Posts Tagged ‘Notícias’

“Com as palavras todo o cuidado é pouco, mudam de opinião…”

01/12/2008

Se as palavras mudam de opinião, imagine eu e a medicina.

 

Hoje, ao folhear a Veja, fiquei boquiaberto com um artigo de André Petry, sobre  a possibilidade de exageros no diagnóstico precoce. Outra notícia, que vi pela primeira vez no blog do Celso Chorik, deu muito o que falar nesta semana: a dúvida sobre a famosa dedada.

 

Ambas tocam na minha hipocondria e provocam estragos ainda maiores no meu desconfiômetro, minha descrença, embora, como Nilson, às vezes tenho uns ataques, passageiros, de fé. Nos médicos, nos deuses e nos homens.

 

Gosto da crença de Maria Sampaio nos médicos e do seu permanente alto astral. Confiaria no bom senso de Bernardo – antes de médico os médicos são gente e por aí se tira muita coisa.  

 

Confio plenamente em Jocete, médica dos meninos. E em Irismar, meu primo, que zelou e poderá ter que zelar a qualquer hora pelo meu juízo. Mas invertendo aquela máxima de antigamente sobre os anarquistas, confio nos médicos. Não confio é na medicina.

 

Tudo isso é apenas um preâmbulo para republicar dois textos sobre medicina do velho Licuri no Uol, de dezembro de 2006. No final tem outro post, da mesma época, sobre as palavras. Segundo o hoje blogueiro Saramago, elas mudam de opinião.

 

Vamos aos posts.

 

22 de dezembro de 2006

maria-pe

 

Pé que nasce torto…  conserta sozinho

 

Quem disse que a medicina só me traz notícia ruim?

 

Antigamente ninguém saía de um ortopedista sem uma faca cravada

no bolso. Além de caros, os coturnos infantis eram um suplício

pra quem tinha que calçar e pra quem tinha que mandar calçar.

E assim como os primeiros carros da Ford, os pais podiam escolher

qualquer cor e modelo desde que fosse  preto e pesado.

 

Mas eis que um belo dia, depois de torturar milhões de pais e filhos,

os ortopedistas devem ter se reunido em congresso e chegado à

conclusão de que assim como plutão não é planeta, as botinhas

também não eram remédio. E de que pé que nasce torto… conserta sozinho.

Eles deviam era pagar indenização.

 

Luísa ainda teve sorte. Pegou a fase intermediária do simancol

ortomédico e só precisou calçar um tênis branco com palmilha,

que mesmo assim era um trambolho e muito caro.

 

André nasceu também com o tal pé equino varo congênito

(eta google bom) de Luísa mas só fez fisioterapia. Mas Maria

herdou do bisavô Rubem não só os olhos azuis. É a cara e a

cambota do velho. Doutora Jocete já havia nos tranqüilizado, mas

por precaução indicou o ortopedista que acabou confirmando

o diagnóstico de joelho genovaro (cambota mesmo) e que só

receitou um retorno com seis meses para acompanhamento.

 

Quem tem filho sabe o que é enfrentar no convívio social o batalhão

de especialistas, que adora dar conselhos às vezes sutis,

às vezes nem tanto. Agora, além do diagnóstico de doutor Guilhermo,

vou ter uma bela resposta para desconcertar enxeridos:

 

– Isso mesmo. Ela tem um problema seriíssimo e o médico passou um

remédio caro, raro, e eu não tenho como arranjar, não sei mais pra quem

apelar.

 

Deixo a pessoa sofrendo um pouco com o temor de eu pedir algum pra

só então  informar o nome do tal remédio:

 

– Tempo!

 

(na foto, o pé de Maria enfiado num sapato de Marcinha, aqui em casa. A lembrança de Marcinha me levou ao post de Kátia de hoje e a um comentário que fiz lá sobre lembranças).

 

20 de Dezembro de 2006

xixi

Trans o quê????

 

Já estava  preparado para uma dedada, mas não sabia que o negócio

seria bem mais duro.

– Acho que seu problema é outro. Mas para lhe tranqüilizar, vou passar

um exame que se houver alguma coisa, pega logo no início, disse o

médico com a mesma naturalidade de quem anota um exame de urina.

 

– PSA e toque quando descobrem alguma coisa já é na bagaceira.

