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Ponta d’unha

 

lua novaA lua nova cai com a tarde e no carro a música de Elomar segue comigo  em direção a Conquista.  Resolvo então contar quantas luas contêm apenas os discos Das Barrancas do Rio Gavião e Na Quadrada das Águas Perdidas.

tem a nova, feito ponta de unha, na passagem da onça

Lua nova sussarana vai passar
Seda branca, na passada ela levou
Ponta d´unha, lua fina risca no céu
A onça prisunha, a cara de réu
O pai do chiqueiro a gata comeu”

as mágicas, de um mundo encantado

“Falou de mundos de mil luas
Lindas deusas nuas
Monjas do astral”

a do retirante

Vai pela istrada enluarada
Tanta gente a ritirar
Levando só necessidade
Saudades do seu lugar”

a da perda

“Cuano saí lá de casa dexei os campo in fulô
A lua já deu treis volta só a buneca num voltô
Mais prá quê tanta labuta corre corre e confusão
Quanto mais junta mais dana é tribusana é só busão
Oras qui na vida in ança
O pobre cristão só discansa
Dibaixo d’um tampo de chão”

a do lobisomem

“Ah! Pois sim, vê se não esquece
D’inda nessa lua cheia
Nós vai brincar na quermesse
Lá no riacho d’areia
Na casa daquele homem,
Feiticeiro curador
O dia inteiro é homem
Filho de Nosso Senhor
Mas dispois da meia noite
É lobisomem comedor”
Dos pagão que as mãe esqueceu
Do Batismo salvador

a do amanhecer

“Os galos cantam pra fazer que a aurora
Rompa com noite e mande a lua embora
Os galos cantam, amada, o mais instante
O peito arfante cessa e eu vou me embora”

…  da paixão em duas fases…

“Amada atende um coração em festa
que em minha alcova entra nesse instante
pela janela tudo que me resta
Uma lua nova e outra minguante

…e apagada pelo brilho da amada

“Não sei porque você um quase nada
do universo perdido nos céus
apaga estrelas, luas e alvoradas
e enche de luz radiosa os olhos meus
Mulher formosa nesta madrugada
Somos apenas mistérios de Deus”

a que ilumina a estrada do pai e da filha

“Ô Zefinha
O luar chegou meu bem
Vamos pela estrada que seu pai passou
Quando era criancinha igual você também”

a da pressa, para levar a donzela.

“Aviai pois a viagem é longa
E já vim preparado para vos levar
Já tarda e quase que o minguante está a morrer nos céu

A do amor retirante, que nunca mais voltou

“Faz um ano em janeiro
Que aqui pousou um tropeiro
O cujo prometeu
De na derradeira lua
Trazer notícia tua
Se vive ou se morreu”

a da decepção com a terra natal

“Nos termos da Virgem imaculada
Não vejo mais crianças ao luar
Por estas me bato em retirada
Vou ino cantar em outro lugar
Cantá prá não chorar”

a que ilumina a festa

“Ai clariô, ai ai clariô
Purriba do lagêdo o luá chegô
ja cá na Cabicêra a função pispiô
amiã cedo a lua já entrô
eu vô passá a noite intêra
cantano clariô”

a da princesinha  sonhadora…

“Certo dia a princesinha,
Que vivia a sonhar
Saiu andando sozinha,  Ao luar…

… e  do pai pirado da princesinha…

“Contam que essa princezinha
Não parou de caminhar,
E o rei endoideceu,
E na janela do castelo morreu,
Vendo coisas ao luar.”

E, talvez, a da mesma princesa a vagar

E contam que em noites
De lua pela estrada encantada
Uma linda sinhazinha
Vestida de princesa
Perdida sozinha vagueia
Pelas areias
Guardando o ouro”

a da perda das contas

“Também não sei mais quantos foram
Os luares que passaram
Pelo vão dessa janela
Indagando suplicantes
Frios, pálidas, dementes,
Onde anda a amiga aquela”

a da esperança

oh lua nova quem me dera
eu me encontrar com ela
no pispei de tudo
na quadra perdida
na manhã da estrada
e começar tudo de novo”

a das potras

“Aparta Lubião, esse bode malvado, travanca o
Chiquêro
Ti avia a cuidar
Alas qui as polda di sheda rincharo ao luar
Na madrugada suadas de medo pr’a lá”

a do tempo..

