Posts Tagged ‘Feira de Santana’

Ipês

02/11/2009

DSC02360

Eles estão floridos há algum tempo. Mas desta vez invadiram meus olhos nestes dias de Feira de Santana. A cidade pela primeira vez me parece bonita. Graças aos ipês.

Feira é uma cidade estranha,  pouco acolhedora. As praças estão abandonadas,  povoadas por moradores de rua. A  prioridade da prefeitura são os viadutos. Já são quatro e estão construindo o quinto. Certa vez João Ubaldo chamou  Salvador  de Los Ângeles de pobre. Feira está no mesmo caminho.

Mas os Ipês estão floridos. E nossa candidata a Los Ângeles de pobre do sertão está mais bonita.

DSC02347

O ferro novo e o colo do capeta

26/03/2009

Recuperei o carro em Amélia Rodrigues, a 20 quilômetros de Feira de Santana. Ele havia sido furtado a 50 metros de uma instalação militar que ignora a nossa guerra cotidiana e se prepara com afinco, muito desfile e toque de corneta, para a 2ª Grande Guerra com o Paraguai, o segundo levante de Canudos ou uma provável nova Insurreição dos Alfaiates. Mas sobre isso já falei aqui.

Outros dois carros já foram tomados de assalto no último ano apenas na frente do meu prédio.  O que leva um cara a matar ou morrer, a arriscar-se para furtar um veículo ou colocar a arma na cabeça de alguém?  R$ 1.000. No máximo, R$1.500. Este é o motivo, segundo um policial experiente, que conhece a realidade de Feira de Santana. Retalhado e vendido a granel, o carro dá um lucro bem maior ao atravessador, cerca de R$ 10 mil. E mais ainda a quem compra as peças por ¼ do preço.

Como não há tráfico sem usuário, também não haveria ferros novos se a procura não fosse grande. Numa roda de taxistas, na frente da Rodoviária de Feira de Santana, um deles informa que um colega comprou todas as peças necessárias para remontar um Uno seminovo pela módica quantia de R$ 3.500. Com mais R$ 3.000 de mão-de-obra, remontou um novo veículo com tal  perfeição, que nem um revendedor experiente desconfiaria estar diante de uma perda total.

Chegam carretas e carretas fechadas com carros para desmonte, diz o taxista. Não vi as carretas, mas basta circular pela Rua da Aurora, e adjacências, em Feira, para o cristão se deparar com uma oferta inacreditável de peças seminovas.

E a polícia, não vê?  Vê, claro, diz o taxista, sem conter uma quase garagalhada. – Os delegados que se meteram a desmontar isso aqui foram transferidos rapidinho, rapidinho…

Enquanto dava queixa na delegacia aqui em Salvador observava os muitos cartazes de procura-se. Num deles havia a foto de um fora-da-lei, de 25 anos, com uma cruz feita com caneta na testa. Estava escrito em letras trêmulas: “Este já foi pro colo do capeta”. O epitáfio provavelmente fora escrito por um funcionário público que, mesmo com um magro salário, exerceu com apenas um tiro na testa a função de policial, promotor, juiz e carrasco.

Enquanto isso, continuamos nós – cidadãos não-ladrões e cidadãos ladrões – a mercê de uma arma na cabeça, de uma bala na cabeça, para ir pros braços da Virgem Maria ou sentar no colo do capeta por conta de míseros R$ 1.000.

 

Feiras de Santana

16/03/2009
abastecimento-palhacos

Centro de Abastecimento, março de 2007.

Feira é um lugar de economia livre, informal. De cores, cheiros e sons.  
E Feira de Santana não tem esse nome em vão.  É a cidade das feiras, onde não existe pecado de nenhuma natureza e onde só há nove mandamentos. O  sétimo  desapareceu e há suspeitas de que foi  desmontado e vendido a preços módicos  nas cercanias da Rua da Aurora, a maior feira mundial de peças usadas e baratinhas.
Tem também uma feira internacional, o Feiraguai, onde o Mercosul deu certo. O mesmíssimo  jogo de carrinhos em miniatura  que vi numa vitrine do Itaigara por R$ 28,00, comprei por R$ 7. Seria a diferença da tal carga tributária?
É possível também comprar roupas, em balaios de lojas de verdade, estabelecidas, com CNPJ e tudo, onde já adquiri cinco camisetas por R$ 5. Isso mesmo, a metade de R$ 1,99.
Tem também a feira feira, onde se encontram frutas a preços honestos bem camaradas. O freqüentador do Wal-Mart Bom?preço não deve ir à feirinha da Estação, sob pena sentir um grande otário. Outro dia comprei seis jenipapos em excelente estado por R$ 1 real. Na segunda-feira, vi dos mesmíssimos, empacotados em bandejas de isopor a R$ 5,80 três unidades. Ou seja, pelo Bom? preço de um você compra 12.
Pelas feiras conjugadas, a da Estação e a do Rato, circula Cícero do Cafezinho, de quem já falei aqui. Um dia ainda faço um filme de verdade com ele.
A mais divertida é a feira do rato. Há dois anos comprei por lá um monte de disco de vinil  mais baratos que jenipapo e dei de presente a Anselmo, do Picolino; a Joana, do Crear; e a Maria, do Botequim Maripim. Todos eles tem o estranho vicio em chiados e não  abrem mão de uma agulha sobre o vinil. Mais fotos aqui.

