Posts Tagged ‘forrest john’

Você votaria num viado?

16/10/2008

Num viado eu votaria sem problema nenhum. Agora, numa anta, como Forrest John, jamais!

Falar em viado, Marcinha ficou nos devendo um ótimo post. Sobre um taxista cheio de bossa que ela conheceu um dia, daqueles que puxam assunto: “Sabe, estes viados ficam fazendo campanha contra preconceito,fazendo passeata, mas eles são muito pior. Quer ver? seja viado e se vista mal, fora da moda ou fique barrigudo pra você ver o que é preconceito.

Mas o melhor sobre este assunto de viado candidato está no texto de Contardo Calligaris, hoje na Folha e em A Tarde. Roubei para você:

 

“As campanhas eleitorais são facilmente sórdidas.

Claro, os candidatos mentem inchando seus feitos, omitindo suas inércias, atribuindo-se realizações que são de outros ou dos predecessores. Mas isso dá para agüentar, é quase normal.

Muito mais humilhante (para a gente) é quando as campanhas fazem apelo ao que há de pior em nós, ou seja, quando, na tentativa de desacreditar o candidato adversário, elas apostam em nossos preconceitos. Nesse caso, as campanhas supõem (com razão) que estejamos sempre prontos a transformar tal candidato em cabide de sentimentos e desejos que são nossos, mas dos quais nos envergonhamos.

Funciona assim. Digamos que eu sou ávido e venal e não gosto disso; prefiro me imaginar desinteressado e generoso. Como tirar vantagem dessa minha contradição?

O jeito ideal de me manipular não é denunciar um candidato porque ele se mostrou, em tal ocasião, interesseiro e cobiçoso. O método direto é o menos eficiente: ele permite, afinal, que a gente se interesse pelos fatos, verifique, concorde ou discorde.

A melhor maneira de manipular passa por dois tempos: 1) evocar um fato do qual são silenciadas a causa e as circunstâncias, 2) levantar uma pergunta quanto mais genérica possível, de modo que o ouvinte projete suas próprias tendências envergonhadas no candidato atacado e ele, o ouvinte, seja, assim, o único responsável pela calúnia.

Um exemplo? 1) Os judeus são quase todos comerciantes, 2) pergunta genérica: o que eles “realmente” querem da gente? A propaganda anti-semita nazista acrescentava, para quem fosse burro mesmo, desenhos de garras aduncas surgindo da sarjeta, mas não era necessário. Detalhe silenciado: os judeus eram comerciantes porque, por exemplo, não lhes era permitido comprar terra ou exercer profissão liberal que atendesse à população em geral.

Na fase dois da manipulação (a pergunta), é crucial que algo nos sugira que houve a intenção de esconder uma falha, que deve ser revelada. Em “O que eles “realmente” querem da gente?”, o advérbio instala em nós a suspeita de que estávamos sendo enganados. Agora, o véu será levantado. O problema é que, como nada foi dito explicitamente, será levantado não por uma denúncia, mas pela atribuição ao acusado de qualquer uma das tendências que mais receamos em nós mesmos.

Esse método básico de manipulação aparece de maneira idêntica na última fase da campanha presidencial dos EUA e no início do segundo turno das eleições para a Prefeitura de São Paulo.

A campanha de John McCain 1) encarregou a candidata a vice de evocar fatos “sugestivos” sem explicitar as circunstâncias (por exemplo, Barack Obama encontrou o ex-ativista e terrorista William Ayers -de fato, Ayers era tudo isso nos anos 1960, mas hoje é professor de pedagogia na Universidade de Chicago e se ocupa de programas sociais educativos); 2) logo, perguntou: “Quem é o “verdadeiro” Obama?”.

A campanha de Marta Suplicy apenas inverteu a ordem; criou um comercial que começa com “Você sabe “mesmo” quem é o Kassab?” e termina com a pergunta: “Sabe se ele é casado? Tem filhos?”.

