Posts Tagged ‘Salvador’

Cumeadas

18/12/2016

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Saí ontem caipiroskado de uma confraternização de trabalho. Fim de tarde, temperatura agradável, resolvi voltar para casa a pé.

Andei 3,5km  mas atravessei cidades ao ir do Cidade Jardim, pela ladeira da Cruz da Redenção,  até o Acupe de Brotas. Da perspectiva de pedestre a gente enxerga melhor a cidade, especialmente as pessoas.

Na avenida de vale, só prédios e carros, muitos carros, raros caminhantes, raras mulheres, um cenário definido por  João Ubaldo Ribeiro como Los Angeles de pobre.

Ladeira também semideserta. Mas no topo, a pracinha do Largo da Cruz da Redenção fervilha.

Com Lelé, o arquiteto que gostava de gente, aprendi uma palavra bonita para definir estas partes altas da cidade, onde as pessoas ainda andam pelas ruas e convivem:  cumeadas.

Miseras

24/07/2016

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A primeira notícia bomba que recebi pela internet foi a morte da princesa Diana, pelo UOL, em agosto de 1997. Era um domingo, estava em casa e liguei imediatamente a TV para confirmar e acreditar. Naquele tempo, notícia para ser notícia deveria estar no impresso, na TV ou no Rádio.

Hoje, quase 20 anos depois,  recebi também  no domingo uma notícia bomba pela internet, pelo  WhatsApp. Também não acreditei. Ou seja, a internet continua com a credibilidade baixa.

Como estava na rua, liguei o rádio na Band News e ouvi de Humberto Sampaio a confirmação em rede nacional: havia um sujeito ameaçando se explodir junto com a Unijorge, na prova da OAB.

Tudo isso para dizer que, mesmo sem credibilidade, os grupos do  WhatsApp foram hoje minha principal fonte de informação sobre esta  bomba piada do dia. Vá lá, não deveria ser piada porque envolve a tragédia pessoal de um transtornado mental, mas virou tragicomédia por conta da histeria coletiva alimentada pelo  que vai pelo mundo.

Primeiro vieram os áudios das pessoas que estavam no local, o vídeo da correria, o texto do juiz que negociou a rendição, tudo fonte primária, e,  finalmente, as fotos do sujeito com sua fantasia de homem bomba recheado de bala de gengibre, estas  distribuídas pelas SSP.

O print do Instagram publicada aqui me chegou  também pelo   WhatsApp. Ele chama a atenção pelo espírito de deboche na porta da universidade, mesmo ainda quando não se sabia com certeza se uma pessoa poderia se explodir. Sim, estamos em Salvador e o  ato terrorista virou evento com direito às hashtag #eufui, #eutava. Como bem comentou uma amiga, faltou pouco para aparecer a turma do isopor com água e cerveja.

Não sei se turbinadas pelas galhofa em torno do exagero do Ministro da Justiça naquela presepada com nossos terroristas de internet para mostrar serviço ao mundo, as piadas foram a melhor parte do lado comédia desta história.

Como o motivo divulgado para o ato de desespero do nosso homem bomba seria já  ter tentado 11 vezes sem sucesso passar no teste da OAB, logo apareceram os alertas para o perigo potencial da  torcida do Vitória,  com  frustração semelhante há 117 anos.

A melhor foi o recado do Estado Islâmico, em legítimo baianês: “Alá  mandou você tomar vergonha na cara e estudar pra o exame sua misera”.

Mas tudo isso  mesmo é pra dizer: juízes aloprados, suas miseras, inventem de bloquear saporra nunca mais.

De dentro

16/02/2015

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Depois de mais de 20 anos entrei novamente no Carnaval. Soltei o corpo, dancei. Do Campo Grande à Castro Alves, encharcado, com a alma leve, no embalo da BaianaSystem na sexta à noite.

Nos últimos anos vi a festa de fora, pela TV ou a trabalho. É bem diferente,  mesmo estando ali perto, observando de um praticável ou até andando na rua.

Desta vez entrei, de cabeça, corpo e copo com Soraya, num liquidificador de gente e som. Um mix de gente bonita, diversa. De gente de vinte e poucos anos. De um pouco mais do que eu só vi Marcio Meirelles, trocamos um abraço encharcado.

Este reencontro com o Carnaval foi meio por acaso. De repente avistamos lá no final do Campo Grande a concentração e ao nos aproximar, ouvimos o coro “Afasta a dor nefasta”. Gostei da frase, gostei da palavra de ordem, veio a calhar, embora hoje aprendi que na verdade Russo Passapusso cantava “Afasta onda nefasta”.

Afastei e entramos na onda sonora, até à Praça Castro Alves.

Na passagem pela passarela do Campo Grande,  uma saudação às mães do Cabula quebra o silêncio da cidade. Ficou o  registro aqui neste vídeo, órfão de texto,  do G1.

Na volta vi o Carnaval vivinho da silva, as pessoas quebrando, dançando, se esbaldando como sempre. Mas no sábado pela manhã outro Carnaval, louro e angelical,  estava estampado na capa dos jornais, quase sem novidades.

