Posts Tagged ‘morte’

Mortes

25/08/2016

Em junho foi Ana, em julho Clodoaldo e hoje  Paulo. Agosto do ano passado, Rubem. Outro dia  mais longe Maria, Márcia, Ludu, outro mais longe ainda, Álvaro, Auta, Dedé.

Primeira vez diante da morte, aos quatro anos, fui levantado por um adulto para ver o rosto do meu avô Antônio no caixão. Associei morte a algodão nas narinas. Depois desse dia foram mais de 20 anos de trégua, vida sem algodão,  éramos todos imortais.

Mas de um tempo pra cá esmaeço  a cada morte. Quem morre é quem fica, a morte leva com os outros  nossa memória, partes da gente.

Mas tudo é um pouco ainda mais cruel. Ontem, por acaso,  vi o filme Invasões Bárbaras. O diálogo do professor em estado terminal e sua jovem parceira nas doses de heroína, usada como lenitivo, comprova:

– O que você tanto amava?
– Tudo. Vinho, livros, música, as mulheres. (…)
– Ainda é um grande sedutor? – Não, não mais. Com a idade não é a mesma coisa.
– Você ainda gosta de vinho? – Infelizmente não. Não com o meu fígado.
– As viagens? – Hoje em dia há turistas por toda a parte.
– Não é o presente que você não quer largar… É o seu passado. Essa vida já está morta.

 

 

 

 

“Com que rosto ela virá?”

14/07/2016

A morte, surda, caminha ao meu lado, aceitou Raul. A morte está também na Sonata Nº2 de Chopin, mais visível no terceiro movimento. Estou assim, na contemplação e no encontro da  beleza na morte, esta inevitável. Ela anda nos cercando. Os mais antigos colocam uma pedra nesta conversa. Vamos de música.

 

Passu japiassoca assu

07/01/2016

Silencio

-Oh, Ney Matogrosso!, disse Soraya, rolando a tela.
-Que foi, morreu? perguntei.
-Não, tem show dele…

Ando assim, com o pensamento meio Dassanta, a personagem de Elomar parceira inseparável da veia da foice.

A velha da foice é uma conhecida minha recente. Passou longe da minha vida na infância e adolescência, mesmo tendo sido premiado com quase 20 tios e mais de 60 primos.

Talvez por isso tenha cultivado por muito tempo o sentimento de imortalidade, pra mim e pro mundo. A morte habitava os livros, os jornais, a música, a história. As lembranças mais fortes de hospital eram de uma operação de fimose aos 10, 11 anos ou  quando ia visitar os irmãos quando nasciam e ficava impressionado com o cheiro e as caras das moças pedindo silêncio.

Mas de um tempo pra cá, a fila tá andando rápido, as visitas ao cemitério em procissão são frequentes, as visitas aos hospitais idem, as más notícias por telefone também, melhor encarar.

A esperança é que todos nós, assim como Dassanta, nos transformemos pelo menos em  pássaros das asas amarelas, Passu japiassoca assu.

 

 

 

 

 

 

 

 

A maldição da coruja

24/04/2014

Sou agnóstico mas busco Deus em tanta bala, tanta morte matada, mais de cem neste abril. Escuto pipocos, mais de cem. Conto as mães, mais de cem. Mais de cem é a  metade de mortes da boate incendiada no Rio Grande do Sul. E menos de um milésimo da atenção minha, sua, de todo o mundo.

Afora aqui e ali, os jornais silenciam, as pessoas silenciam. São todos “malas sujas”, gente que não presta, aprendi esta nova definição em Feira de Santana. E mala suja não é gente, não merece a minha e a sua empatia,  não é notícia. A não ser nos programas e sites e blogs  do chamado jornalismo abutre. É só dar um google  pra sua tela sangrar.

Mas acredito piamente na reverberação de toda esta dor. Ela volta pra gente, mais cedo ou mais tarde. Ela também nos cabe.

Também não acredito nos maus presságios das corujas. Mas Iaçu, cidade de menos de 30 mil habitantes, uma das muitas Macondos da Chapada Diamantina,  teve ontem mais um assassinato e duas crianças baleadas.

Mas os maus presságios de uma coruja  e uma piada do cantor de trio Bell sobre Iaçu repercutiram muito mais do que o assassinato e duas crianças atingidas por balas na Portelinha, conjunto habitacional com nome de bairro de novela, na  margem direita do Paraguaçu, perto da coruja.

E repercutiu muito menos ainda uma acusação de estupro, também na Portelinha, no início do mês. Acusação seguida de julgamento e morte do acusado dentro de uma cela da delegacia da cidade, rito sumário. Detalhe: o exame de corpo de delito, soube de fonte confiável, não confirmou o estupro, mas o trapo humano executado teve as pernas amarradas para caber no caixão.

E o  que eu e você temos a ver com isso?