É óbvio que as prisões do país estão cheias de indivíduos casados e com filhos (o estado civil não é garantia de nada). A pergunta só serve para que o eleitor médio pense em Kassab como diferente dele: “Não é casado? Então, tem uma vida diferente da minha”. Essa pensada dá força à interrogação inicial: “Você sabe “mesmo” quem é o Kassab?”. Não, não sei, visto que ele é diferente de mim. O que ele está me escondendo?

A Folha de 13 de outubro relata o seguinte: a reportagem “perguntou a Marta se a propaganda não era contraditória com a sua biografia” (Marta Suplicy foi uma campeã do direito à privacidade). E Marta respondeu: “O que você está insinuando?”. Mais uma manipulação: “Ninguém disse nada, o comercial só pergunta, é você que procura pêlo no ovo”.

As perguntas das campanhas de Marta e de McCain talvez funcionem com eleitores desavisados: eles imaginarão que Kassab e Obama sejam os perigosos porta-vozes de tendências obscuras que eles (os ditos eleitores) receiam, antes de mais nada, dentro deles mesmos.

Mas, para a maioria, menos desavisada do que parece, essas perguntas assinalam que as campanhas de Marta e de McCain estão dispostas a uma boa dose de indignidade moral para se manterem em vida.”

Banho de asfalto

29/09/2008

Mais uns metros e teríamos a primeira praia asfaltada do mundo

Sem palavras

Ficou lindo o mini-atutódromo de Janjão. Esta praia feia é que atrapalha a vista

Comemorei cedo

27/09/2008

Lembra daquela bela vista do antigo Clube Português?
Forrest tome obra Jonh resolveu se desapertar novamente na orla e enfeitar o lugar com um mini-autódromo.

Veja mais do estrago aqui.

Sol de Primavera

07/09/2008

Anoitecer de hoje visto de onde se via o muro do Clube Português

Límpido, tépido, calmo, belo. Há muito eu não via um dia tão bonito. Desconfio que até quem destesta domingo, como minha e-amiga Aeronauta,  tenha gostado. Soraya, que também não gosta, se rendeu à luz de hoje. Começou pela  manhã. O programa com a renca era Parque da Cidade para pedalar e ver Armandinho com a OSBA. Aí olhei pela janela e pressenti o dia. Bastou convocar um rápido plebiscito e praia ganhou por unanimidade, louvor e gritos de Maria: praia, praia, praia. Milagrosamente saímos todos antes de se completarem 3 horas da decisão. Rumamos para Patamares porque adiante há perigo de blitz e eu não quero dar um centavo para Forrest John. Pretendo só entregar os meus  IPVAs 2005, 2006, 2007, 2008 e 2009 para o próximo prefeito, que não vai ser nenhuma coca-cola mas qualquer coisa fora este energúmeno que aí está será excelência em administração. É por isso que eu quero Hiiiiiiiiilton cinqueeeenta na capital da resisténcia só pelo prazer de ver Forrest num merecido quinto lugar. Jahhhh.

Mas vamos voltar ao belo dia em que a renca reencontrou a praia. Pareciam mineiros diante do mar. Saltavam, corriam, tomavam caldo satisfeitos no reencontro com as águas abandonadas desde março, quando começaram as chuvas. Para completar a felicidade e harmonia no lar, teve alforria de fogão. Depois que descobrimos um genérico do Bella Napoli ali no Stiep, mesmo os domingos chuvosos ficaram mais felizes. De quebra André ainda ganhou um cinema com Soraya, Maria bodiou e eu voltei pra casa encantado com o céu púrpura do fim de tarde. E comprovei que Forrest John foi bom prefeito quando nada fez, como nesta área do demolido Clube Português, que tomava a vista da praia e agora nos dá esta aí da foto. Ainda bem que nosso Forrest estava tão concentrado em pintar meio-fio que não teve tempo de colocar algum monstrengo na frente da paisagem.

Caculé

Mas veja só na foto abaixo o que eu encontrei também neste domingo na Orla. Uma informação que Neto me sonegou.  Segundo o paulista Paulo Emílio, o revendedor dos cofres caculeenses, são 15 fábricas que fornecem para todo o Brasil e fazem de Caculé – cidade que fica na Bahia, segundo informa a faixa – o principal produtor nacional. O fenômeno, até onde eu sei, ainda não foi descoberto pelas editorias de economia de nossos jornais. Então quer dizer que Caetité tem  urânio, ferro, ametista e manganês e quem bota a grana no cofre é Caculé? .