Jornal adora o passado. Como bem diz meu amigo Josias Pires, quando sai no jornal é porque todo o mundo já sabe.

 

Somos todos Paris ou Periperi?

10/01/2015

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O grito é de mãe.
– Ele é diabético, ele está vomitando sangue.
O grito sai às oito horas da manhã, depois de mais de quatro horas de espera e zero atendimento. Comecei a filmar, de longe.

Um grupo maior do que o do atendimento, formado por funcionários, seguranças e policiais se armou em torno de mim. Apaga, não apaga. Não havia  imagem especial nenhuma, apenas os gritos da mãe, mas apagar aquele material era questão de honra para eles.

Manter também pra mim era, especialmente diante dos argumentos de que eu não tinha nada a ver com aquilo, que o meu paciente já estava internado, que mal agradecido que éramos, eu e Soraya, fazendo tumulto.

Sim, nosso paciente já estava internado. Mas isolado por 10 horas, sem que uma informação sequer fosse passada. Informação finalmente conseguida a fórceps depois de um noite de vigília. Informação obtida por conta dos argumentos pouco usados ali, de alguma maneira fomos privilegiados por manusear palavras.

Aquele  hospital com fachada aparentemente moderna, forma um círculo  de isolamento, uma linha de acesso, difícil de ser transposta. Esta noite estava lotado, dizem sempre estar lotado.

E quem consegue entrar, transpor a barreira do atendimento, cai num território isolado, onde o único direito dado a quem fica de fora é esperar até 15 horas do dia seguinte para ter acesso a alguma informação.

Madrugada. O homem com  afundamento de crânio perdeu a paciência, arrancou o acesso, pegou suas coisas e foi-se embora, acompanhado pela mulher.

No grito, um porteiro conseguiu internar a mulher na madrugada, depois de ter ficado manhã, tarde, noite fora da linha de acesso, a porta que separa atendimento e espera, a porta que não dá acesso a informação alguma.

Nos últimos dois dias eu havia matutado sobre Paris, sobre liberdade, fraternidade, igualdade. Essas coisas de uma Europa  pré-1800 que ainda não chegaram ao círculo de isolamento e micropoder do hospital do subúrbio, em Periperi desta noite de 2015 na Bahia.

E o que mais incomoda nem é a situação, o mau atendimento, o exercício de poder pelos  porteiros, seguranças, assistentes sociais. O que incomoda é a grande farsa no site do hospital. Dois mundos, o mundo do site, com missão e visão de belas palavras. Bela viola.

Levado a uma sala do posto policial e na iminência de ser conduzido a uma delegacia, cedi. Humilhado, tomei a decisão, apaguei o grito da mãe. Alívio geral, me estenderam a mão e eu apertei a mão de todos, estava estabelecida a síndrome baiana de Estocolmo.

Olho os jornais de hoje e  eles só falam de Paris. Da liberdade agredida em Paris, da violência em Paris. Sim, como ficar indiferente a tanta violência em Paris?

Difícil  entender também como ficamos indiferentes a tanta mentira, farsa e violência 24 horas por dia, ali, em Periperi.

Paulinho da Viola

29/11/2013

Quisera eu estar hoje numa redação  novamente para presenciar a fala do rio Paulinho da Viola. Domingo pretendo prestar reverência no meio da praça. Quase feliz como há 22 anos, quando antes do show tive a oportunidade de participar da entrevista coletiva.

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Árvores‎ incomodam? veneno e motosserra nelas

15/11/2013

Arvore

A rua mais agradável de Salvador para transitar é o Corredor da Vitória, transformada em túnel de sombra sob velhos oitis. A cidade também conta com um grupo chamado Canteiros Coletivos, dedicado a plantar árvores. E a prefeitura de Salvador tem como meta plantar 100 mil árvores nos próximos 3 anos. Uma rua com árvores é sempre mais agradável, especialmente no Verão.

Mas na esquina das ruas Bahia e Território do Rio Branco, na Pituba, árvores são estorvo e nos últimos tempo mataram 4 grande amendoeiras, 1 cortada e as outras três envenenadas.

Mais detalhes neste álbum no facebo0k: https://www.facebook.com/gusmaomarcus/media_set?set=a.4537156623736.1073741825.1135737937&type=3

Fila

12/11/2013

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O cara sai para fotografar uma mísera fila, numa daquelas pautas apelidadas nas redações de bobó, e volta com essa imagem.
Parabéns Evandro Veiga.

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10200854523702142&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1&theater&notif_t=photo_comment

Foto Evandro Veiga: http://www.correio24horas.com.br/correiodigital/

A médica e o monstro

16/10/2013

7h30 da manhã de um dia já azedo. Emparelho o carro ao lado de outros dois para virar à esquerda de uma transversal da Paulo VI, em direção à Orla. O sinal abre primeiro para quem sai à direita e eu deixei pouco espaço na pista. O cara vem de trás, consegue passar com uma certa dificuldade, para do meu lado e manda: – Seu idiota. E arranca.

