Posts Tagged ‘CCCP’

Comportas II

21/12/2013

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Cartas e documentos da Rússia estavam numa grande pasta transparente. Espalhei na mesa para arrumar e encaixotar. Mas desarrumei ainda mais.
Maria e André se surpreendem com o alfabeto russo. André futuca as cartas e Maria se espanta  com minhas velhas/nova cara.
– Maldito, diz Maria, surpresa, num  elogio ao jovem barbudo. Por que você engordou, tirou a barba e cortou o cabelo?

Mais CCCP: https://licuri.wordpress.com/?s=cccp

общежитие

30/07/2013

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Sobre o que conversavam esses sujeitos? 1983, residência estudantil (общежитие) da Patrice Lumumba. Mesa de estudo, estante de mantimentos, água, pratos e ao fundo armário de roupas. No corredor, banheiros e cozinha coletivos. Pendurados na estante, chapka e cachecol. Devia ser dezembro. Com Darío e Ernesto, recém-encontrados por aqui. Foto: Sasha Cavalcante — com Ernesto Diaz e Darío Campos Rodríguez.

 

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10200266857890864&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

Não esquecer ninguém, não esquecer nada

10/05/2013

Este é o lema dos russos. Não esquecer nada e ninguém. E ontem  também lembrei ao assistir a parada dos 68 anos. Estava lá nos 40 anos do Dia da Vitória, comemorado desde 1945 no dia 9 de maio. Hoje são 68 anos de lembranças. Fui na caixa de slides guardada há 28 anos, fiz da tela do computador mesa de luz e fotografei de forma amadora minhas fotos amadoras e descolori os slides. O resultado é amador, é de lembranças. b - Cópia (3)] Esta primeira palavra em concreto é “Ninguém” , na frase do não esquecimento  numa rua de Kiev.  b - Cópia (5)  Nos 40 anos da vitória estávamos passeando e entramos num cemitério ao lado de um monastério e ali  encontramos veteranos comemorando, talvez visitando e lembrando dos seus. Na foto, estamos também eu,  Paulo e Zau. Alexandre é o fotógrafo. E abaixo outras fotos  de Moscou e Odessa, recuperadas do baú, do cotidiano e arquitetura da cidade. Depois volto aqui para comentar cada uma delas. a - Cópia (4) Moscou, centro. c - Cópia (5) Um dos parques de Moscou c - Cópia (6) Cerimônia e casamento Passa pelo túmulo do soldado desconhecido. d - Cópia Odessa DSC06130 - Cópia Moscou  f - Cópia (4) Odessa g - Cópia (3) Moscou g - Cópia (4) g - Cópia (6) Museu de História, na Praça Vermelha. a - Cópia (2) Não me lembro, talvez Kiev. d - Cópia (6) Mais histórias e fotos: https://licuri.wordpress.com/category/back-in-the-cccp/   https://www.facebook.com/gusmaomarcus/media_set?set=a.4795379159138.1073741832.1135737937&type=1

Em nome dos filhos

04/03/2010

Conheci Jorge Amado de longe, na fundação que leva o seu nome. Já tava meio cansado e ficou ali dando ibope para uma cerimônia de marketing. Zélia eu vi de mais perto, numa palestra na Escola de Letras na UFBA. Sou fã dos dois. O Jorge escritor eu conheço desde o início da adolescência, quando li Mar Morto e em seguida quase todos os outros, enfileirados.

Zélia eu conheci adulto e foi também com uma sequência de outros  livros lidos, depois de Anarquistas. Zélia me  surprendeu pela escrita leve e concisa, quase pequenos contos concatenados. 

Certa vez fui a um lugarejo da Ucrânia e na biblioteca de uma família tava lá, um livro de Jorge Amado. Eu me senti representado como brasileiro.

Nos quase dois anos em que morei na antiga CCCP, ficava impressionado como muitos soviéticos sabiam quase toda a escalação da seleção brasileira de 82  e conheciam, de ler e não de ouvi falar, a obra de Jorge Amado. 

Foi nesta condição de fã dos pais que conheci hoje Paloma Jorge Amado na casa de Maria, quando gravamos este vídeo acima para o hotblog do lançamento dos livros das duas.

E fiquei sabendo por Paloma o porquê dela trazer o nome Jorge Amado.

