvez pelo despojamento de Nilson, tudo caminhou sem dificuldades, sem entraves. Leve.

Acho bacana o gesto de Janaína Amado, de sair do seu Maceiócio especialmente para o lançamento, da gincana de Bernardo para vir e voltar por cima do rastro, o post de Chorik com Dorival Caymmi de fundo musical, os muitos posts de adesão ao fuxico.

Enfim, vai ser uma noite bem bacana!

E encerro com um convite: depois do lançamento vamos todos ao mezanino da Piola novamente, para comemorar. Infelizmente desta vez vai ser na base do cada um paga a sua, mas, com certeza, as amizades, as e-amizades continuam!

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Socorro, Lelé

15/05/2009

Lelé

Estive duas vezes com João Filgueiras de Lima, o Lelé. A  primeira vez foi na década de oitenta, para uma matéria sobre propostas de Gil para o Centro Histórico e para Salvador, quando o futuro ex-ministro era presidente da Fundação Gregório de Mattos, publicada em 13 de Abril de 1987. Na matéria tem uma foto de uma maquete para o antigo Aeroclube, uma estrutura leve, suspensa por cabos, criada por Lelé.  A idéia dele era bacana, aproveitava a brisa e o sol, dialogava com a orla.

Como todos sabem, a aeroclube virou o que virou: um caixote esquisito  e um ponto de encontro para sexo  remunerado, nada contra, desde que não fosse só isso.

Mas voltando ao que interessa, estive com Lelé pela segunda vez em junho do ano passado e passei com ele quase uma tarde inteira no Sarah, encontro que me marcou e me deixou mais animado com a vida, com a humanidade, com as possibilidades coletivas, embora o prórpio Lelé transmitisse um certo desencanto.

Pois bem, lembrei de Lelé ao ler ontem a entrevista com o secretário de Desenvolvimento Urbano, Habitação  e Meio Ambiente  de Salvador, um tal Eduardo Abreu. Não sabia se ria ou chorava ao ler as propostas do sujeito, em entrevista a Mary Weinstein. Ria ou chore aqui.

De volta novamente ao que interessa, coloco aqui, como registro e contraponto, o  resultado daquele encontro com Lelé, publicado na Revista da Unifacs. Como a matéria não está disponível na rede, trancrevo o e-mail enviado por mim com a matéria original,  publicada em outubro do ano passado:

O arquiteto português Eduardo Souto de Moura, estrela internacional do Arquimemória 3, encontro que reuniu  na Bahia especialistas em arquitetura e memória, em junho passado, fez questão de duas visitas na sua curta estadia em Salvador: ao Centro Histórico e ao arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé. Foi embora decepcionado com um e encantado com o outro.

A visita de Moura repetiu uma rotina freqüente no dia a dia de Lelé. Receber arquitetos, professores e estudantes de todas as partes do mundo no seu quartel general, o Centro de Tecnologia da Rede Sarah. O Centro funciona na mesma área do  Hospital Sarah Salvador, edificação que sintetiza sua obra, e que lhe valeu o grande prêmio da Bienal Ibero-Americana de Arquitetura e Engenharia de 1988, em  Madri.

Num giro pelo hospital, instalado numa colina rodeada de vegetação remanescente da Mata Atlântica, Lelé  mostra as aplicações práticas das suas idéias, inventos e soluções inovadoras na concepção de um hospital. Conquista o interlocutor com doses altas de ceticismo, temperado com um humor ácido, às vezes auto-depreciativo, muita  simpatia  e humildade.

Lelé trabalha numa saleta austera mas agradável, de não mais que 10 m², paredes de argamassa armada e pé direito alto para dar passagem ao ar e à luz natural, dois elementos fundamentais nos seus projetos. A sala fica no Centro de Tecnologia da Rede Sarah, onde são projetadas e construídas estruturas inusuais, em argamassa aramada, ferro, aço, plástico e fibra de vidro, além de móveis e equipamentos hospitalares, que saem de sua prancheta e das de sua equipe diretamente para os hospitais da Rede Sarah,  que se integrarão aos nove existentes hoje no país, e para prédios públicos construídos com a mesma tecnologia.