Meu perfil é de um completo idiota em conflitos. Raramente briguei na infância e quando briguei, no máximo, empatei. Só levei “vantagem” uma única vez, quando arremessei uma pilha de rádio, tamanho grande, na cabeça de um primo. Outras poucas apanhei. Tenho reação retardada a agressões, sou exatamente como aquele personagem da TV dos anos 80, que respondia a um insulto com um ah é, é? ah é, é?. Já fiquei por vários dias matutando uma resposta jamais dada.

Mas naquele dia, ao ouvir o xingamento senti uma onda quente da pança às têmporas, virei o volante para a direita, acelerei o possante 1.0 na contramão em perseguição e alcancei o cara parado na sinaleira do Superpão. Apontei o dedo e devolvi na cadência do indicador: – Idiota é você seu imbecil, seu canalha, seu escroto, seu paspalho, seu filho de uma puta e mais um monte de seu num volume de voz que deve ter sido escutado nas salas de aula do Colégio Militar. O cara ficou estático, nem devolvia o olhar.

Terminado o show, caí em mim e segui adiante assustado, com as pernas trêmulas e rouco. Por isso consigo me colocar também no lugar da monstra.

https://www.facebook.com/gusmaomarcus/posts/10200676650575425

Curso

19/09/2013

Vou convidar um especialista e organizar um curso sobre entrelaço de mãos entre casais. A melhor hora de propor, como propor, a aproximação, a intensidade dos apertos, os pequenos apertos mais fortes durante o ato, a fricção das palmas, os pequenos estrangulamentos dos dedos, o tempo do entrelaço, o olho no olho depois. Enfim, são muitos e milenares os segredos. Estou providenciando a foto do curso, com pessoas praticando o entrelaço de mãos com uma mão de plástico. Espero que a foto faça bastante sucesso aqui.

https://www.facebook.com/gusmaomarcus/posts/10200539239660238

 

 

Tem agendadmento, mas acabou

05/09/2013

Existe um tal juizado especial, para pequenas causas, criado para tornar a Justiça mais acessível e rápida. Liguei e recebi a orientação para ir a uma central, no Teatro Jorge Amado. Cheguei às seis da manhã, já havia bem mais do que a cota de 30 pessoas para o dia, gente que chegou às 3h30 da manhã. Acionei então ouvidoria, via internet, e me deram um telefone. O atendente me aconselhou a “estar ligando” para um agendamento no Shopping Paralela. Liguei. Tem agendamento, mas acabou.
Aceito sugestão de palavrões. Os meus também acabaram.

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10200466296796712&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

Caruru

02/09/2013
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Aqui na cidade da Bahia ser convidado para um caruru em setembro é sinal de existência social. 
Estou me sentindo ao sair com a renca para o primeiro da temporada.
 

 

 

Notícias da guerra

22/08/2013

Sou frouxo para imagens de morte, doença, miséria. Minha leitura de jornais é seletiva, passo longe destas notícias. No rádio mudo de estação; na televisão, de canal. Na estrada olho pro outro lado quando avisto acidente, distraio as crianças. Aqui no facebook sempre assinalo a opção de não querer ver este tipo de imagem.
Tento escapar do que gruda no meu juízo. Mas aqui em casa temos uma repórter ativa, Alcione o nome dela. Já falei aqui de nossa diarista, aquela que não vê sentido no Réveillon, festa de rico, de ficar relembrando do que não deu certo no ano todo, ao contrário do São João, só alegria. Ganhou dos amigos do buzu manta e macacão para o filho ainda no barrigão. Faltou contar que ela também já levou bolo de aniversário para um dos seus motoristas, o de segunda e quarta.
Alcione chegou, pra variar, atrasada. Trouxe mais e más notícias da guerra. Foi buscar seu filho caçula, de 8 anos, na casa do pai, assustado porque presenciou mais um assassinato, num domingo, muitos tiros na cabeça da amiga. Pela manhã havia brincado de bola com ela, numa das avenidas de casas separadas por canais próximos ao Juliano Moreira. O menino está dormindo mal, todo dia sonha com a amiga.
8 anos, duas mortes na retina, nos ouvidos, nas narinas. Qual o tamanho do estrago que esta guerra vai nos devolver nos próximos anos? Como serão estes adultos com este tipo de memória?
O futuro não tá nada animador. Viva o presente. Como puder.

 

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10200392616954762&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

 

 

Algum crédito

07/08/2013

Para aqueles que, como eu, tem pouca fé na humanidade aumentar o crédito:
Alcione, a pessoa que trabalha conosco como diarista, barrigão de 8 meses, abre toda feliz uma caixa. Manta e macacão de saída da maternidade, produtos de qualidade. E bonito.
Presente de quem? Dos amigos do buzu.
Se você não sabe que instituição é essa, saiba que ela é poderosa.

https://www.facebook.com/gusmaomarcus/posts/10200307506587056

 

 

Goku precisa de nós

21/06/2013

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Pedi ajuda aos universitários para entender o apelo Goku, escrito num dos cartazes erguidos na caminhada do Campo Grande em direção à Fonte Nova. Depois da explicação entendi mais ou menos, era algo do bem.

