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O céu, as grávidas, o quartzo, a fila no Aristisdes Maltez e o mineiro

12/01/2015

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Impossível não olhar para o céu de Salvador nestes dias, especialmente ao entardecer. É preciso dizer, os dias estão lindos, o tempo chama pras ruas – não é à toa que a Barra está entupida de gente – pra areia, pro litoral. Tento sintonizar estas coisas, afinal estou em férias, é Verão e a vida tem que ser bela.

Mas meus olhos incutidos cismam em olhar em outra direção. É como quando frequentei o curso técnico em Geologia, quartzo, feldspato e mica me saltavam aos olhos nos paralelepípedos. Quando trabalhei na Coelba, de repente as subestações ficaram todas visíveis. Nas três gravidezes de Soraya, o mundo inteiro engravidou junto.

Talvez por isso, por essa sintonia destes dias,  hoje às 5 e meia da manhã recebo o bom dia de uma fila de mais de quatrocentos metros na porta do Aristides Maltez, semelhante àquela de 2013, registrada aqui.

Impossível não ver a fila, impossível não se incomodar nestes dias em que de alguma maneira estou nesta fila, frequento a rede pública de saúde. E minha cabeça, apesar deste céu de janeiro, não deixa de latejar com perguntas quase infantis.
Por que é assim? por que tem de ser assim? por que não muda? o que precisa ser feito para mudar?

Vou continuar, mesmo sem resposta,  me incomodando, incomodando você. Difícil acostumar com isso.

É mais ou menos  como naquela velha piada do mineirinho, esbaforido e agoniado diante do compadre:
–  Corre, vem ver, tem um mulherão  tomando banho pelada ali na lagoa.
–  Uai, até parece que você nunca viu mulher nua, retrucou o compadre.
–  Claro, uai, já vi muitas. Mas nunca me acostumei.

Ambivalência

28/10/2013

Sempre achei esta palavra negativa mas hoje fiquei mais amigo dela ao me tornar menos ignorante depois do comentário de Luiz Felipe Pondé, na Metrópole, quando foram citados vários exemplos da nossa natureza ambivalente. Eu me vi ali no que ele falava.
Sou ambivalente sobre Deus, sobre aborto, sobre vícios, e muitas outras coisas sobre as quais pessoas normais nem pestanejam.
E não bastassem estas ambivalências existenciais ainda tem aquelas pequenas do dia-a-dia.
Meu André completa 12 anos na quinta-feira e há algum tempo reivindica o direito de voltar sozinho da escola, uma caminhada de cerca de 1 km. Eu quero deixar, mesmo com medo, mas a mãe resiste.
Hoje resolvemos um meio termo. Ele viria andando a metade do caminho e nos encontraríamos num ponto de passagem. Chego depois do combinado e não encontro o menino. Sigo a pé em direção à escola, esqueço o telefone no carro. No meio do caminho avisto uma aglomeração.
Na rua dos fundos da escola, próximo onde passamos todos os dias, havia acabado de acontecer uma troca de tiros na tentativa de tomada de um carro de assalto. O motorista reagiu, levou um tiro na mão. O assaltante foi atingido na virilha, correu e tomou um carro de assalto adiante, assim disseram.
Fiz o percurso duas vezes sob o sol, até conseguir telefonar para casa e encontrar finalmente André, que não me esperou e levou uma bronca.
Mas o pior é amanhã e a tal ambivalência: deixar ou não o menino experimentar a rua.

https://www.facebook.com/gusmaomarcus/posts/10200753791583902

Teletubbies

13/08/2013
Teletubbies

Quem primeiro me falou deles foi Guilherme Filgueiras. Não acreditei. Como Tinky Winky, Dipsy, Laa-Laa e Po, nossos teletubbies vivem no subsolo. Mas o Tubbytronic Superdome dos nossos fica ali no Rio das Tripas e não tem nada de encantado.

Não tive coragem de conversar com eles, são dezenas, na foto podemos ver alguns nas calçadas. Conversei com as pessoas da área, todos os conhecem, vivem ali invisíveis há anos, nas galerias, no esgoto, em velhos colchões, juntos com ratos, em frente à velha rodoviária.
Taí uma verdadeira casa fora do eixo. Totalmente fora do eixo, fora da compreensão, fora de tudo. Eu me recuso, a partir de hoje, a discutir qualquer coisa sobre nossa cidade, humanidade, ideologia, políticos, partidos, drogas, deus, religião, aborto, racismo pobreza, riqueza, sem levar em conta essa realidade.
Enfim, não dá pra discutir nada sem ter como ponto de partida nossa convivência pacífica com essa teletubbilândia em nossas tripas.
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10200341286991545&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

Faça o teste: você é uma pessoa normal?

