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O céu, as grávidas, o quartzo, a fila no Aristisdes Maltez e o mineiro

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Impossível não olhar para o céu de Salvador nestes dias, especialmente ao entardecer. É preciso dizer, os dias estão lindos, o tempo chama pras ruas – não é à toa que a Barra está entupida de gente – pra areia, pro litoral. Tento sintonizar estas coisas, afinal estou em férias, é Verão e a vida tem que ser bela.

Mas meus olhos incutidos cismam em olhar em outra direção. É como quando frequentei o curso técnico em Geologia, quartzo, feldspato e mica me saltavam aos olhos nos paralelepípedos. Quando trabalhei na Coelba, de repente as subestações ficaram todas visíveis. Nas três gravidezes de Soraya, o mundo inteiro engravidou junto.

Talvez por isso, por essa sintonia destes dias,  hoje às 5 e meia da manhã recebo o bom dia de uma fila de mais de quatrocentos metros na porta do Aristides Maltez, semelhante àquela de 2013, registrada aqui.

Impossível não ver a fila, impossível não se incomodar nestes dias em que de alguma maneira estou nesta fila, frequento a rede pública de saúde. E minha cabeça, apesar deste céu de janeiro, não deixa de latejar com perguntas quase infantis.
Por que é assim? por que tem de ser assim? por que não muda? o que precisa ser feito para mudar?

Vou continuar, mesmo sem resposta,  me incomodando, incomodando você. Difícil acostumar com isso.

É mais ou menos  como naquela velha piada do mineirinho, esbaforido e agoniado diante do compadre:
–  Corre, vem ver, tem um mulherão  tomando banho pelada ali na lagoa.
–  Uai, até parece que você nunca viu mulher nua, retrucou o compadre.
–  Claro, uai, já vi muitas. Mas nunca me acostumei.

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Difícil entender, difícil acostumar

Moro num prédio popular, destes antigos,  de três andares com escadas de marmorite  e telhado de Eternit, no bairro da Pituba, em Salvador. O prédio e o morador são pobres, mas o bairro tem Índice de Desenvolivmento Humano (IDH ) quivalente ao dos paises nórdicos. O IDH é medido pela educação, renda e longevidade.

Saio pra buscar Luísa na aula de circo e dou de cara com passeios entupidos de lixo. Quero na verdade escrever um post sobre o que vi na aula de circo, mas antes registro aqui o que vi em menos de 50 metros de passeio de minha vizinhança com IDH nórdico. 

É dificil entender, é difícil acostumar. As fotos foram tiradas numa sequência, no mesmo passeio de uma rua que costuma ficar alagada nos dias de chuva. Vou aproveitar e enviar estas fotos como sugestão de pauta  para os jornais e as emissoras de rádio e TVs. Pauta é a decisão de um meio de comunicação em abordar um assunto. Ela vai para as mãos do repórter e do foógrafo, que se encarregam de tranformá-la em notícia. E este assunto cabe na editoria de cidade, na editoria de cultura, na editoria de saúde. Tomara que vire notícia, embora a cidade já esteja acostumada. 

Antônio

Mônica tem uma língua de sogra. Não pise no calo da mãe de Soraya porque você ouve, e ouve muito. Mas ao mesmo tempo, quando se apaixona por uma pessoa, é um problema, um grude. Deus no céu e a dita cuja ou dito cujo na terra. Ela diz que me adora. Às vezes, somente às vezes, acredito. Diz também que adora seu médico, Dr. Renato, aí eu acredito.

Minha sogra me inferniza todo aniversário de Dr. Renato para escolher um livro de presente. Traz molho de pimenta do interior para Dr. Renato, sabe da vida de Dr. Renato, de suas não-férias, de suas viagens, seus congressos, e não toma nenhuma decisão sem telefonar antes, pro celular, é claro, de Dr. Renato.

Este amor é antigo. André já vai completar oito anos em outubro e ele tinha três meses quando Mônica descobriu um câncer de mama. Desde então conhece todas as rotinas de hospitais e clínicas, viveu dias difíceis, vem a cada 21 dias do interior para o encontro com seu “amado”,  e com novas drogas que lhe têm permitido encarar de cabeça erguida as longas viagens e outras brabezas da vida. Os netos adoram suas visitas.