PS. A Feira da Estação e Cicero do cafezinho renderam um dos posts mais visitados deste Licuri, não se se lido, mas sempre achado nas buscas por conta do título: Roberto, Quxabeira, Schopenhauer, Contardo…

feirinha-crianca-e-adolescente-feirinha

Feira da Estação, aos domingos.

rato-tranqeiras-e-crianca

Feira do Rato, 2007. Clique na imagem para ver filmete recente.

rato-danielle

(2) Daniele Still. Em holandês?

rato-sex-e-molas

(3) Sex and Fair

rato-tes-reis-gonzaga-roberto-e-raul

Rei do Baião, obra completa do rei rei e Raul Seixas. Tem jogo.

A águia pousou

14/03/2009

 

 

Além da companhia do irmão lutador, ainda reforçaram a comitiva de resgate a cunhada e a sogra, que já iam para Feira de Santana e pegaram a carona arriscada. Rodados 102 km, finalmente o possante foi avistado. Tudo dentro, a roupa de Maria num saquinho que tinha sido trazido da casa da colega, um pé de sandália de princesa  [o outro tinha caído quando peguei a menina dormindo à noite e deu o maior susto em Eliene quando chegou pela manhã com o sonho na cabeça e viu o pé de sandália no passeio].

 

Mas, no inicio da tarde, comíamos e bebíamos em Feira, comemorando a missão, com o seguinte saldo:

 

Aluguel do cambão: R$ 20,00 *

Um muito obrigado caloroso à pessoa que encontrou o possante (pelo perfil, não cabiam cifrões como recompensa)

Gasolina no carro do irmão (não me chame de sovina, ele só topou porque o posto não aceitava cartão e precisava chegar ao próximo): R$ 20

Três cervejas geladas para comemorar: R$ 7,50

Macarrão ao molho de frutos do mar, na casa da Conceição, minha segunda sogra,  preparado pelo Marinheiro Popeye [em breve capitão de corveta]: R$ 00,00.

Imaginar as caras dos ladrões ao voltar para pegar o possante: tem quase o preço de uma goleada do Baêa minha porra sobre o vicetó.

 

Claro que ainda tem o preju da junta de tampão, que normalmente vai pros ares quando um carro ferve. Claro que tem o prejuízo do celular/agenda e o painel desmantelado pelo sacana pra fazer a ligação direta. Mas eu tô alegre paporra. Feliz da vida. Uma completa hiena.

 

Talvez a alegria maior tenha sido passar o troféu de otário para o ladrão, que teve de trabalhar de madrugada, rodar 100 km e, quase chegando, a 20 km do destino, ter que abandonar a corrida e descer do carro como piloto de fórmula um, abanando a cabeça de contrariedade. Viu sacana.

 

Enfim, para estas coisas terminarem bem tem que ser um destrambelhado 100%. Não pode ser meio destrambelhado. Porque se eu tivesse consertado o radiador e não cultivasse o péssimo hábito de deixar os documentos no porta-luvas, não estaria aqui comemorando.

 

Ao abrir a porta destravada, a pessoa que nos avisou encontrou facilmente os documentos no porta-luvas. Rápida pesquisa com o nome na internet, chegou ao número do telefone. Atenção, paranóicos, fiquem mais paranóicos. Encontrar endereço e telefone de alguém é bem mais fácil do que se imagina.

 

As crianças, pra variar, também ajudaram. A pessoa desconfiou de carro ter sido roubado ao ver as duas cadeirinhas no banco traseiro.

 

Enfim, a hiena aqui em algum momento desta semana vai ter que recolher o sorriso e acordar para a realidade. Além de IPVA em aberto de 2005, 2006, 2007, 2008 e 2009, multas a pagar e o conserto que ainda não teve o custo calculado, vai rodar agora com um veículo roubado. Ou então pagar tudo o que deve ao prefeito.

Forrest  John finalmente me pegou.

 

*Cambão: barra de ferro utilizada para rebocar carro.