Chega a ser meio desengonçado, 1,83 metros de altura, esguio, mãos compridas. Poderia ter seguido a profissão de atleta ou de pianista. O apelido veio da semelhança física com jogador Lelé, atacante do Vasco da década de 40. Queria seguir os passos do pai, que era músico tocava piano em sessões de cinema mudo.  Casualmente, como gosta de repetir, virou arquiteto. Casualmente conheceu Niemayer e participou da construção de Brasília.

Casualmente, um acidente automobilístico com a mulher, em 1963, o levou a um internamento no  hospital de Base de Brasília e  fez cruzar o seu destino com o do cirurgião  Aloysio Campo da Paz. Médico e arquiteto conceberam um novo conceito para  arquitetura hospitalar, que resultou nas inovações da Rede Sarah de Hospitais do Aparelho Locomotor, uma de ilha de excelência no atendimento público de saúde no país.

Casualmente o destino também lhe trouxe a Salvador e não casualmente a cidade convive hoje com a marca de sua inventividade. Reconhecido internacionalmente, representou o Brasil em sala especial na Bienal de Veneza de 2000. Recebeu o grande Prêmio Latino-Americano de Arquitetura da 9ª Bienal Internacional de Arquitetura de Buenos Aires, em 2001. É professor emérito da Universidade de Brasília e Doutor Honoris Causa pela  Universidade Federal da Bahia.

Ainda não sabe, mas um grupo de arquitetos brasileiros articula sua indicação para o prêmio Pritzker, uma espécie de Nobel da Arquitetura. Mas se você lhe pedir um balanço de vida, diz com tranquilidade. “Extremamente fracassado”. Sonhou alto. É da geração do pós-guerra, empenhada em construir utopias. E seu grande sonho, uma arquitetura a serviço do coletivo, está hoje na contramão. “Sonhamos,  criamos muitas utopias. Utopias construídas em cima de um avanço social. Todas elas fracassaram”

Mesmo cético, Lelé ainda vê a possibilidade de saídas para a enrascada ambiental  que a humanidade se meteu e esta saída está nas idéias dos jovens. Não é chegado a badalações mas fica feliz com a admiração dos jovens pelo seu trabalho. “Fico muito feliz quando eu vou a uma universidade para discutir  minhas experiências. Para mim,  o que me dá uma certa vontade de viver e de continuar é o convívio com as pessoas jovens, principalmente com  aqueles grupos que estão ávidos para  procurar soluções, discutir, mesmo que não aprovem o que fiz. Isto me agrada muito.”

Para Lelé e para todos os que enfrentam o caos urbano,  a cidade do Salvador está inviável, como a maioria das metrópoles desprovidas de transporte público eficiente. O foco nas soluções individuais gerou o colapso vivido diariamente pelos soteropolitanos enjaulados nos engarrafamentos cotidianos.

Dentre seus sonhos para Salvador estava  o “Veículo Leve Sobre Trilhos”, ou VLT, uma espécie de bonde que trafegaria sobre os canteiros centrais das avenidas de vale. O projeto, do final da década de oitenta,  foi atropelado pela descontinuidade administrativa e ressuscitou como Metrô de superfície, que não é nem uma coisa nem outra. Não gosta e não quer falar sobre o assunto, mas classifica a obra como aberração, que não vai resolver a questão do transporte público. Construção  tardia, o metrô de Salvador nasce sem ter para onde crescer. “Os metrôs que funcionam hoje no mundo cresceram junto com as cidades, sob as cidades. Como você vai expandir na superfície, furando montanhas e derrubando casas?”

