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Era pra ser de um jeito. Hera.

09/08/2013

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Eu e minha boca de elástico folgado de calçola velha, como dizia minha amiga Marcinha.

Mas vou ter que contar aqui porque é uma história bonita, porque envolve pessoas belas, porque é semana do dia dos pais, porque está perto do aniversário de Luis, porque conheço Josias desde os 15 anos de idade, porque essa vida é foda. Meu amigo que me desculpe por publicar suas intimidades.

Ligo pra Josias pra conversar sobre o lançamento de Cuíca e ele cai no choro no meio da conversa. Havia acabado de levar Luis ao aeroporto. O menino voou, foi fazer mestrado no Rio de Janeiro, o menino que outro dia lambia a vela do bolo do aniversário de 2 ou 3 anos, aniversário que hoje coincide com o de 20 anos da minha história com Soraya, iniciada naqueles dias do aniversário de Luis em Feira de Santana.

O choro de Josias é um choro contraditório, choro de quem perde um filho pro mundo, pro filho ganhar o mundo, estas contradições desta vida fuleira, difícil de explicar.

Josias chora, Luis voa.

Luís, que hoje é físico e vai fazer mestrado numa área que mistura física e biologia, estava montado em meu cangote numa rua em Feira de Santana quando viu um muro coberto de hera.

– Eu sei por que esta planta se chama hera, disse o menino. É porque era pra nascer no chão mas nasceu na parede.

Foto da página de Luis.

PS importante: histórias verdadeiras. Uma correção na última, contada no último parágrafo: troquei as crianças quase na maternidade. Esta frase da hera foi dita por  Victor Freire, outro garoto muito especial, filho de outros amigos especiais Alberto Freire e Luiza Cardoso. Mas como bem explicou Odorico Paraguaçu a Dirceu Borboleta sobre uma frase atribuída por ele a Ruy Barbosa: “Se ele não disse, deveria ter dito”

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10200309647360574&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

Mas

16/06/2012

Na terapia cognitiva tem uma palavrinha mágica, a conjunção adversativa mas. Ela é utilizada para contrapor certas crenças nucleares como o fracasso, por exemplo. Sou um fracasso mas tenho amigos. Sou um pai não provedor o suficiente mas dou boas escolas a meus filhos. E por aí vai.

Há alguns dias não vou à sessão de terapia mas ando utilizando esta palavrinha mágica. Nos últimos dias postei no facebook fotos do fundo do baú, como a dizer: minha vida está difícil mas tive um passado bacana, mas fiz entrevistas bacanas, mas tenho uma família linda.

E todo mundo ajuda nisso ao curtir, comentar e até compartilhar este sucesso derivado do mas.

E hoje, de surpresa e supetão, ganhei pela caixa dos peitos um senhor mas, que levarei pelo resto da vida.

Fui convidado com a renca para almoçar na casa de minha irmã com irmão e sobrinhos. Fizeram questão que fôssemos a renca toda. E lá, depois de um belo discurso, minha irmã Rita me entregou um pequenoo baú.

Houve muita gozação porque um ano em Morro de São Paulo demos de amigo secreto para minha irmã Rita uma caixa da Imaginarium. Era uma caixa de metal transada e cara, mas era uma caixa vazia. Ao abrir o presente ela virou a caixa para baixo e nada lá dentro. Foi a gozação de todos os anos, jamais esqueceram esta caixa vazia de presente.

Pois bem, tentei advinhar o presente. Talvez dinheiro já que graças a… deixa pra lá, estamos com o orçamento mais combalido nestes meses sem o salário de Soraya. Mas dentro tinha uma coisa que fazia barulho.

Sim, como você já deve ter desconfiado por conta da imagem,  era a chave de um carro zero, completo, ar, trava, vidro elétrico, som, tanque cheio, IPVA e seguro pagos. Sim, era o presente de uma família, irmãos e mãe, que não é rica.

E aí então entra o lado que me pega de cum força. Na brincadeira, fiquei falando uma frase feita para mãe e irmão ao telefone: ganhei na loteria. Mas não ganhei um carro na loteria, ganhei esta família na loteria.

E aí vem a memória dos tempos difíceis, quando esta família segurou minha onda. Segurou uma barra pesada mesmo.

E o carro aqui fica absolutamente secundário. Num pensamento mais amargo que porventura eu pudesse ter, poderia achar que nesta idade eu deveria era me envergonhar de não comprar as minhas coisas, ter que contar com a generosidade dos irmãos, quase todos mais novos que eu, e de uma mãe que vive de aposentadoria.

Mas não prevalece meu lado amargo. Vence, de sobra, meu lado espiritual. E neste aspecto eu me sinto um ser agraciado pela sorte. Não são muitos no mundo que têm o privilégio de ter ao seu redor, no seu sangue, pessoas que armam este tipo de alegria.

Enfim, só tenho mesmo é que agradecer de coração apertado de alegria a Edith, minha mãe, aos irmãos Rita, Dine, Stael, Márcio, Mônica, ao cunhado Marcelo e às sobrinhas Babelle, Marcela e Marina, que armaram a festa.

 

https://www.facebook.com/soraya.almeida.587/posts/433171793383726

É hoje

06/06/2009

 

Mônica em geremiasClique na foto para ver o álbum.

Estréia de Mônica na peça Jeremias, na Sala do Coro do TCA.

Merda pra você, mana.

Vá entender, mas é desta forma estranha que o povo de teatro deseja sorte uns zon zotro.

