Posts Tagged ‘Leituras’

Morcego

26/08/2008

“…Ali no chão, já rodeado de curiosos ao longe, recuperava sua inocência perdida na fama. 14 anos de idade, magrelo e comprido, uma vareta de cutucar estrelas. Maltrapilho, trazia estampadas na pele e na mente as marcas sujas da Bahia preta, pobre e perversa.
– Levanta, vagabundo!!
Só então, percebeu, já pelos coturnos e a calça cáqui que subia de dentro das botas, que se tratava de um meganha. Levantou cabisbaixo e, arcando-se sobre si mesmo, mãos na barriga, finalmente, soltou seu primeiro gemido de dor. Baixinho como convém diante de um homem da lei…   

Trecho do conto Morcego, do  livro inédito RGP, de Nelson Maca, que me foi  apresentado pelo acaso de uma navegação a trabalho. Confira íntegra aqui no blog Gramática da Ira, de onde também foi importada a foto. Gostei muito. Segundo Nelson, o conto é um relato real.

 

 

 

Santa ignorância, o que interessa e a lábia em MDCLXXXII

27/06/2008

Estou nesta  de blogar desde 2005, quando fiz uma versão via e-mail para apresentar aos amigos, pedir licença e perder a vergonha. Por esta época fui a São Paulo e fiquei impressionado com a imagem aí em cima, capturada num tapume na entrada de uma estação de metrô. Não me lembro o que falei naquela primeira versão do Licuri, mas a frase me fisgou.
Hoje às voltas com a divulgação da assinatura de protocolo para a restauração de livros raros da biblioteca do Mosteiro de São Bento, resolvi abrir o release com os volumes dos sermões do Padre Antônio Vieira. Aí que entra na história a vantagem de trabalhar com gente informada e que já participou do Oficina.
Marcelo protestou, espinafrou o missionário da Companhia de Jesu, aquela que em nome de Jesu fudeu com a vida dos índios e das índias,  e  mandou por e-mail  o Manifesto Antropófago  para provar que estava bem acompanhado contra o Pregador de  Sua Alteza, aquele que  “deixou o dinheiro em Portugal e nos trouxe a lábia”.
Foi aí que eu me esbarrei  novamente na tal  frase e juntei tico e teco.
Shazam!
No tapume e diante de um caipira atento a tudo na grandíssima cidade, a frase me apareceu isoladamente com toda a força. Impresssionou solitária, do jeito que eu bem quis comê-la.
E os Sermoens? Como sabê-los se não os comemos?

                                                                     Crédito da imagem 

 

 

P.S: Se você jogar “só me interessa o que não é meu” no google encontra 787 resultados. Gostei do texto de Manuel de Secadura. Só para dar um exemplo da utilidade deste treco hoje nas nossas vidas e pra desabafar contra  a idéia de um destes seres de outro planeta da nossa justiça  de proibir o google para combater a pedofilia. Que os pedófilos sejam castrados e trancafiados , mas que os encontrem de uma maneira mais inteligente. Dedico a este gênio bem remunerado  da nossa (in)justiça esta antiga e famosa melodia.

Fragmentos

01/06/2008

Já ia pela metade de Crime e Castigo quando me deparei com Misto Quente, de Bukowiski, numa versão pirata e on-line. Li e fiquei impressionado com a crueldade de um pai. Vou capengando pelas agruras de Raskólnikov e começo também a ler Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, motivado pela estréia da peça na próxima semana, dirigida por Marfuz. Estou também na metade de uma biografia de um personagem de um perfil que vou fazer como frelancer para uma revista nova.

 

Sou assim. Quando não estou bem da cabeça, leio. Foi assim quando eu não estava bem da cabeça e fora do mundo entre 1988 e 2000. Lembro que comecei a aterrissar quando, sem ter o que fazer na vida, criei um cartão na biblioteca dos Barris e li uns 10 livros em pouco mais de um mês. Lembro que dos 12 aos 15 ou dezesseis lia mais. Como tenho pouca memória, retenho pouco do que leio. Uma cena, uma situação, acho que o que fica de fato, se é que fica, está lá no inconsciente. Mas o que faço mesmo é deixar muitos livros pela metade.

 

Juliana Cunha fez um texto para a revista da Metrópole, sobre um livro que defende a idéia como a leitura é fragmentada, chega aos pedaços. E sobre a incapacidade de se ler tudo e as mentiras sobre o que lemos. Lemos  pedaços de livros, orelhas, ouvimos falar. Como de resto na vida: editamos o que vivemos, o que desejamos viver, editamos e vamos vivendo também de fragmentos.

