Posts Tagged ‘TCA’

O lugar

04/11/2014

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Aos 15 anos, vindo do interior de Conquista, pisei pela primeira vez no carpete do teatro meu chinelo de couro. Muitos shows do projeto Pixinguinha com a camisa azul e os colegas da ETFBa, fui me acostumando, me viciando nas suas escadarias, um dos lugares mais mágicos desta cidade. Naqueles dias vi e ouvi Cartola. Só por isso valeu. Depois vi nascer a OSBA. Um belo dia me vi trabalhando nas entranhas daquele gigante, em todos os sentidos. E cresci. Vi Gil cantar pela primeira vez sua recente A linha e o Linho. Outro dia vi nascer o Neojiba e me emocionei. Vi o teatro lotado, no Domingo no TCA, de gente de todas as partes da cidade ocupando aquele lugar especial antes restrito.
Domingo será mais um dia especial. Tomara que lote mais uma vez.

Arco ou espada?

05/05/2013

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Ao final de cada música o arco levantado lembra um espada  oriental. No início de cada música o arco espera, não se sabe o quê, mas espera, ali, como calculando o golpe,  e desce em direção às cordas para de lá arrancar sons que de alguma maneira atingem a alma da gente, não me pergunte como. Não sei explicar, não leio música, não toco nada, não tenho ouvido musical, mas recomendo a mim mesmo sempre ouvir um som assim, faz muito bem, move a alma da gente pra algum lugar melhor.

E a surpresa da noite de ontem foi a piano de Kathryn Stotta, essa moça da foto. A gente que é leigo e influenciado por estas coisas de melhor do mundo  vai focado no violoncelo, vai pensando no violoncelo de Yo-Yo Ma e recebe de surpresa um piano ali colado nos melhores momentos. A sintonia entre os dois também salta aos olhos e ouvidos  leigos.

E a surpresa mais agradável da noite foi o público. Desde a criação do Neojibá o público de música de concerto no TCA tem ganhado em juventude e em  qualidade. A gente reconhece eles espalhados pela plateia, as caras novas e ligadas, de gente que está ali por prazer e por conhecer. E não tocou celular, não ouvi conversas, nem aplausos  entre um movimento e outro. Teatro lotado, sobraram “apenas” umas 20 poltronas vazias no camarote do governo e nas filas contínuas ao camarote,  cujos convites dormiram nas gavetas de alguma repartição pública.

Claro, cochilei um pouco lá pelo meio da apresentação, este é o preço da insônia, mas Soraya, que não dorme nestas horas, tratou de evitar o sono profundo. Mas esta vida vem em fragmentos mesmo, como os quatro, eu disse quatro, retornos para o  bis sem aquela demora pra voltar de outras estrelas. Voltou, agradeceu no seu estilo oriental, especialmente à parceira. Será que ele é sempre assim ou recebeu recomendações de Rosa Passos para sobrar conosco?

Falar em Rosa Passos, olha os dois aqui.

 

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O melhor faz você mellhor?

03/05/2013

Até onde vai a fama, até onde vai a sensibilidade, até onde vai a tiração de onda?
O TCA vai ficar diante de Yo-Yo Ma neste sábado. Lotado, possivelmente. Celulares vão tocar, balas de menta farfalhar vagarosamente em mãos cuidadosas por quase um movimento inteiro, e conversas vão soar nos momentos em que o solo estiver gritando silêncio, enfim, é assim sempre, amanhã assim será. Com perdão do trocadalho, não tem conserto.

Aqui uma prévia silenciosa ao fone de ouvido do que vai amanhã, quando muita gente sairá feliz, outras nem tanto, outras melhores do que entraram. Outras quase no mesmo. Mas ninguém indiferente, é impossível.