A bela foto da procissão é de Haroldo Abrantes, furtada do portal A Tarde. Mônica é a última do lado direito, com o xale na cabeça. Faz o papel da mulher de Jeremias, o ator Antônio Fábio, ajoelhado ao seu lado.

P.S

Mundo Pequeno. Descubro agora o blog da autora do texto da peça, Adelice Souza.
Ela nasceu em Castro Alves, numa cidade e numa rua que fazem parte das cidades e das ruas da minha infância.

Um minutinho só

18/04/2009


Filme de Maurício Lídio Bezerra, estudante de comunicação da Ufba,  vencedor da categoria celular, do Grande Prêmio **** do Cinema Brasileiro. Os asteriscos são o nome de uma operadora de extorsões, como absolutamente todas as que operam enfiando a faca e prestam serviços porcos neste Brasil varonil.  Mas o filme é bacana. Em um minuto o cara construiu uma bela(?) história.

P.S: leia mais sobre Maurício e sobre a premiação no blog Cultura Digtal Bahia.

Em Moreré, gigolô de renca se dá bem

04/03/2009

Sabe aqueles meninos engraçadinhos na sinaleira a desafiar o nosso racional? Às vezes a gente não resiste. Descobri na viagem que também  uso esta técnica, de seduzir pela graça das crianças.
Inicialmente era inconsciente, mas depois de constatar o sucesso da presença deles nas situações de necessidades como atolamento, negociação dos pacotes de refeições e diárias, comecei a manipular os cenários. Assim foi em Moreré.
Chegamos à noite e sem tempo nem energia para procurar um lugar. Seguimos então a indicação de Rubem, artesão que vive no Capão e conhece o lugar (é interessante este fluxo bicho-grilo Chapada/Moreré). Fomos  então para a Pousada Moreré, a mais antiga do lugar, cujos donos são nativos. Desconto conseguido, dormimos todos num quarto que daria bem para um casal, mas não para uma renca de cinco.
Fabiana, filha do dono, ao ver nosso desconforto, fez uma proposta decente. O cunhado dela tinha a solução no fundo do restaurante da pousada. Conversa vai, conversa vem e nos instalamos numa casa de dois quartos, mobiliada do cortinado ao pano de prato, incluindo também gás, sal, detergente, além de gatos e  mangas no quintal. Tudo isso por R$ 60 a diária, com direito também  a companhia de crianças para brincar com  meninos. O que se assucedeu nestes dias  você acompanha neste resumo fotográfico abaixo:


É bom chegar a lugares desconhecidos à noite. Ao amanhecer a gente se vê como numa peça de teatro, quando a luz se acende num ambiente absolutamente novo. Vi esta mudança de cenário a bordo de uma das canoas ancoradas na praia.

Maré vazante

Pousada Moreré

Já em companhia de Luísa, caminhamos em direção à direita e por este caminho da foto e chegamos a Bainema, lugar sonhado por Soraya e que valeu a insistência dela em conhecer.

Por todo canto os Guaiamuns. Pela manhã bem cedo, a gente se encontra com estas figuras assustadas e ariscas, a alegria dos meninos.

Chegamos fnalmente a Bainema

Novo amanhecer no cenário presente em 9 de 10 fotos de quem vai a Moreré.A performance deste estrangeiro entoando mantras provocava muitos risos e brincadeiras entre nativos e turistas. Era uma espécie de sino a saudar o nascer e o pôr-do-sol. Figura bonita e de paz. Doido manso, na visão dos nativos.A performance deste estrangeiro entoando mantras provocava muitos risos e brincadeiras entre nativos e turistas. Era uma espécie de sino a saudar o nascer e o pôr-do-sol. Figura bonita e de paz. Doido manso, na visão dos nativos.
Aportada no mangue, uma das caravelas exibe sua cauda fatal, protagonista de uma cena digna de filme iraniano. Gritos lancinantes, garoto sai da água desesperado e logo uma roda de crianças e adultos se forma ao seu redor. Gritos e mais gritos. Quem já foi queimado por caravela sabe o tamanho da dor, que não passa. Mas logo aparece o avô. Para acalentar? Que nada, chinelo na mão, aplica uma sova no coitado pela desobediência de ter ido ao mar mesmo com o alerta de vento e da presença da frota lilás. Detalhe: a avó, desavisada, havia autorizado o banho.

Só na tarde do segundo dia tomamos o rumo da esquerda, onde ficam as famosas piscinas naturais de Moreré.Só na tarde do segundo dia tomamos o rumo da esquerda, onde ficam as famosas piscinas naturais de Moreré.
No terceiro dia partimos num passeio para Cova da Onça, povoado secular da outra ponta da ilha e aí novamente a sedução dos meninos ajudou nas negociações. R$ 50 para cada casal de turistas. Com mais R$ 20, incluímos os nossos três passageiros extras e seguimos a bordo do Ilha de Moreré para nossa aventura de um dia. Inicialmente os meninos super animados na proa, com a cara nos respingos e o corpo pra cima e pra baixo no balanço do mar. O que aconteceu minutos depois você acompanha no próximo capítulo porque a fita em série que se preza tem que acabar no melhor pedaço.

Valha-me meu Santo Antõnio da Anta Gorda

23/01/2009

Depois de chorar o Chorik que se mandou, apenas por uns tempos, espero, foi a vez de constatar o fim da Menina da Ilha.  Paulo Galo já havia parado e Maria Fabriani não posta desde o primeiro Advento do ano que passou.  Blog é um negócio cíclico, como época de gude e arraia e de tudo o mais nesta vida.