Você vai fazer uma ultra-sonografia trans….. .

 

Pelo prefixo, você já deduziu que será necessário atravessar alguma coisa.

Sempre admirei o estoicismo feminino, que enfrenta bicos de patos,

espátulas, ultra-sonografias trans, raspagens, curetagens e outros rituais

de torturas sem chiar.

 

Mulher adora derrubar o mundo  por outros motivos bem mais banais.

 

E eu que sempre fui um insuportável representante  do raso e obsessivo humor masculino, agora vou provar do meu veneno. Nunca ouvi nenhuma mulher falar gracinhas do tipo – Doutor, você tem duas

horas para tirar este bico de pato daí. Mas quando o assunto é a tal dedada é impossível contar o drama sem ter que enfrentar os engraçadinhos.

 

Como aconselhou o sábio avô de Fernando Pacheco, do Filosofia de Privada:

 

– Meu filho, não dê a bunda. Nunca conheci um que dissesse “dei e não gostei”.

 

Enfim, dois anos depois, beirando os 48, ainda não decidi se faço o tal exame questionado pelo Inca.

 

 

 

Sexta-feira , 01 de Dezembro de 2006 
 
“Com as palavras todo o cuidado é pouco,
mudam de opinião como as pessoas.”
 
Estas palavras estão no último livro de Saramago. Elas foram lembradas por Ivan, que está a ler As Intermitências da Morte. Estão num contexto um pouco diferente mas caíram como  uma luva para o que eu queria dizer.
 
Seguinte: desisiti de republicar um dos posts do extinto Licuri ao descobrir que o texto havia mudado de opinião. 

 

Agora, em dezembro de 2008, voltei atrás e republico posts velhos, mesmo que eles tenham mudado de opinião junto comigo. 

Um quadro falso

24/08/2008

Tenho mania por rankings e tabelas. Acompanho pouco esta olimpíada, mas o quadro de medalhas eu checo cada vez que entro na internet. Nesta última consulta, antes de assistir à final de vôlei, constato que uma boa posição no quadro de medalha para um país significa uma boa posição no quadro de medalhas. E só. É como aquela piadinha sobre o jogo de xadrez: é ótimo para desenvolver o raciocínio. Para jogar xadrez.

Fico irritado com este ufanismo exagerado, plantado no juízo das pessoas, com o subtexto de que somos melhores quando ganhamos mais medalhas. Por esta lógica da tabela, Etiópia está um melhor país do que o Canadá. A Jamaica virou uma potência, à frente da Espanha, e Luxemburgo é uma terra de ninguém, um autêntico povinho sem medalha. Suécia e Áustria também são umas porcarias, pois sequer têm uma medalha de ouro.

Na verdade, a tabela ainda reflete a guerra fria e a queda de braço entre os decadentes capitalistas e os virtuosos atletas do socialismo. O que estes chinas comeram de pão amassado pelo diabo pra ficar bem diante do mundo nem quero imaginar. E Cuba? Está entre os oito melhores. No bronze. Será que todos os bons se picaram ou o país ficou pior? Não sei.

Sei que os vermelhos e os ex-vermelhos ainda imperam. Some as medalhas da Rússia com os demais países que formavam a CCCP e você chega ao segundo lugar, com 37 ouros. E no total de medalhas, os ex-companheiros da união indestrutivel das republicas livres, conforme pregava o hino negado pela história,  seriam campeões com 167 redondinhas, 60 a mais do que os americanos. Claro que a matemática não é tão simples assim porque se estivessem competindo todos pelo mesmo país uns eliminariam os outros, mas o número seria bem próximo disso.

Não torço pela olimpíada no Brasil. Pelo menos tão cedo, ou pelo menos enquanto Galvão Bueno não se aposentar. Afora isso seria uma encheção de saco por oito anos, e uma geração inteira dedicada a esta arte de ganhar medalha, que ao fim e ao cabo não dá em quase nada.

Enfim, como previ num comentário no blog de Maria Fabriani antes do começo dos jogos, vamos terminar as olimpíada com um número de medalhas de ouro que se pode contar nos dedos de uma mão, de presidente. Exatamente igual, caso o Brasil vença daqui a pouco. Ou com folga se Bueno ficar triste. Mas pra mim, sinceramente, tanto faz.