O programa, segundo o TCA, começa com a Suite Italienne, de Stravinsky, aqui executada por Ana Topalovic ao violoncelo e Mihaela Ursuleasa ao piano (Serenata e Aria)

Em seguida, Villa-Lobos, com Choros Nº 5 ou Alma Brasileira

Depois Camargo Guarnieri com a Dança Negra – criada em 1946, depois da visita do compositor à Bahia

Tem mais. O argentino Astor Piazzolla, com o tango Oblivion, aqui executado por Julian Lloyd Webber

e Siete Canciones Populares Españolas, de Manuel de Falla, aqui por Richard Lester, Marianna Shirinyan

Em seguida, Louange à l’Éternité de Jésus, de Olivier Messiaen, por por Julian Lloyd Webber, violoncelo e John Lenehan, piano.

e a transcrição para violoncelo desta Sonata para violino Nº 3 em Ré menor, de johannes Brahms

Bom Concerto.

BBizetMP!

17/09/2012
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Bar do Tirson lotado, tentei parar para ver na tv os últimos minutos mas Soraya me apressa. Dois limites. Fim do jogo, começo do espetáculo. Aí o Baêa brocou, brocou, brocou, no bordão de João Andrade. O forte de São Pedro explodiu, atravessamos a rua, e, de repente, me vejo com Soraya dentro do buteco imundo e lotado, gritando no meio da turba.
Sigo com o fone de radinho celular no ouvido, entro no TCA, outro mundo, ainda bem que o jogo terminou, não combinaria ali meus gritos num possível 3 x 1, mesmo que o teatro, assim como Pituaçu, vivesse uma tarde/noite de domingo de casa lotada e misturada. Público bem diversificado, mix total, velhos, crianças, jovens, vestidões, jeans, engravatados, chinelos e saltos altos.
Abrem-se as cortinas e o cenário me ganha, dá vontade de conhecer Sevilha, bate novamente minha tara de voltar no tempo e assistir uma sessão dessa lá pelos idos de 1800 e tantos.
Corte para o presente e só o coro de crianças valeu ter atravessado a cidade em busca dos convites (obrigado mais uma vez, doadora repetente). O bacana de Carmen é que qualquer ignorante como eu encara a música como o repertório de Roberto Carlos. Não tem quem não tenha ouvido.
O amor é um pássaro rebelde. Que ninguém consegue domar, pam rram pam pam.
Não posso dizer mais porque ferrei no sono, acordava de vez em quando cutucado por Soraya, mas no último ato estava novamente inteiro. E feliz com a música, com o cenário, com a orquestra, com o coro, com o elenco. Experiência muito bacana. Tarde de domingo dose dupla. BoraBahiaMP, BoraBizetMP!

PS. Teve também o celular que tocou duas vezes, uma senhora do meu lado que achava que era corista e o comportamento irritante do público ao tratar a orquestra nos entreatos como músico de bar. Só parava de conversar, ou conversava menos, quando a cortina se abria.

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Foto: http://bit.ly/RjFyZ8

— com Tereza Cristina Nogueira Gomes.

Depois da chuva

06/07/2012

A chuva caiu forte sobre a cidade. Estávamos felizes, eu e Soraya, na saída de um belo concerto da OSBA com Antônio Meneses, bom ver alguém tocar um instrumento com aquele som todo.

Chuva, chuva, chuva, chegamos em casa direto pro quarto, Soarya só checou como estavam os menores. Pouco mais de cinco da manhã vou em direção ao banheiro e, por instinto, checo os quartos. André e Maria, ok, cama de Luísa, vazia. No computador a esta hora, pensei. Sala vazia. Banheiro. Vazio. Sem noção do absurdo, abri geladeira, abri porta de guarda roupa, abri todos os compartimentos da casa, de qualquer tamanho. Só escaparam as gavetas. Repeti a checagem geral algumas vezes antes de encarar o pior: acordar Soraya. Suicídio, não. Ela não estava deprimida. Saiu com o namorado? sem avisar?Não.

Tomei a decisão mais dífícil, acordei Soraya. Soraya? Soraya? nada. Falei a frase megafone: Luísa sumiu. Pronto, pulou da cama e começou a perguntar, sem esperar resposta. Você não procurou direito, sua frase preferida. E danou a procurar.

