Posts Tagged ‘TDAH’

O mundo está isolado

03/10/2011

Estou desconectado de internet pessoal até 31/12/211. Se for urgente ou pessoal disque (71) 9266 4097. Se for profissional redirecione para  bahianarede2@gmail.com,

E já estou me sentindo a própria Inglaterra quando se rompeu um cabo de comunicação com a Europa: “O mundo está isolado”.

Não foge, Mulher Maravilha

26/12/2010

Ouvir a nenhuma variação sobre o mesmo tema da fuga da Mulher Maravilha a todo volume na pracinha de Iaçu me faz rever fortemente a ideia de passar os dias de velhice numa pequena cidade do interior.

Mas não tem revolta não. O mundo pertence a todos, ou seja, tem vários donos, e o melhor mesmo é usar a técnica da capoeira: esquiva. Vou pra casa e coloco os ouvidos fora do alcance.

A ideia era fazer um post sobre o feliz ano velho e quiçá, oxalá, quem sabe, queira deus, bom  ano novo.

O peso continua acima do aceitável, as dívidas no fermento  e todos os outros problemas a ignorar  solenemente meu otimismo.

Mas não me queixo de  2010.

Graças a uma agenda feita sob medida terminei o ano com meu trabalho de Barnabé no Estado, meus dois frilas fixos e meus outros tantos compromissos  sob controle.

Não sei a quantas pessoas interessa isso, talvez alguém que tenha o diagnóstico de TDAH, mas para um sujeito como eu, manter o foco em três frentes não é pouca coisa não, façanha de malabarista.

Sempre me dei mal com agendas. Começo,  abandono, esqueço em algum lugar, deixo de lado. Até o início deste mês quando me ocorreu a ideia de fazer um blog privado (só eu tenho acesso) e nele organizar a minha vida. Bingo!

Fiz apenas três posts. No primeiro, os compromissos do dia, no segundo os compromissos dos dias seguintes, no terceiro uma agenda telefônica. E só. Basta atualizar.

Para cada atividade criei uma página específica. Na lista de links, coloquei sites, facebook, twitter relacionados. Para a biblioteca de mídia foram os arquivos de imagem. Assim, onde quer que eu esteja, tudo que faço pode ser acessado, atualizado. Posso produzir a qualquer hora, em qualquer lugar. Basta estar conectado.

Até quando isto vai durar? Já dura bem mais do que as outras tentativas de agendar a vida.

Que venha então 2011!

Quem disse que eu voltei?

02/12/2010

Voltei zorra nenhuma. Uma imensa distância entre intenção e gesto. E esse negócio aqui perdeu um pouco da graça sem Chorik. O Japa está fora de combate e faz uma falta dos diabos. Se pudesse, faria uma campanha para apoiar a ideia de Bernardo de irmos a Americana, sequestrar o Japa, dona Zezé e toda a renca e levar todo mundo pro Pratigi, pra comer peixe defumado no Jatimani, ver a lua cheia, jogar conversa fora numa varanda qualquer de uma pousada com o corpo salgado da praia do dia inteiro. Ah se eu pudesse e o meu dinheiro desse.

Mas não custa sonhar. Vai chegando o Verão e me vem diariamente a imagem daqueles dias de Pratigi e Baixo Sul. Como diz Maria, dias mais felizes da minha vida.

Continuo afastado dos amigos aí do lado, mergulhado no trabalho, viciado numa nova droga: cumprir prazos.

É, caros amigos, cumprir prazo e fazer as coisas do começo ao fim tem sobre mim um efeito mais forte do que um morrão fumegante. Bate legal. É sério.

Comentei isso com uma amiga entendida destas coisas de psicologia e ela disse que é isso mesmo, fechar a Gestalt dá barato. A frase em si não me disse nada, mas entendi perfeitamente o que minha amiga me disse e ela entendeu o meu barato. Interrompi na frase anterior a redação deste post para googlar  fechar a Gestalt e gostei deste resultado.

É isso aí, a minha droga deste Verão será fechar a tal Gestalt. Principalmente aquela de ir ao Baixo Sul.

Vamos Chorik?

P.S – E se desta vez Doutor Bernardo nos convidar para um chá na sua mansão cercada de verde próximo à ponte da Sesi? Soci? Saici? como é mesmo doutor? Levo dona Soraya amarrada e a renca maleducada solta.

Num é que voltei? Tou de onda. Fechei mais uma Gestalt.

Me vi

25/09/2010

Tentei duas vezes elogiar  Contardo Calligaris e levei sopapo. Na primeira foi para um, digamos, gay intelectual. Tachou o cara de conservador. A mais recente foi para um, digamos, intelectual de esquerda. Mangou de eu, chamou o cara de autoajuda de segunda categoria.

Mas eu continuo gostando do doutor Calligaris. Gosto de idéias bem escritas, sejam lá quais sejam, melhor ainda quando concordo, mesmo parcialmente. Por isso consigo gostar quase do mesmo jeito de um texto de Mino Carta com um senhor elogio a Lula como de outro de Reinaldo Azevedo  comparando o discurso do cara ao de Goebbels.

E esta semana o doutor Calligaris me chegou duas vezes via e-mail. O último foi da  Ana Lívia, era sobre  felicidade e a felicidade no Facebook. Corri ao meu perfil para checar e descobri que não faço pose de feliz, mas de bem informado e criativo, o que vem a ser quase a mesma coisa porque cada um tenta convencer de um jeito.

