Arquivo da tag: mãe

De todo o meu coração, sem um minuto a perder

Soraya do sofá lê pra mim poesia pura em forma de documento, em forma de História:

“Digo eu Izidoro Gurgel Mascarenhas, que entre os mais bens que possuo (…) sou senhor e possuidor de uma escrava de nome Ana (…) (recebida na herança) de meu Pai, Lúcio Gurgel Mascarenhas (…) e como a referida escrava é minha Mãe, verificando-se a minha maioridade hoje, pelo casamento de ontem, por isso achando-me com direito, concedo à referida minha Mãe plena liberdade, a qual concedo de todo o meu coração”

Livro de notas e escrituras 61, fol. 28v, 11/10/1869, Cartório do 1º Ofício Civil de Campinas. Citado por Robert Slenes, no livro História da Vida Privada no Brasil, volume II.

 

https://www.facebook.com/gusmaomarcus/posts/4718379514195

Anúncios

De todo o meu coração, sem um minuto a perder

Soraya do sofá lê pra mim poesia pura em forma de documento, em forma de História: 

“Digo eu Izidoro Gurgel Mascarenhas, que entre os mais bens que possuo (…) sou senhor e possuidor de uma escrava de nome Ana (…) (recebida na herança) de meu Pai, Lúcio Gurgel Mascarenhas (…) e como a referida escrava é minha Mãe, verificando-se a minha maioridade hoje, pelo casamento de ontem, por isso achando-me com direito, concedo à referida minha Mãe plena liberdade, a qual concedo de todo o meu coração”

Livro de notas e escrituras 61, fol. 28v, 11/10/1869, Cartório do 1º Ofício Civil de Campinas. Citado por Robert Slenes, no livro História da Vida Privada no Brasil, volume II.

https://www.facebook.com/gusmaomarcus/posts/4718379514195

Panelinha

75 anos separam Edth de Maria nesta tarde. Nesta tarde as duas estavam quase sozinhas. Ao  me ver chegar em casa, no inicio desta noite, Maria corre de braços abertos, olhos vivos de cinco anos. E me abraça. Pede para adivinhar do que ela mais brincou nesta tarde.
– Boneca? – Não.
– Desenhou? – Não.
– Casinha? – Não, tá quase.
– Desisto.
– Panelinnnha!
Ao dizer panelinha a menina abre novamente os braços e espalma as mãos; desta vez com os cotovelos encostados ao corpo, tornando o gesto ainda mais vigoroso e feliz.

Maria brincou sozinha, o irmão em um aniversário, a irmã no computador. E ela brincou feliz a tarde inteira.

Minha mãe me enxerga desde a janela do terceiro andar quase no final desta tarde. Está de hóspede na casa de uma neta e também passou a tarde quase só. Não está deprimida, mas não sorri, não acha graça em quase nada. Brinca de panelinha apenas para fazer o seu almoço, mas isso não é divertido.

Sente dores nas costas, dá notícia dos filhos e de uma irmã que tomou duas quedas recentemente.

Serve um café generoso com banana da terra e pão. Insiste para eu tomar o leite até o final, comer todo o pão. Fiquei olhando minha mãe com os gestos lentos e o olhar triste de 80 anos. Não está deprimida. Também não está feliz. Não há abraço e nem beijos. Nenhum contato físico.

Saí de lá mais triste, debaixo de uma chuva fina, meio abestalhado e sem graça.

Maria ainda é um filhote. E os filhotes brincam. Minha mãe é uma anciã, já não vê graça em brincar, talvez não veja mais graça nesta vida.

Minha mãe me deixa triste e sem graça e sem entender muito o sentido das coisas e sem a menor vontade de envelhecer.