E agora? Ligar para o namorado. Não, ela está com meu celular. O telefone toca em cima da mesinha. Ao pegar o aparelho, o bilhete: Mãe, hoje tem gravação, acho que esqueci de avisar. Não se preocupe, a van vem me pegar e me trazer de volta. Luísa.

Só perdoamos porque é trabalho. A moçoila está fazendo uma ponta em Depois da Chuva e vai ganhar seus primeiros trocados na vida.

Foto: Luísa Gusmão, na Rio-Bahia, depois de uma chuva.

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Sobrou para a donzela, ou não.

19/12/2008

“Venho d’um reino distante, errante e menestrel
Inda esta noite e eu tenho esta donzela”
(O rapto da Senhora do Tarugo – Elomar)

Sobrou para a donzela de A Tarde. Li e reli a matéria de Cláudia Lessa e não vi nada que justificasse o pito do patrício e filho da Tia Maricota do meu pai Gedeão deu na moça ontem no TCA.
Falo assim com essa intimidade de parente, e de quem já viu shows do bardo no Clube Social Conquista e num Rinha de galo, no século passado, quando João Omar ainda era um dos três filhos pequenos que tocavam flauta com o pai, pra dizer que os justos pagam pelos pecadores. Elomar é a mais perfeita tradução do que a gente chama no interior de pessoa sistemática.

A matéria da donzela é quase uma matéria de fã. Talvez a palavra enaltece, no trecho […enaltece sua produção orquestral se colocando como um dos compositores que “o Brasil deveria conhecer se, para tanto, Brasília fosse uma senhora de pudor”] tenha sido o estopim da ira. Elomar fez um longo discurso contra a imprensa (nisso ele tem razão, não aguento mais tanto lixo nas chamadas páginas de cultura).
Deu a entender que a jornalista teria escrito que ele buscava a fama em outros países. Não vi também isso em nenhum lugar das matérias.
Enfim, pra quem ouviu foi divertido, mas não queria estar na pele de Cláudia (não consigo ligar o nome à pessoa). Minha solidariedade então à donzela, assim chamada pelo menestrel.
No mais, o show, como diz o chavão, foi antológico. Elomar tem o seu lugar na história da nossa música. Com a palavra o Ingresia e o Blag, que lá estavam também e entendem mais de Elomar do que eu e você.

P.S – postei este texto hoje cedo  no Falando na Lata, o blogue dos jornalistas, e Nilson, como prova de que não foi preso ontem nem pela PM nem pela  CET, já respondeu. E colocou também um vídeo do You Tube, seguramente à revelia de Elomar. Aproveito a dica e coloco outro,  nesta farra elomariana.

Se todos fossem iguais a você

12/09/2008

 

Você conhece o TCA por dentro? Pergunta idiota.

Você conhece alguém que não conhece o TCA por dentro? Outra pergunta idiota. Claro que não.

 

Mas e aquela figura que trabalha na sua casa, no seu trabalho, na portaria do seu prédio, atrás do balcão onde você compra pão, que lhe serve uma cerveja? É uma pessoa que você conhece, conversa, admira, elogia muitas vezes a batalha de viver com tão pouca grana.

 

Então dê a ela um presente, digamos, imaterial. Diga pra ela que neste domingo, às 11 horas, tem um espetáculo bacana,  o Viladança no TCA, a um real a inteira e meio real a meia.

 

Quem sabe a partir de segunda ela não vai se sentir mais igual a você?

 

P.S.

Você que se orgulha de nunca ter mandado um e-mail corrente, taí uma chance de ser mala por um dia. A causa é nobre.

P.S. 2 – Como todo e-mail mala corrente, vai aqui também uma trilha sonora, acima e abaixo. Da maior qualidade. É vero.

Domingão no TCA… ou no Campo Grande

11/09/2008

Este é um post em construção. Ele deverá, poderá, sei lá, ficar pronto até depois de amanhã, véspera do Domingo no TCA, ou antes, caso eu consiga até lá responder aos comentários que ainda estão sem resposta e ler os novos textos dos  e-amigos aí do lado.

