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Falta da máquina

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Vejo salto com mais de vinte e short com com menos de vinte centímetros. Soraya me vê com mais de 20 olhos. Mas, juro, estou mais interessado no destino daqueles saltos em direção a um dos mais de 30 ônibus estacionados na orla nesta manhã.

Vão para a Vaquejada de Serrinha, ao preço de R$188 a passagem light e R$280 a Premium, com direito a cerveja. Lamento ter esquecido a máquina.

Mais na frente, no Jardim de Alah, um sujeito no ponto segura cartolina com os braços erguidos, de frente para os coletivos. Será o início das manifestações?
“Jesus é a esperança”, está escrito.

Deus é mais.

Mais na frente, o lixo toma conta da areia na praia marrom chamada de Costa Azul. Sinto mais uma vez a falta da máquina.

Foto do dia em que levei a máquina num dia seguinte à chuva: Aqui. 

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10200475975038662&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1&theater

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Flores de Outono

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R$ 208 mil reais em flores, gastos pela presidência da república neste ano, informa Luísa. É isso mesmo, tem muita cerimônia, morre muita gente importante, tento argumentar. Mas os argumentos não se encaixam no começo do dia, quando vou a pé comprar pão.

O céu, as nuvens, o vento, a temperatura, tudo colabora para tornar bonança a manhã de Outono depois das tempestades. Na padaria, dona Maria de Lurdes, com um sorriso permanente por trás dos óculos, dá bronca numa colega de trabalho:

– Quebrado não, homossexual, diz ao pronunciar bem pausadamente homossexual.

A conversa na área interna da padaria é sobre um sujeito de comportamento estranho, não sei se desencubado recentemente ou assumido desde sempre. Tentei apurar em vão, ao fazer de conta que olho uns quitutes pra ficar mais perto da conversa.

Em seguida, no caixa, Maria de Lurdes explica:

– Como quebrado, se a pessoa é inteira?

Saio rindo da padaria. Do outro lado da rua vem um bando de menino. Três adolescentes, mais dois quase de colo, enganchados na cintura das meninas maiores. Lembro de Maria no dia da tempestade, quando compartilhou com a mãe o medo e a preocupação com quem estava na rua naquela hora.

Avisto então a calçada da doceria Doces Sonhos coberta de lixo. Saco a máquina para registrar, para me queixar à prefeitura, afinal são 8 da manhã de domingo. Já estou próximo ao lixo quando o grupo pára também. Peço para seguirem, não os quero na foto. Mas eles empacam. Só então entendo, o lixo é o destino do grupo.

Sim, vão catar lixo às 8 horas da manhã de uma manhã amena de outono, sem chuva.

Faço a foto do lixo, sigo adiante adiante e não resisto. Viro pra trás, faço outra foto, mas uma das meninas se esconde atrás do grupo. Sinto vergonha, constrangimento.

Lá na frente encontro uma mulher com cara de evangélica. Emparelho com ela, comento, na ânsia de compartilhar. Ou ela não me ouve, ou tem a mesma ânsia e fala sobre um sujeito que está apanhando da polícia na outra esquina nesta manhã de domingo.

Eu desabafo, ela desabafa, seguimos em frente, as nuvens continuam no céu, venta um pouco, a temperatura é de 28 graus e Brasília gasta 208 mil reais em flores.

Foto: Rua de Salvador no dia 20 de março, dia da chegada do outono que se foi embora naquele mesmo dia mas já voltou.

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=4716691912006&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

É bonito, é bonito

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A acima  é de hoje pela manhã, mas o texto e a foto abaixo  e o primeiro vídeo são de  2008. O segundo video é de 2009. Entra ano, sai ano, é este o cenário do Costa Azul depois de uma chuva:

Águas Claras, Mata Escura,  Mata dos Oitis, Barra, Boca da Mata, Rio Vermelho, Boca do Rio. Nomes de bairros de Salvador inspirados na natureza, como o Costa Azul, na margem esquerda até a foz do Rio Camurugipe (foto).
Mas como nos avisou o velho Heráclito e os cabelos já brancos de Nelson Motta, tudo muda o tempo todo no mundo, como uma onda no mar, como o rio que corre para o mar.
A costa tem hoje um azul tingido de marrom e o Camurugipe já não é mais nem rio. Basta uma chuvinha para o lixo avançar pelo canal, descer às toneladas para o mar e ficar mais visível na praia, numa manifestação  intensa e  malcheirosa  do que acontece cotidianamente de forma mais imperceptível.
Resta apenas o otimismo do meu seis anos André ao ver outro dia um garoto catando lixo, como na foto abaixo.
– Ele tá reciclando, né pai?

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Licuri : https://licuri.wordpress.com/2008/07/23/o-mar-quando-quebra-na-praia-e-bonito-e-bonito/