O anterior foi sobre a importância do devaneio e como a sociedade do sucesso tenta enfiar remédio nos fora da forma, um alento para um cara diagnosticado com TDAH. Quem me mandou foi Martha, a Maria Muadiê, que deve ter me visto ali.

Mandei o texto para quem entende do assunto e recebi uma resposta ponderada: “O problema no TDAH é o excesso do outro lado, o predomínio forçado do devaneio, sem controle do interessado”. Me vi.

Marcinha e o chorão

01/02/2010

Lembramos muito de Marcinha, eu e Soraya, neste fim de semana. Conhecemos pessoas muito bacanas, que acolheram a renca toda de uma maneira muito especial. A toda hora nos vinha a frase: se Marcinha estivesse aqui…

Hoje de manhã novamente Marcinha me veio na memória. Mas desta vez ela não me perdoaria.

Desabei no choro ao telefone com um amigo irmão, diante da minhas dificuldades com prazos. Mais uma vez elas me custaram caro, princiopalmente pela impossibilidade de crescer, de ficar melhor.

Mais uma vez joguei pela janela uma oportunidade profissional que passou a galope porque eu estava ocupado com o que já deveria ter terminado. Foi daqueles choros que nunca mais tinha chorado, quando a gente começa falar e a voz some no engasgo, tranformada num grunhido fino.

Tive vergonha. Mas depois passou, talvez porque no choro havia uma ponta saudável de raiva. Não, não estava com pena de mim, estava com raiva.

Rídiculo, diria Marcinha. Ela não suportava homem chorão. Não suportava mesmo. Pois é Marcinha. Chorei, não procuro aqui esconder. Mas ainda bem que meu choro tinha esta raiva.

Atenção: estou bem. Retorno hoje das férias ao trabalho de barnabé. Animado.

Hiperfoco

23/07/2009

Rede dos Pontos de Cultura da bahia

Ando monotemático estes dias, viajando em duas variações sobre o mesmo tema.
Não me pergunte absolutamente nada sobre outra coisa.

Maria Sampaio e Nilson Galvão

A culpa é de Franciel

03/12/2008

A palavra tem força, portanto um comentário num blog  muda nosso destino. Seu Franciel, piloto do Ingresia, o único blog do universo autorizado pelo MKC, me aconselhou a focar nas coisas importantes.

Aceitei a sugestão. Queimei então um dos navios, joguei fora mais um peso do balão. Passei para a frente o trabalho temporário  do turmo alternativo.  Pronto, só falta agora desembuchar o tal artigo, mais um relatório de fim de ano e… Pratigi e Moreré, lá vou eu.

 

Acordei hoje ainda mais chateado porque com esta confusão toda acabei esquecendo do Dia do Samba, ontem na praça da Sé, com a presença de Paulinho da Viola.

 

Estava precisado de ouvir ao vivo Não sou em quem me navega….

 

Mas minha tristeza é menor do que a de seu Franciel, que passou o dia se preparando para o grande encontro, fez post anunciando o momento histórico e…vá então ao Ingresia saber se ele já contou o que aconteceu ontem.

 

SOS

02/12/2008

Travado. Há dias travado.

Suspeito que o começo de tudo desta vez tenha sido um artigo anunciado no trabalho, um texto que resolvi fazer mas que não sai.

Sei exatamente o que tem de ser feito mas estou paralisado.

São três frentes que depedendem de um movimento. De uma ação que não acontece. O trabalho formal, o tal texto, um trabalho eventual, texto e contatos, e a documentação para encaminhar o recebimento de outro. Só burocracia. Mas não movo uma palha.

Fiz e refiz prioridades. Escrevi listas. Segui os conselhos médicos. Nada. Tenho tempo. E nada.

E começo a ter prejuízo financeiro e profissional, além do prejuízo moral. Acabei de recusar  um frila por conta disso. Seria sexta e sábado, em Praia do Forte. É mole?

E o principal, o texto, não sai. E as horas passando. E os prazos cada vez mais estrangulados.

Ninguém entende o que acontece, nem eu mesmo. E como você consegue escrever no blog? Consegue comentar nos demais? Vagabundo. Quando não havia internet, estes períodos de travação era quando eu lia mais. Era quando eu  fazia mais as outras coisas. Fugas.

Se fosse um problema renal grave seria mais fácil entender. Se fosse uma arritimia, uma isquemia, uma tuberculose ou aquela música inteira dos Titãs, seria mais fácil entender. Mas é um treco invisível, inexplicável. É cabeça. Muito semelhante a preguiça, indolência.

O diabo é que num determinado momento vai acontecer um estalo. Vou fazer tudo o que tem de ser feito e que não foi feito há dias em algumas horas e vou ficar me perguntando por que tem que ser sempre assim. E sempre com prejuízo.

De positivo comemoro a recusa do tal trabalho no final de semana (uma das recomendações médicas é dizer não)  e o desabafo aqui.

E nestas horas, eu que não creio chamo por deus, chamo pelos orixás, chamo pelo universo. E peço arrego, e peço ajuda aos amigos e e-amigos. Ajudar em quê? nem mesmo eu  sei. Mas peço. E meu problema nem é tão grave assim. Mas peço. E não gosto de pedintes.  Mas peço. Sei que vou ouvir que é frescura. Mas peço. Pode falar, pode rir de mim, mas peço. Jogo o pouco orgulho que tenho no chão, e peço. Enfim, socorro. SOS.