Teria Forrest John um Incitatus?

21/08/2008

Por Júpiter!

O que este aí estava fazendo às sete da manhã hoje nas ruas da Pituba? Será que nosso alcaide tem também o seu incitatus? Será que o passeio é uma inspeção nos banhos de asfalto e de luz?
Com mais algumas passadas, o nosso possível senador soteropolitano estaria numa das avenidas mais movimentadas da cidade. Temendo um acidente, resolvi então ligar para o 156, Salvador atende.
Pode acreditar, ouvi umas 200 vezes a musiquinha  …quem ama tem respeito, quem ama só quer o bem…  
Desisti. Tinha mais o que fazer. Intrigado, resolvi ligar mas tarde e só então a moça me explicou que o serviço começa a funcionar a partir das 7h30. Ou seja, o otário que liga antes das 7h30 ouve trocentas vezes a gravação – estamos transferindo sua ligação. 
E ainda tenho que ouvir o dia inteiro a versão daquela musiquinha   que tá dentro, deixa, traduzida pelos marketeiros de Forrest para  já que embalou, deixa João.

Você deixa?

P.S: mas acho que o bicho não é de Forrest, ele não leva jeito pra montaria. Confira aqui.

 

 

“Apólogo Brasileiro sem Véu de Alegoria” ou o cego e o francês

12/08/2008

Clique para ver a apresentação sobre pedras porguesas hospedada no site do MP

Não lembrava do título nem do seu autor, Alcântara Machado. Mas o google trouxe a íntegra deste conto lido na adolescência na Escola Técnica e que não sai da cabeça desde que descobri que foi preciso um francês dar o grito de guerra para que houvesse uma mobilização maior contra a destruição de Salvador por um prefeito néscio e ignorante, embora nosso Forrest John de bobo não tenha nada, repito. Comparo o francês ao cego do conto porque  humilha um pouco saber que o cara é estrangeiro e se mobiliza mais por esta terra do que eu, você e nossos conterrâneos. No conto é um cego, coincidentemente chamado de cego  baiano,  que lidera a revolta contra a falta de luz em um trem.

 

A vitória continua folgada do granito sobre a pedra portuguesa no resultado parcial da enquete do MP. O tiro sai pela culatra. É pedir demais aos conterrâneos, equivalente a opinar sobre um show de pagode ou de chorinho. Dizem que sensibilidade é informação concentrada. Como exigir sensibilidade de uma cidade analfa, desinformada e que ignora sua memória?

Mas o caso ainda não está perdido, vale pelo debate e a guerra por votos continua. Saiba mais sobre o projeto, principalmente os pareceres de Ana Fernandes e Ordp Serra antes de votar aqui.

 

Eis a  revolta do francês, distribuída por e-mail:  

“Nao dá para ficar indignado o tempo todo.

Ás vezes tenho vontade de fechar a cabeça, renunciar a enfrentar mais uma briga, visto a pouca mobilizaçao da sociedade quando se trata de re-pública. Cada um parece so se alarmar quando o problema vem bater a própria porta e ameaça invadir seu bem-estar. individual e imediato.

Hoje de manhã, deste gostoso domingo de sol discreto, apos ler a denuncia da lúcida jornalista Mary Weinstein no jornal A Tarde sob o título “Barra muda de paisagem”, uma chamada de telefone me leva a depressão.

Uma moradora da Barra me informa que fora colocado um imenso tapume ao longo da ladeira da Barra, do lado da encosta, preparando o terreno para a construção de um gigantesco edifício que irá definitivamente obstruir a vista deslumbrante da baía para quem vai em direção a Barra.

Ha probabilidade que os responsáveis sejam a portuguesa Imocom, a mesma do hotel Hilton/Comercio.

Algum de vocês teve acesso ao projeto?

Mais uma vez se evidencia o monopólio ditatorial das imobiliárias, a ganância de uma minoria contra a qualidade de vida, a sensibilidade e os direitos da população.

