Posts Tagged ‘Lembranças’

Espelho

22/11/2015

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Fui ao centro hoje e resolvi retornar aos territórios de memória pessoal da cidade. Passei pela casa do Garcia. Não foi uma boa experiência. Gradeada, suja, descascada, não combina com a memória filtrada e cheia de luz daquele lugar de pulsar dos vinte anos.
Olhei pra fachada e me vi no espelho. Atualizado.
Futucando neste coco pequeno achei este texto sobre aqueles dias:

A casa do Garcia e as paulistas

22/07/2010

1981, 1982. A casa era comprida, de rua a rua, da Conde Pereira Marinho à Protestantes, no Garcia. Os quartos e banheiro ficavam diante de um corredor, seguido de uma sala, uma pequena cozinha e um quintal. Última casa da rua, tinha muitas janelas para o vale. A população de moradores era flutuante. Havia um núcleo mais ou menos fixo, mas a rotatividade era grande. Uns trabalhavam, outros estudavam e trabalhavam, tinha quem não trabalhava e nem estudava. Quase todos na faixa dos 20 anos.

Nos quartos, colchões, tatames, araras e baús de vime. Na sala, estante de pranchas de madeira sobre blocos de argila sustentava uma pequena biblioteca, aparelho de som e muitos LPS. The Wall, do Pink Floyd, talvez seja a trilha sonora daquela casa, junto com Trem das Cores, de Caetano.

Tinha também uma gata que se chamava Leila Diniz. E muito incenso.

Num sábado de Verão, alguém chegou com duas garotas conhecidas naquele dia na praia. As meninas iam voltar para o interior de São Paulo porque o dinheiro estava acabando e elas não tinham como continuar as férias hospedadas no Othon. Claro, foram convidadas a continuar em Salvador, hospedadas na casa do Garcia.

Tudo ali era novidade para elas. As namoradas que dormiam na casa, as portas quase permanentemente abertas, inclusive a do banheiro, os papos, enfim, estavam com juízo de meninas do interior de São Paulo e filhas de militares completamente retorcido.

Mas a porrada veio forte à noite, quando resolveram conhecer o Zanzibar, aquele mesmo onde os orixás acenaram com o não/sim. O bar ficava ali pertinho e dava para ir a pé. Numa só noite, viram de perto o que só conheciam de ouvir falar: dois homens se beijando, um grupo fumando maconha e Gilberto Gil.

https://licuri.wordpress.com/2010/07/22/a-casa-do-garcia-e-as-paulistas/

 

Camamu, dezembro de 1994.

19/12/2008

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A caminho do acampamento em Barra Grande.

Foto: Andrea Viana.

P.S: Post inspirado nos acampamentos de Chorik e na nova cidade de Bernardo.

 

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=4694958248678&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1&theater

Computador bala

21/11/2008
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Acima, alguns dos objetos expostos no museu. E na última imagem o museu vivo a bordo de um computador bala (Redação de A Tarde, 16/08/91. Foto: Geraldo Ataíde).

Como já contei aqui, faço um jornalzinho de uma página semanal (às vezes quinzenal,  mensal…) para o Crear, a escola dos meninos. E toda edição traz uma ou mais historinhas das crianças, como essa:

 

Ao ver um disco de vinil reunido com os outros objetos para a exposição da Alfa sobre coisas antigas, João, do grupo 05, não se conteve:

 

_ Pô! Que cedezão!

 

Não é que eu também me espantei com o cedezão ao ver a exposição?

 

Reunido com outros objetos do século passado, o cedezão sobre um prato de um som Gradiente me jogou no meu tempo. Quem não teve um som Gradiente? Ou um disco da coleção Grandes Compositores?

 

Os objetos foram  levados pelas crianças alunas de Kátia Borges (não a Madame K, mas a madame educadora do Crear – este coco pequeno tem a honra de as vezes ser lido por duas KB) depois de pesquisa nos acervos de casa.  

 

Parece que foi ontem para nós, mas para as crianças são trecos estranhos e o museu fez o maior sucesso: fita cassete, disco de vinil e toca-disco de vinil, máquina de escrever, monóculos, máquina fotográfica analógica, telefone com disco, notas de cruzeiro e cruzado, selos, coisas que não existem mais.

 

Isso me lembrou uma história de uma criança que definiu carta a pedido da professora:

_ É um e-mail escrito a mão.

