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Adeus, meu prezado!

Ele se vai aos poucos, sem alarde, sem angústia, sem dor. O coração desacelera, o pulso cai devagar até o corpo ficar completamente em silêncio e frio.  Talvez as palavras mais sinônimas de morte sejam silêncio e frio.

Em volta a vida pulsa. No choro, na dor, no corre-corre para as providências dos adultos. As crianças, o cachorro, o papagaio também participam de alguma maneira do redemoinho, é um momento de quase transe para todos.

Uma morte à moda antiga, em casa, de uma forma a cada dia mais rara. Seu Rubem, meu querido amigo de 94 anos, que me chamava de meu prezado, muitas vezes de meu filho, avô de Soraya, bisavô da minha renca,  foi embora cercado de cuidado, de carinho, dos filhos, netos e bisnetos.

Enterrado ontem em João Amaro, ao lado de sua Ludu. Também numa tarde ensolarada de domingo.
Não casualmente Dia dos Pais.

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Aqui umas histórias desta convivência: https://licuri.wordpress.com/?s=Rubem+Reis

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A maldição da coruja

Sou agnóstico mas busco Deus em tanta bala, tanta morte matada, mais de cem neste abril. Escuto pipocos, mais de cem. Conto as mães, mais de cem. Mais de cem é a  metade de mortes da boate incendiada no Rio Grande do Sul. E menos de um milésimo da atenção minha, sua, de todo o mundo.

Afora aqui e ali, os jornais silenciam, as pessoas silenciam. São todos “malas sujas”, gente que não presta, aprendi esta nova definição em Feira de Santana. E mala suja não é gente, não merece a minha e a sua empatia,  não é notícia. A não ser nos programas e sites e blogs  do chamado jornalismo abutre. É só dar um google  pra sua tela sangrar.

Mas acredito piamente na reverberação de toda esta dor. Ela volta pra gente, mais cedo ou mais tarde. Ela também nos cabe.

Também não acredito nos maus presságios das corujas. Mas Iaçu, cidade de menos de 30 mil habitantes, uma das muitas Macondos da Chapada Diamantina,  teve ontem mais um assassinato e duas crianças baleadas.

Mas os maus presságios de uma coruja  e uma piada do cantor de trio Bell sobre Iaçu repercutiram muito mais do que o assassinato e duas crianças atingidas por balas na Portelinha, conjunto habitacional com nome de bairro de novela, na  margem direita do Paraguaçu, perto da coruja.

E repercutiu muito menos ainda uma acusação de estupro, também na Portelinha, no início do mês. Acusação seguida de julgamento e morte do acusado dentro de uma cela da delegacia da cidade, rito sumário. Detalhe: o exame de corpo de delito, soube de fonte confiável, não confirmou o estupro, mas o trapo humano executado teve as pernas amarradas para caber no caixão.

E o  que eu e você temos a ver com isso?

Pressinto, creio que vai sobrar pra gente. Já sobrou. Sobrou conviver com a reverberação de toda essa dor, com a reverberação deste ritual praticado na delegacia por gente de 18, 20 anos. Ou pelo menos com a tal banalização, talvez mais grave ainda.

Estamos todos no mesmo barco. Eu, você, os moradores acusadores da Portelinha, o delegado de Iaçu, os jovens carrascos, as crianças baleadas. O barco é um só e muita gente não entendeu ainda.

Não disseram que estamos todos juntos nesta linda passarela de uma aquarela que um dia enfim descolorirá?

Tá acelerado este processo.