Agora vou para a poltrona porque ele me chamou, me convocou novamente como amigo. E me informa a grande novidade que o jogo vale ouro. Quem precisa de inimigo?

Atualizado em 25/08 – Dormi antes do jogo terminar, mas o resultado todos sabem. E o contas abertas informa hoje que cada medalha custou ao nosso bolso R$ 50 milhões. Confira aqui.

Oxalá

14/07/2008
Ao acompanhar a notícia da semana, me vieram à cabeça duas coisas: a música de Tom Zé:
…Sei que quem rouba um, é moleque
Aos dez, promovido a ladrão
Se rouba 100 já passou de doutor
E 10 mil, é figura nacional
E se rouba 80 milhões…
É a diplomacia internacional
A “Boa Vizinhança” e outras tranças

 

É que na profissão de ladrão
Injustiça e preconceito
Dá chuva pra inundação
Para alguns fama e respeito
Pra outros a maldição
Pois o tamanho do roubo
Faz a honra do ladrão

 

E é por isso que eu só vou para o xadrez
Seu delegado
Se o senhor trouxer primeiro
Toda a classe para o meu lado
Mas neste dia de aflição
Não vai ter prisão no mundo
Pra caber a multidão…

Veja a música toda aqui

 … e a história da doméstica  Angélica Aparecida Souza Teodoro, 19 anos, já citada aqui  neste Licuri, que passou 128 dias na cadeia por tentar roubar um pote de 200 g de manteiga em São Paulo.

E por falar em nossa honestidade brasileira, o CQC fez uma pesquisa bem bacaninha. Confira.

Mas o que o Oxalá do título e da imagem abaixo, uma das esculturas de Mário Cravo nos jardins da sede dos Correios, tem a ver com tudo isso? Quase nada. É só para colocar uma palavra com boas energias  neste post e mostrar esta foto que fiz no sábado. 

 

 

 

Por quê?

29/06/2008

 

Seu olhar nesta foto é um pouco diferente do olhar entediado e blasé das modelos. Passa uma certa raiva, uma certa angústia. Por quê? É a pergunta que se faz, principalmente quando alguém dá cabo à vida quando se tem 20 anos, beleza, fama e dinheiro. Tenho  baixa tolerância a bêbado, drogado, suicida e maluco. Talvez pela aparente e parcial vitória que tive sobre todos eles que habitam em mim.

Minha intolerância é racional porque sei que todos, voluntária ou involuntariamente, transferem suas cotas de miserê para quem está à sua volta. Eles se deslocam, se esquivam, saem de cena com o corpo ou com a alma e sobra para quem? Para mães, pais, filhos ou alguém que ainda suporta. Pense em algum deles e você logo vê alguém ferrado por perto.

Mas minha intolerância é parcial e não chega ao coração. Um gesto como o dessa garota (tudo indica que foi suicídio) me toca, me comove, assim como me tocou o mesmo gesto de Gustavo, um amigo. Ver alguém louco também é uma experiência que deixa o coração  apequenado diante dos porquês.

 

E por falar em mãe, aqui vai um abraço apertado e um beijo para a minha garota de 78 anos hoje, que segurou legal minha onda quando andei me esquivando do mundo. Parabéns Dona Edith!

Avós

10/02/2008

285859281.jpg

Avós maternos de Obama, em álbum publicado pelo Chicago Tribune. Ando interessado na família do cara, que foi criado cercado de muito carinho. Os pais se separaram quando ele era criança, mas ao que parece ele se deu muito bem com o padastro e continuou se relacionando com os avós maternos. (atualizado em 11/02)

voobama.jpg

 

 

Esta é a avó de Barack Obama, fotografada no Quênia por um jornal sueco e que ilustra um post de Maria, no blog Montanha Russa.  

 

E abaixo um post da Aeronauta sobre a avó dela diante da morte do avô.  