A pergunta fica no ar, na discussão na madrugada aqui em casa. Quem é do bem, quem é do mal  em todo este movimento?
Só tenho duas pequenas certezas. Não tem santo nesta história e  nem ninguém parado enquanto as ruas se movimentam.  E que é preciso ir as ruas para tentar sentir o que está acontecendo. Sentir um pouco na pele e nas mucosas não ajuda a entender mas torna a gente um pouco sujeito e menos espectador.

Fomos em três, eu, Soraya e  Luísa. No Campo Grande encontramos Paulo e a filha Paulinha e os colegas da escola de Luísa. Enquanto descíamos o Politeama em direção ao dique,  Guilherme, o namorado de Luísa, e sua irmã Carolina,  estavam no front, diante das bombas e tropa de choque. Na ladeira  encontramos Nilson e o filho Caio.  O grupo maior se se dispersou no final da ladeira próximo ao estacionamento dos Barris, de onde muitos já retornavam,  escorraçados pela barreira da  choque.

Ficamos ali, no meio do caminho, vendo de longe subir colunas de fumaça e o estouro das bombas. Um sujeito derruba uma placa e é vaiado. Um outro acelera um carro  para abrir caminho e é vaiado. Na nossa frente começa uma discussão, um grupo obriga um militante do PSTU a recolher sua bandeira. Ele protesta, tenta reagir, mas acaba vencido e humilhado pelo coro que começa com PSTU e termina em  rima.

Um  grupo de mascarados em cima de uma camionete passa em direção aos Barris gritando – Para a prefeitura, para a prefeitura. Mas é seguido por quase ninguém.

A correria no no contrafluxo aumenta, o mal-estar produzido pela fumaça e gás trazido pelo vento nos obriga a bater em retirada também. Na subida, boatos de que a polícia havia fechado as saídas. No politeama,   fogueiras de lixo e em pequenas barricadas  davam a impressão de batalha recente. 

No Forte de São Pedro o cenário é de madrugada de Carnaval, com gente andando de um lado pro outro, vendedores de cerveja, sujeira por todo o lado. O barulho das bombas de efeito moral na esquina da casa D’Itália faz lembrar a palavra de ordem: Não é Carnaval, é Salvador caindo na real.

Espalhado pela calçada e colados nas paredes do Forte, centenas de cartazes deixados pelos manifestantes, numa espécie de mural de ex-votos formado por palavras de ordem e  pedidos de mudança.

No campo Grande encontramos Guilherme e Carolina, assustados mas já refeitos. O barulho das bombas vem agora do Hotel da Bahia. No caminho para casa, tudo aparentemente normal.  Cansado, dormi e só acordei de madrugada. Soraya dava notícia do que ia nas redes, dos boatos de manipulação, do que andam tramando pelas alcovas e me faz lembrar a música O que Será, de Chico.
O que será?

O que aconteceu la na frente>

 

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Toquinho no Terreiro de Jesus

17/06/2013

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E a gente no meio da rua
Do mundo, no meio da chuva

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De onde veio esse pessoal?

17/06/2013

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Do alto da passarela do Iguatemi, às 15 para as 7, dava pra ver gente até o viaduto da Rodoviária, mas de 300 metros de multidão, por toda a extensão da pista.

– De onde veio este pessoal? Pergunta o garoto de uns 17 anos, morador de Coutos, ao meu lado. Ele não se enxerga na sua cidade ali. – Parece que é do Rio ou São Paulo, tenta entender. E completa antes de sair: – Nunca vi aqui tanta gente assim.

Eu também não. Assim, não. Não estava aqui nos comícios das diretas. Mas na na época dos caras pintadas posso comparar.  Se colocasse aquele povo todo de hoje no circuito Campo Grande – Castro Alves seria talvez o dobro da última e maior  passeata contra Collor.

O garoto de Coutos não se identificava com a multidão. Eram estrangeiros para ele. Eu também me sinto estrangeiro naquele lugar. São todos, todos muito mais jovens.

Desço em direção à estação de transbordo e encontro Soraya com uma aluna. A menina mora em Aguas Claras. Veio à escola pela manhã, em Brotas,  voltou para o trabalho em São Marcos  e retornou para participar da manifestação.  Traz um cartaz em inglês que diz: Bem-vindos turistas à realidade do Brasil.

Subimos o Raul Seixas lotado, grupos picham  frases contra a Fifa na borda do viaduto. Encontramos Luísa com o namorado e  um grupo da escola. Diante do Iguatemi o clima é de Praça Castro Alves em dia de festa. Ou de pátio de escola. Olho para todos os lados e não encontro ninguém da minha geração. Todos têm menos da metade da minha idade. O mais velho ali é Hilton, o vereador, que dá entrevista a uma rádio.

Na porta do Iguatemi  e na pista oposta, os ônibus são parados por grupos que organizam o passe livre decretado pelos manifestantes. O  clima é de festa, animada por um forró do vendedor de CD.

