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Ipês

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Eles estão floridos há algum tempo. Mas desta vez invadiram meus olhos nestes dias de Feira de Santana. A cidade pela primeira vez me parece bonita. Graças aos ipês.

Feira é uma cidade estranha,  pouco acolhedora. As praças estão abandonadas,  povoadas por moradores de rua. A  prioridade da prefeitura são os viadutos. Já são quatro e estão construindo o quinto. Certa vez João Ubaldo chamou  Salvador  de Los Ângeles de pobre. Feira está no mesmo caminho.

Mas os Ipês estão floridos. E nossa candidata a Los Ângeles de pobre do sertão está mais bonita.

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O ferro novo e o colo do capeta

Recuperei o carro em Amélia Rodrigues, a 20 quilômetros de Feira de Santana. Ele havia sido furtado a 50 metros de uma instalação militar que ignora a nossa guerra cotidiana e se prepara com afinco, muito desfile e toque de corneta, para a 2ª Grande Guerra com o Paraguai, o segundo levante de Canudos ou uma provável nova Insurreição dos Alfaiates. Mas sobre isso já falei aqui.

Outros dois carros já foram tomados de assalto no último ano apenas na frente do meu prédio.  O que leva um cara a matar ou morrer, a arriscar-se para furtar um veículo ou colocar a arma na cabeça de alguém?  R$ 1.000. No máximo, R$1.500. Este é o motivo, segundo um policial experiente, que conhece a realidade de Feira de Santana. Retalhado e vendido a granel, o carro dá um lucro bem maior ao atravessador, cerca de R$ 10 mil. E mais ainda a quem compra as peças por ¼ do preço.

Como não há tráfico sem usuário, também não haveria ferros novos se a procura não fosse grande. Numa roda de taxistas, na frente da Rodoviária de Feira de Santana, um deles informa que um colega comprou todas as peças necessárias para remontar um Uno seminovo pela módica quantia de R$ 3.500. Com mais R$ 3.000 de mão-de-obra, remontou um novo veículo com tal  perfeição, que nem um revendedor experiente desconfiaria estar diante de uma perda total.

Chegam carretas e carretas fechadas com carros para desmonte, diz o taxista. Não vi as carretas, mas basta circular pela Rua da Aurora, e adjacências, em Feira, para o cristão se deparar com uma oferta inacreditável de peças seminovas.

E a polícia, não vê?  Vê, claro, diz o taxista, sem conter uma quase garagalhada. – Os delegados que se meteram a desmontar isso aqui foram transferidos rapidinho, rapidinho…

Enquanto dava queixa na delegacia aqui em Salvador observava os muitos cartazes de procura-se. Num deles havia a foto de um fora-da-lei, de 25 anos, com uma cruz feita com caneta na testa. Estava escrito em letras trêmulas: “Este já foi pro colo do capeta”. O epitáfio provavelmente fora escrito por um funcionário público que, mesmo com um magro salário, exerceu com apenas um tiro na testa a função de policial, promotor, juiz e carrasco.

Enquanto isso, continuamos nós – cidadãos não-ladrões e cidadãos ladrões – a mercê de uma arma na cabeça, de uma bala na cabeça, para ir pros braços da Virgem Maria ou sentar no colo do capeta por conta de míseros R$ 1.000.

 

Feiras de Santana

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Centro de Abastecimento, março de 2007.

Feira é um lugar de economia livre, informal. De cores, cheiros e sons.  
E Feira de Santana não tem esse nome em vão.  É a cidade das feiras, onde não existe pecado de nenhuma natureza e onde só há nove mandamentos. O  sétimo  desapareceu e há suspeitas de que foi  desmontado e vendido a preços módicos  nas cercanias da Rua da Aurora, a maior feira mundial de peças usadas e baratinhas.
Tem também uma feira internacional, o Feiraguai, onde o Mercosul deu certo. O mesmíssimo  jogo de carrinhos em miniatura  que vi numa vitrine do Itaigara por R$ 28,00, comprei por R$ 7. Seria a diferença da tal carga tributária?
É possível também comprar roupas, em balaios de lojas de verdade, estabelecidas, com CNPJ e tudo, onde já adquiri cinco camisetas por R$ 5. Isso mesmo, a metade de R$ 1,99.
Tem também a feira feira, onde se encontram frutas a preços honestos bem camaradas. O freqüentador do Wal-Mart Bom?preço não deve ir à feirinha da Estação, sob pena sentir um grande otário. Outro dia comprei seis jenipapos em excelente estado por R$ 1 real. Na segunda-feira, vi dos mesmíssimos, empacotados em bandejas de isopor a R$ 5,80 três unidades. Ou seja, pelo Bom? preço de um você compra 12.
Pelas feiras conjugadas, a da Estação e a do Rato, circula Cícero do Cafezinho, de quem já falei aqui. Um dia ainda faço um filme de verdade com ele.
A mais divertida é a feira do rato. Há dois anos comprei por lá um monte de disco de vinil  mais baratos que jenipapo e dei de presente a Anselmo, do Picolino; a Joana, do Crear; e a Maria, do Botequim Maripim. Todos eles tem o estranho vicio em chiados e não  abrem mão de uma agulha sobre o vinil. Mais fotos aqui.

PS. A Feira da Estação e Cicero do cafezinho renderam um dos posts mais visitados deste Licuri, não se se lido, mas sempre achado nas buscas por conta do título: Roberto, Quxabeira, Schopenhauer, Contardo…

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Feira da Estação, aos domingos.

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Feira do Rato, 2007. Clique na imagem para ver filmete recente.

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(2) Daniele Still. Em holandês?

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(3) Sex and Fair

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Rei do Baião, obra completa do rei rei e Raul Seixas. Tem jogo.