Façam a conta do que Salvador perdeu nestes quase quatro anos com a eleição desastrada do atual prefeito, o Exterminador do Futuro.

É assustador.

A derrubada, em fim de semana, da mansão Wildberger, no belo largo da Vitória para construção de mais um espigão.

A derrubada, em fim de semana, do Clube Português, na Pituba, nem se sabe para que projeto.

O alvará para se construir um hotel Hilton junto ao Mercado Modelo, totalmente disproporcionado ao contexto urbano. É bom lembrar que a cadeia Hilton não será proprietária do imóvel.

O desaparecimento de um rio da avenida Centenário, sob toneladas de concreto, no momento que o mundo inteiro fala de preservação ecológica.

A derrubada, durante a madrugada, de seis árvores no porto da Barra sem que a populaçao fosse informada.

A retirada da tradicional pedra portuguesa do mesmo porto da Barra, substituida por concreto com alguns enfeitos de granito, impermeabilizando a terra e criando microclima mais calorento.

Agora o roubo da paisagem da ladeira da Barra, com a omissão do Conselho Estadual de Cultura, os argumentos burocráticos do Iphan, a omissão conivente do Etelfi e os aplausos eleitoreiros da Amabarra.

Amanhã, será aprovado o projeto demolidor do Marcos Cidreira para o Comércio.

Depois de amanhã, o vasto quartel dos Fuzileiros Navais, perto do Pilar será vendido a imobiliárias para mais especulação. Enquanto isso, nossa cidade carece dramaticamente de áreas verdes.

E os galpões do porto, em vez de adaptados como em Belém ou Barcelona, serão derrubados para mais alguns shopping centers.

E já que baiano tem os EU como referencia cultural obrigatória, é bom lembrar que em Miami, as residencias Art Deco (1925) do Ocean Drive foram tombadas e não podem ser demolidas.

Veja o que fizeram aqui com o corredor da Vitória…

Chegou o momento de dar um basta a tanta agressão sob pretexto de modernidade.

Chegou o momento de questionar a sanidade de alguns dirigentes.

Chegou o momento de fazermos uma assembléia geral e avaliar o prosseguimento deste holocausto cultural.

Ajudem a programar uma verdadeira ofensiva.

É caso urgente de sobrevivência para Salvador!

ACORDEM!”

Dimitri Ganzelevitch

Presidente da Associação Cultural Viva Salvador

 

A imagem do pombo sobre as pedras peguei aqui.

Anticampanha: 100 slogans contra o mais Forrest para quinto lugar

06/08/2008

Estou em campanha. Na verdade em anticampanha, cético e indiferente aos quatro primeiros colocados na eleição de Salvador. Mas faço questão de que o quinto seja Forrest John que, ao contrário do personagem do filme, não tem nada de puro. Nosso Forrest se faz de bobo.

Nutro um ódio cidadão por este sujeito e vários posts neste Licuri são testemunhas disso. Basta ir lá na busca do blog e escrever Forrest.

São vários os motivos. Primeiro, não me sai da cabeça os outdoors do cara protestando contra tudo o que é taxa. Entrou na prefeitura e sua maior obra é a montagem de uma indústria de multas e a compra (ou aluguel?) de centenas de viaturas amarelas que infernizam ainda mais o trânsito caótico. Destruiu as praias de Salvador, não melhorou em nada saúde e educação e passou boa parte do último ano torrando nossa grana na TV e nos jornais numa campanha São Tome: pode acreditar. E em outra diarréica (obrigado Nilson Pedro): tome obra. Destruiu o Clube Português, que podia muito bem ser restaurado, bastava tirar o muro, já que ele ficava num plano inferior, para nos devolver a paisagem. Enquanto gastava os tubos com propaganda, deixou os dependentes do plano de saúde da prefeitura a ver navios ao dar calote nos hospitais. Borrou a cidade inteira com grafites chapa branca e destruiu um terreiro de candomblé, prometeu reconstruir e até hoje não cumpriu mais esta promessa(clique na imagem do Forrest verdadeiro para ver o vídeo).