Os ônibus saem cheios,  aos gritos de palavras de ordem.

– Hoje é por conta da Fifa ordena um manifestante, aboletado na porta  do ônibus, dos muitos que organizam a entrada pela frente.

Volto pra casa sem entender direito o que  acontece. Vejo muito vigor, muita alegria, muita vontade. Muita juventude. Mas onde isso vai parar, que mudanças virão disso, não consigo projetar.

De todo modo, o dia de hoje entra pra história desta cidade. Foi um dia diferente.

O dia de hoje entra pra história do Brasil.

PS: Achei no Facebook, dia 26 de junho, uma foto panorâmica  e o registro em vídeo da continuação do que vi, no Viaduto Raul Seixas.

Foto Gulherme Neto

Vídeo deste momento: aqui

Foto e video: Guilherme Neto

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=4971841930597&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

O inferno em 11 meses

08/06/2013

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Desde 30 de outubro de 2007 sabíamos da copa de junho de 2014 no Brasil. Lá se vão quase seis anos. Neste sétimo ano, quando deveríamos segundo a Bíblia descansar, eis que resolvemos começar: duplicar a Pinto de Aguiar, fazer complexo de viadutos no Imbuí sobre a Paralela, mais um viaduto adiante, requalificar a Orla, fazer Metrô andar, fazer o trânsito andar, requalificar a Baixa do Sapateiro, construir quatro passarelas sobre a Via Expressa, tudo em 11 meses ao mesmo tempo agora. Iniciamos assim nosso ano letivo de pós-doutorado em inferno urbano. Me acordem em julho de 2014.

Imagem: http://bit.ly/18fQQ99

Chove

27/05/2013

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Chove, chove muito sobre as promessas de segunda-feira.
Melhor voltar pra cama. Deus molha quem cedo madruga.

Foto: no trânsito, mais tarde. Ainda chove a caminho do trabalho.

O melhor faz você mellhor?

03/05/2013

Até onde vai a fama, até onde vai a sensibilidade, até onde vai a tiração de onda?
O TCA vai ficar diante de Yo-Yo Ma neste sábado. Lotado, possivelmente. Celulares vão tocar, balas de menta farfalhar vagarosamente em mãos cuidadosas por quase um movimento inteiro, e conversas vão soar nos momentos em que o solo estiver gritando silêncio, enfim, é assim sempre, amanhã assim será. Com perdão do trocadalho, não tem conserto.

Aqui uma prévia silenciosa ao fone de ouvido do que vai amanhã, quando muita gente sairá feliz, outras nem tanto, outras melhores do que entraram. Outras quase no mesmo. Mas ninguém indiferente, é impossível.

O programa, segundo o TCA, começa com a Suite Italienne, de Stravinsky, aqui executada por Ana Topalovic ao violoncelo e Mihaela Ursuleasa ao piano (Serenata e Aria)

Em seguida, Villa-Lobos, com Choros Nº 5 ou Alma Brasileira

Depois Camargo Guarnieri com a Dança Negra – criada em 1946, depois da visita do compositor à Bahia

Tem mais. O argentino Astor Piazzolla, com o tango Oblivion, aqui executado por Julian Lloyd Webber

e Siete Canciones Populares Españolas, de Manuel de Falla, aqui por Richard Lester, Marianna Shirinyan

Em seguida, Louange à l’Éternité de Jésus, de Olivier Messiaen, por por Julian Lloyd Webber, violoncelo e John Lenehan, piano.

e a transcrição para violoncelo desta Sonata para violino Nº 3 em Ré menor, de johannes Brahms

Bom Concerto.

Falta de educação é ver somente a falta de educação da torcida

29/04/2013

Tenho uma professora em casa. E na ida para o trabalho fui informado da existência de um teórico para confirmar o que ficou evidente. A torcida agiu em legítima defesa ao atirar as fifas-caxirolas em direção aos dirigentes do Bahia. A torcida foi muito educada, não quebrou nada, não feriu ninguém, fez um protesto colorido, sonoro, com forte simbolismo. Por isso a ira da Fifa e dos donos do negócio futebol.

Aprendi no caminho da escola que existe uma tal economia moral da multidão, desenvolvida por um tal de Thompson, ouvi que João Reis fez um belo artigo sobre o motim “Carne sem osso e farinha sem caroço”, contra a carestia na Bahia, publicada na Revista de História da USP, 135 (1996), pp. 133-161, confirmei agora no google.

O texto começa assim: “Tudo começou com a publicação de uma postura (ou lei municipal) pela Câmara de Salvador. Ela estabelecia que a farinha de mandioca só poderia ser vendida em depósitos específicos (“tulhas”) em alguns pontos da cidade, e principalmente no Celeiro Público, espécie de mercado municipal. A intenção era controlar o preço do produto, protegendo-o da ação de atravessadores e monopolistas. A carestia da farinha, o “pão dos pobres”, afligia as classes populares. Foi um ano de seca catastrófica. Entre 1851 e 1858, o preço tinha subido cerca de 300%.”