A Pinta, a Nina e a Santa Maria

11/11/2008

spinnennetz

A vida é tudo o que me acontece enquanto postergo.  Como bom TDAH, quase nada do que planejei para a viagem foi feito.  O notebook vai sem mochila, o celular sem carregador,  a sacola  ainda está para ser arrumada, a poucas horas da viagem. Nestas horas lembro de Alvinho, um amigo que chegava aos compromissos sempre antes  de todos,  com seu inseparável  guarda-chuva.  Alvinho era tão pontual que até a Deus ele se apresentou com antecedência e se mandou deste mundo antes dos amigos. Admiro até hoje as pessoas que usam guarda-chuva, como Alvinho. Elas gastam tempo procurando o guarda-chuva, checando o guarda-chuva, ocupando temporariamente a mão ou a sacola com um guarda-chuva e fico a imaginar o prazer que elas sentem  quando cai uma chuva, ao abrir com tranqüilidade  a lona sobre si e sair por aí zombando de pessoas que como eu passam esbaforidas ou ficam presas nas marquises. Acho que estou falando do passado, porque faz um bom tempo que eu não vejo uma marquise.

Enfim, voltando  ao presente e â viagem não planejada,  o jeito é me concentrar no único compromisso que tenho,  semelhante ao de Pero Vaz.  Vou escrever  uma ou  mais  cartas diárias a meu rei, cidadão baiano que me paga o salário e me pagou a travessia, contando o que vi.

Portanto, a  partir de hoje e até o dia 16 este Licuri estará a serviço  da Teia 2008. Daqui a pouco partem as três caravelas, rumo às queimadas da Chapada, ao Oeste e ao Planalto Central. Com este espírito de descoberta, misturo Cabral e Colombo e sigo a bordo da Pinta, da Nina ou da Santa Maria. E vou tentar usar a velha sabedoria do mar, aquela que manda ajustar as velas da maneira mais favorável ao vento. 

Peguei aqui a imagem acima da teia que  não usou guarda-chuva. Vá lá que tem de brinde para você o poema Tecendo a Manhã, de João Cabral de Melo Neto. E por falar em imagem, não poderia deixar de registrar aqui a visão de Vivas sobre as queimadas na Chapada, que se repentem todo ano, há anos.

 

chapadavivas01

Voltei, Obama, cadeiras sem bundas, TDAH, Marcinha

06/11/2008

Não dá certo ficar vários dias sem escrever aqui. Acumula que é uma beleza. Fiz vários posts de cabeça, vamos ver o que sobrou.

 

Constatei há pouco dois mundos no Brasil. O povo que vê  a Globo pela ótica do Jornal Nacional e o povo que lê a Folha. O povo viu na Globo a euforia dos Estados Unidos com a Vitória de Obama, o apoio dos líderes do mundo. O povo que lê na folha, lê que líderes mundiais vêm com ceticismo a vitória. Volto então para pegar o link e a notícia desapareceu. Talvez eles se tenham dado conta do exagero.

 

Estou feliz com a vitória de Obama. Sei que é uma vitória simbólica, embora seja uma senhora vitória simbólica. A real  mesmo é  que nos EUA Democratas e Republicanos são nomes fantasia do mesmo partido, o partido  dos Estados Unidos. Mas não deixa de ser surpreendente ouvir um presidente americano se colocar contra a guerra. Vamos ver na prática.

 

O terceiro é a minha angústia com cadeiras sem bundas nos espetáculos bancados por nosso rico dinheirinho recolhido na forma de impostos. Lembro que assisti A Gaivota, de Tchecov, com o grupo Piolim numa Caixa Cultural com um terço da pequena capacidade do pequeno pátio improvisado como teatro. A entrada era franca.

 

Semana passada fui à abertura do FIAC com a Peça Melodrama, belo espetáculo carioca, a R$ 10 e R$ 20. A parte de cima do TCA completamente vazia e a de baixo com diversos buracos.

 

E neste domingo fomos todos ver a OSESP, talvez a melhor orquestra da América Latina, cujo maestro custa R$ 100.000,00 por mês aos nossos bolsos. Cabiam ainda 2 mil pessoas na concha. Entrada franca. Em Pernambuco o JC publicou entrevista de Neschling. Aqui os jornais não deram muita bola.

 

Soraya participou de um colóquio sobre trabalho forçado e chegou de lá dizendo que havia muitas cadeiras vazias. Tinha pesquisadores  da África, da Europa e de várias partes do Brasil e a terceira cidade do país não completa um auditório.

 

Qual o problema? Seria simplista dizer que faltou divulgação. Falta talvez um tipo específico de divulgação, uma divulgação efetiva, que chegue às pessoas que porventura se interessassem em estar ali. Estas pessoas existem, como chegar a elas é o grande desafio.

 

Não escrevi estes dias porque estava às voltas com prazos estourados. Quando me queixava com as pessoas, todas, absolutamente todas, comentavam algo como: me conte uma novidade.

 

E hoje, às 7h30, tem missa de 30 dias da partida de Marcinha. Na  Igreja da Conceição da praia.

Bilhete

07/05/2008

 

Tirando o absurdo da situação bem cotidiana, chamou minha atenção a correção do texto de seu Miro, porteiro noturno do prédio,  no bilhete que fez para mim na noite passada. Afora a pontuação, o resto está perfeito. Não há erro de ortografia, nem de concordânicia. Seu Miro escreve com menos erros do que muito estudante universitário.