Sua cara-de-pau chega ao ponto de afirmar que a grande realização na educação é ensinar inglês às crianças da rede pública, como se lá houvesse já uma educação modelo. Enfim, tudo isso pra dizer que apoio a construção coletiva dos 100 slogans da vingança, que circula na Internet desta maneira:

“Você que tem arrepios só de olhar para a cara-de-pau do nosso querido alcaide Forrest John, pode exercer seu instinto de vingança. Acrescente seu slogan a esta lista e passe para a frente:

01 – Muito mais Forrest.

02 – Cada vez mais Forrest.

03 – Por amor a seu saquinho, não repita Joãozinho.

04 – Vote em qualquer mamão, menos no banana do João.

05 – Tenha brio, mande João para a… porta da rua.

… colaborações via comentário neste Licuri:

06 – (…) tudo o que você sonhou é João fora da Prefeitura de Salvador. Pode acreditar tá acontecendo (…)

07 – João de novo, NÃO!!!!!!!

08 – Reze por João Henrique…para que ele se pique!

09 – Batatinha quando nasce
        Esparrama pelo chão
        João Henrique outra vez
        Só se for muito doidão

Pode acreditar…

30/03/2008

pierre-verger.jpg

Fomos ao encontro dos símbolos da cidade para que André completasse sua tarefa de casa sobre o aniversário de Salvador. Da balaustrada do elevador tentamos rever esta imagem acima, clicada por Pierre Verger há uns 50 anos. Ficamos pouco, deu pra mostrar rapidamente o Forte de São Marcelo,  o Mercado Modelo… O mau cheiro que vinha do terreno baldio logo abaixo tornou o papo rápido. Lá embaixo, mais abandono, pedintes, a rampa do mercado completamente imunda, moradores de rua improvisavam um fogareiro, ao lado do Distrito Naval, devidamente separado por cordas, como se fosse de outro mundo. Tentamos contornar o monumento de Mário Cravo, coberto de limo. Atravessamos a rua… na pressa André enfiou o pé na água podre acumulada entre o passeio e a pista. Subimos o elevador e mais vendedores de bugigangas voltaram à carga com  fitinhas do Bonfim oferecidas como pretexto para o assédio.
_A gente é baiano véio,  era a senha pra se livrar da aporrinhação. Em casa, a musiquinha de forrest john na televisão não pára de martelar o contrário e tentar convencer minhas narinas de  que a cidade que eu sonhei está acontecendo…

Verger, Caetano e a Cidade da Bahia

24/02/2008

verger-caramuru.jpg 

 

 

Futucando a fototeca da Fundação Pierre Verger… Bingo! O Caramuru, hoje condenado à morte,  não passaria despercebido aos olhos do cara.

 

 

 

 

E Caetano fala sobre a cidade em entrevista à repórter Mary Weinstein, em A Tarde de hoje. Confira os trechos  sobre o gabarito da Orla e do Comércio e sobre as barracas de Forrest John nas praias (tratei deste assunto ainda quando o Licuri era no uol, em post de 24/01/2007):