Vale a pena ler a íntegra: http://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos/a-revolta-da-farinha

Pois bem, guardadas as devidas proporções, e bota proporção nisso, a revolta das caxirolas tem muito mais causas do que a alegada falta de educação do povo.

Primeiro, a torcida não pediu nada mas foi convidada a participar da promoção do brinquedo, do lançamento de um produto altamente comercial. Recebeu de graça o que custa poucos centavos para ser produzido mas que vai ser comercializado a inacreditáveis R$ 29,90.

Pois bem. Simbolicamente, os torcedores arremessaram ao campo a Fifa para acertar a cabeça também dos dirigentes, ambos bem representados na bugiganga de plástico, superfaturada como tudo é superfaturado nesta copa das negociatas, neste Bahia das negociatas, em que estão envolvidos também os meios de comunicação, muito educadamente remunerados. Por isso muito educadamente reclamam apenas da má educação do torcedor.

Construíram estádios milionários, custeados por dinheiro público, com risco público e usufruto privado. A torcida também não engole isso, porque hoje paga o dobro do que pagava até outro dia. O problema não é na falta de educação no estádio. O problema é a falta de educação nas escolas. Pra isso o dinheiro é curto.

E peço licença ao livre pensador Franciel Cruz, que também não come esse H de torcida maleducada, para jogar nas vossas caixas toráxicas este testículo esclarecedor, que não é a mesma coisa, por favor, guardem as devidas proporções, mas que pode indicar o local do buraco, logicamente mais embaixo: http://www.sobrehistoria.org/a-economia-moral-de-e-p-thompson/

No facebook 1ª edição: https://www.facebook.com/gusmaomarcus/posts/4747965453825?notif_t=like

No facebook, 2ª edição: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=4750211949986&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

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Foto: Leogump Carvalho/Ag Estado

Flores de Outono

21/04/2013

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R$ 208 mil reais em flores, gastos pela presidência da república neste ano, informa Luísa. É isso mesmo, tem muita cerimônia, morre muita gente importante, tento argumentar. Mas os argumentos não se encaixam no começo do dia, quando vou a pé comprar pão.

O céu, as nuvens, o vento, a temperatura, tudo colabora para tornar bonança a manhã de Outono depois das tempestades. Na padaria, dona Maria de Lurdes, com um sorriso permanente por trás dos óculos, dá bronca numa colega de trabalho:

– Quebrado não, homossexual, diz ao pronunciar bem pausadamente homossexual.

A conversa na área interna da padaria é sobre um sujeito de comportamento estranho, não sei se desencubado recentemente ou assumido desde sempre. Tentei apurar em vão, ao fazer de conta que olho uns quitutes pra ficar mais perto da conversa.

Em seguida, no caixa, Maria de Lurdes explica:

– Como quebrado, se a pessoa é inteira?

Saio rindo da padaria. Do outro lado da rua vem um bando de menino. Três adolescentes, mais dois quase de colo, enganchados na cintura das meninas maiores. Lembro de Maria no dia da tempestade, quando compartilhou com a mãe o medo e a preocupação com quem estava na rua naquela hora.

Avisto então a calçada da doceria Doces Sonhos coberta de lixo. Saco a máquina para registrar, para me queixar à prefeitura, afinal são 8 da manhã de domingo. Já estou próximo ao lixo quando o grupo pára também. Peço para seguirem, não os quero na foto. Mas eles empacam. Só então entendo, o lixo é o destino do grupo.

Sim, vão catar lixo às 8 horas da manhã de uma manhã amena de outono, sem chuva.

Faço a foto do lixo, sigo adiante adiante e não resisto. Viro pra trás, faço outra foto, mas uma das meninas se esconde atrás do grupo. Sinto vergonha, constrangimento.

Lá na frente encontro uma mulher com cara de evangélica. Emparelho com ela, comento, na ânsia de compartilhar. Ou ela não me ouve, ou tem a mesma ânsia e fala sobre um sujeito que está apanhando da polícia na outra esquina nesta manhã de domingo.

Eu desabafo, ela desabafa, seguimos em frente, as nuvens continuam no céu, venta um pouco, a temperatura é de 28 graus e Brasília gasta 208 mil reais em flores.

Foto: Rua de Salvador no dia 20 de março, dia da chegada do outono que se foi embora naquele mesmo dia mas já voltou.

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=4716691912006&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

Boas novas

15/04/2013

site portuga

Sim, existe um site português dedicado exclusivamente a boas notícias:
Jovens devolvem 60 mil euros achados em comboio
Homem dá emprego a ladrão que lhe entrou em casa
Usar redes sociais no trabalho aumenta produtividade

Queria me mudar de Salvador e morar nestes últimos três dias neste site portuga. Porque por aqui as notícias são pancadas e nestes últimos três dias a pancada foi maior. Costumo me esquivar de tragédias, elas alteram meu humor, atrapalham meu trabalho, me consomem energia. E desde sexta só vejo más notícias embora o céu tenha sido sempre azul. Domingo, por exemplo, fomos à praia no final da tarde e Ipitanga parecia o paraíso. Mas desde sexta, abro os jornais e leio dor, dor de mãe, dor de pai, dor de famílias. Pra completar,  o resto do mundo também não ajuda. Contra minha vontade abro o vídeo e lá vejo corredores chegando numa linha de chegada, felizes, perto de cumprir o desafio e de repente uma bomba. Salvador e o mundo carecem de boas notícias. Vou para Portugal, pá.  