Mas ainda tenho gás e estou aqui me coçando para contar a tal viagem, nascida de uma entrevista com um médico de 85 anos. Na verdade a mãe de tudo é Soraya, que vinha  sugerindo há algum tempo uma viagem de férias, não seria  tão caro assim, poderíamos achar uns chalezinhos em conta para acomodar todo mundo. E achamos.

A última viagem da renca de férias, noves fora Natal e São João para Iaçu, Conquista e Minas, foi há seis anos para Igatu e Andaraí, quando Maria sequer existia. Teve o reveilon do ano retrasado, na Ilha, com  Marcinha, mas foi uma coisa rápida. Ano passado passei janeiro trabalhando.

A  tal entrevista foi decisiva. O sujeito já viajou o mundo, todos os destinos exóticos imagináveis  e na última pegou o transiberiano, se picou para a Mongólia. Acampou numa tenda mongol com direito a xixi ao relento do frio de rachar Gengis Khan.

Então pensei  cá com meus botões, dinheiro não tenho para ir tão longe mas tenho uma barraca e uma renca. Por que não?

Pensamos inicialmente em  Camamu e Barra Grande, mas optamos pelo Pratigi, onde estive há dez anos a trabalho, na inaguração da estrada. Mergulhei  naquele mar com roupa e tudo e prometi um dia voltar lá. Voltei.

Tenho algumas destas promessas ainda na cabeça.

Ia a trabalho, passava um, no máximo dois dias, e sonhava, e prometia voltar  com mais calma e com os meus. Nunca havia cumprido sequer uma destas promessas. A Cachoeira de Tremembé, também no Baixo Sul, Gentio do Ouro, próximo a Xique-Xique,  o Parque Estadual das Sete Passagens, em Miguel Calmon, Correntina, no Oeste, são alguns destes destinos sonhados.

Viajei com a Viagem do Elefante na cabeça, resultado da leitura de presentes de fim de ano. Uma amiga recomendou, com o devido esclarecimento de que era best seller mas era muito bom. Não tenho preconceito com best-sellers. Pra mim tem a vantagem adicional de poder ser lido até o final. Gosto de Saramago, do português de Portugal, que é a mesma coisa sem ser, como o ditado sobre o bom entendedor, para quem até meia palavra sobra.

Lá pelas tantas, ao explicar um deus indiano, ele se refere a um deles que não se preocupava em ter filhos, posto que era imortal. Ao ver Luluthica ansiosa para acordar de madrugada e ir ver o sol nascer, eu me senti meio que continuado nela.

A viagem me colocou mais perto deles e de Soraya. Nos colocou a todos um perto do outro. Demasiadamente perto muitas vezes. Era briga todo dia, mas era grude também.

Já falei sobre o primeiro dia, no post do dia 07, quando saímos às 8h30 da manhã de Iaçu para Ituberá , do licuri em direção ao dendê, com o Vale do Jequiriçá no caminho. Acrescentei no post antigo duas fotos que não entraram naquele dia por dificuldades na lan house.

A Cachoeira dos prazeres, no Rio Jequiriçá, foi ocupada bem ao modo  de quase tudo neste país.  De um lado invadiram os pobres, com seus quiosques movidos a churrasco e arrocha. Na outra margem,  o melhor hotel da região também não se acanha de quase cair dentro d´água para dar conforto e proximidade aos seus clientes. Mas eu não vim aqui para me queixar. A água estava boa e limpa, e ter uma cachoeira no juízo, despencando na cabeça, de fato  é um dos prazeres desta vida.

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Auta Maria

16/09/2008

 

O passar do tempo é também contar ausências nas fotos. Nesta acima, de exatos 25 anos, na porta da igreja do casamento de Stael e Marcelo, já são duas. No centro, de vestido azul,  está Auta Maria, que herdou o nome das nossas avó e  bisavó. A mesma Auta da segunda foto, parecida com a  minha Maria, de mão dada com meu tio e padrinho João, ao lado de minha irmã visitante Rita, num destes sertões onde eles moraram.

 

Na primeira foto Stael fala alguma coisa a ela, que se foi no final de 1993, 10 anos depois. Na extremidade direita  está Álvaro Vasconcelos, atrás de Josias, de braços cruzados. Alvinho também já não está entre nós. Era natureba radical e preferiu não enfrentar o tratamento de um câncer só descoberto já na metástase e se foi em menos de dois meses. Alvinho era uma figura, um dos mais sabidos da turma da Escola Técnica. Deixou duas filhinhas lindas.

 

Dizer que Auta se foi é amenizar uma tragédia. Ela estava numa fase de retomada da vida, feliz, em Porto Seguro, com um salão de beleza. Defendeu e deu guarida a uma funcionária que estava sendo assediada pelo padrasto e acabou morta com um tiro pelas costas, dentro de casa.

 

Lembrei de Auta ao desarrumar uma grande caixa em busca das fotos do casamento de Stael. Auta é filha de minha tia e madrinha Alzira. Quando criança, nossas famílias dividiram a mesma casa em Conquista antes deles irem para São Paulo e a gente para Castro Alves. Passei muitas férias na casa de tia Alzira em Jequié ou nos diversos sertões por onde eles andaram.