 Caetano Veloso: Não é possível que tenham construído essas casas em cima da areia da praia para serem permanentes. Porque isso é como construir uma favela.  E ocupar parte da areia. O movimento deveria ser em sentido inverso. Devia ser o de desencorajar o que quer que seja de permanente sobre as areias das praias.  O que havia na praia – e era bonito – eram as casas dos pescadores quando havia puxada de rede e tudo o mais. Mas isso foi acabado pelo Antônio Carlos Magalhães, na época da ditadura.E eu protestei contra isso. Mas as barracas de vender bebida e não sei quê, na praia, não podem ser uma coisa que fique ali. Acho errado.Eu sou contra até aquele lugar que os guarda-sóis ficam, fechados, durante a noite. Parece um cemitério. Areia da praia é areia da praia. No Rio tem muito mais gente, têm que vender muito mais bebida e, no entanto, cada um chega, põe sua barraca provisória de manhã e retira às cinco horas da tarde. E não fica nada, a praia fica limpa.A Tarde – Esse negócio das barracas poderia ter sido evitado se o Patrimônio da União tivesse usado o seu poder de polícia para impedir a colocação do primeiro tijolo.CV –  Mas eu estou 100% com você. Deveria ter sido simples assim. Os poderes deveriam ter sido aplicados dessa maneira. É evidente.AT   O que você diz sobre o aumento dos gabaritos da orla? CV – Eu li no jornal que havia uma liberação do gabarito da orla, sem sequer as restrições que havia num outro projeto, de distância entre os prédios. Eu fiquei apavorado porque acho que tem-se que ter um projeto muito claro para a orla de Salvador, porque o desenvolvimento é inevitável. Então, liberação de gabarito é a pior notícia que poderia chegar aos meus ouvidos. Porque já começa com um negócio de vale tudo, que é justamente o contrário do que deve acontecer.Deve haver o planejamento mais cuidadoso possível, e não liberações que facilitem construções de qualquer maneira. No Rio, em Ipanema e Leblon, você não podia construir mais que quatro andares.Mas sempre aparece um prefeito que, por causa de dinheiro, abre uma exceção pra fulano e aí, primeiro para os hotéis, mas só hotel, e aí pronto (em ritmo de rap).Mas aí, como abriu pra hotel, aí abre pra um sujeito que dá um dinheiro pro prefeito.AT –  Aqui são 18 andares para hotéis. E na Cidade Baixa também houve ampliação de gabarito. CV –  Junto à praia? Acho que isso deveria ser melhor pensado e achando os caminhos viáveis de implementar restrições. É parte de uma conscientização do que é o tratamento urbano. A prova de que os brasileiros não tinham isso em mente é a maneira caótica como as cidades brasileiras cresceram todas.E todas estão parecidas. São Paulo é o exemplo máximo e é o modelo que foi seguido por todas as cidades. Aquele trecho do Comércio pediria um tratamento como Recife velho e Pelourinho. No mínimo. A essa altura, possivelmente, melhor, porque já se sabe mais coisa. Mas eu vou dizer uma coisa que eu acho que, de certa forma, resume tudo isso. Que o Brasil, como todos os países da América Latina, que têm relíquias arquitetônicas, coisas que os Estados Unidos não têm, deviam aprender com os países europeus, porque nesse aspecto, nós parecemos com os países europeus. E a forma americana não nos serve. Americano faz uma igreja de madeira pra derrubar depois. Você viaja no Peru, no México, no Brasil, na Colômbia, é lindo. Nos Estados Unidos, o que tem de bonito foi construído nos anos 20, 30, 40, 50. Aqui deveria ser pensado como Paris, Roma, Praga, Atenas. Mas já há um pouco desse pensamento. Como eu falei, a recuperação do Pelourinho, São Luís, Recife. Porque a própria coisa se impõe, apesar de não se pensar dessa maneira e se deixar o crescimento caótico continuar. E agora é preciso que a gente não permita que apesar disso se destrua tudo.Eu acho que há coisas que têm que ser defendidas pelo poder público e que não podem só ficar entregues aos interesses econômicos.

Assinante lê íntegra aqui

Abaixo, projeção do efeito da emenda aprovada (ainda não publicada) feita pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil – seção Bahia.

projecao-emen-249-iab-bahia.jpg

O retorno eterno…

20/12/2007

charge.jpg

Na época em que eu trabalhava na reportagem geral de redação, começava a ficar enjoado quando a noção de que vivemos a dar voltas em torno do sol se revelava na repetição das pautas: cortejo do 2 de Julho, caruru de Cosme, festa da Conceição, rodoviária lotada no Natal, festa do Bomfim, Iemanjá, Carnaval…

Nesta blogoesfera começa a acontecer a mesma coisa. É natal e eu aqui novamente e outra vez com os mesmos temas de férias e fim de ano.

A vantagem é que como a terra não volta exatamente para o mesmo lugar depois de ter dado uma volta – afinal o sol também se move e vamos todos numa espiral pros quintos de não sei onde – o cenário é um pouco diferente, embora a falta de dinheiro para ir às ilhas gregas ainda perdure.