“Cuidado com o que você deseja”, diz a sabedoria dos ditados.

Mas estou muito feliz por este coco ter pegado e fica feio não responder a tantos afagos e generosidades antes de escrever um novo post.

Voltando à vaca quase fria, a idéia é mandar outro viral para o mundo, um viral quase evangélico, convidando as pessoas à caridade (argh!) de botar alguém que nunca entrou no TCA lá dentro.

No último espetáculo ficou tudo lotado e a sobra quase lotou até o Campo Grande mas uma olhada apurada na fila e nos restos dava pra sacar que aquelas pessoas eram as mesmas de sempre, que têm acesso à informação, que circulam pelo circuito cult (argh!) da cidade.

Portanto o desafio agora é fazer a fila ficar mais, digamos, plural.

Pra um rascunho, isto aqui está ficando grande demais… voltarei, consertarei e acrescentarei.

E, por favor, comente…

Lá fora

17/07/2008

É ridículo quando no meio de uma conversa uma pessoa que a gente mal conhece busca desculpas esfarrapadas para informar viagens ou experiências lá fora. Começam invariavelmente assim: porque lá fora é diferente. Ou: eu ficava impressionado com… . Tem a variação sobre o mesmo tema que começa com o baiano é isso, o brasileiro é aquilo, para em seguida, a pretexto de protesto, encaixar sua viagem, sua experiência lá fora.

 

Pode falar, pode rir de mim, mas hoje eu vou protestar também.

 

O baiano é foda. O baiano que frequenta o TCA é mais foda ainda. E o baiano que frequenta a Série TCA, de concertos pré-pagos com atrações internacionais, piorou. Quando eu freqüentava a sala Tchaikovsky, em Moscou, ficava impressionado com o silêncio durante os concertos. No intervalo era um sinfonia de pigarros, coça-coça, tosse-tosse, remelexo na poltrona, cochicho com o vizinho. As pessoas faziam todos os pequenos barulhos aprisionados durante a música e ainda se antecipavam e tossiam o que teriam vontade de tossir e coçavam o que sentiriam vontade de coçar quando a música recomeçasse.

 

Pois bem. Realizei ontem um antigo desejo. O de ouvir pessoalmente o violoncelista cabra da peste pernambucano Antônio Menezes. Pela fama e pela qualidade. Dizem que ele é o nosso melhor violoncelista de todos os tempos. Veja o sujeito em ação aí em cima, regido por Karajan, em 1986.

 

Gosto muito do som do violoncelo, o caminho do meio das cordas. Não é tão pequeno quanto o violino nem tão grande quanto o contrabaixo. Consegue reunir as qualidades de um e de outro. Ri e chora pesado, vai aos dois extremos com sonoridade, principalmente quando o tocador é uma fera, como neste caso.

 

E ainda tem outra qualidade extramusical. É o instrumento muito sensual em mãos femininas. Na época em que eu ainda desejava outras mulheres, e isto já vai fazer  15 anos agora em agosto, ficava nervoso na platéia ao ver uma violoncelista que havia na Osba, que ainda maltratava o público, de safadinha, ao  puxar levemente o vestido preto até um pouco acima do joelho quando cravava a ponta do instrumento entre os pés afastados e se ajeitava na cadeira antes começar a tocar.

 

Mas voltando ao que interessa, ontem chegou o grande dia. E pra completar a quase felicidade, o cabra ainda tocou um concerto de Dvorak que a gente tem aqui em casa. Que sensação boa. É como ir para um show de lançamento de disco e lá pelo meio nosso ídolo tasca aquela música que a gente conhece.

 

Mas a felicidade terminou aí.

