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Espelho

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Fui ao centro hoje e resolvi retornar aos territórios de memória pessoal da cidade. Passei pela casa do Garcia. Não foi uma boa experiência. Gradeada, suja, descascada, não combina com a memória filtrada e cheia de luz daquele lugar de pulsar dos vinte anos.
Olhei pra fachada e me vi no espelho. Atualizado.
Futucando neste coco pequeno achei este texto sobre aqueles dias:

A casa do Garcia e as paulistas

22/07/2010

1981, 1982. A casa era comprida, de rua a rua, da Conde Pereira Marinho à Protestantes, no Garcia. Os quartos e banheiro ficavam diante de um corredor, seguido de uma sala, uma pequena cozinha e um quintal. Última casa da rua, tinha muitas janelas para o vale. A população de moradores era flutuante. Havia um núcleo mais ou menos fixo, mas a rotatividade era grande. Uns trabalhavam, outros estudavam e trabalhavam, tinha quem não trabalhava e nem estudava. Quase todos na faixa dos 20 anos.

Nos quartos, colchões, tatames, araras e baús de vime. Na sala, estante de pranchas de madeira sobre blocos de argila sustentava uma pequena biblioteca, aparelho de som e muitos LPS. The Wall, do Pink Floyd, talvez seja a trilha sonora daquela casa, junto com Trem das Cores, de Caetano.

Tinha também uma gata que se chamava Leila Diniz. E muito incenso.

Num sábado de Verão, alguém chegou com duas garotas conhecidas naquele dia na praia. As meninas iam voltar para o interior de São Paulo porque o dinheiro estava acabando e elas não tinham como continuar as férias hospedadas no Othon. Claro, foram convidadas a continuar em Salvador, hospedadas na casa do Garcia.

Tudo ali era novidade para elas. As namoradas que dormiam na casa, as portas quase permanentemente abertas, inclusive a do banheiro, os papos, enfim, estavam com juízo de meninas do interior de São Paulo e filhas de militares completamente retorcido.

Mas a porrada veio forte à noite, quando resolveram conhecer o Zanzibar, aquele mesmo onde os orixás acenaram com o não/sim. O bar ficava ali pertinho e dava para ir a pé. Numa só noite, viram de perto o que só conheciam de ouvir falar: dois homens se beijando, um grupo fumando maconha e Gilberto Gil.

https://licuri.wordpress.com/2010/07/22/a-casa-do-garcia-e-as-paulistas/

 

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Computador bala

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Acima, alguns dos objetos expostos no museu. E na última imagem o museu vivo a bordo de um computador bala (Redação de A Tarde, 16/08/91. Foto: Geraldo Ataíde).

Como já contei aqui, faço um jornalzinho de uma página semanal (às vezes quinzenal,  mensal…) para o Crear, a escola dos meninos. E toda edição traz uma ou mais historinhas das crianças, como essa:

 

Ao ver um disco de vinil reunido com os outros objetos para a exposição da Alfa sobre coisas antigas, João, do grupo 05, não se conteve:

 

_ Pô! Que cedezão!

 

Não é que eu também me espantei com o cedezão ao ver a exposição?

 

Reunido com outros objetos do século passado, o cedezão sobre um prato de um som Gradiente me jogou no meu tempo. Quem não teve um som Gradiente? Ou um disco da coleção Grandes Compositores?

 

Os objetos foram  levados pelas crianças alunas de Kátia Borges (não a Madame K, mas a madame educadora do Crear – este coco pequeno tem a honra de as vezes ser lido por duas KB) depois de pesquisa nos acervos de casa.  

 

Parece que foi ontem para nós, mas para as crianças são trecos estranhos e o museu fez o maior sucesso: fita cassete, disco de vinil e toca-disco de vinil, máquina de escrever, monóculos, máquina fotográfica analógica, telefone com disco, notas de cruzeiro e cruzado, selos, coisas que não existem mais.

 

Isso me lembrou uma história de uma criança que definiu carta a pedido da professora:

_ É um e-mail escrito a mão.

 

Ou de uma outra, ao ver uma máquina de datilografia:

_ Que computador bala, a gente escreve e imprime na mesma hora!

 

Enfim, parece que foi ontem. Mas meu cotidiano de outro dia  virou um completo museu de coisas estranhas e exóticas.

 

Note na foto da redação detalhes como cola tenaz  e caixinha de filme. Quem nunca utilizou esta caixinha para outros fins?

 

Atualizado em 25/11

 

E Marcelo, meu cunhado, me manda este registro de laaaaaá do início da década de 1960, quando ele já era um iniciado nas artes de computar num computador bala de contar e já treinava para trabalhar na Caixa:

 

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