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“Com as palavras todo o cuidado é pouco, mudam de opinião…”

Se as palavras mudam de opinião, imagine eu e a medicina.

 

Hoje, ao folhear a Veja, fiquei boquiaberto com um artigo de André Petry, sobre  a possibilidade de exageros no diagnóstico precoce. Outra notícia, que vi pela primeira vez no blog do Celso Chorik, deu muito o que falar nesta semana: a dúvida sobre a famosa dedada.

 

Ambas tocam na minha hipocondria e provocam estragos ainda maiores no meu desconfiômetro, minha descrença, embora, como Nilson, às vezes tenho uns ataques, passageiros, de fé. Nos médicos, nos deuses e nos homens.

 

Gosto da crença de Maria Sampaio nos médicos e do seu permanente alto astral. Confiaria no bom senso de Bernardo – antes de médico os médicos são gente e por aí se tira muita coisa.  

 

Confio plenamente em Jocete, médica dos meninos. E em Irismar, meu primo, que zelou e poderá ter que zelar a qualquer hora pelo meu juízo. Mas invertendo aquela máxima de antigamente sobre os anarquistas, confio nos médicos. Não confio é na medicina.

 

Tudo isso é apenas um preâmbulo para republicar dois textos sobre medicina do velho Licuri no Uol, de dezembro de 2006. No final tem outro post, da mesma época, sobre as palavras. Segundo o hoje blogueiro Saramago, elas mudam de opinião.

 

Vamos aos posts.

 

22 de dezembro de 2006

maria-pe

 

Pé que nasce torto…  conserta sozinho

 

Quem disse que a medicina só me traz notícia ruim?

 

Antigamente ninguém saía de um ortopedista sem uma faca cravada

no bolso. Além de caros, os coturnos infantis eram um suplício

pra quem tinha que calçar e pra quem tinha que mandar calçar.

E assim como os primeiros carros da Ford, os pais podiam escolher

qualquer cor e modelo desde que fosse  preto e pesado.

 

Mas eis que um belo dia, depois de torturar milhões de pais e filhos,

os ortopedistas devem ter se reunido em congresso e chegado à

conclusão de que assim como plutão não é planeta, as botinhas

também não eram remédio. E de que pé que nasce torto… conserta sozinho.

Eles deviam era pagar indenização.

 

Luísa ainda teve sorte. Pegou a fase intermediária do simancol

ortomédico e só precisou calçar um tênis branco com palmilha,

que mesmo assim era um trambolho e muito caro.

 

André nasceu também com o tal pé equino varo congênito

(eta google bom) de Luísa mas só fez fisioterapia. Mas Maria

herdou do bisavô Rubem não só os olhos azuis. É a cara e a

cambota do velho. Doutora Jocete já havia nos tranqüilizado, mas

por precaução indicou o ortopedista que acabou confirmando

o diagnóstico de joelho genovaro (cambota mesmo) e que só

receitou um retorno com seis meses para acompanhamento.

 

Quem tem filho sabe o que é enfrentar no convívio social o batalhão

de especialistas, que adora dar conselhos às vezes sutis,

às vezes nem tanto. Agora, além do diagnóstico de doutor Guilhermo,

vou ter uma bela resposta para desconcertar enxeridos:

 

– Isso mesmo. Ela tem um problema seriíssimo e o médico passou um

remédio caro, raro, e eu não tenho como arranjar, não sei mais pra quem

apelar.

 

Deixo a pessoa sofrendo um pouco com o temor de eu pedir algum pra

só então  informar o nome do tal remédio:

 

– Tempo!

 

(na foto, o pé de Maria enfiado num sapato de Marcinha, aqui em casa. A lembrança de Marcinha me levou ao post de Kátia de hoje e a um comentário que fiz lá sobre lembranças).

 

20 de Dezembro de 2006

xixi

Trans o quê????

 

Já estava  preparado para uma dedada, mas não sabia que o negócio

seria bem mais duro.

– Acho que seu problema é outro. Mas para lhe tranqüilizar, vou passar

um exame que se houver alguma coisa, pega logo no início, disse o

médico com a mesma naturalidade de quem anota um exame de urina.

 

– PSA e toque quando descobrem alguma coisa já é na bagaceira.

Você vai fazer uma ultra-sonografia trans….. .

 

Pelo prefixo, você já deduziu que será necessário atravessar alguma coisa.

Sempre admirei o estoicismo feminino, que enfrenta bicos de patos,

espátulas, ultra-sonografias trans, raspagens, curetagens e outros rituais

de torturas sem chiar.

 

Mulher adora derrubar o mundo  por outros motivos bem mais banais.

 

E eu que sempre fui um insuportável representante  do raso e obsessivo humor masculino, agora vou provar do meu veneno. Nunca ouvi nenhuma mulher falar gracinhas do tipo – Doutor, você tem duas

horas para tirar este bico de pato daí. Mas quando o assunto é a tal dedada é impossível contar o drama sem ter que enfrentar os engraçadinhos.

 

Como aconselhou o sábio avô de Fernando Pacheco, do Filosofia de Privada:

 

– Meu filho, não dê a bunda. Nunca conheci um que dissesse “dei e não gostei”.