 

Auta foi velada na capela do Hospital onde nasci, o São Vicente. Ela tinha os olhos azuis do nosso avô. Lembro que saí pelas ruas próximas a buscar um tecido de tule para cobrir seu rosto.

O guerreiro magricela

01/09/2008

André, de bermuda preta, no Campo Grande em 2006

 (mesma estrada, mesmo carro, mesmas pessoas com o acréscimo da sogra, viajei hoje segunda-feira desde Feira de Santana e o fim-de-semana lá me tirou o show de Tom Zé aqui, disseram que foi muito bom. Mas como dizia a Cecília, é isto ou aquilo. Lá teve aniversário da vó Conceição dos meninos, os primos, os tios, o bisavô e cachorros, muitos cachorros. E neste ritmo família, inicio aqui a republicação de três posts sobre os miúdos, redigidos em seqüência há  dois anos. Abaixo, o primeiro, numa segunda-feira, Feira de Santana, 26 de agosto de 2006)

 

Dia amanhece nesta segunda-feira, Feira de Santana-Salvador. Os cincos viajantes balançam as cabeças na cadência das ondulações e buracos da BR 324. Uns sonham acordados, outros dormem. O silêncio trafega sobre o ruído contínuo do motor. De repente, um grito:

-Atacaaaar!

Algumas ordens ininteligíveis são dadas e o guerreiro magricela vira a cabeça para o lado e continua sua batalha em silêncio.

Quem ainda estava dormindo acorda com as gargalhadas. Só não o guerreiro magricela que continua em sonho profundo. Naves? Cavaleiros? Ninjas?

Este Budegão vive a guerrear desde que nasceu. Primeiro nos seus primeiros cinco dias de apitos e picadas da UTI neonatal. Depois no semi-abandono após os quatro meses da licença maternidade com mãe e pai trabalhando o dia todo. E depois a eterna busca de espaço, sanduichado entre duas mulheres.

Vive imprensado nos seus menos de cinco anos entre a cabeça cheia de palavras e argumentos da 10 anos Lego-Lego e os olhos azuis ainda mais cintilantes na idade engraçada da Pachuluca de ano e meio.

E o guerreiro navega em busca de atenção. Sofre porque não deu a sorte de herdar a memória da mãe. Herdou a vaga lembrança do pai. E como o pai busca em frases recuperar as palavras esquecidas ou ainda não aprendidas. Esmalte vira aquela tinta que pinta unha de menina.

Como o pai, das músicas só sabe o refrão.
Viajo segunda-feira, Feira de Santana, viajo segunda-feira, Feira de Santana, repete ao infinito, repetindo o pai que também avança muito pouco no refrão da canção de Tom Zé.

Do pai quer herdar a barriga. A mãe não cansa de elogiar os seus olhos amendoados cor de mel, sua cabeça de muitas fantasias. Já domina os plurais mas ainda se aperta nas pronúncias: álgum de sigurinha, caneta de hidropon. Uma coisa grande vira digantesca. Sabe tudo sobre seus super-heróis e como eles quase não anda, vive pela casa aos saltos.

Quando tinha três anos, Lego-lego quis saber o seu signo:
– Sou Libra e você?
– Sou Homem-Aranha, respondeu com convicção.
Foi por esta época que a mãe um dia explodiu e clamou aos céus:
– Eu não aguento mais. Minha vida é cuidar de menino.

Budegão, que até então estava invisível na cena, murmurou em protesto:
– E de menina também!

(Sobre os comentários de então: mudei de idéia sobre a inveja e ainda devo o livro a Nilson)

Terapia da aceitação irrestrita do elogio

18/08/2008

Complexo Escolar Polivalente de Castro Alves. Aos 11 anos, mais uma vez no papel de declamador oficial de Vozes D’África

Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito…
Onde estás, Senhor Deus?…
Qual Prometeu tu me amarraste um dia…

E por aí seguia no meu destino de declamdor de Vozes D’ África.

Passei um bom tempo achando que um dia Deus, de fato, prometera amarrar a África. Só anos depois, ao estranhar o título da peça Prometeu Acorrentado, a ficha caiu. Não tinha a menor idéia do que significava o “tomba ressupino”, destino do cavalo estafado do beduíno, mas estava lá eu emocionando velhinhas, tirando onda como menino prodígio do interior.

Era um 06 de julho de 1971. Aos dez anos, lançava meu brado retumbante em praça pública na pequena Castro Alves, no palanque armado ao lado da estátua do Poeta no dia do centenário da sua morte. De tempos em tempos, o garoto era chamado a repetir o feito, como nesta foto na sala de aula, provavelmente em 1972.

Alguns meses depois da glória, com problemas nas notas e no comportamento, entreouvi de uma professora: – Elogiaram demais este menino. Veja no que deu. De fato, nunca consegui decorar mais nada, tratei de me desvencilhar da imagem de CDF. Comecei a brigar com Deus a partir deste poema. Nunca me relacionei bem com elogios.

Era tão refratário que cheguei a suspeitar de assédio quando um professor de física me disse numa festa, já meio bêbado, que uma definição minha sobre a Teoria da Relatividade havia sido a resposta mais genial que ouvira em toda sua vida. Este pretérito-mais-que-perfeito degringolou. Dois semestres depois fui reprovado em física e só não repeti o semestre do curso técnico em Geologia porque mudaram o currículo e não havia turma. E fui eliminado no vestibular para Geologia em Ouro Preto na prova de matemática.