Terceiro mês de rotativa

06/03/2008

Era inicialmente 1 mês. Até 31 de janeiro. Acabei ficando fevereiro e sigo até 31 de março trabalhando diariamente em jornal. Confesso que a alegria inicial vem sendo substituída por uma leve sensação de saco cheio… coisas de TDAH, suponho.

Bom, isto afinal é um texto público e este negócio de escrever todos os dias acaba colocando no ar conversas com os próprios botões. E os botões estão sempre ali do lado da gente, conhece a gente, não precisa explicar. E eles também não buscam explicações.

Tudo isso pra dizer que por mais ou menos que a gente fale, o texto é parcial. Outro dia minha irmã me ligou preocupada por conta de um post, achando que eu estava muito mal e na verdade não estava até bem. Era apenas uma ironia, uma gozação com pequenos infortúnios do cotidiano.

Enfim, para tentar consertar o dito lá em cima, saco cheio pra mim tem um significado meio estranho, que beira a satisfação. Sou assim mesmo. Consigo, tenho um certo sucesso nas coisas e o saco fica cheio mesmo, no sentido de completo, satisfeito.

Sem querer buscar desculpas no hipocampo, deve ser coisa de TDAH mesmo. Mazinho explica.

Tenho que comemorar

18/02/2008

Estava vasculhando os rascunhos do blog e descobri este post. E tenho o que comemorar. Terminei de ler o tal livro. Levei exatamente o mesmo tempo que o autor gastou para escrever. Conheço uma garota de 12 anos que leu mais ou menos 50 livros no ano passado. Eu li apenas este. Ainda bem que este meu traço de personalidade não foi transferido por hereditariedade. Deixo a seguir registrado o post/rascunho porque pretendo voltar  ao assunto O Processo  nos próximos dias:
 
 
Há certas coisas comuns, bestas, fáceis de realizar por qualquer mortal mas que pra o portador de TDAH  se tornam tarefas intransponíveis. Minha tarefa quase impossível é terminar de ler um livro. Sem essa dificuldade seria um cara lido. Mas não sou leitor, sou começador.O engraçado é que largo, abandono, perco, empresto até, mesmo estando envolvido, interessado, falando o tempo todo sobre o assunto.Às vezes nem começo, leio um pedaço e largo. Nem o Jogo de Amarelinha , que pode ser lido de trás pra frente, ao gosto do freguês, consegui terminar. Houve um tempo em que eu lia até o fim. Nesse tempo li A  Metamorse, de Kafka.Mas O Processo entra no rol daqueles que já tentei várias vezes, onde também me esperam Os Irmãos Karamazov e Sagarana. Todos literatura básica, mas que o cidadão aqui não conseguiu compartilhar com a humanidade.E a vontade de ir adiante no Processo já dura quase um ano. Seria uma oportunidade para também até o fim em Crime e Castigo, que segundo Modesto Carone, seria uma das matrizes da obra de Kafka. Quem sabe um dia chego lá…Sem culpa. 

 

E este blog já virou uma sociedade (sem autorização prévia) com o Olho da rua  Mas este Vivas  não fotografa…

 

baianavivas02_aa.jpg …pinta.mervivas01.jpg

Quando o esforço piora ou cloridrato de metilfenidato lá vou eu.

18/12/2007

A agenda do google é a novidade mais visível depois de iniciada a terapia. Tenho me esforçado para não esquecer mais nada.

Acabei de colocar a feira no carro, veio o estalo: o dentista.

São 7h09min. Estou na Pituba e o dentista é na Barra, às 7h20. Vou assim mesmo, chego com 10 minutos de atraso mas chego. Acelero o carro e mentalizo a desculpa por estar de tênis, calção e camiseta.

Mil sinaleiras à frente, contornos estranhos, ruas fechadas, finalmente alcanço a Manoel Dias e acelero.  Aí veio outro estalo. Acho que o dentista é amanhã, quinta. Havia estabelecido um dia certo da semana justamente para facilitar a rotina. Ligo e oriento Eliene para pegar a agenda, na segunda página de um classificador organizador  que me acompanha (quase) o tempo inteiro. Eliene confirma, o dentista é quinta. Já estava na Amaralina. Alívio e retorno.

Eliene me dá então uma última informação:

Hoje é terça-feira!!!

Capitulo. Cloridato de Metilfenidato na cabeça!

Enquanto o novo post não vem…

18/12/2007

… fique com o cloridrato de metilfenidato.

Procrastinação

22/11/2007

O que é TDAH? Veja aqui. Você leva jeito? aqui e aqui. 

