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O medo é uma merda

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Hoje senti medo da minha Piedade, da minha Carlos Gomes, da minha Castro Alves. Nunca, em décadas, havia sentido o que senti hoje. Temo muitas coisas, temo o futuro, temo as contas no fim do mês, temo a pressão alta, temo a balança, o ódio político, a ignorância, temo brochar, a falta de assunto no elevador, mas as ruas desta minha cidade inaugurei temer somente hoje.

Era um medo acumulado, já instalado e não notado. O gatilho havia sido disparado há mais ou menos um mês. A praça da Piedade tomada de moradores de rua, dois deles brigando, e eu indiferente, orientava Maria como fotografar melhor a fonte luminosa, os heróis da Conjuração Baiana, no cumprimento de uma tarefa escolar.

O celular foi arrancado da mão da menina num  bote rápido e certeiro. Sem pestanejar – pra que diabos fiz isso até agora não sei – parti no encalço do sujeito aos berros de pega, pega. Já voltava ofegante, humilhado e puto como a gente se sente nestas horas, quando alguém gritou: pegaram. O cara acabou no chão, com uma pistola apontada para a cabeça e o pé de um policial à paisana sobre as costas.

Fui  obrigado a seguir para a delegacia para cumprir o ritual do flagrante. No ponto em que as coisas chegaram, não havia mais como negociar a devolução do aparelho e liberar o sujeito. Segui com três policiais e o cara choramingando, pedindo clemência na mala da viatura, enquanto no rádio começava Vitória e Atlético MG.
– Fique quieto rapaz, se o Vitória tomar um gol aqui você vai ver o que é bom.
Passei a torcer pelo Vitória, pelo menos até a chegada à delegacia.

O gordo valentão que partiu pra cima de um miserável que arrisca ter que matar, ferir, apanhar, ou morrer por causa de uma porcaria de celular hoje percorreu as ruas do centro acuado. Não teve coragem de  caminhar  e fazer fotos como sempre. Descer do carro para ir ao Centro Cultural da Caixa com Soraya e Maria foi uma operação calculada, precedida de checagem de quem vinha, de quem ia. Ir depois ao Cine Glauber Rocha tomar um café, outra operação cercada de atenção.

Apesar da realidade gritar o contrário, nunca senti medo nas ruas. Sempre me achei parte da cidade.Morei na Senador Costa Pinto, no Largo 2 de Julho, me sentia imune, um sujeito da área. Achava estranho o texto de um amigo que certa vez me disse que seu grande prazer de ir à Europa não era visitar museus, catedrais, concertos. Era simplesmente andar tranquilo pela rua, sem medo de ser assaltado.

É uma pena ter que me render à realidade,  algum temor  é até útil como prevenção.

Mas talvez o medo seja pior que a violência consumada, porque é uma violência latente, permanente, corrosiva. O medo é uma merda. 

 

 

 

 

 

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 O direito de não ser vegetal

Camisa aberta até o começo da barriga de seus cinquenta e poucos anos a brigar com os botões, o desleixo corporal do escrivão é a minha própria imagem e semelhança. Tratei de me identificar como funcionário público para ganhar também o status de colega. Não deu outra. O atendimento na 16ª DP foi simpático, num ambiente de teto descascado, infiltrações pelas paredes, instalações elétricas em gambiarras.

O atendimento foi simpático e demorado. No meio apareceu uma trupe do Sindipoc, o sindicato da polícia civil, a colar cartazes, distribuir jornal e convidar para mais uma assembleia da campanha salarial 2012. Já vimos este filme.

O atendimento foi simpático mas saímos de lá com a certeza de culpa dos otários. Sim, o escrivão barrigudo como eu e em vias de se aposentar enumerou vários argumentos para provar a Luísa de que a culpa pelo assalto foi dela. Quem mandou levar documentos na bolsa, quem mandou levar equipamento eletrônico na bolsa, quem mandou carregar coisas úteis na bolsa?

Além da ocorrência, que não ficou pronta, claro, quem assina nunca está – fomos avisados disso na fila por uma pessoa mais escolada – saímos da delegacia com uma promessa de ocorrência para o dia seguinte. E o aviso sinistro de que tudo vai acontecer de novo. Portanto, tratar de não vacilar.

Mas, afinal, por que este escarcéu todo se devíamos agradecer aos céus por Luísa não ter levado tapas ou tiros? O que afinal roubaram de Luísa? Roubaram uma bolsa, presente do dia dos namorados, roubaram seu instrumento de comunicação com o mundo, um iPod, presente de 15 anos das amigas, roubaram todos os seus documentos.

Tudo isso é material e o que é material é possível substituir.

Mas este terceiro assalto tira de Luísa algo que talvez ela não recupere tão cedo, a possibilidade de andar pelas ruas sem medo. Da última vez andava assustada nos dias seguintes e mudou de calçada para evitar a proximidade com um desconhecido. Recebeu xingamentos pesados.

Perdemos a cada dia mais nesta cidade inviável o direito ao deslocamento, presos nos engarrafamentos, presas de assaltos e do medo nas calçadas.

Esta cidade e seus governos querem nos negar o que nos diferencia dos vegetais, a possibilidade de deslocamento.

E eu só queria este direito básico, o de não ser vegetal.

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Foto: Roberto Viana/Bocão News