Pressinto, creio que vai sobrar pra gente. Já sobrou. Sobrou conviver com a reverberação de toda essa dor, com a reverberação deste ritual praticado na delegacia por gente de 18, 20 anos. Ou pelo menos com a tal banalização, talvez mais grave ainda.

Estamos todos no mesmo barco. Eu, você, os moradores acusadores da Portelinha, o delegado de Iaçu, os jovens carrascos, as crianças baleadas. O barco é um só e muita gente não entendeu ainda.

Não disseram que estamos todos juntos nesta linda passarela de uma aquarela que um dia enfim descolorirá?

Tá acelerado este processo.

Morremos também

04/02/2014

Irritação. É este meu  sentimento diante da notícia de morte de pessoas próximas.
É irracional, sei, é tolo.
É como se irritar com o anoitecer de cada dia.

Minha irritação vem da constatação de que o morto leva parte da gente que fica. Ninguém morre sozinho. Cada parte da gente é  enterrada a cada perda.

Invejo a religião nestas horas. Invejo a fé das pessoas em futuros reencontros. A gente até permanece reverberando nas próximas gerações, nossos erros e acertos de alguma maneira influem no futuro. Mas a identidade de cada um, esta cara e este nome são combinações datadas. E o fim é o fim mesmo.

Desde os cinco anos viajava para Minas, para férias na casa de tio, tia e seis primos. Um deles, Ellizeu, morreu ontem num acidente de moto. Há muito não via Elizeu, talvez não o encontrasse tão cedo, mas havia sempre uma possibilidade que desde ontem não existe mais.

Da casa de oito pessoas, tio, tia e seis primos, só posso compartilhar hoje com três delas as lembranças sobre o peitoril onde se reuniam todos depois do jantar, sobre o arroz de pequi, as noites estreladas, o leite no curral, a gamela de coalhada, o rio, as mangueiras, os pés de jenipapo, as boiadas, as gavetas velhas com esporas de galo. Consigo ouvir a voz de tia Odete chamando lá de dentro: – Ô  Zeu…

Daqui a alguns anos, caso  permaneça mais tempo por aqui, poderei não ter nenhum dos oito daqueles dias de infância para compartilhar as lembranças. Talvez não seja a maior tragédia da longevidade ficar só. Tragédia mesmo é permanecer com as lembranças sem testemunhas.

Eternidade

18/07/2013

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Shirley flagrou a eternidade. Temo a morte mas gosto muito de cemitérios, desde criança. Eles me fascinam e me jogam na cara a eternidade e o esquecimento. E as perguntas sem resposta: pra quê? por quê? pra onde? pra quando?

A eternidade da rosa é medida em dias, a do mármore em séculos. A nossa em parcos anos. Estamos no meio-termo, com a desvantagem de pensar no futuro.

Foto: Shirley Stolze

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10200209164168557&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

 

Solução

04/12/2012

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Há quase dois dias ela está em meu pensamento. Bicha intrusa, chega sempre para todos, chegará nas próximas horas, nos próximos dias, nos próximos ou nos próximos dos próximos anos pra mim e para você. Chegará sempre. Inesperada por mais anunciada que esteja, a estragar a festa, os planos, os desejos do próximo e do próximo Verão.

Difícil de entender, de aceitar, de conviver com esta coisa certa.

Pensei, pensei, me revirei, tive insônia em sua companhia, ela ali alojada no meu juízo até agora. Mas cheguei finalmente à única conclusão de como  enfrentar este desassossego que nos acompanha a vida inteira e um belo dia atinge em cheio os outros, sem piedade, os outros.

A partir de agora está combinado. Ó aqui pra você, morte: buuuuu!

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=4027098552603&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

Foto: http://bit.ly/11yJ840

Sinto muito por você

23/03/2009
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Havia uma Sé. Havia um bonde. Game over pros dois.

Tive medo de morrer. Mais. Tive mais medo ainda de antes de morrer ter um AVC como meu pai.

Então lembrei que o problema é antigo. Repeti o exame médico quando renovei minha carteira de motorista justamente por causa da bendita pressão. Esqueci este problema e só lembrei ontem porque descobri que minha carteira está vencida novamente desde o dia 02 de fevereiro.

Trafego desde sábado num carro roubado, IPVA 2004, carteira vencida e picos de pressão arterial a 17/10. Depois reclama da polícia, do prefeito, da medicina.

Mas não precisa fazer terrorismo na caixa de comentários. Vou dar baixa no carro hoje e marcar um cardiologista.

Voltando ao assunto que não quer calar, a tal da morte, o jeito é encarar.

Ler  Morte Abjeta que me espera (ops!), ler A Morte é Uma Festa, que também me espera, e As Intermitências da Morte, que ganhei há não sei quantos aniversários ou dias dos país.

Por enquanto, vou pensando nela por conta própria.

E  tive até um insight.

