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De volta ao Pratigi

Ao norte, Boipeba. Ao sul, Barra Grande. Entre os dois o Pratigi, um arco, uma enseada,  24 km de praia de areia fina, águas calmas, desde a Barra dos Carvalhos até a Barra do Serinhaém.

Palmilhei por estes extremos nos últimos dias, já há alguns anos volto, desde quando fui a trabalho na inauguração da estrada Ituberá-Pratigi, em 31 de março de 1998, lá se vão quase 20 anos.

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O Pratigi me lembra Barra Grande de há 20 e poucos anos, com suas praias desertas. Lembra o Morro de São Paulo há 30 e poucos  anos, nas caminhadas para a Quarta Praia. Lembra Berlinque, em Itaparica, lá se vão 40 e tantos anos, quando se tomava banho pelado na Ponta de My Friend.

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Pratigi, próximo à Barra dos Carvalhos. Ao fundo, Ilha de Boipeba.

Não quero ser saudosista, mas a sensação é de ter testemunhado nas últimas quatro décadas a ocupação destrutiva do nosso litoral.  A ilha está acabada, o Morro com praia imprópria pra banho, vestido ou pelado.

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Ponta do Apaga Fogo, à direita, Ilha de Kieppe.

Desta vez fomos a pé em direção a Barra dos Carvalhos, 6,5k de ida, o mesmo na volta e uma caminhada de quase duas idas ao Bonfim pela praia. No caminho, só um pescador perto de sua canoa, na espera da maré para puxar a rede, enquanto isso, checa o celular.

Praias desertas, lindas e  paradisíacas, como define o jargão turístico. E o plástico onipresente, em copos, embalagens, misturado às conchas e folhas do mangue.

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Para a Barra do Serinhahém, praia também é pista.

Para o norte a praia do Pratigi ainda é mais tranquila porque a barreira do rio que deságua na praia ao lado da estrada, impede o tráfego de carros. Para o sul a praia é uma rodovia movimentada na maré baixa, por onde trafegam muitas motos, carros de passeio e caminhões em direção à barra de Serinhahém.

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As festas deixam lembranças

Numa das fazendas de coco do Pratigi, na beira da praia, de dois em dois anos é organizado o festival Universo Paralelo. A economia do turismo do lugar gira em torno do festival. Nos intervalos entre um festival e outro, o movimento só acontece no Verão, com alguns turistas e o pessoal da região de Ituberá.

Ladeada pelos famosinhos Boipeba e Barra Grande, cuja ocupação foi no miudinho, o Pratigi está “desocupado”, de olhos e bolsos na engorda, à espera de grandes empreendimentos/investimentos.

Cerca de quarenta barracas de madeira coladas umas às outras  ocupam o final  da estrada de Ituberá, que vai até a praia. Mas de uma ponta a outra conta-se nos dedos os proprietários, dentre eles a Rainha “brasileira” da Suécia, conforme contam os moradores e as notas da imprensa, sobre a resistência do IMA em liberar a licença para um resort. O modelo parecido que encontrou resistência na vizinha Ponta dos Castelhanos, na Ilha de Boipeba.

Seja no miudinho, seja no atacado, a ocupação do nosso litoral não respeita mangue, não respeita a praia, não respeita nada além do que “me pertence”.

A lei do tudo nosso, o coletivo que se lasque, impera desde a ocupação por barracas até os casarões de madeira e vidro, cercados de grama aparada.

Enquanto isso vou voltando ao Pratigi, ainda vale muito a viagem.

Onde fomos bem tratados:
Hospedagem:  Chalé Sabiá, no Pratigi, onde sempre ficamos. Ideal para rencas como a nossa, com fogão, geladeira, ventiladores e utensílios. Contato:  73 9 91993038 chalesabia@gmail.com
Almoço em Barra do Serinháhem – Pousada Recanto da Natureza, com Emerson, ou Sinho.
Almoço em Barra dos Carvalhos: Restaurante do Paulista.
Cocada:  Feitas por Rose, do povoado de  Jatimane, na estrada Ituberá/Pratigi.

Outras viagens com a renca ao Pratigi:

2009
https://licuri.wordpress.com/2009/01/23/azul-e-branco/
https://licuri.wordpress.com/2009/01/27/duas-luas-2/
https://licuri.wordpress.com/2009/01/

2012
https://licuri.wordpress.com/2012/02/01/de-volta-3/

2015
https://licuri.wordpress.com/2015/01/23/mare/

2017
https://licuri.wordpress.com/2017/01/27/eles-envelhecem-muito-rapido/
https://licuri.wordpress.com/2017/01/20/pratigi/

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De volta

Você nunca deve voltar ao lugar onde foi feliz, já avisaram. O lugar é outro, você é outro e são outras as circunstãncias. Mas voltamos ao Pratigi para uma curta permanência de três dias e não perdemos a viagem. Estavam lá o Chalé Sabiá e a hospitalidade de Orlando. E a praia, imensa, amigável com as crianças, morna e iluminada no final da tarde. Enfim a alma resiste em ser pequena e o Pratigi é imenso. De volta à rotina, fica a lembrança das águas, aguas do mar, águas da Pancada Grande. Viva Oxum, viva Iemanjá, salve o 2 de fevereiro que chega daqui a pouco.