 

Ou de uma outra, ao ver uma máquina de datilografia:

_ Que computador bala, a gente escreve e imprime na mesma hora!

 

Enfim, parece que foi ontem. Mas meu cotidiano de outro dia  virou um completo museu de coisas estranhas e exóticas.

 

Note na foto da redação detalhes como cola tenaz  e caixinha de filme. Quem nunca utilizou esta caixinha para outros fins?

 

Atualizado em 25/11

 

E Marcelo, meu cunhado, me manda este registro de laaaaaá do início da década de 1960, quando ele já era um iniciado nas artes de computar num computador bala de contar e já treinava para trabalhar na Caixa:

 

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O poeta, a escorregadeira e a estação

18/05/2008

O filme arquivado na memória com imagens de Castro Alves de junho de 1970 a meados de 1973 é em película, tem profundidade, cor, densidade, é projetado na imensa tela do passado, tratado com uma espécie de photoshop afetivo. A realidade, bem, a realidade me transforma num fotógrafo afobado, tomado pela emoção e pelas lembranças. As casas onde morei, as escolas onde estudei, as ruas e praças, a igreja, o morro para onde eu ia ficar sozinho, pensando na vida e de onde se avistava toda a cidade. A estátua do poeta que a gente fazia de escorregadeira, na praça onde declamei Vozes d´África em 1971, ano do centenário da morte do poeta. A estação de trem de onde já embarquei e para onde eu ia aos sábados assistir aos hippies que passavam em direção ao sonho que já acabou. Tudo me joga para os meus 11, 12 anos e na minha cabeça se abrem duas telas, como naqueles filmes experimentais onde duas ações são projetadas ao mesmo tempo. Não resisti e chorei ao entrar na minha Escola Polivalente de Castro Alves.

Aproveitei a viagem a Iaçu, em junho do ano passado, e fiz sozinho  a viagem que sempre planejei. E que viagem.

                                                                                  Estação ferroviária  

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10200620103361780&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

Nostalgia

03/03/2008

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De Cássia Eller, ao vivo, numa noite quente no Ad Libitum. De Raul Seixas no alto-falante numa tarde chuvosa em Conquista. Do gosto de genipapo, de gemada e de manga no pé e da busca por estrelas cadentes no peitoril da roça de tio Descartes, nas noites sem lua das Minas Gerais. Da porrada da quinta de Tchaikovsky num vinil Grammophon comprado na Carlos Gomes. Do gosto de picolé salgado pelas ondas e do sanduíche de sardinha no porto da Barra, seguidos de almoço com macarrão e pudim de sobremesa. De Picolé premiado. De vela na lata em forma de lanterna quando faltava luz em Castro Alves, pelas ruas com a meninada. De comer licuri. Do cheiro de gaveta velha cheia de tranqueiras mais velhas ainda. De beber em avião. Da minha primeira insônia aos seis anos depois de um espetáculo do Circo Thiany. Da Música O Divã numa vitrola vermelha. De Vick Vaporub.  De receber uma carta coberta de selos. Do pátio do Polivalente de Castro Alves. De um macaquito vinho. Da alegria da notícia do primeiro filho. Das noites dos nascimentos dos três. De ver as luas de Júpiter e os anéis de Saturno. Dos rios da Chapada. De dirigir um caminhão 608D nas madrugadas de Conquista aos 14. Das escadas do Centro Cívico da ETFBa. Da padaria, do balcão e da sanfona do primo Aldinho na loja de Tio Deoclides em Tanhaçu. Da cachoeira de Mané Roque. De São João. Da boléia de um caminhão, de carona. Da cidade de  Tiradentes. Das arquibancadas do Parque de Exposições de Conquista. Do balcão da loja de tecidos do tio Ruguinha. Da Iemanjá num quadro da sala de Tia Lurdes. Da estante de pranchas de madeira e blocos  de argila da casa do Garcia. De chacretes. Do cheiro de murta no passeio da Leovigildo Filgueiras às duas da manhã. De mata-burro nas estradas. De estrada. Do sonho de mudar o mundo. Do cheiro de sargaço do primeiro banho de mar em Amaralina. De uma paulista entre amigos. De uma paulista a dois. De confiar em todo mundo. De chorar copiosamente. Da Via Láctea no  céu da roça de Tio de Assis. Do frio. Da cama do Hotel Livramento. Do quarto do Hotel Lisboa. Do Rio Neva. Do quintal do Hotel Maringá. Do cine Madrigal. Da gamela de coalhada na despensa e do leite espumando no curral, no copo de alumínio com açúcar. De falar ne za schtô. Da luz que apagava às 10 em Tanhaçu, depois de três avisos. De pescar acari com saco de estopa no barranco do rio. De pescar traíra com anzol. Das escadarias do TCA.  De vento frio na cara. De plantar alface. De tênis Mal Estar. De tampilhas premiadas. Da seda azul do papel da maçã. Da música Trem das Cores. Do tédio dos domingos. De larica. Dos círculos na água formados pelo impacto da chuva no jardim dos meus cinco anos. Do tal pretérito a  cada dia mais  perfeito já falado aqui. Do tempo em que eu era imortal.