Essa quero ouvir com o Neojiba

18/02/2013

É bonito, é bonito

22/01/2013

DSC04456

A acima  é de hoje pela manhã, mas o texto e a foto abaixo  e o primeiro vídeo são de  2008. O segundo video é de 2009. Entra ano, sai ano, é este o cenário do Costa Azul depois de uma chuva:

Águas Claras, Mata Escura,  Mata dos Oitis, Barra, Boca da Mata, Rio Vermelho, Boca do Rio. Nomes de bairros de Salvador inspirados na natureza, como o Costa Azul, na margem esquerda até a foz do Rio Camurugipe (foto).
Mas como nos avisou o velho Heráclito e os cabelos já brancos de Nelson Motta, tudo muda o tempo todo no mundo, como uma onda no mar, como o rio que corre para o mar.
A costa tem hoje um azul tingido de marrom e o Camurugipe já não é mais nem rio. Basta uma chuvinha para o lixo avançar pelo canal, descer às toneladas para o mar e ficar mais visível na praia, numa manifestação  intensa e  malcheirosa  do que acontece cotidianamente de forma mais imperceptível.
Resta apenas o otimismo do meu seis anos André ao ver outro dia um garoto catando lixo, como na foto abaixo.
– Ele tá reciclando, né pai?

costa-azul-001

Licuri : https://licuri.wordpress.com/2008/07/23/o-mar-quando-quebra-na-praia-e-bonito-e-bonito/

Somos todos Guarani e Cuíca

10/11/2012

Foto: Tainá Guarani Kaiowá

Chegamos ao Campo Grande às 18h40 sem esperança de encontrar alguém. Mas estavam todos lá, cantando e dançando, como índios. De conhecidos só Jocete, a médica das crianças, e Franciel com sua amada estrangeira. Seguimos para o Largo dois de Julho, como um bloco de índio, tomando as ruas, no mesmo percurso do  Carnaval.

Na saída do Campo Grande Soraya avistou um menino, olhou para a mãe e chutou. Será Tainá? Sim, era Tainá, nossa amiga de facebook se materializava ali. Sim, este povo do facebook existe e se encontra na rua como Ivete Sangalo. Acredite. O melhor é a alegria, como se a gente já se conhecesse desde criancinha.

Lembrei da primeira passeata, em 1977, 78. Saímos da Politécnica, descemos pela Praça Reis Católicos com  viadutos ainda em construção, gritando para os operários –  “não fique aí parado, você é explorado”, – não convencemos ninguém a nos seguir. Lá na frente, no Tororó, encontramos a polícia e as bombas de gás lacrimogêneo.

Hoje, na Avenida Sete, quem tava nas calçadas até ria da gente. “Não tem nem um índio aí”, vi alguém comentar em tom de gozação. No Largo 2 de julho o grupo se concentrou, a dança ficou mais intensa, eu me senti na minha tribo.

Outro dia estava conversando entre amigos sobre este tipo que somos, de querer mudar o mundo, mal conseguimos conduzir nossas vidas, mas insistimos em mudar o mundo. Mas vale a pena, não me arrependo e não poderia ser de outra maneira. Nem a gente e nem o mundo tem jeito.

Na praça Castro Alves deixamos nosso bloco seguir e fomos ao encontro de outra tribo no Cine Glauber. E lá se materializou  muita gente, muita mesmo, gente bacana da Escola Técnica, em torno de Josias para a estreia de Cuíca.

Confesso que tive medo de não gostar, documentário longa metragem é barra pesada pra gente impaciente com cinema como eu. Normalmente durmo em cinema e já estava me preparando pra sentir sono.

Qual o quê. O filme me pegou do começo ao fim, pela pesquisa de imagem, pelos depoimentos, pela costura, pelo personagem, pela conexão com seu tempo. Josias e Joel fizeram uma aula sobre história da Bahia em movimento. Muito, muito bacana.

Voltamos para casa com a alma lavada. Viva os Guarani, Viva Cuíca, Viva Nóis.

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=3925629015928&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1


                       Foto: blog Cuíca de Santo Amaro, o filme

Luz na passarela

04/08/2012

Googlei  “passarelas Lélé Salvador arquitetura Filgueiras” para web, imagens e notícias e resolvi tranformar parte do resultado numa página no facebook.

Ao contrário dos blogues, as páginas no facebook são auto sustentáveis. Elas têm vida própria e nem ligam para o abandono depois de uma rapidinha criação. E ainda mandam notícais quando recebem a atenção de alguém.