 

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Em Moreré, gigolô de renca se dá bem

Sabe aqueles meninos engraçadinhos na sinaleira a desafiar o nosso racional? Às vezes a gente não resiste. Descobri na viagem que também  uso esta técnica, de seduzir pela graça das crianças.
Inicialmente era inconsciente, mas depois de constatar o sucesso da presença deles nas situações de necessidades como atolamento, negociação dos pacotes de refeições e diárias, comecei a manipular os cenários. Assim foi em Moreré.
Chegamos à noite e sem tempo nem energia para procurar um lugar. Seguimos então a indicação de Rubem, artesão que vive no Capão e conhece o lugar (é interessante este fluxo bicho-grilo Chapada/Moreré). Fomos  então para a Pousada Moreré, a mais antiga do lugar, cujos donos são nativos. Desconto conseguido, dormimos todos num quarto que daria bem para um casal, mas não para uma renca de cinco.
Fabiana, filha do dono, ao ver nosso desconforto, fez uma proposta decente. O cunhado dela tinha a solução no fundo do restaurante da pousada. Conversa vai, conversa vem e nos instalamos numa casa de dois quartos, mobiliada do cortinado ao pano de prato, incluindo também gás, sal, detergente, além de gatos e  mangas no quintal. Tudo isso por R$ 60 a diária, com direito também  a companhia de crianças para brincar com  meninos. O que se assucedeu nestes dias  você acompanha neste resumo fotográfico abaixo:


É bom chegar a lugares desconhecidos à noite. Ao amanhecer a gente se vê como numa peça de teatro, quando a luz se acende num ambiente absolutamente novo. Vi esta mudança de cenário a bordo de uma das canoas ancoradas na praia.

Maré vazante

Pousada Moreré

Já em companhia de Luísa, caminhamos em direção à direita e por este caminho da foto e chegamos a Bainema, lugar sonhado por Soraya e que valeu a insistência dela em conhecer.

Por todo canto os Guaiamuns. Pela manhã bem cedo, a gente se encontra com estas figuras assustadas e ariscas, a alegria dos meninos.

Chegamos fnalmente a Bainema

Novo amanhecer no cenário presente em 9 de 10 fotos de quem vai a Moreré.A performance deste estrangeiro entoando mantras provocava muitos risos e brincadeiras entre nativos e turistas. Era uma espécie de sino a saudar o nascer e o pôr-do-sol. Figura bonita e de paz. Doido manso, na visão dos nativos.A performance deste estrangeiro entoando mantras provocava muitos risos e brincadeiras entre nativos e turistas. Era uma espécie de sino a saudar o nascer e o pôr-do-sol. Figura bonita e de paz. Doido manso, na visão dos nativos.
Aportada no mangue, uma das caravelas exibe sua cauda fatal, protagonista de uma cena digna de filme iraniano. Gritos lancinantes, garoto sai da água desesperado e logo uma roda de crianças e adultos se forma ao seu redor. Gritos e mais gritos. Quem já foi queimado por caravela sabe o tamanho da dor, que não passa. Mas logo aparece o avô. Para acalentar? Que nada, chinelo na mão, aplica uma sova no coitado pela desobediência de ter ido ao mar mesmo com o alerta de vento e da presença da frota lilás. Detalhe: a avó, desavisada, havia autorizado o banho.

Só na tarde do segundo dia tomamos o rumo da esquerda, onde ficam as famosas piscinas naturais de Moreré.Só na tarde do segundo dia tomamos o rumo da esquerda, onde ficam as famosas piscinas naturais de Moreré.
No terceiro dia partimos num passeio para Cova da Onça, povoado secular da outra ponta da ilha e aí novamente a sedução dos meninos ajudou nas negociações. R$ 50 para cada casal de turistas. Com mais R$ 20, incluímos os nossos três passageiros extras e seguimos a bordo do Ilha de Moreré para nossa aventura de um dia. Inicialmente os meninos super animados na proa, com a cara nos respingos e o corpo pra cima e pra baixo no balanço do mar. O que aconteceu minutos depois você acompanha no próximo capítulo porque a fita em série que se preza tem que acabar no melhor pedaço.