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Cumeadas

cruz-tratada

Saí ontem caipiroskado de uma confraternização de trabalho. Fim de tarde, temperatura agradável, resolvi voltar para casa a pé.

Andei 3,5km  mas atravessei cidades ao ir do Cidade Jardim, pela ladeira da Cruz da Redenção,  até o Acupe de Brotas. Da perspectiva de pedestre a gente enxerga melhor a cidade, especialmente as pessoas.

Na avenida de vale, só prédios e carros, muitos carros, raros caminhantes, raras mulheres, um cenário definido por  João Ubaldo Ribeiro como Los Angeles de pobre.

Ladeira também semideserta. Mas no topo, a pracinha do Largo da Cruz da Redenção fervilha.

Com Lelé, o arquiteto que gostava de gente, aprendi uma palavra bonita para definir estas partes altas da cidade, onde as pessoas ainda andam pelas ruas e convivem:  cumeadas.

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Espetinhos

Saio em busca de uma lista de remédios perto de casa. Faltou um. Resolvo então andar os cerca de 1.500 metros entre o Acupe e o Largo da Cruz da Redenção, pela D. João VI, ao encontro de outras três farmácias e da garantia de que voltaria com a compra completa.

Sete da noite de sexta-feira, gente, muita gente, na volta pra casa, a fazer compras de última hora, do fim do dia, a beber, a comer, no vai e vem da mudança de turno das ruas de comércio, de botecos, de um tudo. Brotas é um bairro de um tudo, de muita gente nas ruas, de calçadas cheias. Este é o principal motivo da minha alegria nesta penúltima morada em Salvador antes dos dois metros quadrados definitivos.

Se um turista fizesse o mesmo percurso imaginaria que o espetinho –  no meu tempo diziam ser de gato – fosse nossa comida mais típica, apesar de quase uma dezena de baianas de acarajé além de pontos  de mingau, filas para beiju, carrinhos de milho cozido, cachorro quente. Comida é que não falta na rua.  Mas espetinho neste trecho é soberano, servido nas mesas da matriz e das duas filiais da rede Espetinho do Bolero e no Baú do Espetinho, todos lotados. E também nas esquinas, nas calçadas, lá está ele aqui e ali a queimar, sempre cercado de gente, de cerveja e do arrocha.

Não tem como evitar a lembrança da morte, da doença, mesmo com toda a vida nos passeios. Passo por duas funerárias, dois hospitais, muitas clínicas, faculdades da área médica. Alguns  pontos de ônibus concentram mais dores, de quem vem dos tratamentos, de quem acompanha tratamentos.

Se tem morte, tem igrejas,  muitas igrejas, católica, evangélica, pentecostal. A de Nossa Senhora de Brotas, a mais antiga, vazia e enfeitada, à espera de um casamento. Salões de beleza lotados, festa infantil num playground já animada. Frutas, todas que você imaginar, banana a preço de banana, a 1,99 a penca, na promoção da calçada, muitos mercadinhos.

Traio minha baiana e experimento o abará com pimenta da outra. E gosto mais, talvez pela novidade, motor das aventuras. Chego em casa, compra completa,  abro um vinho chileno barato e potencializo meu amor por Brotas.