Quando postei esta semana o release sobre o lançamento do livro numa lista de jornalistas,  seu nome  gerou um comentário malicioso,  atribuindo a ela própria uma alteração psterior para usufruir da fama. Paloma achou  graça e contou o real motivo,  que revela um gesto bacana do pai:

 Jorge e Zélia vinham de outros casamentos, numa época em que a lei no Brasil não permitia ao homem desquitado registrar  filhos de novos relacionamentos. O nome foi então a saída encontrada para confrontar a lei  burlar a lei e  compensar a ausência da paternidade no registro dos dois filhos: Paloma Jorge Amado e João Jorge Amado.  Simples assim.

Retrovisor

02/10/2009

Sem título

Que espelho enigmático é esse, que vai mudando a cada dia? Quem é esta pessoa separada por duas décadas, aparentemente feliz? Foi melhor, foi pior? Difícil dizer. A dor da gente não sai no jornal nem nas fotos antigas. Não me lembro do café da manhã daquele dia, não sei do dia anterior, nem do dia seguinte. Eram últimos dias de Moscou, talvez maio, primavera de 1995. 1985. Perambulava pelas ruas, me despedia da cidade. Jeans, tênis mal estar, jaqueta, velha zenit a tiracolo. Sim, talvez estivesse feliz. Aquela roupa me deixava feliz, aqueles dias me deixaram mais feliz. Neste espelho de décadas, a felicidade é mais crível. E aumenta a cada dia.

PS: mais sobre URSS: https://licuri.wordpress.com/category/back-in-the-cccp/

 

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Quinca Dodovitch e a comida para os eguns

30/09/2009

DSC00744Sempre experimentei grande prazer por descobertas bobas, mesmo aquelas de amplo conhecimento da humanidade. Não importa. O bacana é ter sido você sozinho  a ter aquele insight besta. Descobrir e juntar coisas. Como, por exemplo, que a terminação vitch nos nomes russos significa filho de. Igualzinho ao interior da Bahia. Meu avô se chamava Quinca de Dodô. Na roça,  todo mundo é, em primeiro lugar, filho de alguém.  Assim, sou Marcus de Dedé, Dedé de Quinca, Quinca de Dodô.
Outra. Nunca imaginaria ver ovos e doces sobre um túmulo do Monastério Novodevitch (foto). A cena deu um tilt na minha desinformada cabeça. Jamais esperarava encontrar na Rússia soviética uma oferenda igualzinha às da nossa santa Bahia. Sob o ícone que guardava o túmulo adornado com  a cruz ortodoxa jazia a comida servida aos eslavos eguns.

Cabelos e pelos

29/09/2009

Ela mora no subúrbio. Ele em outro mundo. Sexo raro, faz tempo. Capote atrás da porta, sapatos na entrada. Peito com peitos, entre eles um suporte rígido, enquanto dançam. Primeiro valisère soviético. Poucas palavras, muitos cabelos.  Os dela na cintura, finos, loiros, muitos.  Pele branca, corpo magro, peitos brancos, bunda branca, púbis ruiva, sexo raro. Finalmente. Vodka, água, vodka, água, vodka, água, vodka. Mundo roda. Primeira vez em muitos meses dele, primeira vez na vida dela. Metrô de volta, cidade vai ao trabalho. Ele pensa na vida. Do corpo sobe um cheiro forte, um cheiro novo. De vez em quando puxa um longo fio enroscado no peito.

Mudaram as estações

27/09/2009

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Mergulhei neste sábado em três centenas de imagens, muitas delas já esquecidas, outras estragadas pelo tempo.

As pequenas caixas de plástico amareladas com os slides estavam no fundo de uma outra grande de papelão, junto com as fotos mais recentes da era do papel, esquecidas no armário.

A tela do computador serviu de mesa de luz e reproduzi morromeno e meio sem foco quatro delas.

A cúpula de uma igreja bizantina é do tipo de imagem recorrente. Eu vivia com o pescoço pra cima, admirando igrejas e monastérios.

O veterano de guerra, com sua chapka cinza e barba branca, figura muitas vezes encontrada no meu baú, representa uma geração marcada pela morte. 

Eles têm mais de 20 milhões de motivos para cultivar  obsessivamente esta memória. De cada três mortos na guerra, um era cidadão ou soldado soviético.

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O outono no parque e o inverno numa bica congelada das imagens acima me fazem pensar no tempo e nas mudanças de estações. 
E me lembrar de Renato, por coincidência, Russo: Por Enquanto.