Eis o meu resumo, ou melhor, a cópia com  distorções adaptadas para as minhas necessidades do texto de Nuno Conceição sobre a tal da Procrastinação, ou este meu velho hábito de atrasar ou adiar sistematicamente a realização de atividades relevantes. Não há resumo ainda, apenas alguns cortes e alterações. Mas resolvi postar. Foi isso que consegui depois de muito postergar, já que coloquei como limite o dia de hoje. É uma vitória parcial. Coloco o prazo novamente para a próxima segunda. Eis a parte já alterada: Procrastinação de manutenção é aquela enrolação de pequenos atos do cotidiano: deixar chegar o quarto, a mesa, o armário a um estado de desorganização incontrolável, deixar empilhar os pratos na pia, entregar aquele texto sempre no limite ou depois do prazo… Procrastinação de desenvolvimento emperra iniciativas ou ações de desenvolvimento pessoal que poderiam levar a uma melhoria das condições de saúde, das condições psicológicas ou outras formas de proveito pessoal. A dieta, o parar de fumar, a caminhada matinal, a leitura necessária.O procrastinador ou enrolado passa a ter dificuldades em encontrar maneiras de tornar a vida mais agradável, melhorar a aceitação pessoal, a auto-estima, a sensação de auto-eficácia e as competências sociais ou profissionais.Nos casos mais graves as pessoas sentem-se deprimidas, imobilizadas ou frustradas. Procrastinar implica deixar que as tarefas menos importantes antecipem as mais importantes. Fazer qualquer coisa menos aquilo que tem prazo.Toda procrastinação envolve a decisão de adiar. Esta decisão pode levar a um alívio temporário imediato, mas a médio ou longo prazos pode conduzir a uma baixa sensação de auto-eficácia, a sentimentos de culpa. A procrastinação torna-se num problema mais sério quando afeta a auto-estima, os sentimentos de valor e de controle pessoal e de auto-eficácia, quando a qualidade do trabalho é significativamente mais baixa do que as capacidades do indivíduo, quando os outros já não podem confiar ao indivíduo a responsabilidade de completar o seu trabalho, quando coloca obstáculos que interferem com a persecução de metas e objetivos pessoais e profissionais, quando provoca sentimentos negativos no indivíduo ou provoca resultados inesperados e leva a problemas de saúde ou a relações desgastantes.A procrastinação encontra-se ligada ao conceito físico de inércia – uma massa em repouso tende a permanecer em repouso. Como tal, são necessárias mais forças para iniciar a mudança do que para a manter, o que convida ao adiamento do início das tarefas. Por sua vez, este adiamento ou evitamento, ao proporcionar uma sensação de conforto temporário, reforça a própria procrastinação, o que torna ainda mais difícil começar a agir no sentido inverso. Estamos, portanto, perante um ciclo de funcionamento que se alimenta a si próprio e que tende a perpetuar e a alastrar cada vez a mais áreas ou a assumir cada vez uma maior intensidade. Uma vez que se trata de um comportamento aprendido, pode ser desaprendido ainda que por vezes não seja muito fácil. O primeiro passo para a mudança consiste na conscientização dos nossos processos de procrastinação. Perguntinhas incômodas:Adia sistematicamente as tarefas sempre que é possível e, quando não é, diz que está pressionado pelos prazos apertados? Estabelece objetivos perfeccionistas e irrealistas? Receia não conseguir desempenhar tão bem quanto sonhava? Tem dificuldades em passar da fantasia à ação? Está consciente dos seus limites e ainda assim acha que “deve” e “tem” de conseguir aqueles objetivos?Persiste de forma sistemática em apenas uma parte ínfima da tarefa? Escreve e volta a escrever o parágrafo introdutório de um texto, descurando o corpo e a conclusão?Engana a si  próprio substituindo uma tarefa importante por outra aparentemente relevante?Procura constantemente agradar os outros? Sente que precisa da aprovação dos outros para ter confiança em si? Tem dificuldade em estabelecer limites e em tomar decisões próprias? É facilmente persuadido? Acaba por sentir-se sobrecarregado e excessivamente comprometido? Deixa de fazer as suas tarefas para ir ao encontro das expectativas ou necessidades dos outros?Imagina que leva os livros para ler nas férias e nunca os abre?Recusa convites para acontecimentos sociais com a desculpa que precisa trabalhar mas não fica em casa sem fazer nada?Quando pensa em adiar a realização dos trabalhos para ver 5 minutos de televisão ou para checar o correio eletrônico, será que não fica na televisão ou na Internet o resto do tempo sem fazer o mínimo trabalho?Vê a si próprio como irresponsável, indisciplinado e preguiçoso?Sobrestima as capacidades dos outros e subestima as suas acabando por sentir que não tem grande valor nesta ou naquela área (ou em todas) e que jamais conseguirá alterar o rumo dos acontecimentos?Engana a si próprio afirmando que um desempenho ou uns objetivos medíocres são aceitáveis para si? Subestimas o trabalho envolvido na tarefa ou sobrestimas as suas capacidades e recursos? Procrastina relativamente às tentativas para mudar os seus comportamentos de procrastinação e simplesmente gozas do estatuto social que essa atitude lhe confere? 
Pensamentos que passam pela cabeça do procrastinador: 

Vou esperar que tenha vontade para começar.
Mereço celebrar hoje. Começo amanhã.O meu problema de saúde não é muito grave. O tempo acabará por curar…Tenho muitas outras coisas para fazer antes desta Trabalho melhor sob pressãoParo por aqui: procrastinei a elaboração deste texto até o limite da postagem estabelecido por mim. Portanto, perdi (parcialmente) mais uma vez. A vitória parcial é que postei mesmo inacabado. A idéia agora é me dar mais um prazo para concluir tudo até a próxima segunda, dia 10 de dezembro.

Vá trabalhar, vagabundo!

