Posts Tagged ‘poesia’

Gramática da Ira

06/06/2015

maca3

Sou um leitor preguiçoso, deixo muitos livros esperando,  quase todos. Sou quase um leitor fraude. Mas de vez em quando um livro me pega e me vence. Assim terminei hoje de ler Gramática da Ira, de Nelson Maca, de uma segunda levada. E então me arrisco a compartilhar umas palavras sobre meus  sentimentos a partir da leitura.

Gosto de Maca falando poesia. O cara encarna, entra em transe, vira um caminhão lança mísseis de palavras. Certeiras.

No livro não é diferente, leio em voz alta e entro no seu ritmo. É um livro de guerra, de trincheira, sem meias palavras. A poesia de Macca é artilharia pesada em  branco e preto. É oito ou oitenta.

É guerra de guerrilha poética, sem bandeira branca. Macca vai à luta, se recusa a alisar a língua, a dar a outra face. De preto para preto, de preto para branco.

Li Declamei Vozes D’Africa em praça pública, quando criança. E ao ler Maca vejo que na sua poesia a garupa também sangra e a dor poreja. Mas na primeira pessoa.

Salve Maca, com respeito.

O que eu era e podia ter sido

07/04/2013

Trago para cá este poema de Nilson Galvão sobre o fardo existencial do passado imperfeito.

O que eu era e podia ter sido

Nílson Galvão

Tudo o que eu era e podia ter sido
eu deixei num banco de ônibus,
tempos atrás. Não houve jeito de
recuperar o que se perdeu, como
quando um primo deixou o walkman
na cadeira em que viajara. Achei
ingênuo o meu primo ligar pra
empresa de ônibus na esperança
de que alguém tivesse devolvido.
É um crente, pensei. Por isso não
voltei lá pra tentar recuperar tudo
que eu era e podia ter sido. Acontece
com muita gente esquecer coisas
assim, e raramente elas voltam
pros seus donos, por isso as pessoas
vão em frente sem aquilo que perderam.
Então nem cogitei voltar pra buscar
tudo o que eu era e podia ter sido.

Uma vez um sujeito perdeu dez mil
dólares em uma valise, e o dinheiro
voltou pra ele porque um homem honesto,
um homem pobre e decente segundo
os jornais, achou o dinheiro e não
teve dúvidas quanto a buscar o
verdadeiro dono de coisa tão
valiosa. Mas não achei que valesse
essa grana o que eu era e podia
ter sido, nenhum sujeito por mais
honesto acharia necessário procurar o
dono de algo do gênero.

Fico imaginando o que se passou com
o que eu era e podia ter sido. Quem
achou pode ter tirado de lá só o que
interessava, uns trocados, talvez, e
jogado o resto, eventuais documentos
gastos com fotos de outros tempos, em
alguma lixeira da rodoviária.

Ou alguém se abrigou do temporal com
o que eu era e podia ter sido até entrar
no cinema, ou numa lanchonete, e também
esquecer num canto o que eu era e podia
ter sido, que foi passando de mão em mão
até que ninguém mais achasse aproveitável
o que eu era e podia ter sido com todas
aquelas hastes quebradas como ocorre
a esses produtos baratos “Made in China”.

É possível ainda que as pessoas tenham
folheado displicentemente o que eu era e
podia ter sido. Até que alguém resolveu
entregar à biblioteca do bairro ou vender
ao sebo que pra variar pagou quase
nada, se muito. Até porque, avaliou o sovina
do proprietário, aquilo era item pra ir direto
à banca de “Qualquer título a R$ 5”.

O que eu era e podia ter sido pode ter ficado
ali sem que ninguém mexesse: quem se
interessaria por uma escova de dentes
usada, um estojinho de fio dental e uma
bisnaga de pasta de dentes pela metade e
ainda por cima com aquela sujeirinha
na tampa? Até que os funcionários
da companhia levaram o que eu era e podia
ter sido pra sala de achados e perdidos,
onde os objetos são mantidos por um período
de três meses, à espera de reclamação até
serem por fim destinados a sabe deus o que.

Quanto a mim, fiquei por um tempo apegado
ao que eu era e podia ter sido como a gente se
apega a qualquer coisa que se perde de nós.
Mas o tempo passou, você sabe, e esqueci o
que eu era e podia ter sido como a gente
finalmente deixa pra lá aquela bermuda azul
predileta que sumiu do varal pra nunca mais,
fazer o que?

