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Ambivalência

Sempre achei esta palavra negativa mas hoje fiquei mais amigo dela ao me tornar menos ignorante depois do comentário de Luiz Felipe Pondé, na Metrópole, quando foram citados vários exemplos da nossa natureza ambivalente. Eu me vi ali no que ele falava.
Sou ambivalente sobre Deus, sobre aborto, sobre vícios, e muitas outras coisas sobre as quais pessoas normais nem pestanejam.
E não bastassem estas ambivalências existenciais ainda tem aquelas pequenas do dia-a-dia.
Meu André completa 12 anos na quinta-feira e há algum tempo reivindica o direito de voltar sozinho da escola, uma caminhada de cerca de 1 km. Eu quero deixar, mesmo com medo, mas a mãe resiste.
Hoje resolvemos um meio termo. Ele viria andando a metade do caminho e nos encontraríamos num ponto de passagem. Chego depois do combinado e não encontro o menino. Sigo a pé em direção à escola, esqueço o telefone no carro. No meio do caminho avisto uma aglomeração.
Na rua dos fundos da escola, próximo onde passamos todos os dias, havia acabado de acontecer uma troca de tiros na tentativa de tomada de um carro de assalto. O motorista reagiu, levou um tiro na mão. O assaltante foi atingido na virilha, correu e tomou um carro de assalto adiante, assim disseram.
Fiz o percurso duas vezes sob o sol, até conseguir telefonar para casa e encontrar finalmente André, que não me esperou e levou uma bronca.
Mas o pior é amanhã e a tal ambivalência: deixar ou não o menino experimentar a rua.

https://www.facebook.com/gusmaomarcus/posts/10200753791583902

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 O direito de não ser vegetal

Camisa aberta até o começo da barriga de seus cinquenta e poucos anos a brigar com os botões, o desleixo corporal do escrivão é a minha própria imagem e semelhança. Tratei de me identificar como funcionário público para ganhar também o status de colega. Não deu outra. O atendimento na 16ª DP foi simpático, num ambiente de teto descascado, infiltrações pelas paredes, instalações elétricas em gambiarras.

O atendimento foi simpático e demorado. No meio apareceu uma trupe do Sindipoc, o sindicato da polícia civil, a colar cartazes, distribuir jornal e convidar para mais uma assembleia da campanha salarial 2012. Já vimos este filme.

O atendimento foi simpático mas saímos de lá com a certeza de culpa dos otários. Sim, o escrivão barrigudo como eu e em vias de se aposentar enumerou vários argumentos para provar a Luísa de que a culpa pelo assalto foi dela. Quem mandou levar documentos na bolsa, quem mandou levar equipamento eletrônico na bolsa, quem mandou carregar coisas úteis na bolsa?

Além da ocorrência, que não ficou pronta, claro, quem assina nunca está – fomos avisados disso na fila por uma pessoa mais escolada – saímos da delegacia com uma promessa de ocorrência para o dia seguinte. E o aviso sinistro de que tudo vai acontecer de novo. Portanto, tratar de não vacilar.

Mas, afinal, por que este escarcéu todo se devíamos agradecer aos céus por Luísa não ter levado tapas ou tiros? O que afinal roubaram de Luísa? Roubaram uma bolsa, presente do dia dos namorados, roubaram seu instrumento de comunicação com o mundo, um iPod, presente de 15 anos das amigas, roubaram todos os seus documentos.

Tudo isso é material e o que é material é possível substituir.

Mas este terceiro assalto tira de Luísa algo que talvez ela não recupere tão cedo, a possibilidade de andar pelas ruas sem medo. Da última vez andava assustada nos dias seguintes e mudou de calçada para evitar a proximidade com um desconhecido. Recebeu xingamentos pesados.

Perdemos a cada dia mais nesta cidade inviável o direito ao deslocamento, presos nos engarrafamentos, presas de assaltos e do medo nas calçadas.

Esta cidade e seus governos querem nos negar o que nos diferencia dos vegetais, a possibilidade de deslocamento.

E eu só queria este direito básico, o de não ser vegetal.

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Foto: Roberto Viana/Bocão News