 

Quando meu avô morreu, minha avó teve um comportamento considerado estranho, principalmente por sua cunhada, irmã de meu avô, que não gostou nem um pouco do que viu.
Era noite quando chegamos lá na roça. Eu abraçava minha mãe e não acreditávamos naquilo tudo: a casa cheia, uns candeeiros clareando a imensa sala, e muita gente chorando. Minha avó foi nos receber na porta, assim como ela estava fazendo com todas as pessoas que chegavam. E também repetiu o que dizia desde que ali entrou a primeira pessoa: “Parem com essa besteira de chorar, gente! Que chororô que nada! Todo mundo um dia vai morrer! Hoje foi ele, amanhã sou eu, depois serão vocês! Entrem, entrem, mas nada de choro, nada de choro!” A repetição empolgada do “entrem, entrem”, fazia parecer que ela abria as portas para uma festa. Claro que achei estranho, mesmo sabendo que minha avó sempre foi tirada a engraçada, quase seca para a vida, fazendo desdém das coisas, mas naquele dia ela ultrapassava todos os limites.
Fomos para o quarto: eu, mãe, minha tia, minha prima… Mãe estava mal, chorava muito. E minha avó, depois de receber as últimas pessoas que chegavam, entrou com um rompante no quarto que estávamos e tratou logo de explicar como meu avô morreu: “Assim, ó, de repente, sem quê nem pra quê! Depois dei banho, tá lá todo limpinho, cheiroso, ninguém pode dizer que não cuidei!” Dizendo isso, foi se sentando na cama junto com a gente, sem uma lágrima no olho, numa excitação juvenil: “Deixem eu falar pra vocês o que sofri com esse véi a vida toda!” Daí abriu sua vida, contou tudo, desde o casamento até aquele dia. “Ah, minhas filhas, esse véi nunca prestou, não é porque morreu que eu não vou contar tudo”. E abriu mesmo o verbo: todas as traições, os filhos que ele teve fora do casamento, as pensões para as outras que ela sempre lhe obrigou a pagar… “Na primeira traição desmanchei o jirau e nunca mais dormi com ele! E digo mais, minhas filhas: tomara que não tenha ninguém na família que puxe a este homem!”
Assim foi a noite toda: minha avó, lavando a alma, contou o que queria com muita graça, e nós não conseguimos deixar de não rir. Até mãe chegou a rir numa determinada ocasião, mesmo com o rosto inchado de chorar.
Na casa todos comentavam aquele comportamento de Dona Calu. Que coisa! Nem uma lagrimazinha! “Esse véi foi ruim demais, minhas filhas, e que Deus lhe perdoe!”, ela repetia. Minha tia-avó (irmã de meu avô),diante de todo esse teatro, se sentou na cozinha e ficou lá com a cara amarrada de ressentimento. No outro dia, bem cedo, acordamos com as ladainhas tiradas, na sala, por minha avó bastante animada. As rezas eram tristes, mas ela alteava no tom e a coisa perdia um pouco a dramaticidade. Na hora do adeus final, foi ela quem ordenou aos filhos fazerem uma fila para darem a benção ao “véi” que estava partindo. “E os netos também, têm que vir”, ela gritou. Lá fui eu na fila. Minha irmã fingiu que ia, aproveitou a distração de minha avó e não foi não, se escondeu no meio do povo. E a ordem continuava: “Dêem a bênção e beijem a mão dele!” Todos obedeciam. As pessoas presentes buscavam lágrimas nos olhos dela e, nada achando, murmuravam entre si: “Como é que pode? Que velha dura é essa?
A fila dos parentes todos se despedindo foi grande. Isso levou mais ou menos uns trinta minutos. Depois ela voltou ao comando: “Tampem o caixão, está na hora!” Na porta, uma caminhoneta com o fundo aberto esperava. O cemitério era longe, o enterro seria acompanhado de carro. Os filhos pegaram o caixão e foram saindo, colocando-o, a seguir, na caminhoneta. Minha avó no batente da porta olhava, com o olho seco. Fecharam a caminhoneta. O motorista ligou o carro. Minha avó no batente da porta olhava para tudo aquilo, dura. Depois mexeu no lenço da cabeça e começou um choro longo, doloroso, entrecortado de soluços.” 

(Blog Aeronauta, 4 de dez 2007)  

 

Borrachoterapia e blogoseiras

29/11/2007

borrac.jpg

Vão demolir a cadeia no Pará,  onde uma adolescente de  15 anos,  acusada de roubar um celular, foi trancafiada por uma delegada, isso mesmo, por uma mulher,  numa cela com três dezenas de homens.