(Veja original aqui: Sexta

_____________________

Resolvi trazer para cá as coisas que me são caras. Aqui elas são recuperáveis, ao contrário do Facebook, isso aqui tem uma busca, tem tags. Vai me ajudar um dia a pensar no que eu fui e no que podia ter sido.

E o Facebook não facilita mesmo as coisas. Fui buscar o link do post com o poema e descubro que textos sem foto não geram link.
Mas o diabo do Facebook gera mais interatividade. A solução é publicar aqui e colocar lá depois.
Enfim, aqui vai o poema completo e quando Nilson publicar no Blag, trago o link de lá.
P.S: descobri, depois de publicado, que a data de publicação, o Sexta acima, abaixo do poema, é o link para o post no facebook. Menos mal.

 

Poesia na Gamboa de Baixo

26/03/2013

Sem título

Domingo de Poesia na Gamboa de Baixo, sob os arcos da Contorno, a convite de Nilson Galvão e Kátia Borges. Passeamos pelas vielas, ouvimos poesia, ganhamos poesia, ganhamos a tarde/noite diante da Bahia de Todos os Santos e muitos poetas.

https://www.facebook.com/gusmaomarcus/media_set?set=a.2926826766496.2119817.1135737937&type=1

Nilson Galvão e Kátia Borges

27/07/2012

Convite recebido e repassado. Vamos!
Mais no blog do lançamento: http://escorpiaoamareloeocidente.wordpress.com

Os reais livros

16/07/2009

sony-prs-505-ebook-lg1

Taí um sonho de consumo.
Mais hoje quero falar sobre  outra coisa. Sobre os virtuais livros de Maria e Nilson. Veja aqui

Estampas Eucalol

27/05/2009

Luiza Meira

Alegria grande. Vi há pouco um comentário num post recente, um poema de Nilson Pedro. Era de Luiza Meira, que embarcou conosco no passeio de trem, como convidada de Franciel, um cara cujo sucesso do blog gerou até uma legião de francietes. Cliquei no link com o nome e shazam… é esta imagem que você vê acima.  Ouça também. Hoje a tarde estive a ouvir idéias interessantes de quatro escritoras, ao lado de uma escritora e fotógrafa, Maria Sampaio.

Poetas, escritores, musicistas, fotógrafa. Continuo platéia do mesmo jeito, mas estas pessoas estão ao alcance num clique e também acessíveis na vida real. Eu os conheço e eles me conhecem. Somos contemporâneos, eu os vejo também pessoalmente e isto me torna uma pessoa importante, isto me alegra.

Tudo isso para falar sobre blog e esta atividade de escrever coisas diárias nesta tela que você lê. Este negócio aqui me conecta ao mundo, a pessoas bacanas, pessoas especiais. Como naquela propaganda da loja de sanduíche, amo muito tudo isso.

Os segredos das meninas

25/05/2009

ConviteNovasLetras3

Poesia pra quê

21/05/2009

Não se cria um deus num quarto

de dormir; um poema, sim.

Não se cria um estado debaixo

do chuveiro; um poema, sim.

Não se vai a Marte num piscar

de olhos, mas se vai num poema.

Não se conjuga a beleza e o horror

com um gesto apenas; mas isso se faz

com um poema. Ninguém se rende à

história, mas ao poema, sua carne

alucinada.

Poema de Nilson Pedro, do Blag.

A mulher que passa

21/09/2008
Comecei a gostar da matéria pela capa: “Festa sem jornalistas. Proibir a entrada”. Ê raça!

Gostei da humanização, de saber que o poeta correu atrás para terminar a bela casa. Da entrevista de Toquinho, de saber que Tarde em Itapuã quase vira trilha sonora pra vender casa (se fosse hoje, com este boom imobiliário, certamente viraria. E se a Paralela ou o Cabula fosse perto de Itapuã correria novamente o risco de virar na atualidade).

E por falar em humanização, a matéria da Madame me instigou e eu fui pesquisar. Cheguei à conclusão de que quanto mais ele vivia, mais corria atrás da fonte da juventude, não só na escolha do parceiro Toquinho, 33 anos mais novo,  como das musas e parceiras.