 

Enfim, dois anos depois, beirando os 48, ainda não decidi se faço o tal exame questionado pelo Inca.

 

 

 

Sexta-feira , 01 de Dezembro de 2006 
 
“Com as palavras todo o cuidado é pouco,
mudam de opinião como as pessoas.”
 
Estas palavras estão no último livro de Saramago. Elas foram lembradas por Ivan, que está a ler As Intermitências da Morte. Estão num contexto um pouco diferente mas caíram como  uma luva para o que eu queria dizer.
 
Seguinte: desisiti de republicar um dos posts do extinto Licuri ao descobrir que o texto havia mudado de opinião. 

 

Agora, em dezembro de 2008, voltei atrás e republico posts velhos, mesmo que eles tenham mudado de opinião junto comigo. 

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Um quadro falso

Tenho mania por rankings e tabelas. Acompanho pouco esta olimpíada, mas o quadro de medalhas eu checo cada vez que entro na internet. Nesta última consulta, antes de assistir à final de vôlei, constato que uma boa posição no quadro de medalha para um país significa uma boa posição no quadro de medalhas. E só. É como aquela piadinha sobre o jogo de xadrez: é ótimo para desenvolver o raciocínio. Para jogar xadrez.

Fico irritado com este ufanismo exagerado, plantado no juízo das pessoas, com o subtexto de que somos melhores quando ganhamos mais medalhas. Por esta lógica da tabela, Etiópia está um melhor país do que o Canadá. A Jamaica virou uma potência, à frente da Espanha, e Luxemburgo é uma terra de ninguém, um autêntico povinho sem medalha. Suécia e Áustria também são umas porcarias, pois sequer têm uma medalha de ouro.

Na verdade, a tabela ainda reflete a guerra fria e a queda de braço entre os decadentes capitalistas e os virtuosos atletas do socialismo. O que estes chinas comeram de pão amassado pelo diabo pra ficar bem diante do mundo nem quero imaginar. E Cuba? Está entre os oito melhores. No bronze. Será que todos os bons se picaram ou o país ficou pior? Não sei.

Sei que os vermelhos e os ex-vermelhos ainda imperam. Some as medalhas da Rússia com os demais países que formavam a CCCP e você chega ao segundo lugar, com 37 ouros. E no total de medalhas, os ex-companheiros da união indestrutivel das republicas livres, conforme pregava o hino negado pela história,  seriam campeões com 167 redondinhas, 60 a mais do que os americanos. Claro que a matemática não é tão simples assim porque se estivessem competindo todos pelo mesmo país uns eliminariam os outros, mas o número seria bem próximo disso.

Não torço pela olimpíada no Brasil. Pelo menos tão cedo, ou pelo menos enquanto Galvão Bueno não se aposentar. Afora isso seria uma encheção de saco por oito anos, e uma geração inteira dedicada a esta arte de ganhar medalha, que ao fim e ao cabo não dá em quase nada.

Enfim, como previ num comentário no blog de Maria Fabriani antes do começo dos jogos, vamos terminar as olimpíada com um número de medalhas de ouro que se pode contar nos dedos de uma mão, de presidente. Exatamente igual, caso o Brasil vença daqui a pouco. Ou com folga se Bueno ficar triste. Mas pra mim, sinceramente, tanto faz.

Agora vou para a poltrona porque ele me chamou, me convocou novamente como amigo. E me informa a grande novidade que o jogo vale ouro. Quem precisa de inimigo?

Atualizado em 25/08 – Dormi antes do jogo terminar, mas o resultado todos sabem. E o contas abertas informa hoje que cada medalha custou ao nosso bolso R$ 50 milhões. Confira aqui.

Oxalá

Ao acompanhar a notícia da semana, me vieram à cabeça duas coisas: a música de Tom Zé:
…Sei que quem rouba um, é moleque
Aos dez, promovido a ladrão
Se rouba 100 já passou de doutor
E 10 mil, é figura nacional
E se rouba 80 milhões…
É a diplomacia internacional
A “Boa Vizinhança” e outras tranças

 

É que na profissão de ladrão
Injustiça e preconceito
Dá chuva pra inundação
Para alguns fama e respeito
Pra outros a maldição
Pois o tamanho do roubo
Faz a honra do ladrão

 

E é por isso que eu só vou para o xadrez
Seu delegado
Se o senhor trouxer primeiro
Toda a classe para o meu lado
Mas neste dia de aflição
Não vai ter prisão no mundo
Pra caber a multidão…

 … e a história da doméstica  Angélica Aparecida Souza Teodoro, 19 anos, já citada aqui  neste Licuri, que passou 128 dias na cadeia por tentar roubar um pote de 200 g de manteiga em São Paulo.

E por falar em nossa honestidade brasileira, o CQC fez uma pesquisa bem bacaninha. Confira.

Mas o que o Oxalá do título e da imagem abaixo, uma das esculturas de Mário Cravo nos jardins da sede dos Correios, tem a ver com tudo isso? Quase nada. É só para colocar uma palavra com boas energias  neste post e mostrar esta foto que fiz no sábado.