Chuva no sertão

26/09/2009

Sim, Nilson, caso houvesse a tecla smell no seu computador, você sentiria o cheiro de palha queimando na foto do post anterior. Palha, em maconhês, tem sentido autoexplicativo, ou seja, THC quase zero. Segundo os russos, aquilo era raspa das máquinas que cultivavam cânhamo nas fazendas coletivas das repúblicas da Ásia Central. Naquelas circunstãncias, valia como um danoninho.

Mas o que me dava barato mesmo era a atmosfera dos bosques russos. Gostava de passear por eles e ao lado da nossa habitação havia um, com direito a lago, ponte, bancos para estudar. Era nele que eu via mais nitidamente o passar das estações. O bosque da foto do post anterior é um dos muitos dos arredores da cidade, generosa em áreas verdes e parques. Gostava especialmente de perambular entre suas árvores no outono, com chuvas de folhas amareladas, e, na primavera, com os brotos surgindo dos galhos secos, muito semelhante aos dias seguintes à chuva no sertão.

Lumumba para blog

No balão A do mapa do google acima, a localização do prédio principal da  Universidade Russa da Amizade entre os povos . Avançando sobre o bosque, fotografado pelo satélite no outono,  estão salas de aula, clube, magazine, correios. À direita, no círculo vermelho, as habitações onde vivíamos. Ao fundo, o lago.

Vou postar mas não vou escrever agora

25/09/2009

Bosque, Moscou, 1985

Ivo viu o óbvio

24/09/2009

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O pensamento parece uma coisa à toa. Mas além de dar asas,  puxa pensamento, que puxa pensamento, que puxa lembranças, que surgem aparentemente do nada.  Caóticas.

Em vão, tento uma narrativa linear. Não dá. A fraca memória não permite. Então vamos aos pedaços mesmo, nesta tarefa de apertar a tecla rew  para aquele setembro de 26 anos passados.

Passei algumas horas no aeroporto de Dakar. Alexandre lembra aqui com detalhes o incidente com o cargueiro inglês, que aumentou o nosso tempo no aeroporto. Eu havia esquecido completamente.

Mas lembro de algumas impressões.  Da noite quente e do vento morno ao desembarcar na pista. O Aeroporto era como o de Salvador até há pouco tempo, quando você desembarcava em escadas e pisava o chão. Colocar o pé na África, mesmo que fosse só na pista do aeroporto, tinha um simbolismo forte.   Ao subir as escadas para o segundo andar, tive a sensação de ter entrado no Mercado Modelo, em meio a barracas de artesanato.  De Buenos Aires, havia atravessado o Atlântico e retornado direto para a Bahia.

Uma volta a mais me fez ver que não era bem assim. Alguma coisa estava fora da ordem. Eu não estava na Bahia, mesmo. No saguão, membros da  chamada classe dominante vestiam batas vistosas e roupas coloridas. E tinham o ar de classe dominante, aquele ar de superioridade, de quem veio ao mundo para ser servido. E o que estava fora da ordem? A classe dominante ali, pelo menos parte dela,  era negra.

Tá certo, Ivo viu o óbvio. Mas ver o mundo de outra perspectiva é o óbvio que fascina numa viagem. O óbvio que muda a cabeça da gente. Que faz pensar. Mesmo que seja um pensamento à toa. E óbvio.

Na falta de uma foto de Dakar, apelo para esta das crianças peladas, no inverno de Odessa.

Onde fica o metrô?

23/09/2009

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Fizemos a pergunta algumas vezes e ninguém sabia informar onde ficava o metrô na cidade. Até que alguém: ah, subter? ali.

Estava fascinado com as novidades e andar naquele metrô com cara de cinema anos 20 já havia valido a viagem. A Praça de Mayo era bem menor e mais chfrim que a nossa imaginação, mesma impressão que teve Bernardo recentemente.

As avenidas largas, os colegiais com paletó e saias, os suporte para prender os carros nos estacionamentos de rua, os ônibus cujos motoristas eram também cobradores,  famílias passeando a noite pelo calçadão da Calle Florida eram as primeiras imagens absolutamente novas, que me davam pela primeira vez a sensação de estar no exterior, este lugar tão distante de nós brasileiros, mais ainda brasileiros pobres.

Os cartazes de propaganda eleitoral de Alfonsin eram maioria nas paredes e muros da cidade e calorosas discussões  políticas eram vistas a cada esquina, como se estivessem discutindo futebol. Tudo novidade pra mim.