Soluções  para a melhor  circulação das pessoas nas cidades é um assunto que também interessa a Lelé, que desenvolveu um bondinho para diminuir a distância percorrida por pacientes cadeirantes e seus acompanhantes  do alto do hospital até o ponto de ônibus.  Em vez do carro, eles descem pelo bondinho e percorrem um trecho entre as árvores, numa espécie de passeio numa trilha entre árvores nativas da mata atlântica. A solução poderia diminuir distâncias e facilitar o acesso de  comunidades urbanas de Salvador, em áreas com topografia semelhante.

Curiosamente, uma das soluções criadas para as conexões do  VLT sobreviveu e é hoje o seu xodó. Uma idéia simples acolhida  pela cidade, presente em todas as grandes avenidas: as passarelas para pedestres, coloridas, cobertas, com estruturas leves em ferro e argamassa armada. A idéia inicial era ainda mais completa, com alternativas de conexões em seus cogumelos de sustentações,  que poderiam ser escadas ou elevadores para cadeirantes.

Normalmente a voz de Lelé, baixa e pausada, sobe um tom quando o assunto é passarela. Em sua mesa estão os croquis de mais um conjunto delas, que se integrarão ao projeto viário do Estádio de Pituaçu para atender a grande demanda de público em dias de jogos em direção à avenida Paralela.

É impossível conceber hoje a ligação entre o Iguatemi, a estação de transbordo, também de sua autoria, sem as passarelas. Há inclusive um projeto para um novo conjunto para aquela área, que ficou ainda mais sobrecarregada com a inauguração do templo da Igreja Universal. A implantação depende da iniciativa da prefeitura.

Os projetos de Lelé exigem uma certa cumplicidade de quem usa. São mais econômicos, gastam menos energia elétrica, principalmente com a diminuição do uso de ar condicionado, que num hospital pode representar um custo 10 vezes menor  no consumo de energia e gerar um conforto ambiental maior. Mas há resistências. Com o argumento de que trabalham com processos, e que o vento espalha as folhas, os funcionários do Tribunal de Contas da União mandaram vedar as saídas de ar e colocaram ar condicionado em todas as salas. O mesmo aconteceu com o prédio da prefeitura, projetado com um sistema central sobre o teto, mas que com o primeiro defeito, foi substituído por aparelhos individuais.

O discurso ecológico não se dispõe a pagar a cota individual quando o assunto é mudança de hábitos. “O problema é cultural, as pessoas de um modo geral querem individualizar suas tarefas. O problema das cidades, por exemplo, é agravado porque em cada veículo  cabem cinco pessoas, mas a maioria usa  o veiculo individualmente”. Sua presença no Sarah faz com que as coisas funcionem como projetadas. Lá a circulação de ar funciona perfeitamente. Os amplos espaços de convivência, transformam o ambiente num lugar que nem de longe lembra os corredores apertados e o cheiro característico de um hospital convencional.

Lelé argumenta que a luz natural é mais benéfica e confortável. “Não há uma iluminação artifical que seja superior a esta luz difusa que estamos usando aqui, diz em sua sala. Ela é muito mais agradável, sob todos os pontos de vista ela é muito mais humana. A luz artifical tem uma vibração incomoda, mas a gente se adapta e acaba desprezando uma coisa que e melhor por uma outra pior.

O ar, capturado do ambiente externo por galerias na base do prédio do hospital circula por saídas reguláveis em todos os ambientes e sai pela parte superior, em estruturas aerodinâmicas. A sensação térmica é de quem está sob a brisa da sombra de árvores.

Para Lelé  a saída ainda possível está na educação e na aplicação de princípios ecológicos. “Eu vejo o risco enorme que a humanidade está correndo, de   destruição do próprio planeta. Na escala que estamos consumindo os recursos naturais vai durar muito pouco”. Entende a arquitetura como uma atividade coletiva. Lembra que só em algumas tribos esquimós a construção da moradia é uma atividade individual. E lembra que as soluções coletivas existem em todas as culturas, como a dos  índios xavantes, que encontram soluções engenhosas de conforto ambiental em suas construções,  na escala correta, com um conforto ambiental adequado.

