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O sofá, a peça e a insistência

Escrevo neste Licuri desde 2006 e sempre tive um retorno emocional absurdo com ele. Elogios, emoções reveladas, reencontro com velhos amigos, o saldo é azul , bem azul. Com o facebook então, o retorno tem sido ainda maior.

Certa vez cheguei a ter retorno financeiro. Escrevi um post sobre minha necessidade de arrumar trabalho extra para aumentar a receita combalida e logo em seguida recebi o convite para um frila, que resultou num bom desaperto no orçamento.

Nesta semana voltei a ter retorno material misturado com emocional.

Recebo a ligação com a proposta. Dona de um novo apartamento maior, daqueles que trazem a palavra mansão antes do nome,  quer passar para a frente por um preço simbólico e em prestações,  uma sofá e um buffet, que no meu interior conhecemos como peça.

Conhecemos a dona da oferta mas ela foi feita por uma pessoa mais próxima da gente e dela, interlocutora cheia de dedos.

E agora? E se a gente não gostar? e se não combinar com o que a gente pensa para a casa? Como recusar uma oferta dessa, depois da pessoa se disponibilizar a ir com a gente ver os móveis, abrir um tempo na agenda apertada de empresária e simplesmente ser desdenhada?

Soraya diz que a culpa dessas situações é da exposição permanente da nossa vida aqui. E é verdade, não adianta eu tentar me conter, faço parte da tribo do suicídio coletivo da privacidade, como já definiu o Boni.

A sorte é que gostamos dos móveis e da sugestão de transformações possíveis feitas pela própria dona. E da surpresa do texto do fechamento do negócio. O que seria venda virou doação.

A doadora disse que gostou do que tenho escrito sobre a nossa mudança de casa, gosta dos meus textos, não se manifesta mas se emociona, já chorou até com um deles.

Pronto. Estou remunerado pelo que escrevo, remuneração econômica e afetiva por conta dos elogios.

Ficamos meio boquiabertos com a proposta mas eu resisti pouco. Poderia insistir com o pagamento, mesmo simbólico.

A minha pouca resistência me fez lembrar uma história contada por Nilson, atribuída a um personagem de Brumado, mas na verdade é uma daquelas anedotas universais repetidas para ilustrar um comportamento típico.

A visita aparecia com a mesma conversa mole todo dia, faltando 15 minutos para o meio-dia. Mesa posta, a família se sentava e alguém convidava quase baixinho, entredentes. – Vamos almoçar?

A resposta vinha efusiva, quase contrariada: – Já que você insiste!

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Nossas caixas, nossa vida, um aceno

O simples é o estado mais difícil. O simples requer clareza, desapego, funcionalidade, inteligência, combinação. Organizar  uma casa é como construir um texto. O alfabeto é o mesmo, as palavras as mesmas, o segredo está na combinação, na economia, na disposição.

Casa nova, desafio de arrumar. Com quase dinheiro nenhum. Na casa só caixas e móveis renegados. O desejo de Soraya seria começar do zero, cama de tatame, dura caminhada.

Mas somos cinco. Muito papel acumulado, muita tralha. O sanitário da primeira suíte da vida do casal está de caixa até o teto, sem previsão de liberação para uso. O que fazer?

Um aceno

Vimos primeiro a criança, colega das escolas dos meninos. Em seguida os pais, um casal de arquitetos conhecido de oi, oi e de alguns papos na praça e na escola. Eles em busca  lanterna na seção de ferramentas da loja de construção para o acampamento da pequena, a gente por uma chave de fenda adequada para desarmar uma estante.

Conversa vai, conversa vem, vai, vem e de repente o convite.

– Vamos lá em casa, é aqui perto, vocês vão ver como resolvemos.

Tomamos um susto com o convite. Abriram a casa para a gente, franquearam a intimidade, numa generosidade absurda.

Adepta do faça você mesmo, ela conseguiu com estantes de aço, destas de escritório, moduladas, mais caixas organizadoras, construir um ambiente bacana, absolutamente personalizado. Nada ali lembrava nada já visto nas lojas, quase tudo material simples, mas combinados com sofisticação.  Mesa e camas foram feitas de portas revestidas. Cada móvel, cada canto tinha a cara do casal. Um  apartamento pequeno como o nosso, mas absurdamente acolhedor. 

Pronto, é por aí. O problema é como fazer. Soraya leva jeito, mas sou absolutamente analfabeto em arrumação de casa. Não adianta usar os mesmos materiais se não há habilidade na combinação. Tivemos  com esse encontro um aceno da ajuda, de orientação, mas o corre-corre da mudança e a viagem para pegar os meninos no interior interrompeu o contato.

Retomaremos.

Tentar fazer é a única saída para quem tem pouco dinheiro e quer fugir da padronização. 

Esse Licuri agora só pensa em mudança e casa nova. Vamos quebrar esse coco.

Mudanças

mudanca2

Falar em mudança, relembro aqui texto antigo, publicado neste coco pequeno ainda no tempo do Uol Blog ( http://bit.ly/1mTaeuK ), em 27 de setembro de 2006, quando mudamos do Pau da Lima para a Pituba:

Felicidade na alma. Vou mudar. Gosto disso. Sou por natureza mutante de corpo, casa e alma. Lembro da primeira mudança aos seis anos, abraçado a dois travesseiros, atravessando a praça da Bandeira, do Hotel Maringá, onde nasci, para o Hotel Lancaster onde vivi até os oito anos, em Conquista. Depois fiquei viciado em mudança, experimentando sempre, voluntária e involuntariamente em mais de duas dezenas de endereços: Salvador, Castro Alves, Manoel Vitorino, Conquista, Salvador, Moscou, Salvador. O lugar onde vivi mais tempo é onde viverei até sexta. Fecho um ciclo de oito anos dos 45 de vida, com a chegada do segundo e do terceiro filho. Saio do apertamento próprio, cercado de verde e pobreza. Vou para o apertamento alugado, cercado de concreto e classe mérdia, como dizia o poeta revoltado de antigamente. Vou acampar ao lado da escola dos meninos. Estou me sentindo como o pai que sai do interior e vai para a capital levar os filhos para estudar. Os meninos perdem os amigos, o pai ganha a alforria do volante na Avenida Paralela engarrafada quatro vezes ao dia, e a mãe perde o sonho da reforma. Todos perdemos e ganhamos, como o macaco da cumbuca.

Em tempo: em vez do golpe de machado na testa do senhorio, tive vontade de tascar um beijo na careca dele depois do contrato assinado. Deu tudo certo, o resto era agonia.

 

Ilustração: http://bit.ly/1d6lpL9