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Morcego

“…Ali no chão, já rodeado de curiosos ao longe, recuperava sua inocência perdida na fama. 14 anos de idade, magrelo e comprido, uma vareta de cutucar estrelas. Maltrapilho, trazia estampadas na pele e na mente as marcas sujas da Bahia preta, pobre e perversa.
– Levanta, vagabundo!!
Só então, percebeu, já pelos coturnos e a calça cáqui que subia de dentro das botas, que se tratava de um meganha. Levantou cabisbaixo e, arcando-se sobre si mesmo, mãos na barriga, finalmente, soltou seu primeiro gemido de dor. Baixinho como convém diante de um homem da lei…   

Trecho do conto Morcego, do  livro inédito RGP, de Nelson Maca, que me foi  apresentado pelo acaso de uma navegação a trabalho. Confira íntegra aqui no blog Gramática da Ira, de onde também foi importada a foto. Gostei muito. Segundo Nelson, o conto é um relato real.

 

 

 

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Santa ignorância, o que interessa e a lábia em MDCLXXXII

Estou nesta  de blogar desde 2005, quando fiz uma versão via e-mail para apresentar aos amigos, pedir licença e perder a vergonha. Por esta época fui a São Paulo e fiquei impressionado com a imagem aí em cima, capturada num tapume na entrada de uma estação de metrô. Não me lembro o que falei naquela primeira versão do Licuri, mas a frase me fisgou.
Hoje às voltas com a divulgação da assinatura de protocolo para a restauração de livros raros da biblioteca do Mosteiro de São Bento, resolvi abrir o release com os volumes dos sermões do Padre Antônio Vieira. Aí que entra na história a vantagem de trabalhar com gente informada e que já participou do Oficina.
Marcelo protestou, espinafrou o missionário da Companhia de Jesu, aquela que em nome de Jesu fudeu com a vida dos índios e das índias,  e  mandou por e-mail  o Manifesto Antropófago  para provar que estava bem acompanhado contra o Pregador de  Sua Alteza, aquele que  “deixou o dinheiro em Portugal e nos trouxe a lábia”.
Foi aí que eu me esbarrei  novamente na tal  frase e juntei tico e teco.
Shazam!
No tapume e diante de um caipira atento a tudo na grandíssima cidade, a frase me apareceu isoladamente com toda a força. Impresssionou solitária, do jeito que eu bem quis comê-la.
E os Sermoens? Como sabê-los se não os comemos?

                                                                     Crédito da imagem 

 

 

P.S: Se você jogar “só me interessa o que não é meu” no google encontra 787 resultados. Gostei do texto de Manuel de Secadura. Só para dar um exemplo da utilidade deste treco hoje nas nossas vidas e pra desabafar contra  a idéia de um destes seres de outro planeta da nossa justiça  de proibir o google para combater a pedofilia. Que os pedófilos sejam castrados e trancafiados , mas que os encontrem de uma maneira mais inteligente. Dedico a este gênio bem remunerado  da nossa (in)justiça esta antiga e famosa melodia.

Fragmentos

Já ia pela metade de Crime e Castigo quando me deparei com Misto Quente, de Bukowiski, numa versão pirata e on-line. Li e fiquei impressionado com a crueldade de um pai. Vou capengando pelas agruras de Raskólnikov e começo também a ler Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, motivado pela estréia da peça na próxima semana, dirigida por Marfuz. Estou também na metade de uma biografia de um personagem de um perfil que vou fazer como frelancer para uma revista nova.

 

Sou assim. Quando não estou bem da cabeça, leio. Foi assim quando eu não estava bem da cabeça e fora do mundo entre 1988 e 2000. Lembro que comecei a aterrissar quando, sem ter o que fazer na vida, criei um cartão na biblioteca dos Barris e li uns 10 livros em pouco mais de um mês. Lembro que dos 12 aos 15 ou dezesseis lia mais. Como tenho pouca memória, retenho pouco do que leio. Uma cena, uma situação, acho que o que fica de fato, se é que fica, está lá no inconsciente. Mas o que faço mesmo é deixar muitos livros pela metade.

 

Juliana Cunha fez um texto para a revista da Metrópole, sobre um livro que defende a idéia como a leitura é fragmentada, chega aos pedaços. E sobre a incapacidade de se ler tudo e as mentiras sobre o que lemos. Lemos  pedaços de livros, orelhas, ouvimos falar. Como de resto na vida: editamos o que vivemos, o que desejamos viver, editamos e vamos vivendo também de fragmentos.

 

Queria muito ter habilidade com línguas. Sou um fracasso. Nunca consegui aprender inglês. Um ano e dez meses na Rússia não me deixou apto a ler os russos no original. A convivência com latinos também não adiantou muito na minha não fluência em Espanhol. 

 

Tento, com a ajuda de traduções, ler Crime e Castigo no original e testemunho a farsa da tradução da tradução, o que eleva ao quadrado a máxima tradutori, traitori. Paulo Bezerra traduziu  do original. Menos mal. Mas Cláudio de Castro, na coleção Biblioteca Folha, deve ter traduzido do inglês ou francês. Aí ficou difícil.

 

Veja só a diferença nas primeiras linhas do romance.

Paulo Bezerra

Ao cair da tarde de um início de julho, calor extremo. Um jovem deixou o cubículo que subalugava de inquilinos da travessa S., ganhou a rua e, ar meio indeciso, caminhou a passos lentos em direção à ponte K.

Saiu-se bem, evitando encontrar a senhoria na escada.

Seu cubículo ficava bem debaixo do telhado de um alto prédio de cinco andares, e mais parecia um armário que um apartamento.

Cláudio de Castro

Era um maravilhoso entardecer de julho, extraordinariamente cálido, um rapazdeixou o quarto que ocupava no sótão de um vasto edifício de cinco andares no bairro de S*** e, lentamente, com ar indeciso, se encaminhou para a ponte de K***.

Teve a felicidade, ao descer, de não encontrar a senhoria, que morava no andar inferior.

Original

В начале июля, в чрезвычайно жаркое  время,  под  вечер,  один  молодой

человек вышел из своей каморки, которую нанимал от жильцов в  С-м  переулке, на улицу и медленно, как бы в нерешимости, отправился к К-ну мосту.

Он благополучно избегнул встречи с своею хозяйкой на лестнице.

Каморка его приходилась под самою кровлей  высокого  пятиэтажного  дома  и  походила более на шкаф, чем на квартиру.

De onde  Castro tirou o adjetivo maravilhoso? Com extraordinariamente cálido? Quente pra caralho seria mais perto da realidade. Pior, da frase abaixo, que vem em seguida, usou  apenas a informação de que o cubículo, que traduz por quarto, ficava no sótão de um edifício de cinco andares. Trocou  alto por vasto, que são coisas distintas, e  sonegou o restante, a informação que o cubículo mais parecia um armário que um apartamento. Esta visualização do ambiente é fundamental para entender o lugar onde o sujeito vivia.

 

Agora você talvez entenda o motivo de ter largado algum dos romances russos pela metade.

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