Vê hoje duas vertentes na arquitetura. A espetacular, do grande discurso, da grandiloqüência como símbolo do desenvolvimento.  E uma outra, que busca ser útil à comunidade como um todo, atuar em programas mais econômicos, com sentido coletivo. A primeira, mesmo que não busque resposta para as cidades tem imperado.

Lelé nasceu no Rio em 1932. Dois anos depois de formado pela Faculdade de Arquitetura, da Escola Nacional de Belas Artes, seguiu para trabalhar na construção de Brasília, sob a coordenação de Oscar Niemayer. Seus primeiros trabalhos em Salvador são a igreja, a balança e as plataformas do Centro Administrativo da Bahia, no início da década de 1970. Além do Hospital Sarah, também é de sua autoria o prédio da prefeitura, a Estação da Lapa, o complexo de delegacia dos Barris, a Estação de Transbordo do Iguatemi e a sede do Tribunal de Contas da União.

Como trabalhava para prefeituras e governos, o final de cada mandato significava a interrupção e o abandono de projetos, pelo hábito dos políticos de apagarem marcas do antecessor. Foi assim no final da década de 80, depois do fracasso dos Cieps no Rio, quando Moreira Franco não quis dar continuidade ao projeto de Brizola. A história se repetiu em Salvador, quando Fernando José não quis dar continuidade ao projeto da Fábrica de Equipamentos Comunitários, a FAEC, iniciado na gestão de Mário Kértesz.

O fim da FAEC custou o sonho de uma fábrica de cidades com todos os equipamentos estruturais como escolas, creches, passarelas e infra-estrutura, o emprego de centenas de operários e a dor no coração de Lelé, traduzida por um infarto que resultou na  implantação de quatro pontes de safena e uma mamaria. Mas só foi sair do hospital para enfrentar novo desafio. Convidado pelo amigo Darcy Ribeiro partiu para o novo sonho dos Ciacs, novo tombo. Só encontrou um porto seguro contra  interrupções e distorções da sua obra com os projetos da Rede Sarah.

A decepção do arquiteto português com o centro histórico, citada no início deste texto, foi  revelada com um certo pudor educado em entrevista ao jornal A Tarde. Moura afirmou que o Pelourinho lhe  parecia falso, como uma espécie de cenário para turista,  “um bocadinho embalsamado”. A idéia é compartilhada por Lelé. Junto com Lina Bo Bardi planejou interferências em que se respeitava a arquitetura original, mas com intervenções no interior dos imóveis que possibilitassem moradia e vida social. E lembra que a pintura original sobre argamassa e base de cal não tem nada a ver com os tons berrantes, aplicadas nas fachadas pela reforma recente. E faz uma comparação semelhante à do colega  português: “O pelourinho é uma ave empalhada, com olho de vidro, sem vida”.

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=3557481212463&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

Verger, Caetano e a Cidade da Bahia

24/02/2008

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Futucando a fototeca da Fundação Pierre Verger… Bingo! O Caramuru, hoje condenado à morte,  não passaria despercebido aos olhos do cara.

 

 

 

 

E Caetano fala sobre a cidade em entrevista à repórter Mary Weinstein, em A Tarde de hoje. Confira os trechos  sobre o gabarito da Orla e do Comércio e sobre as barracas de Forrest John nas praias (tratei deste assunto ainda quando o Licuri era no uol, em post de 24/01/2007):

