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Gramática da Ira

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Sou um leitor preguiçoso, deixo muitos livros esperando,  quase todos. Sou quase um leitor fraude. Mas de vez em quando um livro me pega e me vence. Assim terminei hoje de ler Gramática da Ira, de Nelson Maca, de uma segunda levada. E então me arrisco a compartilhar umas palavras sobre meus  sentimentos a partir da leitura.

Gosto de Maca falando poesia. O cara encarna, entra em transe, vira um caminhão lança mísseis de palavras. Certeiras.

No livro não é diferente, leio em voz alta e entro no seu ritmo. É um livro de guerra, de trincheira, sem meias palavras. A poesia de Macca é artilharia pesada em  branco e preto. É oito ou oitenta.

É guerra de guerrilha poética, sem bandeira branca. Macca vai à luta, se recusa a alisar a língua, a dar a outra face. De preto para preto, de preto para branco.

Li Declamei Vozes D’Africa em praça pública, quando criança. E ao ler Maca vejo que na sua poesia a garupa também sangra e a dor poreja. Mas na primeira pessoa.

Salve Maca, com respeito.

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O que eu era e podia ter sido

Trago para cá este poema de Nilson Galvão sobre o fardo existencial do passado imperfeito.

O que eu era e podia ter sido

Nílson Galvão

Tudo o que eu era e podia ter sido
eu deixei num banco de ônibus,
tempos atrás. Não houve jeito de
recuperar o que se perdeu, como
quando um primo deixou o walkman
na cadeira em que viajara. Achei
ingênuo o meu primo ligar pra
empresa de ônibus na esperança
de que alguém tivesse devolvido.
É um crente, pensei. Por isso não
voltei lá pra tentar recuperar tudo
que eu era e podia ter sido. Acontece
com muita gente esquecer coisas
assim, e raramente elas voltam
pros seus donos, por isso as pessoas
vão em frente sem aquilo que perderam.
Então nem cogitei voltar pra buscar
tudo o que eu era e podia ter sido.

Uma vez um sujeito perdeu dez mil
dólares em uma valise, e o dinheiro
voltou pra ele porque um homem honesto,
um homem pobre e decente segundo
os jornais, achou o dinheiro e não
teve dúvidas quanto a buscar o
verdadeiro dono de coisa tão
valiosa. Mas não achei que valesse
essa grana o que eu era e podia
ter sido, nenhum sujeito por mais
honesto acharia necessário procurar o
dono de algo do gênero.

Fico imaginando o que se passou com
o que eu era e podia ter sido. Quem
achou pode ter tirado de lá só o que
interessava, uns trocados, talvez, e
jogado o resto, eventuais documentos
gastos com fotos de outros tempos, em
alguma lixeira da rodoviária.

Ou alguém se abrigou do temporal com
o que eu era e podia ter sido até entrar
no cinema, ou numa lanchonete, e também
esquecer num canto o que eu era e podia
ter sido, que foi passando de mão em mão
até que ninguém mais achasse aproveitável
o que eu era e podia ter sido com todas
aquelas hastes quebradas como ocorre
a esses produtos baratos “Made in China”.

É possível ainda que as pessoas tenham
folheado displicentemente o que eu era e
podia ter sido. Até que alguém resolveu
entregar à biblioteca do bairro ou vender
ao sebo que pra variar pagou quase
nada, se muito. Até porque, avaliou o sovina
do proprietário, aquilo era item pra ir direto
à banca de “Qualquer título a R$ 5”.

O que eu era e podia ter sido pode ter ficado
ali sem que ninguém mexesse: quem se
interessaria por uma escova de dentes
usada, um estojinho de fio dental e uma
bisnaga de pasta de dentes pela metade e
ainda por cima com aquela sujeirinha
na tampa? Até que os funcionários
da companhia levaram o que eu era e podia
ter sido pra sala de achados e perdidos,
onde os objetos são mantidos por um período
de três meses, à espera de reclamação até
serem por fim destinados a sabe deus o que.

Quanto a mim, fiquei por um tempo apegado
ao que eu era e podia ter sido como a gente se
apega a qualquer coisa que se perde de nós.
Mas o tempo passou, você sabe, e esqueci o
que eu era e podia ter sido como a gente
finalmente deixa pra lá aquela bermuda azul
predileta que sumiu do varal pra nunca mais,
fazer o que?

(Veja original aqui: Sexta

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Resolvi trazer para cá as coisas que me são caras. Aqui elas são recuperáveis, ao contrário do Facebook, isso aqui tem uma busca, tem tags. Vai me ajudar um dia a pensar no que eu fui e no que podia ter sido.

E o Facebook não facilita mesmo as coisas. Fui buscar o link do post com o poema e descubro que textos sem foto não geram link.
Mas o diabo do Facebook gera mais interatividade. A solução é publicar aqui e colocar lá depois.
Enfim, aqui vai o poema completo e quando Nilson publicar no Blag, trago o link de lá.
P.S: descobri, depois de publicado, que a data de publicação, o Sexta acima, abaixo do poema, é o link para o post no facebook. Menos mal.

 

Poesia na Gamboa de Baixo

Sem título

Domingo de Poesia na Gamboa de Baixo, sob os arcos da Contorno, a convite de Nilson Galvão e Kátia Borges. Passeamos pelas vielas, ouvimos poesia, ganhamos poesia, ganhamos a tarde/noite diante da Bahia de Todos os Santos e muitos poetas.

https://www.facebook.com/gusmaomarcus/media_set?set=a.2926826766496.2119817.1135737937&type=1