Lembrei de Dr. Renato ao ler em Chorik a matéria da folha “SUS terá tratamento integral de câncer”,  que merece um estudo de caso e um e-mail para o ombudsman. Lá pelas tantas, a oncologista Nise Yamagushi diz que a integração dos serviços oncológicos é “uma ótima notícia” e terá impacto positivo nas chances de cura de pacientes do SUS, já que a fila de espera é de 1.200 pessoas e a demora para o tratamento chega a 120 dias, no hospital de Barretos, referência nacional em atendimento no SUS.

Na Bahia, a dona de casa Márcia de Jesus Campos informa à repórter Marilena Neco  em matéria do jornal A Tarde, que quando tentou tratamento no Hospital Aristides Maltez, o prazo para a consulta, repare bem, para a consulta, era de oito meses.

 Tenho a nítida impressão de que o jornal paulistano, tão cioso e crítico em outros assuntos, comeu bola direitinho neste caso. E parece ser um problema do caderno Ciência, de quem já me queixei por conta de uma matéria/release sobre o viagra.

Vale então a pena alertar o jornal  para o que repórter e editor não viram, mas que não passou despercebido por Maria e foi bem anotado por Chorik. A estratégia do SUS me lembrou aquele caso clássico de licitação dirigida. Para se livrar de possíveis candidatos a um serviço, o edital impõe condições impossíveis de serem cumpridas por alguns. Parece que este foi o caminho encontrado pelo SUS para se livrar das clínicas credenciadas. O e-mail do ombusman da folha é ombudsman@uol.com.br.

E se a cada dia o tratamento do câncer é feito em sua maior parte em atendimento ambulatorial, por que a gente não deixa o hospital para as horas mais necessárias?  Será que a solução não seria juntar os dois? Já que há carência de leitos, carência de pessoal, há filas enormes, por que não somar os recursos? Claro, o tratamento contra o câncer é caro, não tem pouco dinheiro envolvido nesta história. Cabe também transparência na aplicação dos recursos, saber quanto é destinado aos hospitais pelo SUS, quanto é destinado às clínicas particulares. Por isso a discussão do assunto via jornais, rádios e tvs, iniciada por Maria, é fundamental.

Mas voltando à história  de amor  de Renato e Mônica, que não é atendida pelo SUS mas pelo seu primo também pobre embora mais limpinho e mais digno, o Planserv, a matéria da Folha indica também uma solução que pode ser uma das chaves do sucesso do tratamento de minha sogra e já é colocada em prática aqui na Bahia pelas clínicas particulares.

Os  bem intencionados do Ministério da Saúde têm razão quando falam que o tratamento descontinuado em várias clínicas gera o paciente ioiô, que fica pra baixo e pra cima para completar o atendimento. E Alberto Betrame explica que em São Paulo serviços com habilitação provisória continuam responsáveis pelo paciente, mesmo que eles sejam encaminhados a outras unidades  para tratamentos complementares.

É justamente isso que Dr. Renato já faz aqui na prática com os pacientes de sua clínica. Ele tem todo o histórico da minha sogra, quando ela precisa ser internada ele é quem indica o hospital, entra em contato com os médicos, dá informações preciosas, enfim participa integralmente do tratamento. E este não é um privilégio de minha sogra, mas procedimento com todos os pacientes da clínica.

Volto então agora mais de quatro décadas no tempo e constato que não me lembro da voz do meu avô Antônio. Lembro do quarto na casa da minha tia Dalva, lembro do silêncio, da luz, da limpeza, de uma das filhas dando água de colherinha, lembro do seu rosto magro e olhos azuis. Não lembro de dor, não havia dor, ou melhor, sua dor ele não deixava chegar ao menino de cinco, seis anos. Só anos depois soube que a água na colherinha era por conta de um câncer no estômago.

Lembrei também de meu avô quando estive num início de tarde ao lado de Marcinha, sentada na poltrona de frente para a vidraça, de frente para o mar de Ondina, quando ela recebia o tratamento quimioterápico  ambulatorial. Em quase  nada aquilo ali  parecia o quarto na casa da minha tia onde Antônio fazia seu “tratamento” a doses de água na colherinha. Mas a luz, a tranqüilidade do lugar, o aconchego, me trouxeram de volta a lembrança de Antônio, este sujeito que a vida não me deu o tempo e o prazer de conhecer direito e  que você pode ver aqui, rodeado de sua renca, em 1937.

Sei que estou embaralhando as idéias, mas fui até meu avô para chegar a uma palavra que pode ser fundamental nesta discussão sobre assistência x desassistência no tratamento contra o câncer, levantada por Maria. Sei que é bem subjetivo, mas se conseguirmos juntar eficiência médica com aconchego, estaremos bem mais perto de uma situação ideal.