Criei outro dia uma página para Sagarana – https://www.facebook.com/pages/Sagarana/148842871839873 – depois de ler alguns contos do livro de Guimarães Rosa e vivo a receber a notificação de que alguém curtiu. Terminar de ler o livro ainda é um projeto.

Pois bem, acabei de criar a página Passarelas de Lelé no facebook – https://www.facebook.com/pages/Passarelas-de-Lel%C3%A9/499022436780119.

Vou colocar lá textos e fotos sobre Lelé, uma pessoa com quem conversei apenas duas vezes na vida mas ganhei muito com isso.

Aqui o resultado da última conversa.
https://licuri.wordpress.com/2009/05/15/socorro-lele/

Ao pé do caboclo

02/07/2012

 

Clique na imagem para ler.

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=3430991450298&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

Super lona cheia

04/05/2012

Conjunção astronômico-circense rara, talvez inédita, na noite deste sábado. Das 21 às 23 horas, a lua perigeu vai testemunhar aplausos, gargalhadas e queixos caídos de milhares de pessoas reunidas em volta de centenas de artistas sob as três lonas itinerantes armadas na cidade: Portugal, Thiany e Soleil.  Salvador vive uma espécie de festival internacional coincidente de circo, com ingressos de R$10 a R$585.

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=3168066957350&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1


Imagem e texto sobre a lua perigeu, aqui.

Ícaro

03/05/2012

Talvez o melhor remédio para a depressão seja testemunhar o impossível. Não cura mas demonstra que a vida permite voos e milagres de movimentos, como a dizer pra gente, num conselho amigo: se alevanta cidadão. E vá em busca de água na cacimba em vez de ficar esperando a seca rachar de vez com seu lombo.

Assisti ontem com Luísa e a trupe da Picolno à pre-estreia de Varekai, do Cirque du Soleil, com dó de estarmos sós e me prometendo um jeito de um dia poder ir de renca. Talvez em próximas turnês, talvez um dia, quem sabe, ir atrás de um dos 20 espetáculos da trupe espelhados pelo mundo. Custa sonhar? Sempre tive  este sentimento, este desejo de estarmos os cinco naquela hora,  especialmente quando viajo a trabalho ou até quando relembro dos lugares onde estive antes deles.

Tenho vivido momento especialmente difícil, naquelas baixas em que tudo está por fazer, pendente. E Varekai chegou em boa hora. Não resolveu, mas…

Talvez ajude, porque a palavra chave de circo é sonho.  Sonho impossível. E nisso os caras são bons.

Como pode um corpo se arremessar  de uma prancha pendular, girar, girar, girar, girar e pousar sobre uma prancha semelhante em movimento, na hora certa, no segundo exato? ou pousar sobre outras mãos com a leveza de quem caminha sobre o ar?

E ontem, ao entrevistar uma garota, aluna da Picolino, encontrei uma alma parecida com a minha, que perde o sono com tanto movimento, cor, som e luz. Mas Marcella tem duas vantagens adicionais: além de subir no trapézio real ainda sonha noites seguidas com o espetáculo.

A mágica em Varekai tem trẽs níveis: céu, terra e subsolo. Pra sair deste meu buraco, escolho o nível do céu, tal qual Ícaro, tentando fazer de asa a rede que o aprisiona.

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=3163794290536&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

Foto daqui.

Rio Azul, 18 anos

02/02/2012

Depois de uma saída de casa tumultuada, a renca atravessou um Rio Azul, ensolarado, ao som dos atabaques, dos carros de som, dos carrinhos de som, das bandinhas organizadas,  quase tudo azul e branco.

Não encontramos ninguém conhecido desta vez.

Compramos três rosas brancas e uma amarela na mão de uma baiana de vermelho e branco,  ao lado da barraca onde ofereciam água mineral de graça, junto com a mensagem do novo testamento: quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der será uma fonte a jorrar para a vida eterna” João 4:13 -14. Bebemos a água cristã e seguimos com as rosas para Yemanjá.

No caminho muitos, muitos lançam suas redes, tentando pescar infiéis. Leve desconfiança de que esta é uma solução inconsciente dos evangélicos para também participar da festa.

Flores agradecidas ao mar, enfrentamos espreme gato na contramão da fila dos presentes, mas encontramos abrigo e sombra próximo ao tabuleiro  da Cira,  onde um grupo rastafari dançava ao som do reggae.

Nesta parte os meninos, que até então não estavam viajando muito no programa,  se acalmaram com acarajé e refrigerante.

A festa são várias festas, os sons se misturam, as pessoas se misturam – pelo menos neste território público – e dois grandes fluxos se encontram como caminhos de formiga: os que chegam e os que já vão embora.

Tomamos a fila das formigas que dão adeus à festa ao meio-dia.

Não sei quais destas lembranças ficarão na cabeça das crianças nestas  seguidas imersões no Rio Azul e sonoro do 2 de fevereiro.

Talvez lembrarão do dia em que os pais, discretamente, comemoravam mais um ano de casamento.

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=2644307863700&set=a.1137311949744.2020128.1135737937&type=1

Imagem: daqui