 

Sabe todos aqueles barulhos descritos acima, no intervalo dos movimentos de um concerto na sala  Tchaikovsky? É puro silêncio se comparado ao comportamento da platéia de ontem no TCA durante o concerto. O cara lá arrancando aquele último som, do último milímetro da corda, no último milímetro do arco do violoncelo e atrás de você um casal cochicha, como se estivesse ouvindo um cover de Oswaldo Montenegro no extinto Casquinha de Siri. Outra dupla resolve sair no meio do concerto e uma senhora toda empeterecada insiste em tirar algo de uma embalagem de plástico de dentro da bolsa. Pára e começa, pára e começa, num scrisch-scrisch-scrisch-scrisch-scrisch só interrompido com o psssssiiiiiiiu! de um neurótico como eu sentado do outro lado. No intervalo do primeiro para o segundo movimento, que para azar nosso tinha ares  de gran finale, o teatro veio abaixo em aplausos, enquanto o maestro mexicano permanecia com a batuta em riste, talvez na tentativa de segurar a concentração do grupo para seguir em frente. Nada contra aplaudir entre os movimentos de uma música ou até em cena aberta. Se a emoção bateu, bater palmas é saudável. Não vou censurar a emoção de ninguém.  O problema é que estas palmas, tenho quase certeza, foram motivadas apenas pelo sentimento de rebanho dos meus queridos conterrâneos. Baiano é foda.

 

Mas ontem aconteceu algo louvável. Não ouvi tocar nenhum celular.

Tigres, violões e bailarina

12/06/2008

Tinha muitos meninos e muitas meninas. Tinha um tigre e uma bailarina. E muitos violões. Assim Maria contou pra mãe o que viu no TCA ontem. Maria viu tudo o que não vi. Que bom. O espetáculo é concebido para ela,  para formação de platéia, e o mais importante é o que ela vê.

E aqui vai uma digressão. É sobre a passagem do tempo na fala das crianças. Elas de repente abandonam determinada palavra ou expressão e babau, nunca mais.  Até sábado, Maria falava tem três barcos para dizer que havia muitos barcos na baía. Ontem já incorporou o muitos, numa overdose de muitos. É como se agora tivesse prazer em usar o que aprendeu. Até outro dia trocava as letras no nome dos colegas, que chamava de Antonio Peleila, Frô e Sala. Sinto uma certa nostalgia quando eles mudam. Adorava ouvir Luísa falar galatixa em vez de lagartixa. André falava digantesco. Maria ainda fala Vom  Preço e Bela Vomecida.

Voltando ao concerto, não havia muitas crianças nem muitos pais. Apenas a parte de baixo ocupada com menos da metade. Pilhas de programas, impressos com qualidade, foram pro lixo. Um cenário bem cuidado, com folhas secas sobre o palco para simular o ambiente da floresta. Duas árvores cenográficas penduradas e com um belo efeito de iluminação sobre elas, chuva de bolas de soprar no final, figurino que incluía asas de passarinho para a flautista, roupas de época para a apresentadora sem falar no belo texto concebido especialmente para o espetáculo. Tudo combinaria com o teatro lotado. Mas como lotar mil quinhentos e cinquenta e quatro lugares numa tarde de quarta-feira? Quem levaria estas crianças ao teatro? Quem seriam estas crianças? As ricas têm mais o que fazer, as de classe média estão com as agendas entupidas e pais ocupados. As pobres não têm quem levar. Talvez a saída fosse o domingo pela manhã. Ou levar as escolas. 

Onde havia leão Maria viu tigre, no lugar de violoncelos, violinos e violas, viu violões. Nos movimentos da apresentadora, viu a bailarina. Tudo a  ver. André não viajou muito e gostou mais da parte do programa em que a gente deu uma parada no Porto da Barra para a colocar na água do mar os barcos de papel feitos por ele durante o concerto. Fizeram uma farra na areia num fim de tarde chuvoso de quase inverno.

Bem, e eu?