“A grana deu certinho” escrita no postal talvez tenha sido uma forma de tranquilizar a mãe. Não fosse a generosidade de Alexandre, que dividiu os dólares dados a ele pela família, o bicho ia pegar. Ainda mais no dia seguinte, na hora de embarcar. Pra mim inexistia taxa de embarque, tudo estaria incluído na passagem. Não estava. E mais uma vez os dólares de Alexandre vieram em meu socorro.

Alexandre e Zau eram os outros dois “baianos” contemplados com a bolsa para a Patrice Lumumba. Na verdade, Alexandre era gaúcho mas vivia com Zau e os dois foram indicados juntos. Qual o critério para ganhar a bolsa? Este mesmo, o universal QI. E quem indicava eram membros do PCB,  o partidão. Zau era cunhada de Paulo Miguez, então um dos quadros do partido na Bahia. Hoje Miguez é professor da Universidade Federal do Recôncavo.

Eu fui terceirizado. Na verdade a bolsa era para Josias Pires, colega desde os 15 anos na Escola Técnica e morador como eu de uma casa república no Garcia, bem estilo anos 80. Ele não quis ir e me indicou. Quem trouxe as  “vagas” foi George Gurgel, então recém-formado do curso de Geologia da Lumumba. Na Festa do Bomfim de 2007 eu o entrevistei como pré-candidato a prefeito de Salvador pelo PPS.

Estava no fim de um curso de jornalismo na UFBa, curso que não levava muito a sério, principalmente porque meu negócio nunca foi escrever. Eu queria (e ainda quero) ser fotógrafo e a viagem poderia ser um trampolim para um curso de fotografia na então Alemanha Oriental. Este era o meu plano infalível do Cebolinha. Como veremos adiante, não deu certo.

A bolsa havia sido prometida  para 1º de setembro de 1982. Mas a burocracia, marca registrada dos comunistas, só confirmou mais de um ano depois, em meados de setembro de 1983 com um telefonema e um ultimato: em 15 dias você deve estar em Buenos Aires para pegar a passagem e embarcar.
Mesmo faltando apenas um ano pra me formar, resolvi recomeçar o curso de jornalismo na Lumumba.

Distribuí meus poucos discos e livros, peguei um ônibus até Conquista e de lá, via via BR 101, até São Paulo, onde fui acolhido pela prima Nete. Por Pouco não perdia o embarque na rodoviária em direção a Buenos Aires.

Na noite anterior fui abordao pela polícia, e levei um baculejo porque estava parado, contemplativo,  em frente ao portão do Cemitério da Aclimação,  de chapéu preto tipo fedora (emprestado da coleção da minha prima) e um casacão daqueles usado por Antônio das Mortes, comprado na Feira de Conquista.

Desde criança, em Castro Alves, sempre gostei de admirar cemitérios. Não gosto da idéia de morrer, mas gosto de cemitérios antigos.

Mais detalhes destes dias  na versão de Alexandre nestes dois posts:
http://sashacavalcante.blogspot.com/2005/11/adeus-aos-trpicos_04.html
http://sashacavalcante.blogspot.com/2005/11/sada-clandestina-do-brasil.html

Depois reler, reler e reler. E retomar o ciclo…

22/09/2009

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O título acima faz parte da última frase do post de Chorik sobre a descoberta de suas filhas do ritual de escrever e receber cartas. Leia aqui. O post me lembrou uma história que me contaram de um menino que perguntado pela professora o que era uma carta, respondeu : um e-mail escrito a mão.

Vivi este ritual de escrever e esperar e-mails escritos a mão, cotidianamente, entre setembro de 1983 e julho de 1985. Cheguei a desenvolver um certo transtorno obsessivo compulsivo  ao abrir a caixa dos correios que ficava na entrada da habitação coletiva em que vivia tantas quantas vezes passasse por ela.

Ao ler o post de Chorik fui então ao velho classificador e lá estavam elas, amareladas, cheias de histórias. São as cartas que recebi dos amigos e da família e as que mandei pra casa. Estão  embaralhadas, vai dar trabalho organizar para tirar delas as informações que preciso para ajudar minha estragada memória nesta empreitada que me incute no momento, a quase impossível tarefa de um desmemoriado resgatar memórias.

Pausa para uma página musical:

Cartão Postal

Descubro então  no bolo um postal enviado de Buenos Aires, no dia 26 de setembro de 1983: “Chegamos ontem pela manhã e hoje estamos resolvendo os documentos. Amanhã 9 horas voaremos…”.