Mas posso comemorar um feito inédito na última década: não vou entrar o ano no vermelho…

Carro velho, roupas velhas, mas sem dar ousadia de pagar juros a banco…

Vou comprar até um adesivo para a camicleta azul, quase igual ao que eu vi outro dia num fusca caindo aos pedaços:

Tá velho mas tá pago…

Mas vou acrescentar: menos as multas, enquanto forrest john estiver prefeito.

Credito da charge: Caros Amigos, n62, maio de 2002 (Adão Iturrusgarai) e publicada neste Licuri , naquele longínquo dezembro de 2006.

Forrest John, o retorno

10/11/2007

155661.jpg

 

Galinho republicou e eu faço o mesmo com a foto acima de Vivas em A Tarde, reveladora da nossa via crucis de cidadãos desta cidade. Escrevi sobre o assunto no início do ano lá no Licuri no Uol. E hoje republico abaixo um post que fiz recentemente no Falando na Lata. E esta semana descobri, ao rever o filme, que fui injusto na comparação. Forrest tinha como principal qualidade a ingenuidade. Nosso prefeito não. Ele se faz de besta com muita competência.

***

Cacofonia visual

Houve um tempo em que Salvador exibia poucas placas. Eram tão poucas que a simples existência de uma delas deu nome a uma de suas praias, a Placaford. 
Ao chegar do interior, onde pequenas placas no caminho da escola em Vitória da Conquista – Os Gonçalves, Farmácia Lia, Magazine Aracy, Chez Nice Modas, Bazar Cairo – me ensinavam a ler com nomes e sobrenomes, fiquei impressionado com o imenso letreiro da Philips visto de várias partes da cidade sobre um edifício próximo ao Largo 2 de Julho. Estávamos em 1970 e letreiros como o de A Tarde no prédio histórico da Praça Castro Alves me ensinavam que capital era sinônimo de grandes letras.
Mas havia também os pequenos letreiros e o garoto de 9 anos se divertia especialmente com a sentença a contrariar a bíblia, numa loja da Carlos Gomes: Adão não se vestia porque Spinelli não existia.
Sem querer ser nostálgico, de um tempo pra cá a cidade tem sido invadida lenta e permanentemente por uma tsunami de placas, banners, letreiros, ou toda sorte de mensagem publicitária numa espécie de gritaria visual que o senhor aqui de quase 50 anos, que não perdeu o hábito de ler placas, já não dá mais conta.
Aonde vamos parar? São Paulo já parou.
Em  artigo na Folha de S. Paulo, o cineasta Fernando Meirelles comemorou o basta dado pelo prefeito. Ao ver a cidade linda, desnudada dos milhares de letreiros que escondiam as fachadas e até o pouco verde, o cineasta descobriu que depois de anos via e não lia São Paulo. E desejou encontrar o prefeito para tascar-lhe um beijo por ter proporcionado sua felicidade de cidadão.
Invejei São Paulo. Quando teremos um prefeito merecedor de um beijo?
Salvador aparentemente suporta ainda mais porque tem muitas áreas verdes, tem um céu luminoso, tem a vista do horizonte sobre o mar. É uma cidade difícil de poluir.
Mas estão conseguindo. Só outdoor são 1200 placas. Somadas a elas temos um sem número de busdoors – cartazes nas traseiras dos ônibus – placas de alumínio do mobiliário urbano e, ultimamente imensos cartazes nas fachadas dos prédios.
O letreiro do novo prédio de A Tarde talvez seja do mesmo tamanho que o da Praça Castro Alves. Mas praticamente desaparece diante da onda de banners e placas que surgem na Avenida Tancredo Neves. Um deles ocupa 11 andares da fachada lateral de um prédio em frente ao jornal.
Na Paulo VI, na lateral de um pequeno edifício, Gisele Buchen mira a imensa placa em frente sobre a fachada da Escola de Administração do Exército, ocupada por dois jovens alunos do Colégio Militar ampliados umas 20 vezes, numa placa devidamente creditada com cerca de uma dezena de marcas patrocinadoras.
Marcas, marcas e marcas espalhadas pela cidade.
E o prefeito, longe de merecer um beijo, contribui para esta cacofonia visual com placas amarelas e iluminadas em todos os cantos, a gritar algo que a cidade e eu não conseguimos enxergar: Prefeitura trabalhando.