Elogios sempre me deixaram encabulado, arredio. Desde quando me entendo. O diabo é que as críticas sempre calaram fundo. Nunca entendi muito bem esta expressão, mas calar fundo parece conter a intensidade do que eu quero dizer.

Parte da culpa por não digerir bem os elogios atribuo ao meu pai. Talvez para valorizar, por insensibilidade, por brincadeira sádica (herdei um pouco disso), ou pela mesma dificuldade em aceitar, quando ouvia elogios dirigidos a mim sempre desmerecia: – Esse aí? que nada! Esse não é de nada. Gordo sacana, que Deus o tenha.

O fato, ou seqüela, é que passei a associar elogio a gozação. Sempre achava que as pessoas estavam sendo falsas por um motivo qualquer ou curtindo com a minha cara. – Esse aí? Não é de nada. A sentença ou maldição paterna continuou a reverberar vida afora.

Aí amadureci, aumentei minha nano auto-estima que convive com um ego imenso (paradoxo?) em algumas frações de milímetros e comecei a aceitar – quando tinha certeza que não era gozação – como a maioria aceita. Ou seja, sempre com a ressalva do tipo generosidade sua, exagero seu, bondade sua, e por aí vai. Foi assim no começo deste Licuri, principalmente no suicidado primeiro Licuri, quando respondia sempre aos comentários elogiosos ao texto com um enfático menas, menas!. Foi assim mais recentemente quando Inamar, um primo que tenho em alta conta, colocou um dos meus textos no nível dos de Hemingway. É mole?

O elogio me trava também. Outro dia recebi no trabalho a incumbência de redigir um texto de 15 linhas para um folder. O diabo é que a empreitada veio junto com um elogio. Batata. Passei cinco horas de relógio [hora de relógio é a unidade de tempo mais precisa e enfática já inventada em todo o mundo] em cima do computador e o texto só saiu depois de uns 15 e-mails de cobrança e uns 30 telefonemas avisando que o tempo havia acabado e que haveria multa pesada na gráfica.

O pessoal que me convocou para participar da primeira edição de uma nova revista, que será lançada no próximo mês pela Unifacs, arrancou os cabelos. Junto com a pauta – um perfil de uma uma figura brasileira de projeção internacional – veio o maldito elogio. A entrevista fluiu, o sujeito é magnífico, mas na hora de fazer o texto… A labuta me custou pelo menos 20 dias e o fim antecipado das férias. Na verdade fiz a matéria em um dia, talvez um pouco mais, mas no último do último, último mesmo, agora último, olhe lá, é o último dia do prazo. Os 19 anteriores foram dedicados à postergação, agravada pelo maldito elogio ou gozação.

Mas mudei de fase novamente. Resolvi enterrar de vez a modéstia, ou a falsa modéstia, e aceitar todos os elogios sem absolutamente nenhuma ressalva. Acreditar piamente em todos. E transferir toda a minha incredulidade para as críticas. Estas sim, serão ignoradas, desqualificadas e bloqueadas de agora em diante.

E começo esta nova fase com o elogio da Aeronauta ao texto do post da foto dos meus avós, mãe e tios, que está aí logo abaixo. Sem mais rodeios, ela simplesmente disse que meu texto estava no nível de A Câmara Clara, de Roland Barthes. Sem mais rodeios e completamente crédulo, embora só conheça Barthes de fama, respondi obrigado, assim, íntegro, sem ressalvas, verdadeiro, acompanhado de uma declaração de felicidade, também sincera. Com Nilson a mesma coisa. Agradeci e aceitei a reverência. Pronto, está criada a terapia da aceitação irrestrita do elogio. Vou lançar um livro de autoajuda com a fórmula e deixar o tal de O Segredo no chinelo.

E pode elogiar também a foto abaixo. Já estou preparado.

  

Em Vitória da Conquista, com um ano e seis meses

Itaquaraí, Bahia, 29 de julho de 1937.

14/08/2008

São meus avós, Auta e Antônio, rodeados pelos 10 filhos. Minha mãe é a sorridente, de tiara, na frente da matriarca.

Imagem rústica, sem retoques, de uma família pobre, nobre, sertaneja. Pai, mãe e dez filhos. Pela expressão da mãe, com o cenho franzido, dá pra sentir a labuta.

Esta foto me impressiona. Como num clique ao contrário, ela captura a minha atenção e passo da condição de observador para a de observado.

A foto me vê. Ela me devolve o olhar de tios com quem convivi, que me acolheram e cuidaram de mim em muitos momentos da minha infância.

Talvez esta imagem seja tão tensa e intensa porque levou 20 anos para ser feita. Era a primeira e foi a única de toda a família reunida. São muitos momentos resumidos em um só, traz todos os outros subentendidos.

Era um dia solene, com a novidade de um fotógrafo na pequena vila sertaneja. Era festa, uma jornada de batizados, casamentos, confissões e catequese. A filha caçula, no colo da irmã, tinha 20 dias e houve resistência da mãe em levar a pequena para a rua, para o tempo.

Auta, ainda com 41 anos incompletos, vivia o último resguardo, aquele que completou a família, depois de 20 anos de uma rotina de um parto vingado a cada dois anos, além de outros dois filhos que morreram pequenos e mais um aborto espontâneo de gêmeos. Naquela casa, sem energia elétrica, sem água encanada e com fogão a lenha, houve sempre cueiros no varal e criança aprendendo a andar e a falar por duas décadas.