Voltarei ao postal, mas ele ja me permite saber que cheguei em Moscou no dia 28 de setembro. Noto então que  este é  um dia especial na minha vida. 12 anos depois  nascia Luísa, a primeira filha, que na próxima segunda, 28, completa 14 anos. Lembro que quando ela tinha 6 ou 7  prometi que quando fizesse 15 iríamos a Moscou.

O tempo passou depressa demais, vieram André e Maria, agora somos cinco e só  me resta negociar o prazo: que tal aos 18, Lu?

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=2530544979699&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

Back in the CCCP

19/09/2009

Rússia

O Tupolev e o hospital do post anterior me levaram de volta à CCCP, onde cheguei  em setembro de 1983, depois de um vôo atribulado e tenso  Buenos Aires-Dakar-Budapeste-Moscou. Poucos dias antes um míssel soviético havia explodido  240 passageiros e 29 tripulantes de um Boeing civil da Korean Airlines. Da janela do avião, qualquer coisa que se movia no horizonte era o míssel da vingança em direção ao barulhento Aeroflot, onde eu seguia com Zau e Alexandre, parceiros da empreitada.

Nilson vive insistindo para eu contar aqui histórias destes 22 meses em terras soviéticas, como bolsista da Universidade Patrice Lumumba. Já se passaram  26 anos, perdi a língua que aprendi a trancos e barrancos, a memória é uma vaga lembrança, mas é chegada a hora de relembrar. Afinal, tem o google para ajudar e informar, por exemplo, o número de passageiros, de tripulantes, o fabricante e a empresa do avião acima e como se escreve certinho Back in the URSS, com direito a ouvir e ver  imagens dos Beatles em Moscou. Desse jeito é bem mais fácil.

Já contei aqui, mais de uma vez,  três histórias. O dia em que quase fui preso e deportado de Lenigrado ao fazer xixi na madrugada nos jardins da Catedral de Santo Isaak, o dia em que uma russa invadiu meu quarto e quase  me fez cantar Eu não sou cachorro não e o dia em que por pouco não afundei nas águas do Rio Dnepr, em Kiev, por causa de uma foto.

Ainda há algumas histórias, mas vou começar com uma foto. Esta acima,  ao lado da professora de russo Ludmila,  em frente à casa museu onde Wladmir, o tal Lenin, passou seus últimos dias, nos arredores de Moscou. Foi um passeio escolar da minha turma do curso preparatório, que em russo é algo como padgatoviltena facultet. Ao lado de Ludmila estão uma garota do Nepal;  Zadic, do Panamá; Hosny, da Síria; Morradeo, do Nepal e eu, a bordo dos meus 23 anos.

Mais CCCP: https://licuri.wordpress.com/?s=CCCP

Silêncio!

18/09/2009

Hospital Santa Izabel 01

Minha primeira lembrança  de  hospital é a imagem de uma moça branca, com quepe branco,  dedo indicador nos lábios e a palavra silêncio em letras vermelhas num cartaz colado em quase todas as paredes.

Lembro do cheiro forte de éter,  de minha mãe deitada na cama do Hospital São Geraldo, em Conquista, convalescente de um aborto espontâneo. Lembro disso hoje, mais de quarenta anos depois, aqui  ao lado dela, deitada, convalescente de um exame simples, mas que aos 79 e artérias comprometidas exige internamento mais demorado.  

Nasci no São Vicente, da Santa Casa de Misericórdia de Vitória da Conquista, pelas mãos de irmãs parteiras. Agora estamos no Santa Izabel, também Santa Casa de Misericórdia, e ela me conta que cheguei ao hospital já coroando. Nasci cinco minutos depois, sempre apressado. Este papo a gente teve às cinco da manhã.

Nada como necessidades médicas para tirar a gente da correria pra não sei onde e nos devolver a prosa sem pressa da madrugada de um hospital.
Sua companhia oficial é uma de minhas irmãs, a caçula mulher dos seis filhos. Estou aqui de turista, na segunda noite de acompanhante. Na primeira, dormi como uma pedra e nem ouvi as gozações da enfermeira a perguntar a ela quem acompanhava quem.