A garota viveu dias de uma realidade que coloca a ficção da tropa de castelhanos encarada por Ana Terra  na categoria de carícias preliminares.

Também vão implodir a Fonte Nova, junto com o buraco de cimento apodrecido que tragou sete cristãos e liberou o mau cheiro da justiça e a omissão acumulada e sacramentada deste nosso alegre Estado que chamamos Bahia.

É  a solução borracha,   inspirada no sábio baiano Ruy Barbosa, que ordenou a queima de todos os documentos da escravidão para apagar esta página negra da nossa história.

Podemos então exportar a  fórmula mágica. Vamos mandar emissários para Roma e Berlim com  a missão de convencer italianos e alemães a adotarem  a solução borracha e livrar-nos de vez da lembrança  terrível das arenas romanas e dos campos de concentração.

Mas, enfim, vamos largar de tragédia e mudar de assunto porque eu queria mesmo era falar sobre blogs, blogosfera, blogolândia ou blogoseira…

Trago aqui para o nosso  convívio lateral novos vizinhos. Da Madame K, puxei Aeronauta. De um tal de Ivan Dmitri, que se diz heterônimo de escritor…de blog, descobri este debate (antigo) sobre o fim dos blogs, do La Vie en Close, tomei emprestado o Espalitando Dente, e da memória da Facom e da ETFBa saquei  Paulo Leandro e Alvinho,  por coincidência moradores do mesmo apartamento que fez história na década de 80 do século passado  lá pelos lados da Graça, quase vale do Canela.. Pronto, minha festa está garantida. Gosto de blogar só  por isso. Para compartilhar idéias com quem gosto e ou admiro.

Só por isso ou  por tudo isso.

 

Ilustração

A morte dos sapos

25/11/2007

Recente relatório de sindicato de arquitetos e engenheiros constatou o miserê e colocou a Fonte Nova como o pior dos 29 estádios visitados. A parte que desabou e matou havia sido interditada mas foi liberada ainda não se sabe o motivo.

Havia 60.007 sapos no estádio. Sobraram 60.000

Gosto de sapos, é um bicho nobre. Mas aqui na Bahia a gente diz “é  mesmo que morrer um sapo” quando o condenado vale  pouco.

Sapos não freqüentam jogos de copa do mundo. Por isso o velho estádio deveria ser reformado, implodido até, para que no seu lugar fosse erguido um lugar decente para receber gente.

Saiba mais:  Paulo Leandro, Juca Kfouri

Devolva-me

23/10/2007

01020100065900.jpgUma prótese, um par de algemas, um bule, uma caneta, um machado.

A notícia no UOL me impressionou e as fotos no  Spiegel  são ainda mais reveladoras.  

Que idéia mais genial! Um museu do barraco, das dores de amores, do acaboôôôô.

Mas acho que esta idéia só pode vingar num país que  não  tem  MPB. 

As mágoas, as dores, aqui a gente embarca tudo nas  Velas do Mucuripe.

E as bugigangas a gente devolve, como aquela medida do Bonfim ou aquele retrato que eu te dei.