22/11/2007

urso.jpg

Procrastinar é o verbo metido a besta para substituir enrolar no diagnóstico de TDAH (se você não sabe ainda direito o que é isso, vá ao dia-adia).
Pago caro na vida por ser um procrastinador ou um cara enrolado. Boto o verbo no presente, porque mesmo com a intenção de mudar, mesmo com esta pauta na terapia, mesmo indo fundo na tentativa de diminuir tal traço de personalidade, continuo na mesma. Escrever este post, por exemplo, não é a minha prioridade neste momento e portanto fruto da minha procrastinação.
Outro dia vi no programa da Ana Maria Braga, numas daquelas pílulas de auto-ajuda que ela ministra pela manhã, uma historinha que casou bem com meu momento – é da essência da auto-ajuda e do horóscopo combinar com o nosso momento. E como você não assiste Ana Maria Braga, vou contar aqui a historinha/charada, levemente alterada:
Tem três sapinhos numa folha. Um decide pular na água, outro diz que vai pular em cinco segundos  e o terceiro vai esperar a sessão de terapia pra decidir. Quantos sapinhos restaram na folha? Acertou você que respondeu… três.
Decidir, marcar para daqui a pouco ou esperar a ajuda alheia, do ponto de vista prático, é absolutamente a mesma coisa. Nada ainda aconteceu. Portanto, entre minhas decisões e minhas ações estão minhas procrastinações, num longo, tortuoso, sofrido e engordante processo. Sim, porque procrastinar envolve ansiedade crescente e  muita geladeira até o prazo final, que será estourado, é claro. 
Mas, como estou melhorando, vou parar por aqui e convidar você para o post que escreverei  no dia-adia, uma tradução didática pra mim mesmo deste texto do psicólogo portuga Nuno Conceição. Se eu não estivesse melhorando, estaria agora a resumir o tal texto, pois, pois.

Onde achei este urso do meu time? aqui.

Não me conte seus problemas

14/11/2007

A sala é agradável, numa casa dos antigos conjuntos residenciais da Pituba transformada em clínica, com os três últimos consultórios no lugar onde era o quintal. E eu me lembrei do hotel Maringá, onde nasci, com seus últimos quartos construídos no fundo.

Lembrança de infância foi casual? Não. Quando você decide por terapia a viagem já começou.

E eu embarquei novamente.

Ali, de frente para uma pessoa que nunca havia visto na vida, passei a desfilar minhas dificuldades em viver comigo, com os demais e com os compromissos.

E estava diante de alguém com menos idade do que eu. Mais um sinal de velhice? Seguramente. A segunda vez que tive este sinal foi na copa de 90, quando me toquei que a maioria dos jogadores da seleção era mais nova do que eu. Na copa de 70 eu tinha 9 anos. E a primeira foi quando olhei minha mãe de cima pra baixo. Havia crescido. 

Eis-me novamente em crise, em busca de ouvidos alheios, ouvidos outros a me servirem de espelho. A novidade é que desta vez, em vez da linha  humanista de sempre, parti para a terapia cognitiva, uma técnica recente que busca atuar nas crenças e comportamentos que nos fazem reagir sempre da mesma maneira frente aos desafios ou determinadas situações.

Resolvi também relatar o tratamento, ou aspectos dele, num outro blog.

Não me conte os seus problemas, diria você e a cantora axé. Mas eu vou contar à revelia e nem precisei de um novo blog. Ressuscitei o velho Dia-adia, criado para acompanhar meu DDA (distúrbio de déficit de Atenção). O link está aí na coluna de blogs à direita.

 Desconfio ainda de uma recaída na alteração de humor típica de um transtorno bipolar, ou seja a velha deprê que retornou mais de uma década depois.

Enfim, mas por que trazer isto a público? Não sei.

Roberto Carlos que é Roberto Carlos, e que não gosta de tocar no assunto, teve coragem de contar como perdeu a perna em  O Divã…. ( Relembro bem a festa, o apito / e na multidão um grito / o sangue no linho branco… ) porque eu haveria de deixar minhas mazelas apenas no peito e no juízo?

E se Roberto Carlos, que é Rei, esteve de volta também aos consultórios para tratar um TOC, por que também eu não posso ter a minha recaída, seja lá do que for?

Problema seu, de Roberto Caros e das baleias, diria você.

E é.

Três frentes e mais um na enfermaria

10/11/2007

Terapia, banhos de folhas e este blog. São as três frentes escolhidas para a batalha. Para o levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima.

Há pelo menos 15 anos  não me vejo diante de um representante da tal ajuda profissional. Desta vez precisei e solicitei.

Vou encarar o tal espelho, como bem definiu  terapia meu amigo Washington, para contestar a versão corrente de que amigos são suficientes. Amigos nos vêem com os olhos deles. Complicado. O melhor mesmo é encarar o espelho. Os banhos de folha servirão para ajudar a levantar o astral. E este blog aqui vai servir como uma espécie de agenda deste front. Resolvi também ir em busca de blogs semelhantes ao de Ari e acabo de encontrar o Blog do Chorik, recém-criado. Aos poucos vou montando uma enfermaria aqui do lado e acrescento agora Chorik, a quem passo a palavra: “Cada um tem o seu momento de iniciar um blog, que não precisa necessariamente de um objetivo, mas obrigatoriamente tem uma causa. O meu momento chegou aos 42 anos, e esse blog tem um objetivo específico, o de ser um saco de vômitos de assuntos indigestos, um penico de idéias inacabadas, um dreno para expurgo de emoções não-extravasadas, um enconsto para o descanso de um espírito irrequieto. Mas o que mais me interessa é a causa desse blog. A depressão e a hipertensão conviveram comigo desde que nasci. Três pontes – safena, mamária e radial – construídas em meu combalido coração há dois anos não foram suficientes para mudar esse quadro…”

De volta

09/11/2007

Resolvi voltar aqui para retomar este diário. Decidi ontem ao me deparar com o blog Diário de Uma Hepatite, de Ari Coelho, um sujeito que conheci superficialmente, infelizmente, no tempo que labutava na Coelba, vendia o peixe da Coelba.

