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Porra é essa minha Bahia?

Incutido com o caderno especial do Jornal do Commercio  A história de mim, concebido pela jornalista Fabiana Moraes, futuco mais sobre Pernambuco. E fica  claro. Nossos vizinhos estão mandando muito bem e bem melhor não só em  jornalismo como em cinema, em tecnologia da informação, na economia e na posição na tabela do Brasileirão para ficar nas coisas mais evidentes. Dizem as boas línguas, esta canção foi inspirada por um par de chifres aplicado em Petrolina, observado desde Juazeiro.

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Antônio

Mônica tem uma língua de sogra. Não pise no calo da mãe de Soraya porque você ouve, e ouve muito. Mas ao mesmo tempo, quando se apaixona por uma pessoa, é um problema, um grude. Deus no céu e a dita cuja ou dito cujo na terra. Ela diz que me adora. Às vezes, somente às vezes, acredito. Diz também que adora seu médico, Dr. Renato, aí eu acredito.

Minha sogra me inferniza todo aniversário de Dr. Renato para escolher um livro de presente. Traz molho de pimenta do interior para Dr. Renato, sabe da vida de Dr. Renato, de suas não-férias, de suas viagens, seus congressos, e não toma nenhuma decisão sem telefonar antes, pro celular, é claro, de Dr. Renato.

Este amor é antigo. André já vai completar oito anos em outubro e ele tinha três meses quando Mônica descobriu um câncer de mama. Desde então conhece todas as rotinas de hospitais e clínicas, viveu dias difíceis, vem a cada 21 dias do interior para o encontro com seu “amado”,  e com novas drogas que lhe têm permitido encarar de cabeça erguida as longas viagens e outras brabezas da vida. Os netos adoram suas visitas.

Lembrei de Dr. Renato ao ler em Chorik a matéria da folha “SUS terá tratamento integral de câncer”,  que merece um estudo de caso e um e-mail para o ombudsman. Lá pelas tantas, a oncologista Nise Yamagushi diz que a integração dos serviços oncológicos é “uma ótima notícia” e terá impacto positivo nas chances de cura de pacientes do SUS, já que a fila de espera é de 1.200 pessoas e a demora para o tratamento chega a 120 dias, no hospital de Barretos, referência nacional em atendimento no SUS.

Na Bahia, a dona de casa Márcia de Jesus Campos informa à repórter Marilena Neco  em matéria do jornal A Tarde, que quando tentou tratamento no Hospital Aristides Maltez, o prazo para a consulta, repare bem, para a consulta, era de oito meses.

 Tenho a nítida impressão de que o jornal paulistano, tão cioso e crítico em outros assuntos, comeu bola direitinho neste caso. E parece ser um problema do caderno Ciência, de quem já me queixei por conta de uma matéria/release sobre o viagra.

Vale então a pena alertar o jornal  para o que repórter e editor não viram, mas que não passou despercebido por Maria e foi bem anotado por Chorik. A estratégia do SUS me lembrou aquele caso clássico de licitação dirigida. Para se livrar de possíveis candidatos a um serviço, o edital impõe condições impossíveis de serem cumpridas por alguns. Parece que este foi o caminho encontrado pelo SUS para se livrar das clínicas credenciadas. O e-mail do ombusman da folha é ombudsman@uol.com.br.

E se a cada dia o tratamento do câncer é feito em sua maior parte em atendimento ambulatorial, por que a gente não deixa o hospital para as horas mais necessárias?  Será que a solução não seria juntar os dois? Já que há carência de leitos, carência de pessoal, há filas enormes, por que não somar os recursos? Claro, o tratamento contra o câncer é caro, não tem pouco dinheiro envolvido nesta história. Cabe também transparência na aplicação dos recursos, saber quanto é destinado aos hospitais pelo SUS, quanto é destinado às clínicas particulares. Por isso a discussão do assunto via jornais, rádios e tvs, iniciada por Maria, é fundamental.

Mas voltando à história  de amor  de Renato e Mônica, que não é atendida pelo SUS mas pelo seu primo também pobre embora mais limpinho e mais digno, o Planserv, a matéria da Folha indica também uma solução que pode ser uma das chaves do sucesso do tratamento de minha sogra e já é colocada em prática aqui na Bahia pelas clínicas particulares.

Os  bem intencionados do Ministério da Saúde têm razão quando falam que o tratamento descontinuado em várias clínicas gera o paciente ioiô, que fica pra baixo e pra cima para completar o atendimento. E Alberto Betrame explica que em São Paulo serviços com habilitação provisória continuam responsáveis pelo paciente, mesmo que eles sejam encaminhados a outras unidades  para tratamentos complementares.

É justamente isso que Dr. Renato já faz aqui na prática com os pacientes de sua clínica. Ele tem todo o histórico da minha sogra, quando ela precisa ser internada ele é quem indica o hospital, entra em contato com os médicos, dá informações preciosas, enfim participa integralmente do tratamento. E este não é um privilégio de minha sogra, mas procedimento com todos os pacientes da clínica.

Volto então agora mais de quatro décadas no tempo e constato que não me lembro da voz do meu avô Antônio. Lembro do quarto na casa da minha tia Dalva, lembro do silêncio, da luz, da limpeza, de uma das filhas dando água de colherinha, lembro do seu rosto magro e olhos azuis. Não lembro de dor, não havia dor, ou melhor, sua dor ele não deixava chegar ao menino de cinco, seis anos. Só anos depois soube que a água na colherinha era por conta de um câncer no estômago.

Lembrei também de meu avô quando estive num início de tarde ao lado de Marcinha, sentada na poltrona de frente para a vidraça, de frente para o mar de Ondina, quando ela recebia o tratamento quimioterápico  ambulatorial. Em quase  nada aquilo ali  parecia o quarto na casa da minha tia onde Antônio fazia seu “tratamento” a doses de água na colherinha. Mas a luz, a tranqüilidade do lugar, o aconchego, me trouxeram de volta a lembrança de Antônio, este sujeito que a vida não me deu o tempo e o prazer de conhecer direito e  que você pode ver aqui, rodeado de sua renca, em 1937.

Sei que estou embaralhando as idéias, mas fui até meu avô para chegar a uma palavra que pode ser fundamental nesta discussão sobre assistência x desassistência no tratamento contra o câncer, levantada por Maria. Sei que é bem subjetivo, mas se conseguirmos juntar eficiência médica com aconchego, estaremos bem mais perto de uma situação ideal.

De volta

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Depois de um mês e um dia, incentivado por um ultimato ao vivo de Madame K , volto a este coco para… ler.  E constato que todos os meus vizinhos colocados aí do lado direito, na minha rota de navegação,  continuam vivos e bem.

E que o blog tem uma frequência de seres estranhos, com buscas mais estranhas ainda.

Não resisto e faço como Galinho, ilustro este tempo de cinzas com uma bela foto de Vivas, ainda na folia.

E um mês e um dia depois continuo a serviço da rotativa por mais um mês, nesta minha experiência de foca quase cinquentenária, nesta profissão que exige a memória que não tenho, a rapidez que não tenho, a firmeza que muitas vezes me falta. Mas estou satisfeito e acho até que findo este mês vou sentir falta de ter voltado a ser foca.