Sua terceira mulher Lila, tinha 19 anos e ele 43. Quando observava o doce balanço a caminho do mar da  garota de Ipanema, ela tinha 15. Só observou, pelo que pouco sei.

Sua quinta mulher era  30 anos mais nova e a sexta 26. No dia do aniversário de 57, casou com Gessy, de 31. Cinco anos depois troca a baiana por uma argentina 40 anos mais nova e finalmente se derreteu quando a 19 anos Gilda Mattoso lhe pediu um autógrafo, que resultou no último casamento, ela com 23, ele com 63. Portanto, vale o que cantou o outro poeta, o do do sertão: certo mesmo é o ditado do povo.

Sendo mais poético, diria que sempre foi fiel e viveu intensamente tanto o Soneto da Fidelidade como o Soneto da Separação. Ou atendeu vida afora, sem pestanejar,  aos desejos de  A mulher que passa  escrito em 1933, quando tinha 20 anos. Um site interessante: aqui.

Clique para ver Kátia falando sobre a matéria

Brincadeira de criança

17/09/2008

BLAG

Nilson Pedro 

 

1:21 am

Trova do carrossel

“O carrossel”, de Mark Gertler

Não me queixo:

todo mundo

sai do eixo.

 

 Comentários

poetriz
em 9:13 am

Todo mundo mesmo…

martha
em 7:18 pm

Eu me queixo:
corro atrás
do meu eixo.

Kátia Borges
em 10:07 pm

Eu me mexo,
quando não dá,
remexo.

blag
em 10:59 pm

Tô gostando. Alguém mais entra nesse carrossel?

Gerana Damulakis
em 12:03 am

Não consegui entrar nesse carrossel,
tinha um seixo no meio do caminho:
que é a falta de inspiração,
ou de vocação.

Marcus
em 5:31 am

E eu sou o seixo
me falta o eixo
quebro a cara, o queixo
e assim sigo, me deixo
pelo menos do limo não me queixo.

fite o acaso, e me conte quantas fitas encontrou.

27/08/2008

(não, não virei poeta. ganhei uma)
http://sustologias.blogspot.com/

Terapia da aceitação irrestrita do elogio

18/08/2008

Complexo Escolar Polivalente de Castro Alves. Aos 11 anos, mais uma vez no papel de declamador oficial de Vozes D’África

Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito…
Onde estás, Senhor Deus?…
Qual Prometeu tu me amarraste um dia…

E por aí seguia no meu destino de declamdor de Vozes D’ África.

Passei um bom tempo achando que um dia Deus, de fato, prometera amarrar a África. Só anos depois, ao estranhar o título da peça Prometeu Acorrentado, a ficha caiu. Não tinha a menor idéia do que significava o “tomba ressupino”, destino do cavalo estafado do beduíno, mas estava lá eu emocionando velhinhas, tirando onda como menino prodígio do interior.

Era um 06 de julho de 1971. Aos dez anos, lançava meu brado retumbante em praça pública na pequena Castro Alves, no palanque armado ao lado da estátua do Poeta no dia do centenário da sua morte. De tempos em tempos, o garoto era chamado a repetir o feito, como nesta foto na sala de aula, provavelmente em 1972.

Alguns meses depois da glória, com problemas nas notas e no comportamento, entreouvi de uma professora: – Elogiaram demais este menino. Veja no que deu. De fato, nunca consegui decorar mais nada, tratei de me desvencilhar da imagem de CDF. Comecei a brigar com Deus a partir deste poema. Nunca me relacionei bem com elogios.

Era tão refratário que cheguei a suspeitar de assédio quando um professor de física me disse numa festa, já meio bêbado, que uma definição minha sobre a Teoria da Relatividade havia sido a resposta mais genial que ouvira em toda sua vida. Este pretérito-mais-que-perfeito degringolou. Dois semestres depois fui reprovado em física e só não repeti o semestre do curso técnico em Geologia porque mudaram o currículo e não havia turma. E fui eliminado no vestibular para Geologia em Ouro Preto na prova de matemática.

Elogios sempre me deixaram encabulado, arredio. Desde quando me entendo. O diabo é que as críticas sempre calaram fundo. Nunca entendi muito bem esta expressão, mas calar fundo parece conter a intensidade do que eu quero dizer.