Vai prá mais de duas lua
Que meu pai mandô eu no Nazaré
Buscá u’a quarta de farinha
Eu e o irmão Zé Bento vinha andano a pé”

.. e da seca
Mãe lua magrinha qui está no céu
Será qui cuano eu cheguo in minha terra
De nosso povo intonce se esqueceu”

a mais trágica e onipresente, em São Paulo…

“Mais tinha um qui dexô o qui era seu
Pra i corrê o trêcho no chão de Son Palo
Num durô um ano o cumpanhêro se perdeu
Cabô se atrapaiano com a lua no céu
Num certo dia num fim de labuta
Pelas Ave-Maria chegô o fim da luga
Foi cuano ia atravessano a rua
Parou iscupiu no chão pois se espantô com a lua
Ficô dibaixo das roda dos carro
Purriba dos iscarro oiano prá lua, ai sôdade

…e  na mesma hora, no sertão

Naquela hora na porta do rancho
Ela tamem viu a lua pur trais dos garrancho e no céu
Pertô o caçulo contra o peito seu
O coração deu um pulo os peito istremeceu
Soltô um gemido fundo as vista iscureceu
Valei-me Sinhô Deus meu apois eu vi Remundo
Nas porta do céu, ai sôdade”

 

 

Foto:  Lua nova em Iaçu.

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Elomar e Guimarães

Tenho ouvido muito Elomar. Aí prestei mais atenção nos últimos versos da Chula no Terreiro,  no destino do vaqueiro Antenoro. E lembrei de Xangai, num depoimento ao programa Ensaio, na sua comparação da música de  Elomar è escrita de  Guimarães Rosa. E lembrei então do destino de quase todos os  vaqueiros  do conto O Burrinho Pedrês. A mesma tragédia das chuvas sertanejas, tratada por um e por outro.

“E era bem o regolfo da enchente, que tomava conta do plaino, até onde podia alcançar. Os cavalos pisavam, tacteantes. Pata e peito, passo e passo, contra maior altura davam, da correnteza, em que vogava um murmúrio. A inundação. Mil torneiras tinha a Fome, o riacho ralo de ontem, que da manhã à noite muita água ajuntara, subindo e se abrindo ao mais. Crescera, o dia inteiro, enquanto os vaqueiros passavam, levavam os bois, retornavam. E agora os homens e os cavalos nela entravam, outra vez, como cabeças se metendo, uma por uma, na volta de um laço. Eles estavam vindo. O rio ia.” http://ebookbrowse.com/o-burrinho-pedres-doc-d419429514

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=4812129377883&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

Chula no terreiro
Elomar

(…)
E mais cadê aquele vaquêro Antenoro
E mais cadê aquele vaqCum seu burro trechêro e seu gibão de côro
Esse era um cantadô dos bem adeferente
Cantano sem viola alegrava a gente

No ano passado na derradêra inchente
O Gavião danado urrava valente ai sôdade
Chegô intão u’a boiada do Norte
O dono e os vaquêro arriscaro a sorte
O risultado dessa travissia
Foi um sucesso triste, Virge-Ave-Maria
O risultado da bramura foi
Qui o ri levô os vaquêro o dono os burro e os boi ai sôdade

Derna dintão Antenoro sumiu
Dos muito qui aqui passa jura qui já viu
Na Carantonha, na serra incantada
Pelas hora medonha vaga u’a boiada
O trem siguino um vaquêro canôro
A tuada e o rompante jura é de Antenoro

Ah, ah, ah, ah, ê boi
Ê ê boi lá ê boi lá ê boi lá