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Outubro

Nilson Galvão

Outubro se fez de sol
e de chuva, de flores,
de lágrimas, e se fez
distante, densa memória,
memória frágil. Outubro
se liquefez, e então escorreu
no relevo dos dias, das horas
e do tempo fora do tempo,
onde tudo havia: cenas de relance,
narrativas inteiras e décadas
inteiras com suas curiosas
imprecisões. Outubro foi
guardado no bolso, como um
pacote de maravilha letal, insondável,
condensada. Vestimos outubro,
calçamos outubro e nos preparamos
para depois, e depois e depois
de nós mesmos.

(Escrito en outubro de 2008,  publicado também no livro Caixa Preta. Diz tudo.)

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Marcinha e o chorão

Lembramos muito de Marcinha, eu e Soraya, neste fim de semana. Conhecemos pessoas muito bacanas, que acolheram a renca toda de uma maneira muito especial. A toda hora nos vinha a frase: se Marcinha estivesse aqui…

Hoje de manhã novamente Marcinha me veio na memória. Mas desta vez ela não me perdoaria.

Desabei no choro ao telefone com um amigo irmão, diante da minhas dificuldades com prazos. Mais uma vez elas me custaram caro, princiopalmente pela impossibilidade de crescer, de ficar melhor.

Mais uma vez joguei pela janela uma oportunidade profissional que passou a galope porque eu estava ocupado com o que já deveria ter terminado. Foi daqueles choros que nunca mais tinha chorado, quando a gente começa falar e a voz some no engasgo, tranformada num grunhido fino.

Tive vergonha. Mas depois passou, talvez porque no choro havia uma ponta saudável de raiva. Não, não estava com pena de mim, estava com raiva.

Rídiculo, diria Marcinha. Ela não suportava homem chorão. Não suportava mesmo. Pois é Marcinha. Chorei, não procuro aqui esconder. Mas ainda bem que meu choro tinha esta raiva.

Atenção: estou bem. Retorno hoje das férias ao trabalho de barnabé. Animado.