O amor é azulzinho

26/08/2007


Quem disse que o dinheiro não compra a felicidade? Não só compra como também vende. E como vende.
Notícia distribuída pela Reuters, vinda de Washington, circulou nesta quinta-feira pela internet e nos jornais. Vi no Uol.
O Viagra não só oferece um pau duro. É também capaz de provocar o amor, aquele que mexe com sua cabeça e lhe deixa assim, aquele que é nunca contentar-se de contente.
Está cada dia mais fácil obedecer aos conselhos de Salomão, o dos Cânticos: “Comei! bebei e embriagai-vos do amor!”. Para deixar ainda mais contentes os acionistas Pfizer.
Assisti há alguns anos a uma palestra num destes congressos de comunicação, tão boa que pagou o sacrifício de ficar sentado assistindo palestra. Congressos são realizados sempre em lugares inóspitos como Porto de Galinhas, Foz do Iguaçu, Campos do Jordão. Ou em São Paulo, onde museus e a Avenida Paulista – com sua arquitetura e centros culturais – são sereia encantadora de caipiras viajantes por conta de governos e empresas. Por isso cada dia mais congressos têm mais gente inscrita e menos participantes. Mas aquela palestra valeu a pena.
A tese do professor era de que 99,99999999% por cento do que está escrito em jornal hoje em dia é proveniente de fontes profissionais de informação. Desconfio que até as cartas dos leitores. O irônico, e o que faz acordar a minha pulga atrás da orelha, é que ganho o meu pão de cada dia como integrante deste tal exército de fontes profissionais de informação, que atendem pelo nome genérico de assessoria de imprensa.
É a assessoria de imprensa que leva aos jornais, que por sua vez levam ao distinto público, as verdades produzidas pelas empresas, organizações e governos.
Não quero ser leviano, não tenho provas, mas precedentes me fazem desconfiar que esta pesquisa tenha sido também financiada pela Pfizer. Li em algum lugar que o Viagra é hoje o remédio mais vendido no mundo.
Mas assim caminha a humanidade e eu já não estou mais em idade de querer mudar o mundo mas sim de ficar alegre com a idéia de que em dias próximos além de um pau eficiente eu vou ter direito não só à poesia do sexo, como à prosa do amor, como dizem os vovôs Rita e Jabor.
Mas confesso que estou um tanto decepcionado. Lá pelo final do release, ops!, da matéria, assumem que tudo isto ainda é uma pista, a partir de efeitos semelhantes no tal do hormônio do amor dos ratos de laboratório. E descubro que não só os brutos, mas os ratos também amam.
Resumo da ópera: desconfie muito, mas muito mesmo, destas grandes descobertas reveladas por assessorias. E lembre: se acaso anoitecer, do céu perder o azul, vá na maresia buscar um cheiro de azul.

P.S.Aí você me pergunta: o que esta imagem do Katrina tem a ver com este post? Tem o mar. E a representação gráfica do que mais se aproxima dos sentimentos provocados por amor e sexo. Será que Deus anda tomando Viagra?

P.S 2. Mandei uma reclamação pelo release publicado para a ombusdman do Uol, lembrando que a Folha não é a mesma. Ganhei o múmero 011703321. Tereza avisou por mensagem automática que vai se concentrar nos casos que afetem muitos internautas do UOL. Como eu não devo ser dos muitos, vou ficar a ver navios ou alimentar a audiência do blog da Tereza que bolou uma criativa isca para audiência. Avisou que as respostas podem seguir por e-mail ou aparecer no blog ombudsmandouol.blog.uol.com.br. Passarei os próximos dias engordando sua audiência. Sabiiiiiida!

Atualizado em 29/08
Minha reclamação foi encaminhada. Viva!
Veja:
Caro Marcus,
obrigada por seu email. Como voceh, preocupo-me muito a questao informacao (principalmente na area medica) x publicidade. Vou passar para a reflexao da redacao. Vi o texto destacado eh da jornalista Maggie Fox, reconhecida no meio jornalistico como seria em relacao a esses assuntos. Ela trabalha para a agencia de noticias Reuters, que tambem tem regras rigidas. Claro que essas credenciais nao impedem que o lobby da industria farmaceutica atuem com sucesso.
Atenciosamente
Tereza Rangel
Ombudsman do UOL

Vamos ver no que isso vai dar. Será que vai dar em alguma coisa?

Coprofagia existencial

31/07/2007


Em pouco mais de 15 dias, a programação da Walter da Silveira a mais tradicional sala do circuito de arte da Bahia, ganhou três capas e mais um tiquinho e mais outras tantas páginas internas com destaque e elogios nos cadernos de cultura dos jornais A Tarde e Correio da Bahia. Sem contar as matérias de TV e notas no rádio. E duas notinhas desabonadoras, por conta de acidentes de percurso. Ganha um doce quem descobrir o que repercutiu mais. Ganha dois doces quem adivinhar o que despertou mais o seu interesse, caro leitor, nestas primeiras linhas: o sucesso da programação ou os fatos que renderam as duas notinhas. O mundo é assim, adora uma coisinha no ventilador.
Seríamos nosotros humanos chegados a uma coprofagia existencial? Por que coisas no ventilador dão mais Ibope?
Quer outro exemplo?
Passei anos tendo que agüentar zilhões de matérias sobre o abandono da obra de Anton Walter Smetak,um suiço genial que andou por estas bandas e deixou um trabalho instigante de investigação musical. Muito justo. Mas ninguém ainda gastou verbo na intensidade necessária e justa para repercutir o projeto que levou seu neto, Ícaro Smetac, meu “amigo” de orkut à Venezuela, junto com outros 12 jovens baianos, para dar continuidade a um trabalho que será uma das coisas mais importantes que surgiram no ramo desde a década de 50, com a criação dos Seminários de Música da Bahia. Trata-se do Neojibá,uma sigla com sotaque baiano e que significa Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia. Comandado por Ricardo Castro,um músico internacional, vindo lá de Vitória da Conquista como Elomar, Glauber e euzinho aqui.