Não gostei do solo do violoncelo, o cisne.  Não bateu. A impressão era de que a violoncelista queria se livrar do serviço logo e deixou de visitar aquela ultima sonoridade, aquela última vibração arrancada do instrumento no limite de cada seqüência de notas. Não tenho ouvido musical, não sei quando alguém desafinou, não noto erros. Mas antes de postar aquele garoto fazendo o cisne, ouvi outras versões. Será que eu esperava ao vivo o que havia ouvido pelo som digital a toda altura do fone de ouvido? Será que já estou preferindo o som eletrônico ao acústico?

Mas esta falta de tesão já havia sentido na OSBA, em comparação com a vontade dos meninos do Neojibá. E havia poucos deles ontem no concerto. Talvez  o clarinetista, que faz o cuco. Coincidentemente, uma das partes bacanas do concerto para mim. E ele fazia apenas cu-co. Duas notas. Mas duas notas com vontade, com garra, com prazer.

O cisne aqui e acolá

09/06/2008

Que figura.

É só pra lembrar que quarta-feira tenho que levar a minha renca para ver o Carnaval inteiro no TCA, com os garotos de cá, do Neojibá.

Mais Carnaval.

Nosso grande teatro

22/04/2007

Em russo, bolshoi quer dizer grande. Temos também na Bahia o nosso bolshoi teatro Castro Alves, no Campo Grande. E o nosso grande teatro da Praça Dois de Julho vive dias agitados. Seus 1554 lugares têm sido tomados de assalto por crianças, jovens, adultos e idosos, saídos dos mais improváveis cantos da cidade aos domingos pela manhã. Em março foi o balé, em abril o circo, em maio será o teatro e em junho a música da Orquestra Sinfônica da Bahia.
Para o domingo reservado ao Circo Picolino foi necessária uma sessão extra, ao meio-dia. E a dupla sessão lotada contrariou aquela antiga marchinha que diz que todo mundo vai ao circo menos quem não tem dinheiro para pagar ingresso e fica de fora escutando as gargalhadas. Ficava, porque o ingresso da matinê do TCA custa R$ 1. Crianças e estudantes pagam 50 centavos.
Como que saída do nada, também surgiu uma tropa de vendedores de pipoca, água e refrigerante. Este pequena divisão do nosso exército de ambulantes, com faro aguçado para aglomerações, transformou a calçada em frente do teatro em quermesse.
No palco – ou picadeiro – o povo se viu na cena do ônibus lotado. Passageiros contorcionistas jogados para cima, de cabeça pra baixo, enroscados um nos outros por freios de arrumação, representaram com humor o cotidiano bizarro dos ônibus lotados da nossa cidade. Mas o público se viu também no trapézio, nos tecidos, na pirâmide humana, nos saltos, no hip hop e na poesia de Mario Quintana e Maikoviski. E aplaudiu do começo ao fim o premiado espetáculo cenascotidianas@cir.pic. .
Muitos ali na platéia viviam a primeira experiência de circo e de Teatro Castro Alves. Quem não se lembra da primeira vez em que entrou no TCA, nosso maior teatro?
O preço do ingresso facilita esta primeira experiência para muitos. Mas há ainda o custo do transporte. Para uma família que mora na periferia, só o deslocamento para o teatro pode representar 20% do salário. A Picolino fez então uma campanha de marketing viral, num e-mail que trazia esta conta detalhada e o pedido para que as pessoas se transformassem em patrocinadora do transporte de quem não pudesse pagar. E desse a oportunidade a alguém que trabalhasse em suas casas, edifícios ou empresas de ir ao teatro. Deu certo.
Este foi o segundo espetáculo do projeto Domingo no TCA, uma iniciativa de formação de platéia fundamental para a democratização dos espaços públicos, construídos e mantidos com recursos da sociedade. Foi um domingo histórico para a Picolino. E também para o nosso jovem grande teatro, que colhe aplausos populares para comemorar os seus 40 anos

Publicado na página 3, Opinião, do Jornal A Tarde de 21 de abril de 2007.

O e-mail que ganhou o mundo. Será que vai dar resultado?

