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Os pais da ponte

O fracasso é órfão e o sucesso é filho de mulher-dama, ensina a sabedoria popular. O abandono da estação ferroviária de João Amaro, por exemplo, é órfão. Já a ponte que liga os municípios de Itaberaba e Iaçu sobre o Paraguaçu e a estrada Iaçu-Milagres estão com fila pra teste de DNA. Tem ex-prefeito, prefeito, ex-ministro e governador disputando paternidade.

É uma peleja intrincada. O ex-prefeito, que fez dois mandatos coligado com o PFL/DEM, hoje é PT desde criancinha e amarga geladeira nos direitos políticos por conta de contas não aprovadas. O atual prefeito é PMDB, aliado nacional mas inimigo local do PT. Será que Wagner vai conseguir reunir este saco de gatos sobre o palanque no próximo sábado, em nova data prevista para a inauguração oficial?

Mas o verdadeiro pai da ponte é o contribuinte, que de cada 10 reais gastos, tem 4 recolhidos como impostos. Os barnabés que assinaram a ordem de serviço, seja prefeito, ministro ou governador, não fizeram mais que obrigação. E demoraram.

Disputas políticas à parte, a ponte é bonita  e deságua de forma elegante sobre a cidade. Mas no conjunto fica meio esquisita, apertada entre a velha ponte de ferro e madeira, inaugurada em 1904, e a ponte ferroviária caída, da metade do século passado.


Ao observar a imagem do Google, ainda desatualizada, dá pra ver que a decisão foi prática. A locação da velha ponte é precisa, num ponto de  menor distância entre as duas margens. Acima e abaixo o rio se abre em ilhas e exigira obra bem maior e mais cara. Acima um pouco, pela imagem,  parece até que daria, mas exigiria desvio da estrada.

A ponte e a estrada também são filhas do momento econômico que vive a região. Em breve será asfaltada a estrada Iaçu-Itaetê, que servirá de escoamento para o ferro que vem de Marcionílio Souza e Piatã e será embarcado na ferrovia num ponto próximo a João Amaro, distrito de Iaçu.

Então, como já explicaram em outro contexto,  “é a economia, idiota!”

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A terceira ponte de Iaçu

Iaçu tem uma não-ponte sobre o Paraguaçu, quase uma instalação a ligar o nada ao nada com um espaço vazio no meio, testemunho de uma antiga ferrovia que morreu antes de se expandir. Clique na imagem para ver mais da ponte, rio, cidade e arredores no  google maps.

A segunda ponte, estreita e centenária, ameaça ruir mas ainda é a única utilizada para atravessar o rio, um veículo de cada vez. Veja vídeo sobre a ponte aqui e fotos antigas aqui.

A terceira ponte ainda é virtual mas virá a ser antes  do primeiro turno das eleições. Ela é a síntese da disputa eleitoral pelo goveno da Bahia.
É uma ponte política e uma solução melhor do que a reforma da velha sempre prometida pelo menos nas úitimas quatro eleições.

A cidade não fala em outra coisa. Na padaria, nos bares, a conversa é a ponte,  os 130 trabalhadores que chegarão nos próximos dias e os 20 da cidade que estão sendo contratados. Aí a ponte fica ainda mais política. O trabalho temporário é moeda política e a contratação passa pelo crivo eleitoral.

A licitação para a construção da ponte foi lançada pelo governo do Estado há quase um ano e meio, em agosto de 2008. Do custo total de aproximadamente R$ 11 milhões, 3 vieram do Ministério da Integração.

O prefeito é do PMDB, partido de Geddel, ministro da Integração Nacional. Geddel reivindica a paternidade da ponte e segunda-feira, pelo Twitter, usou a ponte de Iaçu para torpedear a construção da Ilha de Itaparica:

“Esse governo estadual,nao consegue fazer a ponte de Iaçu,cujo dinheiro . Min.Integração ja liberou a (sic) 6 meses, imagina a tal de itaparica” , escreveu o ministro.

A cidade tem outra obra eleitoral na agenda. Para as próximas eleições a nova moeda é a BA O46, trecho Itaberaba – Milagres, Iaçu no meio do caminho, com a ponte construída. A estrada diminuirá em cerca de 72 KM a viagem de quem vem no sentido norte pela BR-116  em direção à Chapada e ao Oeste.