Antônio, aparentemente mais relaxado – dos homens não se exige tanto – traz um meio sorriso e a elegância da gravata para ocasiões especiais. Parece um sujeito bem-humorado. Há pouco havia completado 42 anos. Nasceu em 13 de junho, ganhou o nome do santo do dia, como era tradição.

Tomo um susto ao constatar que este cara aí da foto é mais novo do que eu.

Além do esmero das roupas, os sapatos chamam a atenção. Alguns foram comprados especialmente para a ocasião. Eles revelam o cuidado, o carinho dispensado a cada filho, o capricho de quem não dispões de muito, mas vai no limite para dar o mínimo de conforto e dignidade à família. 

E dignidade é a palavra que define esta imagem, que caiu em minhas mãos como uma herança valiosa há cerca de três anos. Uma fortuna afetiva que aqui compartilho.

(P.S peço perdão aos poucos leitores antigos do Licuri por repetir  foto e  texto, publicados nas duas versões anteriores deste coco pequeno. Tocado pelas imagens de memória afetiva da Aeronauta e de  Maria Sampaio  fui também em busca dos meus)

 

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=2391733829507&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

Acarajé e charque

18/06/2008

Mônica
Minha irmã Mônica Gedione, atriz e estudante de teatro, na  performance “Joana dos Alagados”, envolvida em camisa de charque e bezuntada de dendê, num trabalho escolar de teatro essencial.
Bota essencial nisso.

Cínico

14/06/2008
Este blog tem alguns leitores silenciosos e vigilantes. Eles me acionam sempre ao ler algo preocupante, merecedor de esclarecimento ou puxão de orelha ao vivo. Outro dia recebi um telefonema: Você esta bem? Tou ótimo. É porque li no seu blog…

Desta vez fui avisado de que querem conversar comigo a respeito da “explicação” para Maria sobre crianças dormindo na rua. Fui taxado de, no mínimo, omisso diante confusão da menina ao se deparar com a cena inédita e estranha para ela.

Nâo tentei explicar simplesmente porque não sei. O que leva crianças a dormirem na rua, na calçada sem forro e sem cobertor, num dia chuvoso? Não tenho explicação.

Outro dia saí do filme o pianista e vi uma criança na chuva pedindo dinheiro na sinaleira. Fiquei mal. Associei a vida desta criança à daquela massacrada ao tentar voltar ao gueto por um buraco no muro.

Cenas como essas ainda me chocam, mas a diferença é que agora tenho convicção de que não tenho explicação. Quero evitar coisas óbvias do tipo que país é este, ou que pais são esses.

Crianças dormindo na calçada vão além do meu entendimento. Não acredito em Deus, tampouco tenho fé nos homens e na humanidade.
Sou um  cínico fracassado, no sentido filosófico que aprendi no google .

Constituí família, coisa que não combina com um cínico. Não queria ter filhos. Até os 34 anos era adepto de Brás Cubas, não queria transmitir o legado da minha miséria material, da minha anemia espiritual e da minha fragilidade emocional. Por um golpe de sorte, fui premiado três vezes e eles têm-me feito menos pior.

Quanto à Maria e seu espanto, ela ainda terá a oportunidade de tentar entender.

foto: Xosé Castro

Morar na janela. Na Rua? No chão? O cais e a volta no forte

08/06/2008

Luísa na escola, André na escola, Soraya na escola, cada qual na sua escola e sobrou a manhã de sábado para mim e Maria. Manhã livre para gastar no que der e vier. Deixamos André, deixamos Soraya em Brotas, Luísa foi sozinha. Fomos então em direção aos meus nove anos, ao Largo 2 de Julho dos meus nove anos, em direção à Mônica, irmã que mora em uma janela no Areal de Cima, numa das mais belas janelas da Baía de Todos os Santos. Mônica mora num lugar onde  eu sonhei morar, numa kitinete na Rua  Areal de Cima, num edifício do fim dos anos 50, início dos 60, com o nome na fachada em letra cursiva, numa elegância fake: Edifício Calábria. É um dos sonhos não concretizados, como ter uma Olivetti Praxis, uma Pentax 20 ou um Gurgel. Até possíveis agora, mas já  inúteis ou não cabem mais na minha vida. Quem sabe na velhice, se velho ficar, ainda more em uma janela debruçada sobre a baía?

Ao ser lembrada da última visita ao forte, Maria pediu um bis. Talvez pelo passeio de barco.

Na calçada do Elevador Lacerda três garotos dormiam na calçada. Nada sobre eles, nenhum forro. Maria  já vinha olhando e manteve o olhar  quando passamos. Voltou a cabeça pra trás e permaneceu olhando, arrastada, quase sem equilíbrio. Paramos. Ela soltou a minha mão, se virou completamente.

_ Por que eles estão dormindo aí?

_ Devem ter ficado acordado pela rua até tarde, aí ficaram cansados e dormiram.

_ Na Rua? No Chão?, perguntou novamente,  com forte entonação em rua e chão. Ficou sem resposta.

Continuou calada, eu também. Pensei que tivesse esquecido.

Passamos por dentro do Mercado Modelo, hordas de turistas de junho começam a chegar, todos devidamente assediados por vendedores de correntes, por ciganas, por uma tropa de garçons que perguntam a todo o momento se a gente quer sentar, se quer comprar, se quer isso e aquilo e eu vou me livrando com o clássico bordão: sou baiano, rei.