Parte da culpa por não digerir bem os elogios atribuo ao meu pai. Talvez para valorizar, por insensibilidade, por brincadeira sádica (herdei um pouco disso), ou pela mesma dificuldade em aceitar, quando ouvia elogios dirigidos a mim sempre desmerecia: – Esse aí? que nada! Esse não é de nada. Gordo sacana, que Deus o tenha.

O fato, ou seqüela, é que passei a associar elogio a gozação. Sempre achava que as pessoas estavam sendo falsas por um motivo qualquer ou curtindo com a minha cara. – Esse aí? Não é de nada. A sentença ou maldição paterna continuou a reverberar vida afora.

Aí amadureci, aumentei minha nano auto-estima que convive com um ego imenso (paradoxo?) em algumas frações de milímetros e comecei a aceitar – quando tinha certeza que não era gozação – como a maioria aceita. Ou seja, sempre com a ressalva do tipo generosidade sua, exagero seu, bondade sua, e por aí vai. Foi assim no começo deste Licuri, principalmente no suicidado primeiro Licuri, quando respondia sempre aos comentários elogiosos ao texto com um enfático menas, menas!. Foi assim mais recentemente quando Inamar, um primo que tenho em alta conta, colocou um dos meus textos no nível dos de Hemingway. É mole?

O elogio me trava também. Outro dia recebi no trabalho a incumbência de redigir um texto de 15 linhas para um folder. O diabo é que a empreitada veio junto com um elogio. Batata. Passei cinco horas de relógio [hora de relógio é a unidade de tempo mais precisa e enfática já inventada em todo o mundo] em cima do computador e o texto só saiu depois de uns 15 e-mails de cobrança e uns 30 telefonemas avisando que o tempo havia acabado e que haveria multa pesada na gráfica.

O pessoal que me convocou para participar da primeira edição de uma nova revista, que será lançada no próximo mês pela Unifacs, arrancou os cabelos. Junto com a pauta – um perfil de uma uma figura brasileira de projeção internacional – veio o maldito elogio. A entrevista fluiu, o sujeito é magnífico, mas na hora de fazer o texto… A labuta me custou pelo menos 20 dias e o fim antecipado das férias. Na verdade fiz a matéria em um dia, talvez um pouco mais, mas no último do último, último mesmo, agora último, olhe lá, é o último dia do prazo. Os 19 anteriores foram dedicados à postergação, agravada pelo maldito elogio ou gozação.

Mas mudei de fase novamente. Resolvi enterrar de vez a modéstia, ou a falsa modéstia, e aceitar todos os elogios sem absolutamente nenhuma ressalva. Acreditar piamente em todos. E transferir toda a minha incredulidade para as críticas. Estas sim, serão ignoradas, desqualificadas e bloqueadas de agora em diante.

E começo esta nova fase com o elogio da Aeronauta ao texto do post da foto dos meus avós, mãe e tios, que está aí logo abaixo. Sem mais rodeios, ela simplesmente disse que meu texto estava no nível de A Câmara Clara, de Roland Barthes. Sem mais rodeios e completamente crédulo, embora só conheça Barthes de fama, respondi obrigado, assim, íntegro, sem ressalvas, verdadeiro, acompanhado de uma declaração de felicidade, também sincera. Com Nilson a mesma coisa. Agradeci e aceitei a reverência. Pronto, está criada a terapia da aceitação irrestrita do elogio. Vou lançar um livro de autoajuda com a fórmula e deixar o tal de O Segredo no chinelo.

E pode elogiar também a foto abaixo. Já estou preparado.

  

Em Vitória da Conquista, com um ano e seis meses

“Poetas são engarrafadores de nuvens”

30/06/2008

Foto de Fernando Vivas, no blog Olho da Rua

 

Mapa:
foto de Vivas aqui.
Depois  Madame Mandrack aqui,
que me levou a  Pitigrlli (autor do título deste post) e a Cecília  aqui.

 

O soneto de Bandeira e as palavras de Baianão

02/12/2007

Flanando pela rede, encontrei o soneto A cópula,  de Manuel Bandeira. Apesar do título circunspeto, o restante é pura sacanagem. O texto redondo, a rima perfeita, a precisão das palavras passaram cinza nos meus olhos e eu enxerguei ali apenas a inocência da moça escolhida pelo poeta em Passárgada.