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Mas esta noite, um Tupolev disfarçado de ar condicionado nas minhas costas, com pontuais decolagens e pousos forçados a cada 20 minutos, não me deixa dormir. Então rascunhei este post e botei a conversa familiar em dia. Minha mãe está na ala mais feia do hospital, num apartamento do segundo andar de um puxadinho, construído ao lado do prédio do século XIX, cercado por gradis forjados em Valença. Minhas andanças pelos hospitais de Salvador indicam que a tendência arquitetônica adotada pela maioria é o estilo puxadinho-caixote-asfixiante.

Na ala mais antiga e mais bela do hospital, estão as enfermarias, que conheci a caminho do refeitório. Seus corredores de pé direito alto, suas portas em arco, me lembraram um hospital para onde fomos levados os estudantes estrangeiros, recém-chegados a Moscou, também num setembro, em 1983, para os exames médicos. Eu, que havia sido deslocado pra longe, tive a sensação de ter sido levado a outra viagem, desta vez no tempo. Voltei no tempo também ao percorrer  os corredores do Santa Izabel.

Não gosto de hospital, ninguém gosta, mas prefiro os mais amplos, mais abertos. O único em que se respira nesta cidade é o Sarah, pensado para aproveitar a brisa, pensado para acolher e não encaixotar. De resto, o que impera é a arquitetura do caixote e do puxadinho. Será que um dia a arquitetura do Sarah vai chegar aos demais hospitais?

Hospital Santa Izabel 03

Nostalgia, 2ª ed. não revista

30/08/2009

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De Cássia Eller, ao vivo, numa noite quente no Ad Libitum. De Raul Seixas no alto-falante numa tarde chuvosa em Conquista. Do gosto de jenipapo, de gemada e de manga no pé e da busca por estrelas cadentes no peitoril da roça de tio Descartes, nas noites sem lua das Minas Gerais. Da porrada da de Tchaikovsky num vinil Grammophon comprado na Carlos Gomes. Do gosto de picolé salgado pelas ondas e do sanduíche de sardinha no Porto da Barra, seguidos de almoço com macarrão e pudim de sobremesa. De Picolé premiado. De vela na lata em forma de lanterna quando faltava luz em Castro Alves, pelas ruas com a meninada. De comer licuri. Do cheiro de gaveta velha cheia de tranqueiras mais velhas ainda. De beber em avião. Da minha primeira insônia aos seis anos depois de um espetáculo do Circo Thiany. Da Música O Divã numa vitrola vermelha. De Vick Vaporub.  De receber uma carta coberta de selos. Do pátio do Polivalente de Castro Alves. De um macaquito vinho. Da alegria da notícia do primeiro filho. Das noites dos nascimentos dos três. De ver as luas de Júpiter e os anéis de Saturno. Dos rios da Chapada. De dirigir um caminhão 608D nas madrugadas de Conquista aos 14. Das escadas do Centro Cívico da ETFBa. Da padaria, do balcão e da sanfona do primo Aldinho na venda de Tio Deoclides em Tanhaçu. Da cachoeira de Mané Roque. De São João. Da boléia de um caminhão, de carona. Da cidade de Tiradentes. Das arquibancadas do Parque de Exposições de Conquista. Do balcão da loja de tecidos do tio Ruguinha. Da Iemanjá num quadro da sala de Tia Lurdes.

Da estante de pranchas de madeira e blocos de argila da casa do Garcia. De chacretes. Do cheiro de murta no passeio da Leovigildo Filgueiras às duas da manhã. De mata-burro nas estradas. De estrada. Do sonho de mudar o mundo. Do cheiro de sargaço do primeiro banho de mar, em Amaralina. De uma paulista entre amigos. De uma paulista a dois. De confiar em todo mundo. De chorar copiosamente. Da Via Láctea no  céu da roça de tio De Assis. Do frio. Da cama do Hotel Livramento. Do quarto do Hotel Lisboa. Do Rio Neva. Do quintal do Hotel Maringá. Do Cine Madrigal. Da gamela de coalhada na despensa e do leite espumando no curral, no copo de alumínio com açúcar. De falar nie za schtô. Da luz que apagava às 10 em Tanhaçu, depois de três avisos. De pescar acari com saco de estopa no barranco do rio. De pescar traíra com anzol. Das escadarias do TCA.  De vento frio na cara. De plantar alface. De tênis Mal Estar. De tampinhas premiadas. Da seda azul do papel da maçã. Da música Trem das Cores. Do tédio dos domingos. De larica. Dos círculos na água formados pelo impacto da chuva no jardim dos meus cinco anos. Do tal pretérito a cada dia mais  perfeito já falado aqui. Do tempo em que eu era imortal.