Parece um paradoxo, mas depois de matutar bastante sobre o assunto cheguei à seguinte conclusão:

Quando alguém do seu círculo de relações morre, quem morre é você.

Não estou falando da parte sentimental, de perda do outro. É perda de você mesmo, perda de parte da sua existência.

Parto do pressuposto de que não levarei a barriga, a pressão alta, a branquelice, a dentição precária, a carteira de motorista vencida, as dívidas, as manias e a saudade de você, dos demais amigos, de Soraya e dos nossos filhos para o momento seguinte à morte.

Claro, nossas ações, quem sabe até fragmentos de pensamentos, desejos e sentimentos, creio, seguem numa espiral infinita, em ondas, reverberando universo afora e além.

Mas atribuo à crença de vida após a morte, com a mesma identidade, carma e pecados, apenas ao eterno desejo humano da imortalidade. Ou a uma forma de controle social para garantir bom comportamento dos viventes, sob a ameaça do fogo do inferno.

Por que então você morre na morte do outro?

Porque você pára de existir para ele, enquanto ele continua existindo para você na lembrança, interferindo no seu modo de agir, influindo nas suas decisões.

É uma assimetria cruel, de uma crueldade proporcional à longevidade. Como será a cabeça no travesseiro de uma pessoa lúcida de 105 anos? Quantas mortes contam a existência de uma pessoa de 105 anos?

Portanto, de agora em diante, quando você me vir chorando alguém, tenha certeza que choro não só a saudade, mas também a minha morte naquela pessoa.

E, sinto muito. Na minha hora quem vai é você.

 

 

Pleonasmo

05/03/2009

Escrota, malvada, vil, torpe, criminosa, que age de má-fé, mentirosa, enganadora, maquiavélica. Origem no latim abjetu. Mais: degradante, desprezível, indigna, imunda, baixa. Pois é, encontrei todos estes significados para abjeta, todos iguaiszinhos à morte. Portanto, chego à conclusão, sem ter concluído a leitura, de que o título do livro de Bernardo Guimarães e Maria Judith, Morte abjeta é um redondo, completo e definitivo pleonasmo.

Não, ainda não é sobre o livro de Bernardo e Maria que eu escrevo. Estou é puto com esta velha abjeta da foice. Anteontem ela me levou Fafá, a colisa lalia sobreviente do aquário dos meninos, logo ela que foi bem cuidada, foi medicada com antibióticos [nunca entendi este prefixo exterminador antes da bio, já que é remédio]. Fafá estava ótima, pra cima e pra baixo, serelepe, até desconfiei que a malvada vivia mais feliz com a viuvez.

Chega hoje e recebo a notícia da morte do retratista Aurelino Costa [veja sua foto no post Haletos de Ouro], pessoa com quem sequer eu havia trocado uma palavra mas imaginava simpática, daquelas do tipo não vi e  gostei. Planejava conhecer pessoalmente Aurelino Costa agora na semana santa [olha ela aí de novo, desta vez disfarçada de santificada].

Não deu. Recebo o recado de Déborah  dando a notícia. Ontem mesmo ela esteve com ele, estavam se falando sempre, ela entusiasmada com o encontro, ele generoso, forneceu todo o seu acervo para o projeto Iaçu Cultural, projeto de memória visual,  cultura digital e o escambau, meu atual incutimento.

Sou inconformado sim, talvez por não crer em mais nada a não ser nos vermes e no calor do fogo, escolha um ou outro. Melhor para quem acredita que o baba continua. Pra mim é fim de jogo.

Comecei a ler um livro fantástico [já comecei a ler talvez mais de uma centena de livros fantásticos na vida] Breve história de quase tudo que  Ana Lívia levou emprestado com a promessa de devolução breve e a mim só resta sugerir como opção de presente para os meus  48 anos, na segunda. [Falar em piscianos, além de minha irmã Stael, Caio de Nilson, Bernardo e Renata Belmonte, Trasmonte fez uma pequena lista aqui].

Pois bem, neste livro se confirma algo que eu já havia pensado. Somos combinações, acidente matemático programado para se desintegrar e voltar a se integrar de novo à massa cósmica. Sob este prisma, somos imortais.

Mas o euzinho aqui, esta combinação impar de gosmas, terminações nervosas, ossos, dentes maltratados e muita dúvida existencial, tudo ensacado em tamanho GG, assim que o game for over, babau. 

Portanto,  essa identidade, esse pronome pessoal da primeira pessoa, tão caro a cada um de nós, dos mais humildes aos mais assumidos na vaidade,  vai pro espaço, literalmente.

Dá licença então poetas e crédulos, aproveito minha inconformidade e minha pouca poesia para deixar um joguinho vagabundo de rimas desta primeira pessoa que é singular e finita,  revelador  da minha birra com ela, a abjeta:

Eu?
morreu,
fudeu.