Levei um tempo para entender o que estava acontecendo, apesar do tom explícito do blog. O cara ficou doente e conta  a sua luta, com humor, o que é mais importante.

Meu caso é um pouco mais complicado. Ninguém respeita minha doença. Se um não vai trabalhar por conta de uma crise hepática ou renal todo mundo entende, se preocupa, dá um tempo para o cara tratar do fígado ou do rim.

Mas se o nivel de serotonina altera o humor de um cidadão a ponto dele ser imobilizado numa espécie de algema invisível que destrói qualquer vontade consciente de levantar de uma cama, não vale.

Preguiçoso, parasita e vagabundo são os adjetivos mais brandos para um DDA em dias depressivos.
Fazer o quê?
Um blog.
Ah, pra isso você não tem preguiça, né descarado?

Crash

26/09/2007

copia-de-dalicuri.gif

Tem uma corrente mais recente da historiografia  (veja se entendi, Soraya), que desvitima o escravo. O escravo não era apenas um coitadinho açoitado, submetido, violentado. Era escravo, é claro. Mas dava o zignal, muitas vezes virava o jogo.

Sou um destes escravos. Mas ao contrário dos quilombolas, que fugiam e buscavam a liberdade total, sou daqueles que buscavam  a liberdade dentro da casa grande, no acordo com os seus senhores. Um aparente puxa-saco.

Digo isso para mudar o discurso e parar de me fazer de vítima DDA nestes momentos de crise. E estou em crise. E é forte.

Tenho três compromissos de trabalho formalizados, dois  semiformais e um voluntário. Somados todos, são seis compromissos, seis patrões, seis senhores ou seis grupos de senhores. Estou inadimplente, gravemente inadimplente, com absolutamente todos. Digamos que há neste momento pelo menos  umas 20 pessoas putas da vida comigo. Todas cobertas de razão.

E sofro, e tento, e sofro. E perco noite, e como muito, e não faço a barba, e perco o dentista, e adio tudo. E prometo, e faço de conta que nada está acontecendo. E perco prazos, e furo compromissos. E pago caro. E como bom cafajeste prometo que não vai mais acontecer.

E na insônia blogo, e participo de listas de discussões na internet, e mando e-mails. E faço listas de prioridades, e faço agendas, e perco agendas. E perco as listas. E produzo muito também. Talvez na hora errada, pro senhor  trocado. Produzo o que não preciso naquela hora, o que não precisam e nem pedem a mim. E não posso me queixar de nenhum deles, de nenhum dos meus senhores ou minhas senhoras.

Cheguei a pedir demissão de forma indireta de um deles,  mas minha demissão foi desconsiderada, pelo menos até agora. E ainda sou um cara de sorte. Não sei no que isso vai dar.

Queimação de filme, se é que existe ainda filme a ser queimado, é o mínimo que pode acontecer. Só sei que desta vez, ao contrário das outras, não me sinto um coitado.  

Estou um cara de pau mais forte, mais assumido, mais descarado. Portanto mais forte para dialogar, para receber porrada. E para reagir também. Hoje, nesta madrugada, tenho consciência que não sou apenas vítima. Poderia buscar ajuda médica, isto já me foi franqueado, mas ainda não quero. Tal qual alcoolista arrependido, tal qual estelionatário cheio de agá, vou continuar a tentar fazer novos  acordos de prazos. A começar por acordo conjugais,  familiares e de amizades. Nestas áreas também ando inadimplente.

Como na tirinha do Angeli, exponho aqui as vísceras nesta madrugada.  E tenho uma lunática impressão que tudo vai dar pé, como profetiza aquele velho reggae.  

Fui na semana passada a uma palestra de Mazinho, realizada após a exibição do filme “O Processo”, quando ele expôs para uma platéia formada quase totalmente por um público psi seu método baseado no livro de Kafka, onde o paciente assume o papel do processado, do juiz, do promotor, do advogado de defesa. E funciona.

Não sei se influenciado pela palestra, exacerbo o papel de advogado de defesa, mando a absurda culpa pra casa do caralho. Disposto a pagar o preço me declaro absolvido. E, ao contrário de K., não me entrego. Não me permito a faca no peito.

E absolvo também os meus senhores.

Crio meu próprio método: a licuriterapia. A cura em apenas um post.

E minha trilha sonora é Raulzito: Tente Outra Vez…

 

Imagem: detalhe distorcido de uma tela de Dali.

Roda Viva

17/05/2007

Um emprego público levado a sério com dedicação de um turno mas que tem sido muito mais. Um frila fixo semanal sempre entregue no limite do limite, outro frila fixo mensal que me encanta mas que anda abandonado, mais outro frila eventual que está só contratado e perto do limite de tempo de entrega e … outra proposta de trabalho acertada ontem. Mais quatro livros para ler de num outro projeto que seria o projeto da minha vida. Um peso beirando a obesidade, um sair para andar sempre adiado, uma insônia crônica, uma mulher e três filhos e uma casa semi-abandonados e as contas que insistem em não fechar para alegria do Bradesco e do Unibanco.
E uma alegria e um otimismo inesgotável para acreditar que tudo vai dar certo, que tudo esta caminhando bem. Será????

Figura: lang.ltsn.ac.uk

Mazinho cede e manda um pequeno comentário

29/04/2007

Mazinho cedeu à chantagem. Dia-adia então nasce com todo o gás.
Como ele não conseguiu inserir o pequeno comentário, solcitou então que eu o fizesse. Também não consegui. Então vai como post.

