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ZIP

Nao é permitido

– Não me bate que eu não sou vagabundo, nem ladrão, nem ‘estrupador’.
Quatro da manhã deste domingo na emergência lotada do Hospital do Subúrbio, a lógica torta do paciente surtado e com o maxilar fraturado soava aos brados em protesto contra o policial que lhe aplicava sopapos como calmante depois dele se desamarrar da maca mais de uma vez. Espancar em vez de conter um paciente surtado não cabe no manual de nenhum hospital. Nem se ele fosse ladrão ou estuprador.

Quem viu a barata foi Dan, cabelo estilo Neymar, que recebeu uma bala  saída de um cano de revólver enfiado na boca e está há mais de trinta dias estirado lutando para quem sabe sair do hospital tetraplégico. Coberto de escaras, passou o dia quase todo sem ser trocado. Diante do apelo de quem não aguentava mais as solicitações do rapaz, um som esganiçado saído do buraco da traqueostomia, a funcionária argumenta: é esse aí que rouba o seu celular.

A barata foi devidamente esmagada por Soraya, reincidente no gesto de matar barata, uma na emergência outra na enfermaria.

Depois de solicitar algumas vezes a troca da bolsa de urina cheia de um paciente, a acompanhante ouviu a resposta irritada da funcionária: tá cheia mas não vai explodir. Madrugada, mesmo paciente com diagnóstico de pneumonia está completamente molhado, é solicitada uma troca de roupa de cama. Negativo. É só uma por dia, há problemas na lavanderia. O copo descartável também tem que durar o dia inteiro.

Claro, há atendentes atenciosas, médicos também. E o aspecto geral do hospital não é ruim, melhor até do que enfermarias de outros hospitais da rede privada. Mas há uma  distância entre o que o hospital propaga e a realidade. As pessoas sabem disso. – Isso aqui é igual ao Itaú, diz um, só tem estrela. – Na televisão é tudo maravilhoso, diz outro. E as pessoas reclamam, sim, mas o protesto chega a lugar nenhum.

Depois de cinco ou seis dias em observação, paciente com diagnóstico de pancreatite foi informado de “alta” até o surgimento de uma vaga para cirurgia. Caso piorasse, poderia voltar. Rodou a baiana e a biblia, ameaçou  um abaixo-assinado com  os irmãos da igreja, lembrou que aquilo ali era bancado por seu imposto, que até numa caixa de fósforo a gente paga imposto.

Ele tem toda a razão. O imposto da caixa de fósforo e de tudo o mais consumido por nós integrantes do universo dos  ZIP, aquele formado pelos Zero Important People, é juntado centavo por centavo até completar R$151,5 milhões anuais mensais, ou mais de R$400 mil/dia para os 313 leitos, entregues à empresa privada que administra o hospital, segundo matéria publicada na revista Época no início do ano passado.

Se levarmos em conta a revista e instituição acreditadora contratada, o Hospital do Subúrbio beira o paraíso do atendimento público. Não foi o que vi e ouvi nestes dias.  Na foto aqui publicada, Peterson tenta falar com o irmão internado e a mãe acompanhante. Veio de Itacaranha, neste sol de Verão, mas foi barrado na porta porque estava de camiseta, vestuário integrante da lista de proibidos afixada na entrada. Neste mesmo dia vi jalecos brancos passeando fora do hospital, o que do ponto de vista de segurança hospitalar parece bem mais grave.

As duas barras nas cores amarela e preta com a corrente que aparecem na foto é para organizar a fila das visitas. A regra é clara: só duas visitas por dia e uma por vez, das 15 às 17 horas. Próximo de três da tarde o segurança dá um grito para as pessoas se levantarem e entrarem em fila para o início da operação de entrada. O clima é de uma mistura de reformatório com quartel em ordem unida. Um paciente murmura, nem no hospital de  Irmã Dulce é assim. Lá não tem limite para visita.

O hospital fica a cerca de 25 km do centro da cidade, o acesso é difícil, pela BR, mas os horários de troca de acompanhantes são rígidos: 8 às 9, 13 às 14, 18 às 20h30. Fora deste horário, que não coincide com o de visita, tem que falar com a assistente social uma via crucis ainda não vencida por mim desde ontem.

Enfim, todo este relato aqui foi feito na esperança de chegar a quem pode avaliar o que está acontecendo. Meu amigo Ronaldo Jacobina, que tem acesso ao círculo VIP, marcou no penúltimo post o secretário de saúde do Estado, integrante do seu círculo de amigos no facebook.

Eu então me animei  com a possibilidade de escuta e detalho aqui hoje mais alguns episódios, na esperança de alguma  coisa ser feita para diminuir a distância entre a fantasia das matérias encomendadas  e a realidade, dura realidade de quem pertence ao círculo ZIP.

