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Fortes

claude santos

Há sim, alguma vantagem em ser distraído. De repente um fragmento de mundo ignorado revela-se diante da gente e a emoção bate no juízo, reverbera no coração, volta para os olhos marejados.

Foi assim hoje por apenas alguns minutos de imersão completa em imagens, muitas imagens, ao passar pela primeira vez sob o portal do forte de Santa Maria, transformado em espaço de fotografia. Em concentrado de fotografia. Em caldo de cana de fotografia.

E a emoção veio forte ao ver uma imagem do meu amigo Claude Santos. Havia acabado de lembrar dele porque o audiovisual projetado era  a técnica que ele dominava como poucos. Em seguida, a imagem e a emoção.

Desde as escadarias, os nomes de muitos fotógrafos, alguns amigos, muitos conhecidos, muitos admirados. Soraya viu uma foto  de Maria Sampaio, outra que nos deixou.

A concepção do espaço empurra  você para um mergulho de apneia nas imagens, falta fôlego. Sempre gostei de fotografia, a fotografia cura cegueira, indica novas perspectivas. E a nova imagem revelada sempre tem o indicador do fotógrafo para um ponto de vista novidadeiro pra nosso olhar muitas vezes desatento.

Foram apenas alguns minutos, não havia tempo para mais,  numa escapulida da caminhada para perder peso, aproveitando a quarta-feira franqueada. Partimos então eu Soraya e Maria para o outro forte, só chegamos a tempo de ver Carinhoso pela flauta de Andrea Bandeira num concerto de câmara. A Barra fervilha, de forte a forte.

Peguei uns dias de férias. Vou voltar aos fortes. Como turista desatento, ainda falta retornar à casa de Jorge Amado, transformada em museu. Vou levar outra pancada.  Toma, distraído.

Foto: Claude Santos,  divulgação do Irdeb, Sem crédito.

 

 

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Morreu ela ou morri eu?

Acabo de chegar da rua, são quase quatro da manhã deste sábado e a cabeça ainda meio zunindo. Resisto em falar mal do Carnaval, hábito dos que morreram para a festa. Mas ao contrário do que diz a canção, a folia que na quarta-feira também morria hoje  é natimorta. 

Meninos, não vi, não vi um, sequer um casal se agarrando. Tirando o corredor iluminado onde é obrigatória a alegria, nas ruas transversais e na saídas dos blocos, vi os olhos compridos e cansados de centenas de trapos humanos pelas calçadas, esperando a vez de se transformar em gradil e sair puxando e empurrando  cordas, ou meninos e velhos catando lata, ou famílias inteiras vendendo de um tudo.  

Pats e mauricinhos (ainda é essa a denominação?) passam elas com seus shorts colados, coxas grossas, sapatos plataforma e eles de camisetas com músculos á mostra, parecidos todos ex-BBBs,  em direção aos camarotes. Mas nas caras levam uma certa tristeza ou apreensão.

Nos camarotes, privado e público, comida e bebida à vontade, mas aquele clima de festa social, de exibição,  poderia ser em qualquer época, qualquer festa, qualquer lugar. Fiz uma pesquisa para o jornal da escola dos meninos e fui encontrar a origem da festa nas farras dionisíacas, nos bacanais romanos,  tudo a ver com a esbórnia, nada do que eu vi hoje.

Vi muita, muita gente trabalhando, como eu, para tirar um troco, na estrutura da festa. São milhares de barnabés do Estado e da prefeitura, o bloco dos crachás, também muito do sem graça.

Se você viu o Carnaval pela televisão, não vale discordar de mim. Aquilo  é acionado automaticamente no momento em que as pessoas se veem diante da câmera. Apagou a câmera, fogo apaga  junto.

Pra não dizer que não vi nada de bom, felizmente fui escalado para acompanhar música de qualidade e o que vi você pode conferir aqui. Nos mais de 500 metros de território livre de cordas e com boa música, a guitarra baiana e o samba do Recôncavo reuniram um colorido raro, diversificado, de gente. Mas era como se fosse um show comum, bacana mas comum. Pra Carnaval se espera mais.

E também pra não dizer que não considerei nada, lembro de pelo menos umas 20 pessoas se divertindo a valer, a moda de Vadinho, de Dona Flor.

Dois travestis, que se acabavam em cima de salto 15, short a exibir a popa da bunda e a dividir a rola, um grupo de gringos pra lá de bagdá, interagindo na base dos abraços e sorrisos e brincadeiras de duplo sentido com um grupo que carregava  bastões de ar vermelhos com a marca do Bradesco,  um outro travestido macho que requebrava sem parar e um grupo de adolescentes beleza pura, quebrando pra valer numa autêntica roda de samba. Mais, não vi.

Morri eu?

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