A novela deverá ser tão longa como a da terceira ponte.

Mas parece que a ponte sai mesmo . As  placas com os créditos da obra  foram erguidas hoje, com erro. Falam de reconstrução.
Quem passa por ali e vê uma ponte aos frangalhos e outra incompleta vê sentido.

Atualizado em fev de 2012

Finalmente, a novela chegou ao fim e a  terceira ponte ficou pronta em dezembro de 2011, junto com a estrada Ia;u – Milagres. O sucesso foi tanto, que choveu pai de ponte. Veja como se deu o causo aqui https://licuri.wordpress.com/2012/01/16/os-pais-da-ponte/.

Let’s travel

Nunca consegui aprender inglês. Tinha 17 anos, o sonho era cair na estrada, pegar o Trem da Morte, ir a Cochabamba, depois Machu Picchu. Como era menor, segurei minha onda e resolvi ir à Minas antiga. Passei por Cordisburgo e Itabira, Ouro Preto, Congonhas. Subi pela Belém-Brasília, desci costeando o Nordeste até Conquista novamente. Numas dessas quebradas, encontrei um casal europeu perdido num entroncamento.Abri um sorriso e perguntei:

– Do you speak english?
– Yeh, Yeh responderam em coro e alegres também! Finalmente uma conversa.
– I don’t, disse eu, já meio sem graça.
Silêncio. Que situação. Este sou eu desde os 17.

Mas então vamos falar deta outra viagem solitária, em janeiro de 2007. Nuns diazinhos de folga, fui a Xerém, digo Macondo, digo Iaçu, para encontrar a minha renca e mais ou menos assim contei a viagem no Licuri no uol:

Saí de casa ainda escuro. Meia hora depois, Parei para fazer a foto.

 A gente vai ficando velho e a infância vai retornando, se aproximando. E uma das melhores lembranças é a barra do dia aparecendo na estrada Anagé – Conquista. Eu na boléia do caminhão de tio De Assis, espantado com o vermelho que ia tomando o céu num crescendo até aparecer o disco no horizonte limpo do céu sem nuvens do sertão.

 

Resolvo então perseguir minhas lembranças e sigo pela  BR116 em direção a Milagres em vez de pegar o caminho mais calmo via Ipirá. Passa Santo Estevão e então de repente se descortina lá embaixo o vale do Paraguaçu. É uma
imagem fantástica. São formações que parecem  ilhas de pedras, que os geológos chamam de inselbergs, quando numa quase planície de repente desponta uma grande rocha aqui, outra ali.  Ali perto está Castro Alves, onde vivi dos 9 aos 13 anos.

 
Um dia  íamos com minha mãe para Conquista e o ônibus quebrou exatamente neste local. Fiquei impressionado com a pedra e com a palavra Tyresoles.  Ela deve pertencer também ao imaginário de milhões de sertanejos. Neste ponto eles já viajaram mais de 1.200 km desde São Paulo, já entraram na Bahia há umas seis horas ou 400 km. Só aqui finalmente recebem as boas vindas de verdade, na placa, no clima, na vegetação. Enfim, eis o sertão. 

Surge então Milagres  das pedras. Glauber era fixado neste cenário. Aqui ele recriou o clima de
western de O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro .
A cidade também foi cenário de Os Fuzis, de Ruy Guerra, e mais recentemente, voltou para as telas em uma das cenas de Central do Brasil. Este lugar bate na alma dos sertanejos. É um dos destinos de romarias mas fortes do sertão.


E eis que surge Macondo, à 10h30. A outra entrada, via Itaberaba, é mais bonita porque você encontra logo o rio e as pontes. Nesta aqui o primeiro  impacto são as chaminés da cerâmica, que geram polêmica na cidade:
quem  está no poder diz que gera emprego. Quem esta na oposição diz que é fonte  de destruição do rio e de poluição. Todos têm razão e ninguém faz nada.
Lá no alto esquerdo da foto você vê uma pedra de onde se tem das melhores vistas da cidade com o rio e seus meandros e a vastidão do vale.
E então, tchibummm no Paraguaçu, com renca e tudountitled3