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O céu, as grávidas, o quartzo, a fila no Aristisdes Maltez e o mineiro

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Impossível não olhar para o céu de Salvador nestes dias, especialmente ao entardecer. É preciso dizer, os dias estão lindos, o tempo chama pras ruas – não é à toa que a Barra está entupida de gente – pra areia, pro litoral. Tento sintonizar estas coisas, afinal estou em férias, é Verão e a vida tem que ser bela.

Mas meus olhos incutidos cismam em olhar em outra direção. É como quando frequentei o curso técnico em Geologia, quartzo, feldspato e mica me saltavam aos olhos nos paralelepípedos. Quando trabalhei na Coelba, de repente as subestações ficaram todas visíveis. Nas três gravidezes de Soraya, o mundo inteiro engravidou junto.

Talvez por isso, por essa sintonia destes dias,  hoje às 5 e meia da manhã recebo o bom dia de uma fila de mais de quatrocentos metros na porta do Aristides Maltez, semelhante àquela de 2013, registrada aqui.

Impossível não ver a fila, impossível não se incomodar nestes dias em que de alguma maneira estou nesta fila, frequento a rede pública de saúde. E minha cabeça, apesar deste céu de janeiro, não deixa de latejar com perguntas quase infantis.
Por que é assim? por que tem de ser assim? por que não muda? o que precisa ser feito para mudar?

Vou continuar, mesmo sem resposta,  me incomodando, incomodando você. Difícil acostumar com isso.

É mais ou menos  como naquela velha piada do mineirinho, esbaforido e agoniado diante do compadre:
–  Corre, vem ver, tem um mulherão  tomando banho pelada ali na lagoa.
–  Uai, até parece que você nunca viu mulher nua, retrucou o compadre.
–  Claro, uai, já vi muitas. Mas nunca me acostumei.

Somos todos Paris ou Periperi?

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O grito é de mãe.
– Ele é diabético, ele está vomitando sangue.
O grito sai às oito horas da manhã, depois de mais de quatro horas de espera e zero atendimento. Comecei a filmar, de longe.

Um grupo maior do que o do atendimento, formado por funcionários, seguranças e policiais se armou em torno de mim. Apaga, não apaga. Não havia  imagem especial nenhuma, apenas os gritos da mãe, mas apagar aquele material era questão de honra para eles.

Manter também pra mim era, especialmente diante dos argumentos de que eu não tinha nada a ver com aquilo, que o meu paciente já estava internado, que mal agradecido que éramos, eu e Soraya, fazendo tumulto.

Sim, nosso paciente já estava internado. Mas isolado por 10 horas, sem que uma informação sequer fosse passada. Informação finalmente conseguida a fórceps depois de um noite de vigília. Informação obtida por conta dos argumentos pouco usados ali, de alguma maneira fomos privilegiados por manusear palavras.

Aquele  hospital com fachada aparentemente moderna, forma um círculo  de isolamento, uma linha de acesso, difícil de ser transposta. Esta noite estava lotado, dizem sempre estar lotado.

E quem consegue entrar, transpor a barreira do atendimento, cai num território isolado, onde o único direito dado a quem fica de fora é esperar até 15 horas do dia seguinte para ter acesso a alguma informação.

Madrugada. O homem com  afundamento de crânio perdeu a paciência, arrancou o acesso, pegou suas coisas e foi-se embora, acompanhado pela mulher.

No grito, um porteiro conseguiu internar a mulher na madrugada, depois de ter ficado manhã, tarde, noite fora da linha de acesso, a porta que separa atendimento e espera, a porta que não dá acesso a informação alguma.

Nos últimos dois dias eu havia matutado sobre Paris, sobre liberdade, fraternidade, igualdade. Essas coisas de uma Europa  pré-1800 que ainda não chegaram ao círculo de isolamento e micropoder do hospital do subúrbio, em Periperi desta noite de 2015 na Bahia.

E o que mais incomoda nem é a situação, o mau atendimento, o exercício de poder pelos  porteiros, seguranças, assistentes sociais. O que incomoda é a grande farsa no site do hospital. Dois mundos, o mundo do site, com missão e visão de belas palavras. Bela viola.

Levado a uma sala do posto policial e na iminência de ser conduzido a uma delegacia, cedi. Humilhado, tomei a decisão, apaguei o grito da mãe. Alívio geral, me estenderam a mão e eu apertei a mão de todos, estava estabelecida a síndrome baiana de Estocolmo.

Olho os jornais de hoje e  eles só falam de Paris. Da liberdade agredida em Paris, da violência em Paris. Sim, como ficar indiferente a tanta violência em Paris?

Difícil  entender também como ficamos indiferentes a tanta mentira, farsa e violência 24 horas por dia, ali, em Periperi.