Meninos dormindo na calçada, vendedores pedintes, parte de um quadro previsível. Antes achava que eles espantavam os turistas. Já penso ao contrário. Atraem. Fazem parte da miséria que eles, de alguma maneira, querem ver. Pagam pra ver. Bahia sem capitães da areia? Não é Bahia.

Já na porta do  terminal de embarque paramos para uma água de coco. Maria pediu um batom. Eu também. Comemos batom e entre uma tragada e outra da água de coco, Maria comentou, assim, aparentemente do nada.

_Eu nunca vi pessoas dormindo na rua.

 
Sentados com as pernas penduradas eu e Maria, Maria e eu ficamos uns bons 15 minutos na ponta do cais móvel do forte (este em T aí em cima)  ao som de um reggae que vinha de um barco em manutenção e da  oscilação do pequeno cais, que aumentava quando passava um barco. Ficamos ali olhando os peixes e uma mancha de óleo transparente sob nossos pés.  O  marinheiro sumia e aparecia junto ao casco com óculos de mergulho e espátula. Foi Maria quem viu.
_ Olhe o homem lá. Vai aparecer.
_Olha três barcos! Três pra Maria, que tem três anos, significa quantidade. Havia muitos barcos na Baía.
Eu e minha caçula, somente  a gente, num programa raro, talvez único. Com Maria fiz uma coisa que nas únicas três vezes anteriores que estive no forte, todas de um ano pra cá, tive só vontade. Andar em torno da borda,  na parte de cima. Antes que você me julgue mais maluco do que eu sou, a borda tem uns 10 metros de largura, e mesmo que  seja um pouco inclinada para fora, caminhamos rentes à parte de dentro. Maria notou a diferença.
_ Aqui bate um ventinho.
Mas o passeio terminou antes do círculo se fechar. Assim como a terra, o forte não é absolutamente redondo, é achatado em um dos pólos. E este achatamento deu fim ao nosso passeio circular.

Avós

10/02/2008

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Avós maternos de Obama, em álbum publicado pelo Chicago Tribune. Ando interessado na família do cara, que foi criado cercado de muito carinho. Os pais se separaram quando ele era criança, mas ao que parece ele se deu muito bem com o padastro e continuou se relacionando com os avós maternos. (atualizado em 11/02)

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Esta é a avó de Barack Obama, fotografada no Quênia por um jornal sueco e que ilustra um post de Maria, no blog Montanha Russa.  

 

E abaixo um post da Aeronauta sobre a avó dela diante da morte do avô.  

 

Quando meu avô morreu, minha avó teve um comportamento considerado estranho, principalmente por sua cunhada, irmã de meu avô, que não gostou nem um pouco do que viu.
Era noite quando chegamos lá na roça. Eu abraçava minha mãe e não acreditávamos naquilo tudo: a casa cheia, uns candeeiros clareando a imensa sala, e muita gente chorando. Minha avó foi nos receber na porta, assim como ela estava fazendo com todas as pessoas que chegavam. E também repetiu o que dizia desde que ali entrou a primeira pessoa: “Parem com essa besteira de chorar, gente! Que chororô que nada! Todo mundo um dia vai morrer! Hoje foi ele, amanhã sou eu, depois serão vocês! Entrem, entrem, mas nada de choro, nada de choro!” A repetição empolgada do “entrem, entrem”, fazia parecer que ela abria as portas para uma festa. Claro que achei estranho, mesmo sabendo que minha avó sempre foi tirada a engraçada, quase seca para a vida, fazendo desdém das coisas, mas naquele dia ela ultrapassava todos os limites.
Fomos para o quarto: eu, mãe, minha tia, minha prima… Mãe estava mal, chorava muito. E minha avó, depois de receber as últimas pessoas que chegavam, entrou com um rompante no quarto que estávamos e tratou logo de explicar como meu avô morreu: “Assim, ó, de repente, sem quê nem pra quê! Depois dei banho, tá lá todo limpinho, cheiroso, ninguém pode dizer que não cuidei!” Dizendo isso, foi se sentando na cama junto com a gente, sem uma lágrima no olho, numa excitação juvenil: “Deixem eu falar pra vocês o que sofri com esse véi a vida toda!” Daí abriu sua vida, contou tudo, desde o casamento até aquele dia. “Ah, minhas filhas, esse véi nunca prestou, não é porque morreu que eu não vou contar tudo”. E abriu mesmo o verbo: todas as traições, os filhos que ele teve fora do casamento, as pensões para as outras que ela sempre lhe obrigou a pagar… “Na primeira traição desmanchei o jirau e nunca mais dormi com ele! E digo mais, minhas filhas: tomara que não tenha ninguém na família que puxe a este homem!”
Assim foi a noite toda: minha avó, lavando a alma, contou o que queria com muita graça, e nós não conseguimos deixar de não rir. Até mãe chegou a rir numa determinada ocasião, mesmo com o rosto inchado de chorar.
Na casa todos comentavam aquele comportamento de Dona Calu. Que coisa! Nem uma lagrimazinha! “Esse véi foi ruim demais, minhas filhas, e que Deus lhe perdoe!”, ela repetia. Minha tia-avó (irmã de meu avô),diante de todo esse teatro, se sentou na cozinha e ficou lá com a cara amarrada de ressentimento. No outro dia, bem cedo, acordamos com as ladainhas tiradas, na sala, por minha avó bastante animada. As rezas eram tristes, mas ela alteava no tom e a coisa perdia um pouco a dramaticidade. Na hora do adeus final, foi ela quem ordenou aos filhos fazerem uma fila para darem a benção ao “véi” que estava partindo. “E os netos também, têm que vir”, ela gritou. Lá fui eu na fila. Minha irmã fingiu que ia, aproveitou a distração de minha avó e não foi não, se escondeu no meio do povo. E a ordem continuava: “Dêem a bênção e beijem a mão dele!” Todos obedeciam. As pessoas presentes buscavam lágrimas nos olhos dela e, nada achando, murmuravam entre si: “Como é que pode? Que velha dura é essa?
A fila dos parentes todos se despedindo foi grande. Isso levou mais ou menos uns trinta minutos. Depois ela voltou ao comando: “Tampem o caixão, está na hora!” Na porta, uma caminhoneta com o fundo aberto esperava. O cemitério era longe, o enterro seria acompanhado de carro. Os filhos pegaram o caixão e foram saindo, colocando-o, a seguir, na caminhoneta. Minha avó no batente da porta olhava, com o olho seco. Fecharam a caminhoneta. O motorista ligou o carro. Minha avó no batente da porta olhava para tudo aquilo, dura. Depois mexeu no lenço da cabeça e começou um choro longo, doloroso, entrecortado de soluços.” 