O título ideal para este post seria: A Walter da Silveira está arrebentando e o Neojibá vai revolucionar a música na Bahia. Preferi cocô para garantir a leitura.

O Grande Funeral

22/07/2007

Baianos assistem ao “Grande Funeral” de ACM
21/07 – 22:31 – Marcus Gusmão, especial para o Último Segundo

Desde quando o senador Antonio Carlos Magalhães teve o primeiro revés em sua saúde em 1989, que resultou no implante de duas pontes de safena, duas mamárias e correções de um aneurisma, que se especula na Bahia como seria o “Grande Funeral”.

Seria feriado, hordas de funcionários públicos liberados do trabalho, prefeitos do interior às centenas, artistas da axé music, grandes empresários se juntariam a uma multidão que teria todas as facilidades de meios de transporte para participar da despedida. E faixas, muitas faixas.

Passados 16 anos, ACM foi enterrado neste sábado como senador da República. Mas em vez do poder, exercia a oposição ao prefeito de Salvador, ao Governador da Bahia e ao governo federal.

Além dos políticos, quem foi se despedir do chamado Cabeça Branca? “O povo, a nata dos que gostavam dele”, diz o professor de cultura africana e presidente do Afoxé Filhos do Congo, Nadinho do Congo, do Bairro da Fazenda Grande, enquanto se despedia dos amigos na porta do Campo Santo, onde no final da tarde se concentram centenas de pessoas para aplaudir a chegada do corpo de ACM, sem direito de entrar no cemitério.

Poucos prefeitos do interior. Com exceção de Durval Lelis, da banda Asa de Águia, nenhuma estrela da chamada Axé Music apareceu. De artistas, os populares Chocolate da Bahia, Riachão e Marinês. As faixas também revelavam o lado anônimo das homenagens. Assinadas por Tapioca, Geni, Dinho, ilustres desconhecidos que faziam questão de levar seu recado.

Para o publicitário Fernando Barros, que comandou as principais campanhas de ACM, a presença maciça do povo, de baianas caracterizadas, de camisetas com a foto do senador comprova a autenticidade destas manifestações comuns no contato de ACM com o povo.

“A presença de muitos adversários demonstrou que ACM já havia virado uma entidade, uma marca”, avalia Barros, que recomenda como estratégia tirar dividendos desta marca para manter a unidade do grupo.

No quesito autoridades, o funeral teve prensenças significativas. Aliados como José Sarney, Marco Maciel, Tasso Jereissati e Paulo Souto fizeram coro de elogios a opositores como Arlindo Chinaglia, Jaques Wagner e Lídice da Mata.

E o povo apareceu. Colou na porta do Palácio da Aclamação para esperar horas e passar por dois segundos na frente do caixão, esteve em grupos cantando nas escadas do palácio, bateu palmas, gritou e desmaiou. Fez o coro para a missa de corpo presente com hinos religiosos. Barrada na hora da missa de corpo presente, a multidão gritou uma frase estranha para quem estava dentro de um caixão.

“ACM cadê você, eu vim aqui só pra te ver”, dizia. Para definir os sentimentos da multidão dos “carlistas”, o motorista de táxi José Bispo Sena resumiu: “Foi uma grande perda para a Bahia”.

Riachão na fila
Faxinaço no Campo Santo
Atualizado em 22/07 às 21h22 – Domingão no cemitério
Atualizado em 23/07 às 3h30 – Morte não cria novo cenário

Quem tem medo do plantão?