 Caetano Veloso: Não é possível que tenham construído essas casas em cima da areia da praia para serem permanentes. Porque isso é como construir uma favela.  E ocupar parte da areia. O movimento deveria ser em sentido inverso. Devia ser o de desencorajar o que quer que seja de permanente sobre as areias das praias.  O que havia na praia – e era bonito – eram as casas dos pescadores quando havia puxada de rede e tudo o mais. Mas isso foi acabado pelo Antônio Carlos Magalhães, na época da ditadura.E eu protestei contra isso. Mas as barracas de vender bebida e não sei quê, na praia, não podem ser uma coisa que fique ali. Acho errado.Eu sou contra até aquele lugar que os guarda-sóis ficam, fechados, durante a noite. Parece um cemitério. Areia da praia é areia da praia. No Rio tem muito mais gente, têm que vender muito mais bebida e, no entanto, cada um chega, põe sua barraca provisória de manhã e retira às cinco horas da tarde. E não fica nada, a praia fica limpa.A Tarde – Esse negócio das barracas poderia ter sido evitado se o Patrimônio da União tivesse usado o seu poder de polícia para impedir a colocação do primeiro tijolo.CV –  Mas eu estou 100% com você. Deveria ter sido simples assim. Os poderes deveriam ter sido aplicados dessa maneira. É evidente.AT   O que você diz sobre o aumento dos gabaritos da orla? CV – Eu li no jornal que havia uma liberação do gabarito da orla, sem sequer as restrições que havia num outro projeto, de distância entre os prédios. Eu fiquei apavorado porque acho que tem-se que ter um projeto muito claro para a orla de Salvador, porque o desenvolvimento é inevitável. Então, liberação de gabarito é a pior notícia que poderia chegar aos meus ouvidos. Porque já começa com um negócio de vale tudo, que é justamente o contrário do que deve acontecer.Deve haver o planejamento mais cuidadoso possível, e não liberações que facilitem construções de qualquer maneira. No Rio, em Ipanema e Leblon, você não podia construir mais que quatro andares.Mas sempre aparece um prefeito que, por causa de dinheiro, abre uma exceção pra fulano e aí, primeiro para os hotéis, mas só hotel, e aí pronto (em ritmo de rap).Mas aí, como abriu pra hotel, aí abre pra um sujeito que dá um dinheiro pro prefeito.AT –  Aqui são 18 andares para hotéis. E na Cidade Baixa também houve ampliação de gabarito. CV –  Junto à praia? Acho que isso deveria ser melhor pensado e achando os caminhos viáveis de implementar restrições. É parte de uma conscientização do que é o tratamento urbano. A prova de que os brasileiros não tinham isso em mente é a maneira caótica como as cidades brasileiras cresceram todas.E todas estão parecidas. São Paulo é o exemplo máximo e é o modelo que foi seguido por todas as cidades. Aquele trecho do Comércio pediria um tratamento como Recife velho e Pelourinho. No mínimo. A essa altura, possivelmente, melhor, porque já se sabe mais coisa. Mas eu vou dizer uma coisa que eu acho que, de certa forma, resume tudo isso. Que o Brasil, como todos os países da América Latina, que têm relíquias arquitetônicas, coisas que os Estados Unidos não têm, deviam aprender com os países europeus, porque nesse aspecto, nós parecemos com os países europeus. E a forma americana não nos serve. Americano faz uma igreja de madeira pra derrubar depois. Você viaja no Peru, no México, no Brasil, na Colômbia, é lindo. Nos Estados Unidos, o que tem de bonito foi construído nos anos 20, 30, 40, 50. Aqui deveria ser pensado como Paris, Roma, Praga, Atenas. Mas já há um pouco desse pensamento. Como eu falei, a recuperação do Pelourinho, São Luís, Recife. Porque a própria coisa se impõe, apesar de não se pensar dessa maneira e se deixar o crescimento caótico continuar. E agora é preciso que a gente não permita que apesar disso se destrua tudo.Eu acho que há coisas que têm que ser defendidas pelo poder público e que não podem só ficar entregues aos interesses econômicos.

Assinante lê íntegra aqui

Abaixo, projeção do efeito da emenda aprovada (ainda não publicada) feita pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil – seção Bahia.

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