 

Crédito da imagem 

 

Mãe e filho

18/05/2007

                                              Edith Bomfim Gusmão

Insônia agravada pela véspera da visita aos meios de comunicação pelo novo trabalho. Mãos abaixo do umbigo e respiração pausada e profunda aprendida em terapia para tentar trazer o sono. Mas a cabeça no trabalho. Tentei novamente. Tentei rezar e de repente me veio nítida, do fundo da memória, minha imagem deitado no berço e minha mãe do lado a me colocar para dormir com o Pai Nosso de cada noite e a Ave Maria, cheia de graça.
Tento lembrar a oração já esquecida e as frases vêm aos poucos. Pai nosso que estais no céu… seja feita a vossa vontade… Ave Maria cheia de graça…

Devia ter uns quatro ou cinco anos. Lembro bem do berço, num dos quartos do fundo do Hotel Maringá, em Conquista, eu deitado com as mãos juntas e minha mãe ao meu lado.  Talvez a mais antiga lembrança recuperada na memória dos primeiros anos.
Amém.

Caí no sono.

Primeira insônia

27/03/2007

Tinha mais ou menos a idade de André, meu pequeno filho de cinco anos. Era mais ou menos uma noite de 1966. Dormíamos todos embolados, todos os três irmãos de então, em camas ajuntadas num grande quarto no hotel Maringá, em Vitória da Conquista. Dormiam todos, menos eu. Foi minha primeira insônia. Revirava na cama e na minha cabeça piscavam as luzes do circo Tihany, roncava o som das motocicletas do globo da morte, cintilavam as roupas dos artistas, soava a bateria que fazia o repicar das cenas de suspense. E ainda tinha mulheres e homens alados, a dar cambalhotas no ar e a fazer encontrar mão com mão, numa precisão que dispensava as redes.
O circo trouxe a minha primeira lembrança de infinito: aquelas cortinas desnudavam as moças de coxas brancas cintilantes e não acabavam nunca. Nem as coxas, nem as cortinas. O circo foi meu primeiro espetáculo, onde eu fui pela primeira vez platéia. Chegou na minha vida antes da televisão, antes do cinema, muito antes do teatro. Chegou na minha vida pra dizer que existe um lugar onde é possível sonhar acordado. E este lugar é a cabeça de uma criança insone. Este lugar é o picadeiro.
Viva o circo! Viva o circo Picolino!

1965/1966 – Pai no espelho

27/03/2007

Maringá, Maringá
Depois que tu partiste
Tudo aqui ficou tão triste,
Que eu garrei a maginá
Maringá, Maringá
Para havê felicidade.
É preciso que a saudade
Vá batê noutro lugá

Maringá, Maringá
Volta aqui pro meu sertão
Pra de novo o coração
De um cabloco assosegá.

Minha memória mais antiga é de uns quatro ou cinco anos. E vem do hotel Maringá, na quase esquina da travessa santa Rita, esquina com a Praça da Bandeira, prosseguimento da Rua Laudicéia Gusmão, em Vitória da Conquista.
Meu pai no espelho, com mais ou menos a idade que eu tenho hoje, faz a barba. E canta… Maringá, Maringá… E eu com a idade de meu André hoje, subo numa mesa ao lado, me coloco entre ele e o espelho e mostro as marcas de cinto nas costas. Havia apanhado da minha mãe, içado pelas pernas no banheiro e apanhado muito. Conto a surra e os motivos adiante.
Nasci em 9 de março de 1961, no hospital São Vicente. Pra continuar estas memórias preciso apresentar os outros personagens. Começo por pai e mãe, no Licuri em Família…