18/07/2007

Tem uma comunidade no orkut chamada “Eu tenho medo do plantão”, como 553.230, isto mesmo, 553.230 participantes, ou mais de meio milhão de pessoas.
Eu ouvi o temido plantão hoje no meio da tarde. Estava num pátio da Rede Bahia como mesário da eleição do sindicato dos jornalistas, um pouco longe da TV que era acompanhada por um grupo que assistia às competições do Pan. Quando começou a musiquinha tan tan tan tan tan tan todo mundo se entreolhou e a aposta foi unânime: ACM. Mas era um fogo no hangar da TAM e como estávamos longe do aparelho, voltamos à conversa sobre as brigas pela Internet na lista do sindicato. Só ao chegar em casa, ao zapear, é que parei na Bandeirantes que exibia exaustivamente uma animação da tragédia. Ana Lívia me liga indignada com a insensibilidade da Globo. Enquanto a Band e a CNN (com imagens da globo) transmitiam ao vivo, a Globo mantinha o script de cobrir o Pan indiferente ao tamanho da tragédia. A Globo tem uma tal de grade, tem um formato rígido e falta plasticidade para mudar o foco na hora que precisa. E tome atletas felizes com o ouro enquanto as chamas consumiam o hangar e o país ainda não tinha idéia exata do tamanho da tragédia. O número de mortos beira a 200, só em terra já são 20 corpos.
Sempre achei a pista de Congonhas curta, é estranho chegar ao aeroporto e ver as aeronaves que decolam passando sobre a cabeça da gente. Quando o avião está se aproximando e os prédios começam a crescer diante da gente, é quase possível ver as pessoas dentro dos apartamentos no seu cotidiano. Sempre pensei em tragédia quando pousei naquele lugar, onde a pista parece se menor do que a distância entre o primeiro e o último guichê de embarque. Com este acidente, a crise áerea que começou com um choque de aviões no céu atinge o ápice com a derrapada de outro avião em terra. Desta vez a culpa não foi do reverso. Foi desta mentalidade nacional de adiar sempre as soluções dos problemas. Este é um país que, como eu, tem DDA. E paga caro por postergar.
Na comunidade do Orkut até agora, 22h15, já são 625 comentários sobre o assunto. Gente que entra apenas para registrar o que sentiu quando ouviu a tal musiquinha maldita.

Imagem é tudo

16/07/2007


Feioso, em Santa Terezinha, perto de Castro Alves.

Gosto de ouvir vozes isoladas e destoantes que atravessam os coros dos contentes. No caso da eleição fajuta da sétima maravilha na cidade maravilhosa já havia ouvido muitas destas vozes. Mas como todo bom desatento que tem este privilégio de se surpreender com o que todo mundo já viu, tive uma surpresa agradável ao ler o ensaio de Roberto Pompeu de Toledo na Veja desta semana.
“Se há alguma coisa feia no Rio de Janeiro é o Cristo Redentor. Bonito é o pico em que está fincado, uma pedra que sobe lá em cima, o cocuruto a varar com audácia territórios privativos do céu. Mais bonita ainda é a vista lá de cima, a mais bela que se pode ter de uma cidade. O caminho para chegar ao topo também é bonito.”
Toledo não perdoa o Cristo: “… mau exemplo com que contaminou cidades, vilas vilarejos e bairros no Brasil afora. Contam-se aos milhares os cristos redentores que brotaram pelo país nestes 76 anos que se seguiram à implantação do primeiro, no alto do Corcovado…” Outro dia, ao passar por Santa Terezinha, cidadezinha perto de Castro Alves, a réplica acima instalada na praça me chamou a atenção.
Se o Cristo carioca é feio, se suas réplicas idem, o mesmo não digo do cristo de Mário Cravo, braços abertos e cravados sobre o planalto de Conquista. Gosto de vê-lo de longe, quando chego de Salvador ou de Minas. Gosto de olhar minha infãncia, lá de cima, aos seus pés, próximo ao antigo cruzeiro. Lembro da ladeira ainda em chão batido, quando subiamos com velas na sexta-feira da paixão. Este Cristo gerou a maior polêmica ma cidade quando foi erguido por ser ….feio. Aí vou e volto e vejo o óbvio: a importância dos monumentos e das cidade não está apenas na beleza, mas pelo que elas representam para cada um de nós.

O cristo de Mário Cravo, em Conquista. Foto:

dbaiano

 

Outros cocos: Ícaro Smetak está no Neojiba. Confira no Abattuta.