Será que a cinza nos meus olhos foi a marca Manuel Bandeira? Se o poema fosse anônimo eu  o teria lido desta forma?

A primeira vez que ouvi o nome do poeta foi numa antiga propaganda que habita a minha memória, cuja lembrança é apenas um agradecimento final: Obrigado Manuel Bandeira!

Aconteceu também com os poemas de amor natural de Drummond. São pornográficos, são eróticos,  não bons? Teve gente que meteu o pau. Mas duvido que uma editora publicasse os mesmos versos de um iniciante. Putaria  de artista velho e reconhecido é arte. Como Dirceu Villa, ignoro a fronteira entre  pornográfico e erótico. Ambos podem ser bons ou ruins.

 

Baianão

Da poesia que trafega nas fronteiras discutíveis entre o erótico e o pornográfico,  vamos aos palavrões. O que me fascina neles  é a possível inocência,  a depender do contexto e da boca de onde saem.

Na minha meteórica carreira em marketing político,  passei dois meses em Jequié há três anos, na campanha para prefeito. Meu candidato ficou em quarto lugar,  numa cédula eleitoral que continha quatro candidatos.

Mas a experiência valeu porque não levei calote, pratica comum dos derrotados políticos,  fiz ioga e  boas caminhadas matutinas até a torre de TV, de onde se descortina uma bela vista do vale do Rio de Contas.

Em Jequié conheci Baianão e por terceiros uma história que circula em várias versões, que comprovam a graça, a sinceridade e ingenuidade que podem estar contidas numa das frases imperativas mais populares do planeta.

Seguinte:

Baianão,  tipo conhecido em toda a cidade, é uma daquelas figuras do povo que gravitam o cotidiano dos chefes políticos do interior. Um cabo eleitoral da intimidade do poder, pau pra toda a obra. Baianão estava numa festa quando partiu o salto do sapato da primeira dama do Estado, mulher do então  governador da Bahia Lomanto Junior. Baianão acionado, em minutos estava de volta com o sapato reconstituído.

–  Quanto foi Baianão?

–  V’tomar no cu, dona Detinha! Vou cobrar um negócio desse da senhora?, bradou em alto e bom som.

Até hoje, quando alguém tenta remunerar serviços ou favores de amigos em Jeguié ouve-se  a mais famosa frase de Baianão.

Domingo é dia de tomate

28/10/2007

Faço então um extrato de Leminski

 

já me matei faz muito tempo
me matei quando o tempo era escasso
e o que havia entre o tempo e o espaço
era o de sempre
nunca mesmo o sempre passo

morrer faz bem à vista e ao baço
melhora o ritmo do pulso
e clareia a alma

morrer de vez em quando
é a única coisa que me acalma

as coisas estão pretas
uma chuva de estrelas
deixa no papel
esta poça de letras

… mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

Minha Legolego está aprendendo a brincar com fogo

14/06/2007

 Poema de Luísa.

Atualizado em 26/07/2008

Post de 14/06/2007 no Licuri Uol. Os comentários estão aqui.

Protesto poético

20/01/2007

Tô ficando velho, acabado e moralista. E incomodado com a putaria gratuita, absolutamente exibicionista e interesseira exposta ao país no Big Bundas Brasil.
Mas, como antídodo a este modelo, ataco de Bráulio Tavares.

Se é para olhar, admirar, babar, manusear, vamos pelo menos armados também com poesia e paixão.

Poema da buceta cabeluda
(Bráulio Tavares)

A buceta da minha amada
tem pêlos barrocos,
lúdicos, profanos.
É faminta
como o polígono-das-secas
cheia de ritmos
como o recôncavo-baiano.

A buceta da minha amada
é cabeluda
como um tapete persa.
um buraco-negro
bem no meio do púbis
do Universo.

A buceta da minha amada
é cabeluda,
misteriosa, sonâmbula.
É bela como uma letra grega:
é o alfa-e-ômega dos meus segredos,
é um delta ardente sob os meus dedos
e na minha língua
é lambda.

A buceta da minha amada
é um tesouro
é o Tosão de Ouro
é um tesão.
É cabeluda, e cabe, linda,
em minha mão.

A buceta da minha amada
me aperta dentro, de um tal jeito
que quase me morde;
e só não é mais cabeluda
do que as coisas que ela geme
quando a gente fode.