 

Localizaram

14/03/2009

Duas hipóteses.

O possante herdou personalidade do dono e num ataque de ansiedade tomou o rumo de Feira de Santana dois dias antes do previsto.

Ou, diante do descaso do dono com o conserto eternamente adiado do radiador furado, do pagamento sempre postergado de IPVA e multas, resolveu dar  cabo à vida.

Como a velhinha do filme de Kurosawa, tomou o rumo do matadouro, do esquartejamento, não na montanha, mas na Feira de Santana, capital mundial do comércio de peças usadas bem baratinhas.

Recebi ontem no final da tarde a ligação. Um xará do rei dos hunos informa que o possante foi abandonado ontem em frente a um restaurante em Amélia Rodrigues, pertinho da capital mundial do comércio de peças usadas baratas.

Como não sou maluco a ponto de ir à noite prum lugar que só conheço de passagem sem checar uma informação de um cara que tem um nome tão assustador, resolvi perder tempo.

Corro o risco dos donos terem voltado com um mecânico e levado de vez o moribundo para o esquartejamento de ontem para hoje.

Mas preferi seguir acompanhado de um aprendiz de Krav Magá, defesa pessoal baseada na simplicidade e eficiência, por acaso meu irmão mais novo [não aquele que recentemente perdeu por pontos uma briga com um lutador profissional.] É o outro irmão, um pouco mais novo que eu, mas ainda em forma, para quem vou ligar agora e convocar para esta missão de resgate.

Voltarei em breve com novidades.

Praga?

08/03/2009

dsc079181

Roberto, Quixabeira, Schopenhauer, Contardo…

05/08/2007

A Princesa e o Rei. Clube do Rei. Das seis às oito da manhã de domingo, Feira de Santana, a Princesa do Sertão, se transforma no império de RC. E eu, súdito, escuto. Roberto Carlos muitas vezes não me diz nada, outras tudo. E ai vou zapeando, da Princesa para a Eldorado, da Eldorado para a Princesa, em busca dos clássicos da minha infância e adolescência. Na feira da Estação, Roberto também clama pela Amada, Amante no alto-falante. E eu tardiamente descubro hoje em Feira de Santana que o tipo predileto do rei é baixinha, usa óculos e tem mais de quarenta.
Mas nas ofertas de CDs piratas de Cícero do Cafezinho(este da foto), o sucesso é a Quixabeira. Isso mesmo, a música da Matinha pirateada. É a glória e o sucesso da chamada cultura popular. Comprei dois. Cada um custa três real. Negociei dois por cinco. Um para Josias Pires, meu amigo irmão, camarada, que lá pelos idos do início dos 90 do século passado ajudou a trazer a música da Quixabeira à luz da chamada indústria cultural [Alô meu Santo Amaro/Eu vim lhe conhecer/Eu vim lhe conhecer…/ Tu não faz como um passarinho/Que fez um ninho e avoou/ Mas eu fiquei sozinho / Sem teu carinho / Sem teu amor]. Agora, a segunda geração corre atrás, com o CD Retrato de um Sambador.
Assim como os astros da núsica axé que pongaram no sucesso da Quixabeira, eu também quero tirar o meu. Tratei de registrar Cícero, gravar um vídeo com minha Sony de criança, e postar no YouTube(veja aqui ).
Ficou no estilo daqueles vídeos que outro dia arrancou indignação de Soraya ao navegar no porta-curtas-petrobrás: – Vão lá, grava o povo e depois fica tirando onda. Assim também eu faço.
E é o que eu já estou tentando. Tirar onda. Quem sabe um dia meu vídeo não vai também parar no porta-curtas????
Falar em onda, este Schopenhauer aí do título é também para tirar onda. Acordei ontem com o presente de Soraya. Era um livreto de bolso com o título A arte de escrever, do dito cujo. Indireta? O subtexto é: vá estudar vagabundo!
E o pior é que num vou não. Shopenhauer que perdoe meu DDD, digo, DDA (obrigado Márcia) mas ele deve ter também o destino de muitos e muitos livros que o candidato a blogueiro aqui ganha e planeja ler: estante. Ler que é bom…
Mas Contardo eu leio (artigos) e gosto muito. E ele falou uma coisa em uma entrevista a Mário Kétesz outro dia que bateu legal, como diziam em minha época. Que o desafio de fazer uma coluna semanal na Folha mudou a vida dele. Buscar, pensar sobre e responder ao desafio de escrever algo interessante fez com que ele vivesse melhor. Guardadas as devidíssimas proporções (porque eu sou maluco mas não sou doido) senti a mesma coisa quando passei a escrever este Licuri e seus cocos derivados.