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Teletubbies

Teletubbies

Quem primeiro me falou deles foi Guilherme Filgueiras. Não acreditei. Como Tinky Winky, Dipsy, Laa-Laa e Po, nossos teletubbies vivem no subsolo. Mas o Tubbytronic Superdome dos nossos fica ali no Rio das Tripas e não tem nada de encantado.

Não tive coragem de conversar com eles, são dezenas, na foto podemos ver alguns nas calçadas. Conversei com as pessoas da área, todos os conhecem, vivem ali invisíveis há anos, nas galerias, no esgoto, em velhos colchões, juntos com ratos, em frente à velha rodoviária.
Taí uma verdadeira casa fora do eixo. Totalmente fora do eixo, fora da compreensão, fora de tudo. Eu me recuso, a partir de hoje, a discutir qualquer coisa sobre nossa cidade, humanidade, ideologia, políticos, partidos, drogas, deus, religião, aborto, racismo pobreza, riqueza, sem levar em conta essa realidade.
Enfim, não dá pra discutir nada sem ter como ponto de partida nossa convivência pacífica com essa teletubbilândia em nossas tripas.
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Flores de Outono

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R$ 208 mil reais em flores, gastos pela presidência da república neste ano, informa Luísa. É isso mesmo, tem muita cerimônia, morre muita gente importante, tento argumentar. Mas os argumentos não se encaixam no começo do dia, quando vou a pé comprar pão.

O céu, as nuvens, o vento, a temperatura, tudo colabora para tornar bonança a manhã de Outono depois das tempestades. Na padaria, dona Maria de Lurdes, com um sorriso permanente por trás dos óculos, dá bronca numa colega de trabalho:

– Quebrado não, homossexual, diz ao pronunciar bem pausadamente homossexual.

A conversa na área interna da padaria é sobre um sujeito de comportamento estranho, não sei se desencubado recentemente ou assumido desde sempre. Tentei apurar em vão, ao fazer de conta que olho uns quitutes pra ficar mais perto da conversa.

Em seguida, no caixa, Maria de Lurdes explica:

– Como quebrado, se a pessoa é inteira?

Saio rindo da padaria. Do outro lado da rua vem um bando de menino. Três adolescentes, mais dois quase de colo, enganchados na cintura das meninas maiores. Lembro de Maria no dia da tempestade, quando compartilhou com a mãe o medo e a preocupação com quem estava na rua naquela hora.

Avisto então a calçada da doceria Doces Sonhos coberta de lixo. Saco a máquina para registrar, para me queixar à prefeitura, afinal são 8 da manhã de domingo. Já estou próximo ao lixo quando o grupo pára também. Peço para seguirem, não os quero na foto. Mas eles empacam. Só então entendo, o lixo é o destino do grupo.

Sim, vão catar lixo às 8 horas da manhã de uma manhã amena de outono, sem chuva.

Faço a foto do lixo, sigo adiante adiante e não resisto. Viro pra trás, faço outra foto, mas uma das meninas se esconde atrás do grupo. Sinto vergonha, constrangimento.

Lá na frente encontro uma mulher com cara de evangélica. Emparelho com ela, comento, na ânsia de compartilhar. Ou ela não me ouve, ou tem a mesma ânsia e fala sobre um sujeito que está apanhando da polícia na outra esquina nesta manhã de domingo.

Eu desabafo, ela desabafa, seguimos em frente, as nuvens continuam no céu, venta um pouco, a temperatura é de 28 graus e Brasília gasta 208 mil reais em flores.

Foto: Rua de Salvador no dia 20 de março, dia da chegada do outono que se foi embora naquele mesmo dia mas já voltou.

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