08/04/2007

Pra você que gosta de circo, de gente, de teatro, de música, de poesia…

Você que gosta de circo, de gente, de teatro, de música, de poesia – não necessariamente nesta ordem – está convidado a estrear como patrocinador cultural da Picolino. E sua primeira ação como patrocinador é convidar os amigos pela internet para também virarem patrocinadores. E a sua ação seguinte de patrocinador é de inclusão cultural, explico a seguir:
Certamente, com raras exceções, a pessoa que trabalha na sua casa, na portaria do seu prédio, ou nos serviços gerais do seu trabalho jamais pisou no Teatro Castro Alves. Se esta pessoa tiver filhos, possivelmente também eles nunca foram ao circo. Provavelmente também eles não conheçam a poesia de Mário Quintana ou de Maiakovski.
Você pode proporcionar estes três primeiros momentos nas vidas destas pessoas. Como?
Você vai apenas informar e convidar estas pessoas para o espetáculo cenascotidianas@circ.pic, da Companhia de Circo Picolino, dia 15 de abril, um domingo, às 10 horas da manhã. Não precisa patrocinar o ingresso, porque o ingresso vai custar R$ 1,00, isso mesmo, um real. Deixe a pessoa pagar, até pelo orgulho de ser pagante.
Aí você pergunta: eu só vou patrocinar isso?
Só, e isso já é muito. Mas se você puder mais, patrocine então o transporte ou transporte você mesmo estas pessoas e suas famílias no dia do espetáculo.
Sabe por quê?
Porque para um casal e dois filhos que mora na periferia de Salvador, por exemplo, e tem que pegar dois ônibus para chegar ao Campo Grande, ir ao TCA, mesmo com ingresso a RS 1,00, pode significar um gasto de R$ 24,00. Mais pipoca, refrigerante e água, numa eventual esticada ao Campo Grande, eleva a despesa a R$40,00.
E R$ 40 para quem ganha R$300 líquidos representam pouco mais de 13%. Ou pouco mais R$ 260 para quem ganha R$ 2.000. Isto é bem mais que um Chico Buarque, que custou apenas R$ 180,00.
Sobre o espetáculo:
A Companhia de Circo Picolino leva ao palco do Teatro Castro Alves o espetáculo cenascotidianas@circ.pic, que reúne música, dança, teatro, técnicas circenses e a poesia de Maiakovski e Mário Quintana. Vencedor do prêmio Funarte de Estímulo ao circo 2004 e contemplado pela mostra palco giratório 2005 o espetáculo já foi visto por mais de 30 mil pessoas em turnê por seis estados brasileiros.
Cenascotidianas@circ.pic volta ao principal palco baiano na programação “ Domingo no TCA” que integra o calendário do aniversário de 40 anos do TCA, com ingressos a preços mais que populares: R$ 1,00.
O espetáculo retrata o dia-a-dia de uma escola de circo numa metrópole. Acordar, escovar os dentes, lavar o rosto, trocar de roupa e pegar ônibus cheio, são cenas da vida de quase todos. Mas, dentro da lona de um circo, essas rotinas tomam uma nova dimensão, que envolve magia, poesia, risco e riso.
O QUÊ? Espetáculo: Cenascotidianas@circ.pic
ONDE? Teatro Castro Alves
QUANDO? 15 de abril, às 10 horas.
INGRESSOS? R$ 1,00 (um real)
Clique nos links abaixo e saiba mais sobre o espetáculo e sobre a Picolino:
Clip de cenascotidianas@circ.pic no You tube
Fotolog
Blog Licuri no Picadeiro
Trailer do Vídeo do espetáculo Guerreiro
Site (desatualizado mas serve com história. O novo site está a caminho)
Orkut:
Circo Picolino (235 membros)
Eu sou/fui do Circo Picolino (218 membros)

 ATUALIZADO após o espetáculo:
E como deu resultado. Claro que outras coisas influenciaram como o preço, o local, a rede de contatos do circo, etc etc. Mas muita gente recebeu a mensagem e o teatro não só lotou como teve um bis, numa sessão extra ao meio-dia.!