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Tempo

A morte matada de  Marielle Castro, de 38 anos,  me pegou no meio do filme sobre  Stephen Hawking, no dia da sua morte morrida aos 76.
Desde então fiquei meio que paralisado e, depois de acordar de mais uma noite mal dormida, me veio a pergunta essencial, guardadas todas as gigantescas proporções: o que estou fazendo desta minha vida neste tempo que me resta?

 

 

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A Morte de Ivan Ilitch

livro

Pufe
26/02/2018

Incuti durante todo o fim de semana na leitura recomendada pela professora de literatura Ângela Vilma.

Por influência dela, havia ido à livraria comprar a que julgo ser a melhor tradução de A Morte de Ivan Ilitch, de Boris Schnaiderman, Editora 34,  direto do russo, mas precisei encomendar e o livro só chega na próxima sexta.

Em se tratando do autor, o livro é quase um bilhete, com menos de cem páginas. Resolvi então ler o pdf disponível na rede enquanto ouvia em russo, num audiolivro, para entrar no clima.

Da primeira leitura, quase nada lembro porque além de ser imortal na época, era bem mais jovem do que o defunto.

Estou prestes a completar 12 anos a mais do que Ivan diante da morte aos 45. E o tema agora me interessa bem mais.

Pretendo voltar ao assunto principal. Ainda estou ruminando.

Por enquanto, compartilho aqui o inesperado humor de uma cena do velório:

“…sentaram-se à mesa, ela no divâ, e Piotr Ivânovich sobre um pufe baixinho, de molas estragadas, e que se amoldava de modo incorreto quando ele se sentava. Praskovya Fiódorovna quis avisá-lo que se sentasse numa cadeira, mas achou tal aviso não condizente com o seu estado e mudou de ideia. (…) Dirigindo-se ao divã e ao passar junto à mesa (de um modo geral toda a sala estava cheia de móveis e bibelôs) a viúva teve a renda de sua mantilha preta enganchada nos entalhes da mesa. Piotr Ivânovich soergueu-se, para desvencilhar a renda, e o pufe libertado debaixo dele começou a agitar-se e a empurrá-lo. A viúva pôs-se sozinha a ajeitar a sua renda, e Piotr Ivânovich tornou a sentar-se, comprimindo debaixo de si o pufe em rebelião. Mas a viúva não conseguiu libertar a sua renda inteira, e Piotr Ivânovich levantou-se mais uma vez , o pufe tornou a rebelar-se  e até emitiu um estalido. Quanto tudo isso terminou, ela tirou um lenço limpo de cambraia e chorou. (Pág 12)

 

Só Caio deveria morrer

Dizem, o clássico resiste ao tempo. E é fácil notar isso num livro escrito há quase um século e meio e você se vê ali, como ontem, como no último velório, como na última briga conjugal, como no último desejo de aumento, como na última ida ao médico, como da última vez diante do juiz, como da última vez em que se sentiu superior, como na última vez em que se sentiu abandonado, como no último medo da morte.

Passado quase um século e meio, o livro tá ali, soltando faísca de tão novo. Reluzente.

“Ivan Ilitch via que estava morrendo, e o desespero não o largava mais. Sabia, no fundo da alma, que estava morrendo, mas não só não se acostumava a isso, como simplesmente não o compreendia, não podia de modo algum compreendê-lo.
O exemplo do silogismo que ele aprendera na Lógica de Kiesewetter: Caio é um homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal, parecera-lhe, durante toda a vida correto somente em relação a Caio, mas de modo algum em relação a ele. Tratava-se de Caio-homem, um homem em geral, e neste caso era absolutamente justo, mas ele não era Caio, não era um homem em geral, sempre fora um ser completa e absolutamente distinto dos demais…” (Pág 49)

Também sou um ser único,  mais velho que o protagonista, mais velho que o escritor, então. E também acho que apenas Caio deveria morrer.
(27/02/2018)

Oxalá!
(28/02/2017)

Tudo começa com um acidente besta, um escorregão numa escada, uma quase queda e uma pancada, tudo descrito de uma forma casual, como a caixa clara e a flauta no início do Bolero de Ravel. Mas aí a dor vai aumentando, entra a boca amarga, entra a ira, entra novamente a dor, e a dor, o desencanto, a dor, o desespero, a dor, a revolta, a raiva. Após três dias seguidos de gritos, o espasmo final, como o bumbo, os pratos e o tam-tam, no clímax do Bolero.

Tudo num crescendo também como na clarineta que abre o tema recorrente da 5ª Sinfonia de Tchaikovsky – escrita na mesma época, apenas dois anos depois do livro – até o grand finale, com a orquestra desabando sobre nós, como a morte. Ou o clímax, o gozo.

Sim, o gozo. Como lerdo que sou, só depois da segunda leitura, ali nas últimas palavras, enxerguei a luz. Sim, cadê a morte que estava aqui? no lugar da morte, no lugar da dor, a luz. Oxalá!
Cargo
02/03/2018

No tempo em que a gente levava o filme para a loja e esperava horas e até dias pela revelação, eu sempre ia antes do previsto no recibo, na esperança.
E a alegria era grande e rara quando as fotos se antecipavam ao prazo.
Ontem senti esta mesma alegria ao ir de véspera na livraria e receber da moça do balcão a tradução confiável de Boris Schnaiderman para a Morte de Ivan Ilitch.