12/08/2011

Você é homem, está com com uma mulher no banco do carona e dirige às 10 da noite em uma pista de rolamento movimentada na orla de uma cidade de 2,7 milhões de habitantes. Próximo a um semáforo ainda aberto você vê um carro parar com o pisca-alerta ligado e dele descer um sujeito gordinho de meia idade  que,  ao abrir a porta,  deixa cair o celular na pista. Ele recolhe o celular e começa a empurrar o carro, um veículo antigo mas relativamente bem conservado, com o porta-malas parcialmente amassado.

Você então:

a) Desvia com cuidado e segue em frente.
b) Desvia e pensa: tá ferrado, vai aumentar o amassado do porta-malas
c) Liga o pisca-alerta, para à frente do carro e oferece ajuda

Assinale sua alternativa  e faça mentalmente uma justificativa antes de continuar a ler. Eu arrisco a dizer que você marcou a alternativa a, a minha também.

Seguiria em frente, estava cansado e apressado, pra variar. E o cara poderia muito bem se virar sozinho. Acho que esta é também a alternativa marcada pelas pessoas normais.

Desde ontem, às 10 da noite, tenho obrigação moral e existencial de marcar a letra c de agora em diante. E de, definitivamente,  não ser  uma pessoa normal.

Sim, Clovis Cagé, um cidadão que jamais havia visto na vida, nem ele a mim, parou à minha frente, saltou de um carro preto uns dois níveis acima de popular, andou até  à porta do meu carro  e disse:

– Vou lhe ajudar.

Taí um exemplo de cara anormal.

Indicou a necessidade de colocar o triângulo, perguntou o que houve e se ofereceu pra ir comprar a gasolina. Entreguei, ainda incrédulo, 20 reais a ele e fiquei na torcida para não aparecer uma viatura da Transalvador e me cobrar a multa devida pela infração de pane seca.

Cerca de 20 minutos depois chega Clovis Cagé com uma garrafa pet cortada ao meio para servir de funil em uma mão e um galão cheio na outra. Havia percorrido dois postos antes de encontrar a solução de embalagem para trazer a gasolina.

Peguei seu nome e-mail, agradeci com ênfase e me despedi. Ele foi ao carro e voltou com o troco na mão.

– Liga aí pra ver se funciona. E permaneceu ao lado, no passeio.

Não funcionou.

A mulher que acompanhava Clovis desde o carro,  apontou para o farol aceso. O farol esquecido aceso mais o pisca-alerta levou o resto da bateria. Deu trabalho  atravessar a pista empurrando o carro.  O retorno tinha uma inclinação, peguei embalo e peguei no tombo.

Clovis Cagé alcançou o meu carro, vei novamente até a minha porta,  apertou a minha mão e me recomendou seguir com Deus.

Esta história me fez lembrar do gesto da médica Jocente Barroco Fontes, outra anormal que apareceu na minha vida num momento de dificuldade.

A foto que Luísa fez

21/05/2010

No caminho para a escola de Luísa tem o edifício Baska, na Paulo VI, quase em frente ao ponto de ônibus do Colégio Militar, perto do Superpão. Ela viu a imagem e sugeriu a foto. Ficamos muitos dias tentando. Um dia esquecia a máquina, noutro tinha carro estacionado na frente, noutro esquecia a pilha da máquina, mas enfim, Luísa fez a foto.

E a imagem revela a cara deste mundo e de como eu me sinto muitas vezes neste mundo. Imprensado, sem perspectivas.

Mas a planta respira e vive, aparentemente sem lamento, apesar do cimento e da janela com grades.

E eu, ao contário da planta,  esboço alguma reação.

Que não passa de um resmungo. E, às vezes, de um desabafo no twitter ou no facebook.

Difícil entender, difícil acostumar

18/05/2010

Moro num prédio popular, destes antigos,  de três andares com escadas de marmorite  e telhado de Eternit, no bairro da Pituba, em Salvador. O prédio e o morador são pobres, mas o bairro tem Índice de Desenvolivmento Humano (IDH ) quivalente ao dos paises nórdicos. O IDH é medido pela educação, renda e longevidade.

Saio pra buscar Luísa na aula de circo e dou de cara com passeios entupidos de lixo. Quero na verdade escrever um post sobre o que vi na aula de circo, mas antes registro aqui o que vi em menos de 50 metros de passeio de minha vizinhança com IDH nórdico. 

É dificil entender, é difícil acostumar. As fotos foram tiradas numa sequência, no mesmo passeio de uma rua que costuma ficar alagada nos dias de chuva. Vou aproveitar e enviar estas fotos como sugestão de pauta  para os jornais e as emissoras de rádio e TVs. Pauta é a decisão de um meio de comunicação em abordar um assunto. Ela vai para as mãos do repórter e do foógrafo, que se encarregam de tranformá-la em notícia. E este assunto cabe na editoria de cidade, na editoria de cultura, na editoria de saúde. Tomara que vire notícia, embora a cidade já esteja acostumada.