 

Queria muito ter habilidade com línguas. Sou um fracasso. Nunca consegui aprender inglês. Um ano e dez meses na Rússia não me deixou apto a ler os russos no original. A convivência com latinos também não adiantou muito na minha não fluência em Espanhol. 

 

Tento, com a ajuda de traduções, ler Crime e Castigo no original e testemunho a farsa da tradução da tradução, o que eleva ao quadrado a máxima tradutori, traitori. Paulo Bezerra traduziu  do original. Menos mal. Mas Cláudio de Castro, na coleção Biblioteca Folha, deve ter traduzido do inglês ou francês. Aí ficou difícil.

 

Veja só a diferença nas primeiras linhas do romance.

Paulo Bezerra

Ao cair da tarde de um início de julho, calor extremo. Um jovem deixou o cubículo que subalugava de inquilinos da travessa S., ganhou a rua e, ar meio indeciso, caminhou a passos lentos em direção à ponte K.

Saiu-se bem, evitando encontrar a senhoria na escada.

Seu cubículo ficava bem debaixo do telhado de um alto prédio de cinco andares, e mais parecia um armário que um apartamento.

Cláudio de Castro

Era um maravilhoso entardecer de julho, extraordinariamente cálido, um rapazdeixou o quarto que ocupava no sótão de um vasto edifício de cinco andares no bairro de S*** e, lentamente, com ar indeciso, se encaminhou para a ponte de K***.

Teve a felicidade, ao descer, de não encontrar a senhoria, que morava no andar inferior.

Original

В начале июля, в чрезвычайно жаркое  время,  под  вечер,  один  молодой

человек вышел из своей каморки, которую нанимал от жильцов в  С-м  переулке, на улицу и медленно, как бы в нерешимости, отправился к К-ну мосту.

Он благополучно избегнул встречи с своею хозяйкой на лестнице.

Каморка его приходилась под самою кровлей  высокого  пятиэтажного  дома  и  походила более на шкаф, чем на квартиру.

De onde  Castro tirou o adjetivo maravilhoso? Com extraordinariamente cálido? Quente pra caralho seria mais perto da realidade. Pior, da frase abaixo, que vem em seguida, usou  apenas a informação de que o cubículo, que traduz por quarto, ficava no sótão de um edifício de cinco andares. Trocou  alto por vasto, que são coisas distintas, e  sonegou o restante, a informação que o cubículo mais parecia um armário que um apartamento. Esta visualização do ambiente é fundamental para entender o lugar onde o sujeito vivia.

 

Agora você talvez entenda o motivo de ter largado algum dos romances russos pela metade.

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=3394955749428&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

Tenho que comemorar

18/02/2008

Estava vasculhando os rascunhos do blog e descobri este post. E tenho o que comemorar. Terminei de ler o tal livro. Levei exatamente o mesmo tempo que o autor gastou para escrever. Conheço uma garota de 12 anos que leu mais ou menos 50 livros no ano passado. Eu li apenas este. Ainda bem que este meu traço de personalidade não foi transferido por hereditariedade. Deixo a seguir registrado o post/rascunho porque pretendo voltar  ao assunto O Processo  nos próximos dias:
 
 
Há certas coisas comuns, bestas, fáceis de realizar por qualquer mortal mas que pra o portador de TDAH  se tornam tarefas intransponíveis. Minha tarefa quase impossível é terminar de ler um livro. Sem essa dificuldade seria um cara lido. Mas não sou leitor, sou começador.O engraçado é que largo, abandono, perco, empresto até, mesmo estando envolvido, interessado, falando o tempo todo sobre o assunto.Às vezes nem começo, leio um pedaço e largo. Nem o Jogo de Amarelinha , que pode ser lido de trás pra frente, ao gosto do freguês, consegui terminar. Houve um tempo em que eu lia até o fim. Nesse tempo li A  Metamorse, de Kafka.Mas O Processo entra no rol daqueles que já tentei várias vezes, onde também me esperam Os Irmãos Karamazov e Sagarana. Todos literatura básica, mas que o cidadão aqui não conseguiu compartilhar com a humanidade.E a vontade de ir adiante no Processo já dura quase um ano. Seria uma oportunidade para também até o fim em Crime e Castigo, que segundo Modesto Carone, seria uma das matrizes da obra de Kafka. Quem sabe um dia chego lá…Sem culpa. 