(Blog Aeronauta, 4 de dez 2007)  

 

O retorno eterno…

20/12/2007

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Na época em que eu trabalhava na reportagem geral de redação, começava a ficar enjoado quando a noção de que vivemos a dar voltas em torno do sol se revelava na repetição das pautas: cortejo do 2 de Julho, caruru de Cosme, festa da Conceição, rodoviária lotada no Natal, festa do Bomfim, Iemanjá, Carnaval…

Nesta blogoesfera começa a acontecer a mesma coisa. É natal e eu aqui novamente e outra vez com os mesmos temas de férias e fim de ano.

A vantagem é que como a terra não volta exatamente para o mesmo lugar depois de ter dado uma volta – afinal o sol também se move e vamos todos numa espiral pros quintos de não sei onde – o cenário é um pouco diferente, embora a falta de dinheiro para ir às ilhas gregas ainda perdure.

Mas posso comemorar um feito inédito na última década: não vou entrar o ano no vermelho…

Carro velho, roupas velhas, mas sem dar ousadia de pagar juros a banco…

Vou comprar até um adesivo para a camicleta azul, quase igual ao que eu vi outro dia num fusca caindo aos pedaços:

Tá velho mas tá pago…

Mas vou acrescentar: menos as multas, enquanto forrest john estiver prefeito.

Credito da charge: Caros Amigos, n62, maio de 2002 (Adão Iturrusgarai) e publicada neste Licuri , naquele longínquo dezembro de 2006.

Pedrasol, morte, ponte, vida.

12/09/2007

Este licuri tem um lado miseravão, um lado triste, que Soraya não gosta, que eu mesmo não gosto. Mas ele se impõe. Venho falar de morte, de morte de bicho, de morte de gente. É incompreensível que toda segunda pós-feriado a gente abra os jornais e veja lá as estatísticas de morte nas estradas num cantinho, como uma seção fixa, com variação apenas de percentuais. Este ano foram tantos por cento mais mortos que no ano passado, este ano foram tantos por cento menos mortes que no ano passado. Neste feriado foram 14. Só nas estradas da Bahia. Estamos acostumados com um absurdo, condenados a este absurdo. Até quando? Mas na estrada tem também a janela do carro, tem o sol, tem as ilhas de pedras. Esta foto foi feita em parceria com Luluthica, que viu o sol na pedra. Nesta ilha de pedra. Fizemos várias fotos.
Neste feriado, só nas estradas da Bahia foram 16 mortos. Eu poderia estar nestas estatísticas. Viajei com minha renca 600 km de perigos na ida e volta de Iaçu. Toda vez que abro os jornais e vejo a notícia de uma família inteira morta dentro de um carro na estrada me vejo ali (toc, toc, toc). É a tal da empatia. E na feira de Iaçu tem pato silvestre e teiú à venda. Extermínio às claras. Lembrei da exposição de humanos mortos vista por Nilson esta semana em Buenos Aires. Esta exposição de bichos mortos na feira de Iaçu não precisa de conservantes. Toda semana é renovada.
Minha cabeça é um blog. Tal qual Santiago, o mordomo da família Moreira Sales, vivo a escrever, registrar e comentar parte da minha vida neste Licuri. Mas muito pouco do que penso, que digo, que vivo, que falo vem parar aqui. Muito mais posts nascem, são escritos mentalmente e permanecem na minha cabeça. E são naturalmente apagados. Pra diminuir esta perda crio mais um blog. O foto-legenda. É uma imitação bem vagabunda do Olho da Rua. O subtítulo: Eu queria ser fotógrafo. E o fotográfo-desejo volta à ponte sobre o Paraguaçu.
Se você quiser saber mais sobre estas fotos, vá ao foto-legenda, que por enquanto vai tratar dos bichos mortos. Mas esta do meu meu irmão com o filhote, vida pura, já publicada neste Licuri, e mais outra dele com o mesmo filhote já virado gente, vá ao Licuri em Família. Ou no Orkut da Gabriela, minha cunhada cearense.

Mãe dos meus filhos

13/05/2007

 

Parque Costa Azul,  mais ou menos 2007

https://www.facebook.com/gusmaomarcus