Portanto, senta que lá vem mais história com spoiler, é claro.

A luta por um cargo é de foice e veneno no mundo dos barnabés. Um cargo ou uma vaga surge quando fazem reformas, criam secretarias ou ministérios, quando alguém é demitido, quando alguém é promovido, transferido, quando alguém morre.

“… De modo que, ao ouvirem a notícia da morte de Ivan Ilitch, o primeiro pensamento de cada um dos que estavam reunidos no gabinete teve por objeto a influência que esta morte poderia ter sobre as transferências ou promoções, tanto dos próprios juízes como dos seus conhecidos.
Agora certamente receberei o posto de Stábel ou de Vínikob – pensou Fiódor Vassilevitch – Isso já me foi prometido há muito tempo e essa promoção significa um aumento de oitocentos rublos além da chancelaria.
“Será preciso pleitear que meu cunhado seja transferido de Kaluga – Pensou Piotr Ivânovicht – minha mulher ficará muito contente e não poderá mais dizer que eu nunca fiz nada pelos parentes dela.” (Pág 8)

Observe que todos pensam, nos três parágrafos. E eles pensam enquanto lamentam a morte do amigo.

E ao falar do pai de Ivan Ilitch, Tolstói descreve outra faceta do nosso mundo dos barnabés:

“…aquele tipo de carreira que leva as pessoas a uma situação da qual elas, por mais evidente que seja a sua incapacidade para qualquer função de efetiva importância, não podem ser expulsas em virtude dos muitos anos de serviço e dos postos alcançados, por esse motivo, recebem cargos inventados, fictícios e uns não fictícios milhares de rublos, de seis a dez, com que vivem até a idade provecta. Tal era o conselheiro privado Iliá Iefimovitch Golovin, funcionário inútil de diversas repartições desnecessárias…(Pág17)

O primeiro cargo de Ivan, depois de formado em direito, foi conseguido por influência paterna. Sua primeira promoção aconteceu por conta uma reforma no judiciário. Em determinado momento da carreira, começou a viver além das suas possibilidades e a gastar mais do que os 3.500 rublos que ganhava, um salário razoável. Na hora em que esperava ser promovido, foi passado pra trás. Solução? Partiu para a capital em busca dos seus contatos e de um novo cargo, de 5.000 rublos, seja onde fosse.
E conseguiu.
E aí você se desloca 132 anos e 10 mil quilômetros para descobrir que a coisa funciona mais ou menos do mesmo jeito aqui e agora e na Rússia czarista.
Parece
03/03/2018.

Em toda a minha vida de pobre e pobre classe média média conheci apenas uma família rica rica. E em ambas as casas desta família, na cidade e na praia, o sentimento é de acolhimento e conforto, num ambiente simples e sofisticado. Algo assim como uma casa do sertão, de chão batido varrido no capricho, fogão a lenha e paneleiro luzindo, como nas fotos de Iêda Marques.

Mas tem certas casas de classe média a alta aspirante a rica, em que tudo é clean e separadamente bonito. Mas quando junta fica uma coisa sem alma, parece colagem de anuário de arquitetura.

A chave para este mistério da falta de alma talvez esteja nesta descrição da casa mobiliada no capricho por Ivan Ilitch, quando subiu de cargo:

“… tudo ficara lindo: não só ele o dizia., mas diziam-lhe isso todos os que viam o apartamento.
Na realidade, havia ali o mesmo que há em casa de todas as pessoas não muito ricas, mas que desejam parecê-lo e por isso apenas se parecem entre si: damascos, pau-preto, flores, tapetes e bronzes, matizes escuros e brilhantes; enfim, aquilo que todas as pessoas de determinado tipo fazem para se parecer com todas as pessoas de determinado tipo.” (pág 31)

 

 

Mortes

Em junho foi Ana, em julho Clodoaldo e hoje  Paulo. Agosto do ano passado, Rubem. Outro dia  mais longe Maria, Márcia, Ludu, outro mais longe ainda, Álvaro, Auta, Dedé.

Primeira vez diante da morte, aos quatro anos, fui levantado por um adulto para ver o rosto do meu avô Antônio no caixão. Associei morte a algodão nas narinas. Depois desse dia foram mais de 20 anos de trégua, vida sem algodão,  éramos todos imortais.

Mas de um tempo pra cá esmaeço  a cada morte. Quem morre é quem fica, a morte leva com os outros  nossa memória, partes da gente.

Mas tudo é um pouco ainda mais cruel. Ontem, por acaso,  vi o filme Invasões Bárbaras. O diálogo do professor em estado terminal e sua jovem parceira nas doses de heroína, usada como lenitivo, comprova:

– O que você tanto amava?
– Tudo. Vinho, livros, música, as mulheres. (…)
– Ainda é um grande sedutor? – Não, não mais. Com a idade não é a mesma coisa.
– Você ainda gosta de vinho? – Infelizmente não. Não com o meu fígado.
– As viagens? – Hoje em dia há turistas por toda a parte.
– Não é o presente que você não quer largar… É o seu passado. Essa vida já está morta.