Em 03/03/2008

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=4513112262642&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

Crédito da imagem

Cобака

29/08/2008

Moscou, 1984. De repente entra no quarto uma garota. Não sei como burlou a segurança das babushcas na portaria da habitação coletiva. Bem crescidinha, insiste em fazer o tipo Lolita. Deita apoiada nos dois cotovelos em uma das duas camas e começa a falar. E fala, e fala, e interroga, e continua falando pelos cotovelos… Digo sim, não, não, sim, pode ser (da, niet, mojet bit). E só. De vez em quando fica apoiada em um só cotovelo, com a outra mão mexe na ponta de uma das duas tranças longas do cabelo preto, revira os olhos, faz caras e bocas e fala, e fala. Cruza e descruza as pernas enfiadas em um macacão jeans último modelo no mercado negro. Olhos negros, bochecha rosada, camiseta branca. E fala, e interroga, e fala… Eu continuo um monossilábico gago, ali parado, olhando para ela.

De repente fica muda. E faz a última pergunta:

_ E você não fala nada?

_ Não, mas entendo.

_ Ummmm, como cachorro. Entende tudo e não fala nada…

Lembro dessa história toda vez que ouço alguém dizer que entende uma língua. Passados 23 anos, continuo não sendo cachorro malmente em português. E apenas português do  Brasil.

Mas, voltando à menina de tranças, digo, miserável de tranças, descobri hoje, graças a são google, que para me humilhar ela havia feito referência a um ditado russo:

я как собака – все понимаю и вижу, а сказать ничего не могу…

Como um cachorro, tudo entendo e vejo. Mas não posso falar nada…

Taí, um bom ditado pra gente usar também ao testemunhar o indizível.

(P.S – quando alguém repete uma história na minha família, lembram meu pai: Lá vem Dedé com o caso da viola. Herdei dele esta mania de repetir histórias. Esta post já é conhecido dos dois ou três leitores antigos do Licuri e foi recontado umas muitas vezes entre amigos. E  como isto aqui tem ficado mais movimentado por conta do destaque nos blogs de Maria Sampaio e agora Bernardo – tou quase mudando pro blogspot para ter este recurso de bandeirar os e-amigos – resolvi então republicar o meu post do cachorro dois anos depois da primeira postagem).

Lá fora

17/07/2008

É ridículo quando no meio de uma conversa uma pessoa que a gente mal conhece busca desculpas esfarrapadas para informar viagens ou experiências lá fora. Começam invariavelmente assim: porque lá fora é diferente. Ou: eu ficava impressionado com… . Tem a variação sobre o mesmo tema que começa com o baiano é isso, o brasileiro é aquilo, para em seguida, a pretexto de protesto, encaixar sua viagem, sua experiência lá fora.

 

Pode falar, pode rir de mim, mas hoje eu vou protestar também.

 

O baiano é foda. O baiano que frequenta o TCA é mais foda ainda. E o baiano que frequenta a Série TCA, de concertos pré-pagos com atrações internacionais, piorou. Quando eu freqüentava a sala Tchaikovsky, em Moscou, ficava impressionado com o silêncio durante os concertos. No intervalo era um sinfonia de pigarros, coça-coça, tosse-tosse, remelexo na poltrona, cochicho com o vizinho. As pessoas faziam todos os pequenos barulhos aprisionados durante a música e ainda se antecipavam e tossiam o que teriam vontade de tossir e coçavam o que sentiriam vontade de coçar quando a música recomeçasse.

 

Pois bem. Realizei ontem um antigo desejo. O de ouvir pessoalmente o violoncelista cabra da peste pernambucano Antônio Menezes. Pela fama e pela qualidade. Dizem que ele é o nosso melhor violoncelista de todos os tempos. Veja o sujeito em ação aí em cima, regido por Karajan, em 1986.

 

Gosto muito do som do violoncelo, o caminho do meio das cordas. Não é tão pequeno quanto o violino nem tão grande quanto o contrabaixo. Consegue reunir as qualidades de um e de outro. Ri e chora pesado, vai aos dois extremos com sonoridade, principalmente quando o tocador é uma fera, como neste caso.

 

E ainda tem outra qualidade extramusical. É o instrumento muito sensual em mãos femininas. Na época em que eu ainda desejava outras mulheres, e isto já vai fazer  15 anos agora em agosto, ficava nervoso na platéia ao ver uma violoncelista que havia na Osba, que ainda maltratava o público, de safadinha, ao  puxar levemente o vestido preto até um pouco acima do joelho quando cravava a ponta do instrumento entre os pés afastados e se ajeitava na cadeira antes começar a tocar.