Marcus,

Respondo imediatamente, não como psiquiatra, mas como portador de TDAH (transtorno de déficit de atenção/hiperatividade), ou simplesmente TDA ou ainda DDA (primeiro D de distúrbio).
Como você, tenho centenas de pendências. Houve um tempo em que sofria com isto, até que aprendi a fazer piada e sorrir de minhas trapalhadas.
No tempo em que sofria com isto já era psiquiatra, mas nada sabia do transtorno. Esquecia os compromissos ou marcava dois ao mesmo tempo, como no dia em que teria de fazer uma conferência em Gramado e outra em Foz do Iguaçu, exatamente no mesmo horário. Alguém ficou sobrando…
Somos excelentes em dar desculpas, não? Ou serão deslavadas mentiras? É que, se dissermos que esquecemos algo (um aniversário, retornar a ligação mais tarde, a promessa de aparecer no final de semana, etc.), as pessoas se sentirão ofendidas e tomarão isto como desconsideração ou descaso. Por outro lado, elas não são psiquiatras ou psicólogos que tenham tido a oportunidade de informar-se sobre TDA. Aliás, é muito fácil ser compreensivo em um consultório, durante 50 minutos, mas vá conviver com um portador… Você há de convir que não são muitas as Sorayas ou as Mônicas (como a minha).
Assim, quando aprendi com um colega de Porto Alegre, há mais de 10 anos, que eu não era irresponsável, burro, egoísta, desatencioso (embora desatento), destituído de força de vontade, etc, e sim portador de TDA, esta informação veio como um bálsamo. Quem sabe, eu tinha jeito… Quem sabe eu poderia vir a acreditar que meu sucesso profissional não era uma farsa, mas de fato eu o merecia… Poderia tomar um remédio e ficar bom!
Minha decepção veio quando não melhorei grande coisa com a Ritalina ou, mais tarde, com o Concerta (estimulantes utilizados no tratamento desta condição e que fazem um efeito paradoxal, diminuindo o ritmo dos hiperativos e centrando os desatentos). Ao contrário do que ocorria com grande parte de meus pacientes, muitos dos quais relatando que o tratamento mudou suas vidas, vi minhas chances escapando pelos dedos.
Dei-me conta de que tinha de me virar com outras estratégias, como me cercar de pessoas organizadas, aceitar que me lembrassem de algo trocentas vezes sem me zangar (porque quando algo desaparece de sua cabeça, você nunca sabe quando voltará) e delegar mais, reconhecer e aceitar meus limites.
Eu também poderia fazer um diário. Há pelo menos dois ou três fatos dignos de nota no meu dia a dia (ou dia-adia, como você sugere), como quando Mônica me pede para dar uma parada no Aliança, trajeto para meu consultório, e apanhar uma correspondência. Não importa quantas vezes ela peça isto ou não importa que eu saia de casa repetindo para mim mesmo que devo parar em determinado lugar. Algum pensamento um minuto antes de passar pelo local me distrai e, em seguida, vejo-me obrigado a dar a longa volta, com grande chance de chegar atrasado.
Assim, decidi aprender a me organizar e passei a fazer uso de todos os artifícios e estratégias que possa, como ter um inseparável palmtop (milagrosamente nunca o perdi, mas se isto acontecer tenho todos os meus compromissos no computador), usar os melhores recursos do Outlook para não me perder nas dezenas ou centenas de emails que recebo diariamente, e, sobretudo, aprendi que a pior coisa a fazer é utilizar o TDA como desculpa. Com o tempo ela não pega mais e as pessoas percebem.
Aprendi a conviver com meu TDA. Como é um transtorno neurobiológico, sei que nasci e morrerei com ele. Logo, somos inseparáveis companheiros. Decidi me divertir às custas dele. Posso contar a última (Mônica me fez jurar que jamais contaria isto para estranhos): vinha eu no último final de semana de uma tourada de três congressos seguidos, duas semanas de ausência, doido para chegar em casa. O vôo saiu de São Paulo e deveria descer em Ilhéus e chegar a Salvador (pelo menos foi assim alguns meses antes e em outras muitas vezes que fiz este trajeto). Pude dormir e, quando acordei com várias pessoas deixando o avião, aproveitei para ligar para Mônica informando que eu estava em Ilhéus e que ela não precisava me buscar, por ser muito tarde. Alguns minutos depois, sorri comigo mesmo quando o atrapalhado comandante informou que estávamos nos preparando para descer em Ilhéus. Mas como, se o avião desceu em Ilhéus há pouco? Não me ocorreu (e eu não tinha como saber senão perguntando) que há meses a TAM desce primeiro em Salvador para, em seguida, ir para Ilhéus.
À meia noite, ligo novamente para Mônica.
— Moniquinha, estou falando de Ilhéus.
— Como, você não me ligou de Ilhéus há menos de uma hora? O avião ainda não decolou?
— Bem… na verdade, liguei de Salvador… eu é que coloquei em minha cabeça que estava em Ilhéus!
— Irismar, isto parece piada… contando, ninguém acredita em uma coisa dessas!
— Acho que você está enganada, Moniquinha. Não parece piada… Isto É uma piada — eu disse enfatizando o É.
— O que você pretende fazer?
— Já me informei, este mesmo avião segue de volta para Salvador amanhã às 6:45.
Não tive outra escolha senão aceitar a oferta da companhia aérea de me fazer pernoitar em uma pousada próxima… e de tirar pelo menos algum proveito, acordando cedo para apreciar o nascer do sol na praia próxima ao aeroporto, onde fica a pousada.