 

E este blog já virou uma sociedade (sem autorização prévia) com o Olho da rua  Mas este Vivas  não fotografa…

 

baianavivas02_aa.jpg …pinta.mervivas01.jpg

Minha peixa

07/11/2007

peixa-1.jpg

Lembra daquele simpático e festejado  sétimo  morador  que desembarcou por aqui há um mês e meio, fez a alegria dos meninos e foi batizado de Fefé?

Revelou-se um grande fdp.

 
 

 

A idéia liquidava dois coelhos: dava companhia ao solitário e restabelecia a justiça, já que Maria não havia ido à escola no dia da festa com peixe no saquinho como lembrança. Uma semana depois da chegada do agora miseravão, partimos novamente para a loja de peixes.

É macho. Assegurou o vendedor ao ver o colorido  de Fefé, identificado como um colisa lalia,  nas fotos exibidas no display da máquina. As fêmeas são menores e não apresentam cores além do prateado.

Mas a loja só vende o casal. O gerente teve de ceder diante do argumento incontestável da venda casada, mas contra-argumentou que faz isso porque ninguém quer levar as fêmeas.  

Mais uma surpresa: Fafá só me custou R$ 1,50, ou 1,5% do investimento no aquário. A vida vale muito pouco também no reino das águas claras. 

E o pior estava por vir. Mal entrou na casa nova, Fafá foi imediatamente escurraçada. Levou várias carreiras e hoje se conforma em viver espremida entre o vidro e a bomba de ar, único lugar em que fica a salvo dos ataques do dono do pedaço.  

Na hora da comida, Maria já aprendeu a estratégia: colocar os flocos de ração pela fresta de entrada dos fios da bomba, bem no lugar onde fica a prisioneira, antes do ataque do marmanjo, adepto do primeiro eu em tudo.

E Maria torce: _ Vai,  come minha peixa, come logo!” 

O sujeito queria companhia?  Questionou o professor Clímaco, um cara que admiro pelo livre pensar, num encontro casual em que revelara ter lido o post da chegada de Fefé.

De fato, não perguntamos. Decidimos pelo peixe, com esta nossa velha mania humana de antropomorfizar o mundo, exigir dos bichos nossos valores, nossa moral. 

De repente é assim mesmo na vida dos colisas, de repente o que vemos como perseguição, sacanagem, injustiça, pode ser normal debaixo d`água.  

Ou talvez nós humanos sejamos também todos assim, naturalmente sacanas  e egoístas como este colisa,  conforme nos lembra Gregório de Matos, de quem guardo na memória apenas o seguinte, que ao meu ver resume muito da natureza humana: “Não mordem outros não, por não ter dentes”.

Sempre lembro deste verso quando estou diante de pessoas boazinhas.      

“…Sisudos faz ser uns, outros prudentes,
Que a mudez canoniza bestas feras.
Há bons, por não poder ser insolente,
Outros há comedidos de medrosos,
Não mordem outros não, por não ter dentes.

Quantos há que os telhados têm vidrosos,
E deixam de atirar sua pedrada      
De sua mesma telha receosos.
     
Uma só natureza nos foi dada:
     
Não criou Deus os naturais diversos,
     
Um só Adão formou, e esse de nada. 
     

Todos somos ruins, todos perversos,      
Só nos distingue o vício, e a virtude,
     
De que uns são comensais outros adversos.
Quem maior a tiver, do que eu ter pude,      
Esse só me censure, esse me note,
     
calem-se os mais, chitom (silêncio), e haja saúde.”
  Íntegra no portrasdasletras.

Domingo é dia de tomate

28/10/2007

Faço então um extrato de Leminski

 

já me matei faz muito tempo
me matei quando o tempo era escasso
e o que havia entre o tempo e o espaço
era o de sempre
nunca mesmo o sempre passo

morrer faz bem à vista e ao baço
melhora o ritmo do pulso
e clareia a alma

morrer de vez em quando
é a única coisa que me acalma

as coisas estão pretas
uma chuva de estrelas
deixa no papel
esta poça de letras

… mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

28/08/2007


Ela chegou com um livro de Borges para a entrevista. Pensei cá com meus botões e verbalizei: é pra impressioar? Disse que não e eu acreditei. Recebi de presente este link abaixo. Quem sabe um dia leio. E nesse dia comentarei.

http://www.mibsasquerido.com.ar/Personagens01-c.htm