 

Mas voltando ao que interessa, ontem chegou o grande dia. E pra completar a quase felicidade, o cabra ainda tocou um concerto de Dvorak que a gente tem aqui em casa. Que sensação boa. É como ir para um show de lançamento de disco e lá pelo meio nosso ídolo tasca aquela música que a gente conhece.

 

Mas a felicidade terminou aí.

 

Sabe todos aqueles barulhos descritos acima, no intervalo dos movimentos de um concerto na sala  Tchaikovsky? É puro silêncio se comparado ao comportamento da platéia de ontem no TCA durante o concerto. O cara lá arrancando aquele último som, do último milímetro da corda, no último milímetro do arco do violoncelo e atrás de você um casal cochicha, como se estivesse ouvindo um cover de Oswaldo Montenegro no extinto Casquinha de Siri. Outra dupla resolve sair no meio do concerto e uma senhora toda empeterecada insiste em tirar algo de uma embalagem de plástico de dentro da bolsa. Pára e começa, pára e começa, num scrisch-scrisch-scrisch-scrisch-scrisch só interrompido com o psssssiiiiiiiu! de um neurótico como eu sentado do outro lado. No intervalo do primeiro para o segundo movimento, que para azar nosso tinha ares  de gran finale, o teatro veio abaixo em aplausos, enquanto o maestro mexicano permanecia com a batuta em riste, talvez na tentativa de segurar a concentração do grupo para seguir em frente. Nada contra aplaudir entre os movimentos de uma música ou até em cena aberta. Se a emoção bateu, bater palmas é saudável. Não vou censurar a emoção de ninguém.  O problema é que estas palmas, tenho quase certeza, foram motivadas apenas pelo sentimento de rebanho dos meus queridos conterrâneos. Baiano é foda.

 

Mas ontem aconteceu algo louvável. Não ouvi tocar nenhum celular.

Raskólnikov e eu vivemos o dilema de Tostines

20/05/2008

 

 

“А впрочем,  я  слишком  много  болтаю.  Оттого  и ничего не делаю, что болтаю. Пожалуй, впрочем, и  так:  оттого  болтаю,  что ничего не делаю”.

 

Раскольников.

Преступление и наказание – Федор Михайлович Достоевский.

 

 

“Pensando bem, eu ando falando pelos cotovelos. É por não fazer nada que falo pelos cotovelos . Ou pode ser assim também: eu falo pelos cotovelos porque não faço nada”

 

Raskólnikov.

Crime e Castigo – Fiódor Mikhailovich Dostoiévski.

 

Mas nestas questões de matraquear quem tem razão é o outro russo, o Renato: “…fala demais por não ter nada a dizer”

 

Há tempos comprei Crime e Castigo, traduzido direto do russo por Paulo Bezerra. Estava na estante esperando e ontem achei a versão russa na Internet, na íntegra. Estou praticando o esporte penoso e divertido de ler uma frase em um e depois no outro. O objetivo, além da diversão, é recuperar um pouco do russo perdido em 23 anos de esquecimento.

Kiev

15/05/2008

Futucando fotos antigas para ampliar o álbum no orkut me deparei com esta aí, que quase me impede de estar aqui contando esta história. Como sempre fazia nas excursões oficiais de férias da Universidade Partrice Lumumba, tomava meu café com todos no hotel e depois caia no mundo sozinho com minha velha máquina Zenit. Depois de visitar uma catacumba e um  monastério desci para  a margem do Rio Dnepr e me deparei com dezenas destes pescadores. Achei a cena muito engraçada. Os caras sentadinhos, diante de um buraquinho feito com este saca rolha gigante, pacientemente esperando o peixe. Cansei de esperar aparecer um peixe e fui me afastando para pegar um melhor ângulo. E os caras me chamando. E eu empolgado com as fotos, nem dava bola. Nada aconteceu, mas seu eu tivesse dado mais alguns passos, poderia ter afundado com Zenit e tudo. Na medida em que você avança, a camada de gelo é mais fina, em direção ao meio do rio, onde ainda tem água correndo. Na volta ouvi as broncas dos caras, me dei conta do perigo, mas segui flanando pela cidade sem dar bola para riscos, qualidade de quem tem pouco mais de 20 anos.